quinta-feira, 16 de abril de 2009

Sou um livro

Minha vida é um livro aberto;
Que ninguém quer ler.

Minha vida é um livro aberto.
Na página errada, no capítulo inacabado.
Com o mocinho malvado.
E o bandido apaixonado.

Minha vida é um livro sem errata.
Uma sucessão de volumes.
Um a corrigir o outro.
Em múltiplas páginas erradas.

Minha vida é um livro.
Que não foi escrito.
E não pode ser lido.
Minha vida é um livro.
Um livro que só pode ser sentido.

Aforismos - Das ocupações

O Barão de Itararé foi um frasista e um humorista sensacional. Lembro de ler que, quando ele trabalhava no jornal A Manhã, este fora empastelado por Getúlio Vargas. Os esbirros da ditadura entraram, quebraram tudo, bateram em todos e sumiram. Noutro dia o Barão de Itararé pôs esta placa na porta: "entre sem bater". Mas o que conta é o aforismo que segue, sobre o trabalho:

"Quem inventou o trabalho não tinha nada pra fazer".

Gira mondo, gira

O comercial abaixo é de 1991, da Pirelli, em homenagem a Nelson Piquet (na foto ao lado) e Roberto Pupo Moreno, pilotos brasileiros da italiana Benetton (aquela mesmo dos moletons, que um dia resolveu ter uma equipe de F1 e foi razoavelmente bem sucedida nisso - os dois primeiros campeonatos de Schumacher foram a bordo de uma), que tinha motores anglo-americanos da Ford Cosworth, combustíveis da britânica Mobil e, claro, pneus italianos da Pirelli.




Um belo comercial. E eu adorei a música, a letra é linda.

"Il mooooondo..."

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Estamos pensando

Penso, logo dexisto.

Existo, não nego.
Vivo quando puder.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Importante

É importante dizer que o nome dessa seção do blogue, "Poemas para combater a calvície", é uma inspiração deliberada do livro de mesmo título do poeta chileno Nicanor Parra.

Não há, nos meus horizontes, nome melhor para um compêndio de poesias escritas por mim, assolado por terrores menores e maiores que a calvície.

Espero, contudo, que Parra me perdoe a liberalidade de usurpar seu título para etiquetar aqui poemas tão ruins, tão fracos, o que, nem de longe, se verifica na brochura de Parra, que é um poeta excepcional.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

E por falar em Talese

(Vou ter que dar um jeito de ir!) "Gay Talese fazendo reportagens é Picasso com suas tintas, Ferrari de tanque cheio - só que melhor". E a organização da FLIP, Feira Literária Internacional de Paraty, confirmou a presença de Talese para o lançamento - muitas vezes adiado - do seu último livro no Brasil, "Vida de Escritor".

A feira acontece de 1 a 5 de julho. Eu vou. Vou lá pra conseguir uma versão autografada desse senhor simpático. O problema é a data: no mesmo dia 1º Mark Lanegan se apresenta em São Paulo, e não posso perder o show. Espero que Talese não esteja programado para o início da feira, porque escolher entre Lanegan e ele seria cruel.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

O jornalismo, por Gay Talese

"A redação do Times (...) trata-se de uma sala enorme e funcional que ocupa o terceiro andar do prédio e vai da rua 43 à rua 44, com fileiras e mais fileiras de mesas cinzentas metálicas, teletipos, telefones e algumas centenas de homens sentados com lápis na mão, ou teclados sob os dedos, escrevendo, editando ou lendo a respeito dos últimos horrores do mundo. A cada cinco minutos, parece que chega a essa sala o último relatório sobre mais um desastre - um tumulto em Rangoon, uma confusão na Tanzânia, um golpe de estado, ou um terremoto.

Mas nada disso parece impressionar as pessoas que estão na sala. É como se tantas notícias ruins tivessem atingido a atmosfera desse lugar por tanto tempo que todos ficaram imunes a elas. A notícia é apenas um vírus inofensivo que entra flutuando no prédio, circula pelo sistema, entra e sai pelas máquinas de escrever, penetra nas máquinas giratórias de metal derretido, é impressa em papel, empacotada em caminhões, entregue nas bancas e vendidas para leitores preocupados, causando reações e contra-reações no mundo inteiro. Mas os habitantes da redação do Times não são afetados, não se envolvem, pensam em outras coisas. Amor. (...)".

Nesses momentos, ao ter contato com demonstrações tão singelas de inteligência e observação, tenho certeza de que estamos todos enganados no mundo a respeito de muitas coisas, e o jornalismo é uma delas.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Gênio!

Gay Talese (calor das monções?) um gênio. Não há muito mais a dizer sobre ele do que isso. A leitura de "O Reino e o Poder", sobre as histórias, a vida e os intestinos do The New York Times é mais do que um livro reportagem, do que uma bela história de uma obra de não-ficção. Transcende.

É uma discussão de ética, de mérito da profissão, de história da imprensa e muito mais. Remete aos valores básicos do jornalismo, fala da história humana no século XX. Nos leva a observar o jornalismo na perspectiva inversa, de promotor de casos, e não apenas de divulgador deles. É sensacional, em resumo.

Ao ler você chega a se apaixonar novamente pela profissão. Talese é um gênio, conforme eu disse. E o "Reino e Poder" é só mais uma demonstração do brilho que esse ítalo-americano tem ao escrever, com a simplicidade, o compromisso com a verdade e o senso de oportunidade e presença únicos. Tudo escrito com uma estética apurada, com um brilho indescritível. Dá pra dizer que é uma poesia.

Leitura que deveria ser obrigatória na escola de jornalismo. Mas sabe como é. Seguindo preceitos de Murphy, qualquer coisa que possa realmente fazer diferença no aprendizado de alguém é solenemente ignorado pelos distintos professores. Afinal, por que ensinar com sabor?

Quisera eu ter lido esse livro antes. O prefácio e o posfácio da obra, por exemplo, me municiariam de toneladas de argumentos no meu TCC - (tá, não dei a mínima para a parte teórica, mas ela teria mais substância com algumas ponderações do mestre). Enfim, no fim deu tudo certo.

Outra hora falo mais sobre isso. Faz calor e eu preciso de um banho.

sábado, 4 de abril de 2009

Filosofando, andando e desistindo

Assistia eu ontem na madrugada insone as distintas elucubrações, preleções e descarregos promovidos pelos inúmeros programas evangélicos na TV. Já fui extremamente reacionário ao falar do assunto, mas hoje, à luz dos absurdos das crenças - quaisquer que sejam - sou mais pacífico. Em resumo, se tem gente disposta a dar dinheiro e sustentar as prostitutas de Cristo, que as sustentem, afinal. Assim como tem gente disposta a enfrentar cruzadas em nome de um bispo que excomunga quem tenta salvar vidas por vaidade pessoal, que seja.

Mas não se trata do mérito dessa ou daquela outra fé aqui - ainda. Assim como não é o caso de apontar as ridicularias dos prestimosos programas de TV, embalados nas ondas que vagam pela ionosfera e repercutem na ignorância calada das multidões. É, entretanto, o caso de dar carradas de razão aos filósofos que, há muito, já se ocupam em falar, não muito bem, das crenças. Não das religiões, mas das crenças.

Schopenhauer já disse que a religião precisa da treva: "as religiões são como vagalumes, precisam das trevas para brilhar". O que nos leva a uma conclusão muito interessante no que tange os programas evangélicos: o discurso - e eu odeio análise de discurso - dos dignos pastores reside sempre nas desgraças inomináveis, no pavor imortal, na ameaça permanente das mais infelizes consequências àqueles que se abraçarem ao demônio.

Ora... eu acho que deveriam pagar royalties para o demônio. Sim. Não só os evangélicos, todas as religiões maniqueistas, mas especialmente eles. Não fosse a existência do inominável, já distinguido duas vezes neste texto, que seriam das religiões? A noção de recompensa que nos oferecem as religiões está muito mais embasada no medo da perseguição e do castigo, que no mérito da bondade.

Evidentemente que essas conclusões são conceitos. A verdade tende a ser sempre mais difícil, profunda, imperscrutável - se a gente tropeçasse nela a cada deboche, a vida não teria a menor graça, e olhe que ela já tem consigo bem pouca. Mas me parece que essa necessidade humana de estabelecer o bem e o mal a partir de contraste e exemplos algo falha. A gente deveria fazer o bem por que é o certo, não porque haverá as maiores infelicidades no futuro se for escolhido o mal. E o fato é que mesmo esse contraste não tem ajudado muito a impedir as misérias humanas.

A verdade é que um mundo, uma civilização, atormentada por um duplo padrão moral, do bem e do mal, e a falsa certeza que temos de que não pode existir um sem o outro, talvez, esteja no âmago de cada uma das nossas misérias e fracassos enquanto povo, enquanto uma comunidade global.

Em resumo estou com sono. E não lembro mais o que verdadeiramente me motivou a escrever este texto. Provavelmente tem a ver com o sincretismo que permeia, no momento, um frila encomendado aí. Pode ser também minha necessidade de ecoar conclusões nada originais, ainda que verdadeiras, sobre crenças e religiões, coisas meio estranhas, que em si não fazem sentido, e que eu vivo tentando entender a título de esporte.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Espelho

Tenho notado (e a Argentina, hein?) que minha barba cresce mais em período de lua cheia. Indisputavelmente sou um lobisomem, portanto.

Godspeed!

Eu estava (ei, você aí, tem um emprego aí?) aqui ouvindo o ruído que faz a água ao precipitar-se sobre a água. Um som tão solene, tão melancólico e digno de registro que os ingleses convencionaram chamá-lo de splass. Aos poetas árabes trata-se do gasgachau. Quase dá pra dizer que são duas onomatopeias - e etimologicamente devem até ser, mas eu não tenho luzes que cheguem em matéria de línguas do oriente e anglófonas para dizer se a origem dos verbetes residem, de fato, no som que a água faz ao cair na água.

Pobres de nós, engessados no belo e sempre reformável (e assim deformado) idioma português, não temos outra escolha, a não ser dizer que o barulho que a água faz ao cair na água, por uma perífrase, é o barulho que a água faz ao cair na água.

Tudo isso pra dizer que eu queria ser inglês, ou britânico - mas não árabe. Sou simpático a inúmeros detalhes culturais das arabias, mas acho dispensáveis turbantes e fuzis (especialmente os turbantes), de modo que eu seria infeliz naquelas glebas, sobretudo se considerar o calor desgraçado que por lá faz e eu não sou grande coisas em altas temperaturas, mas funciono bem nas CNTP - deveria ser suiço, portanto.

Enfim, queria eu ser inglês não só para viver em Londres. Também não apenas para economizar em cursos de inglês, e também não somente pelo sotaque britânico. Mas principalmente para poder desejar "godspeed" para as pessoas. Considero godspeed um verbete muito charmoso.

Que não tem nada a ver, no fim das contas, com gasgachau, goteiras e splass. Mas eu achei que era uma introdução pedante o suficiente para dizer que acho uma tremenda injustiça não termos uma versão abrasileirada de "godspeed".

Poderia ser gódspide, não tem importância.

Radiohead: tá, eu paro

Mas não (o Placebo podia voltar...) dava pra deixar de postar essa. Pra mim um dos pontos altos do show. Vale só pelo comecinho:


Radiohead, foi assim

Esse vídeo (mas a vida se divide em antes e depois de Mark Lanegan) é da transmissão oficial do show pelo canal Multishow. Tem boas tomadas e, claro, o melhor som. Pra você que leu o post referente a apresentação do Radiohead e quer ter uma noção mais precisa do espetáculo que foi o show, vale à pena:



E eu estava lá...

"My fake plaaaaastic love..."

segunda-feira, 30 de março de 2009

Menos, menos

O post (London Calling?) anterior é embalado numa bem justificada indignação, embora ao leitor mais desavisado possa parecer que ele traz uma injustificada radicalidade. Não é bem assim. Para explicar os termos: a digna senhora dona da Daslu - não pretendo escrever o nome dela, é minha forma de não dar audiência - cometeu crime, então prende-se. Mas foi solta por ordem, ora, da Justiça.

Não me embato com o que manda a justiça. Me aborreço supinamente com o que manda a gente togada desta mesma justiça. Concluindo-se, meu calo aperta é com a impunidade.

E por essas e outras que eu já nem repito que o Brasil não acaba. Digo que ele, agora percebo, tem solução: o aeroporto.

sábado, 28 de março de 2009

Era uma vez...

Era uma vez um reino muito esquisito. Onde a justiça era, realmente, como a estatua de Minerva, cega. Mas a sua balança ia além, era desregulada e pesava tudo com as medidas ditadas pelas conveniências políticas e de compadrios. E sua espada, forjada na dureza do coração do homem, feita para ferir e assim vingar o justo, era sem fio. Ou tinha o fio tão desregulado como a balança.

Consta que no fim dos tempos desse reino, quando se pensava que não podia acontecer nada de pior, eis que, aconteceu. A justiça do reino mandou para trás das grades, certa feita, um ladrão de carne. Roubara, é o que consta, para alimentar uma criança que dependia do seus esforços para não soçobrar. É um motivo justo, não há dúvida. Mas não deixa de ser crime, cadeia nele.

E nesses tempos que corriam havia no reino uma muito requisitada e festejada loja, onde se encontravam artigos de vestuários a preços exorbitantes. Não porque fossem necessariamente melhor que qualquer outra vestimenta, mas porque ostentam a assinatura de algum estilista famoso. Se bobear tem tecidos ruins, desfiam, grudam bolinha e encolhem - além de serem desconfortáveis. Mas são caras. E dinheiro confere a tudo que toca - é o do de Mannon - o mérito e o brilho.

A dona da loja fraudou a justiça tributária do país, desviando contribuições e impostos que, se espera, sejam pagos por toda a população para tentar manter o reino nos eixos. Mas ela não pensa assim. Acredita que sua loja e seu nome a ostentam. Ela é importante. Intocável.

Mas eis que no momento menos esperado alguns esbirros, alguns aguazis do reino enfiaram a distinta senhora ladra - porque quem frauda com vistas a desviar dinheiro dos cofres públicos rouba - dizíamos, a ladra foi presa. Comoção. A imprensa do reino é uma das mais atrasadas de qualquer um dos que se contam no mundo, e como pode se imaginar, o clamor de "injustiça" foi geral contra essa outra Maria Antonieta.

Foi solta. Por mais que seja reincidente no crime, foi solta. E diz-se "traumatizada" com a experiência de ter sido presa. Precisará de tratamento, a pobre. Pena. Eu sinto uma pena muito grande. Sou capaz de chorar antes de dormir pelo terror que deve ter sentido a digna larápia.

Ah sim, e o ladrão? Ora, ele roubou carne para alimentar uma criança. Mereceria, por certo, prisão perpétua, afinal, onde é que já se viu. E de fato não teve chance de prisão perpétua. Morreu antes, de AIDS, largado em algum cárcere abarrotado e imundo. Mas teve o que merecia, roubou, dirão alguns.

É por essas e outras que o Brasil não acaba. Vivemos num país de faz-de-conta. Eu ainda não sei como, mas sou capaz de me indignar. Me sinto como uma outra Velhinha de Taubaté, aquela que acreditava. Acreditar, ah, isso não é mais comigo. Mas me indignar, sim.

Eu poderia vir aqui e escrever sobre a sensação de ver as notícias tratando essa criminosa (tenho ganas de chamá-la de palavrões, mas eu manterei a decência) a pão-de-ló, citando a "violência de tirá-la de casa pela manhã e simplesmente colocá-la numa cela", como se não fosse o que acontece todos os dias. Como se ela estivesse acima da lei.

Poderia vir aqui e citar meus engulhos ao saber, já de ante-mão, o final da história: liberdade a ela e aos outros canalhas presos. Poderia lembrar que no Brasil a gente persegue o delegado e juiz do caso Daniel Dantas, simplesmente porque foram exemplares no seu trabalho, enquanto fecha os olhos para a sujeira, para a lama que querem esconder debaixo do tapete.

Poderia vir aqui, enfim, falar tudo isso, porque são coisas que a esmagadora maioria da população desconhece, porque ou lê a criminosa Veja, ou se influencia por ela. Poderia. Mas pra quê?

E é aqui que eu olho pra gata e continuo a dizer: "sou uma pessoa profundamente infeliz".

sexta-feira, 27 de março de 2009

A mãe de todas as ressacas

Kenny Rogers nunca me pareceu tão sábio. "I just dropped in to see what condition my condition was in", diz ele numa obscura canção dos anos 60 que eu ouço demais - tenho o mal vezo de gastar uma música até não suportá-la, para aí então tornar a gastá-la. (Apertando a tecla SAP: "eu caí em mim para ver a condição em que minha condição estava"). Pois é.

Beber é mal, mas é muito bom. Encher a cara, locupletar-se como se fosse conviva de Dionísio (Baco), deus bonachão romano dos porres e adjacências, em alguma muito bem humorada bacanália (que vem de, não diga, Baco) pelos lados de Roma, uma Roma que chamamos de Pauliceia desvairada. Fossem os deuses mitológicos romanos - e gregos - algo sérios, muito provavelmente, Dionísio revoltar-se-ia com toda a razão pelo sacrilégio de uma das suas sagradas orgias virem a ser realizadas numa cidade com o nome de São Paulo. Pois sim, nome de santo, onde é que já se viu. Mas Baco não ligaria, a festa já acabou.

Mas hoje é outro dia. A sensação sentida daqui desse colchão, de tudo a girar, como num caleidoscópio perturbador, afiança que já passou. Aliás, passou a festa. Não o dia seguinte. Aliás, deve ser o dia seguinte. Aliás, eu já tive experiências de dormir demais no dia seguinte a ponto de acordar e ele ser o dia seguinte do dia seguinte, o que é horrível. Tudo quieto, deve ser de manhã, do dia seguinte, claro. Aliás, que dia foi ontem?

O terrível de um porre não é vomitar. Nem a dor de cabeça. Muito menos o gosto de cabo de guarda-chuva (guardachuva?) na boca. Uma desgraça, pior que doença, é se sentir sozinho. Eu sempre acreditei que, depois das mulheres, só podia ser o tédio a moléstia do século. Bobagem. Deve ser a solidão da ressaca.

E depois da solidão - não há capacidade narrativa capaz de traduzir uma ressaca - é, aí sim, o tédio. Não há uma maneira de se compartilhar a angústia de uma ressaca com uma mulher, o que é uma felicidade. Se houvesse, estou certo, ninguém chegaria a um segundo porre. O tédio advém do fato de que não há absolutamente porra nenhuma que dê para fazer mareado.

Ficar estirado na cama é ruim. O mundo gira, e é desagradável demais se sentir num carrossel, quando se sabe que não está em um. Levantar é pior porque girar parado é contornável se você se concentrar e fechar os olhos. Mas sentir o mundo dançando em pé é desconcertante.

Ler? Como? Não, traria portentosas e bastante aborrecidas dores de cabeça mais tarde. Que, aliás, já está doendo. Ver TV, pois olha, meu caro, se eu sequer desconfiasse onde diabos foi parar o controle da TV poderia vir a ser uma ideia. Mas aí eu teria que ir até o controle, e tenho medo de me mexer. Sinto no ventre
uma forma líquida e flutuante, independente da minha vontade, o mesmo que a personagem da Sigourney Weaver deve ter sentido no Alien. É, aquele filme ridículo, cheio de gosmas barulhentas e ridículas, dirigido pelo não menos ridículo diretor que vem a ser, veja você, diretor do (te esconjuro) "Fabuloso Destino de Amélie Poulain", largamente difundido por ser absolutamente ridículo.

Poderia ouvir música. Mas minha cabeça dói. Pensar na vida? Eis aí, meus caros, algo que dá para ser feito numa ressaca. Para quem nunca teve ressaca (aham, nunca? Sei...) é como estar acamado numa gripe. Você fica tendendo a comiseração e a um estado bastante contemplativo. É um tipo de lucidez que só um, ironia, porre pode nos trazer. A gente se vê em perspectiva, o que não é assim tão difícil de se fazer quando se está girando, uma hora ou outra você cai do carrossel. Os bêbados em ressaca sabem coisas que os sóbrios, em sua inútil filosofia, jamais sequer desconfiariam. Provavelmente é por isso que Guy Debord, uma notável autoridade no assunto, disse uma vez: "há homens que se embriagam uma vez e assim permanecem para a vida toda".

O mal da ressaca passar é que essa sabedoria vai embora. Desfaz. Porque se "tudo que é sólido desmancha no ar" (veja Marx), é muito mais justo esperar volubilidade instântanea de coisas que se julgam de ante-mão efêmeras. Mas o fato é que eu poderia ouvir música. Porque se não sou capaz de dizer onde estão o iPod e o celular, há ali um rádio perto de mim. É só girar o botãozinho e, voi-lá, som. Ruído. Algo para me dizer que há vida depois do porre.

Mas há riscos. Eles poderiam tocar funk. Sertanejo, pop, meu Deus, quase que com certeza eles tocaram algo que eu não goste - e eu já tenho problemas demais. Não. Música é arriscado.

Comida também é um caminho muito seguro para uma catástrofe. Há o refluxo. Não vale à pena arriscar e, arrisco dizer, se fosse buscar algo para forrar o pandulho é bem provável que não encontrasse nada que me apetecesse e, se somar o porre, a ressaca e a consciência a uma decepção dessas, é difícil de dizer, mas acho que não sobreviveria. Uma luz, neste momento em que você considera a ingestão de qualquer coisa uma possibilidade intensa e importante como seria discutir com Trumam se, afinal, valeria à pena jogar uma bomba em Hiroshima e ver que bicho dá, surge na sua cabeça: e onde diabos estarão aquelas cartelinhas de engov?

Engov. Na hora me pareceu um nome russo. E tem semelhanças: Andropov, Kasparov, Mutalikov, Karamazov, Engov. Talvez o comprimido passe a fazer as propagandas da Net e saudar-nos, sempre sorrindo, skavurska!. Aí você começa a cantarolar deitado em berço esplêndido Conditions do Kenny Rogers como um idiota, tropeçando em todos os versos possíveis e impossíveis. "Beber é um troço idiota, cara". "Eu sei. É por isso que eu bebo".

Nisso vem a gata branca que parece-me constituída de pelos (sem acento), ela só faz perdê-los, o que me deixa feliz, porque segundo todas as probabilidades, ficará careca muito antes de mim, vem ela, afinal, roçar-me as pernas estendidas. Diabos, o fato de você levantar o pescoço e a cabeça e "tá tudo bem" mostra que está passando. Aliás, tudo passa. Amanhã você é o mesmo sujeito de antes, o que é triste. Esquecerá cada uma das elucubrações e profundas verdades que a ressaca te permitiu perscrutar na alma de seus semelhantes. É o destino inexorável. Agora pare de cantarolar e diga para a gata: "sou uma pessoa profundamente infeliz".

quarta-feira, 25 de março de 2009

Radiocabeça, Cabeçaderádio, Radiohead

Eu fui no show da cultuada banda inglesa no fim de semana, em São Paulo. Radiohead é uma das minhas bandas preferidas há um bom tempo. O som introspectivo, a qualidade dos arranjos, a impressionante capacidade de se reinventar a cada álbum (eles fazem coisas completamente diferentes de disco pra disco), são algumas das boas razões para curtir o som da banda. Talvez em matéria de bandas só outras três disputem minha atenção na mesma intensidade: Sigur Rós, George Thorogood and The Destroyers e Placebo (e aqui só falo de bandas. Estou excluindo artistas solo). Radiohead é muito legal. Eles, por exemplo, acham legal você comprar o cd, ou as faixas pelo iTunes. Mas se você baixar as músicas de graça eles acham legal também. Foi assim que o último disco, o In Rainbows, foi lançado: pela internet. Você baixa ele todo gratuitamente e, se quiser, dá alguma quantia para a banda - quanto quiser.

Foi um bom evento, o show foi inesquecível: todo o último álbum foi tocado, além de alguns hits. No palco a presença de Tom Yorke, o vocalista, foi impecável. A brincadeira com as micro-câmeras projetando nos telões imagens distorcidas, que pareciam clipes, foi genial. O jogo de luzes com neon, mudando e vibrando conforme a música deu um toque ainda mais incrível ao ambiente, fazendo parecer que tudo, tudo mesmo, girava em torno da música.

Além disso estava na companhia de amigos queridos numa apresentação espetacular. Foram mais de 30 mil pessoas, chuva fina aqui e ali. Uma sensação de catarse há muito esperada, sobretudo ao ouvir "Last Flowers", "Fake Plastic Trees" e "Creep". De quebra o festival Just a Fest ainda tinha Los Hermanos - não gosto - e Kraftwerk, que é uma bobagem alemã sobre música eletrônica. Mas parece que são extremamente adorados por quem curte o "gênero". Eu achei uma merda.

Mas tinha ido lá pelo Radiohead. E saí ganhando.

Vídeos do Show:







* Ia postar uma foto com minha cara, ali, pertinho do palco. Mas não. Aí você veria minha face, caro leitor(a). E o que seria da gente se não mantivéssemos, por pouco que seja, uma pequena aura de mistério em tudo que por aqui fazemos, não é mesmo?

** E a bem da verdade é que não perde nada. Sou feio.

*** Postaria também minhas "footages". Fiz filmagens de algumas performances, sobretudo de "Karma Police" e "Idioteque". Mas ficou uma bosta, não dava pra filmar bem pulando.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Quanto?

Quanto pesa uma lágrima?

terça-feira, 10 de março de 2009

Mas claro que não podia ser perfeito

Ah sim, não tenho MTV. Então não poderei assistir ao programa.

Comigo tem sido assim há um tempo. O pouco que eu ganho, eu perco.

Um pouco de felicidade em meio ao caos

Não vivo uma boa fase. Ontem foi um dia em que simplesmente tudo deu errado, problemas pessoais, no trabalho e na família. É o caos. Catástrofe atrás de catástrofe. Enfim.

Hoje fico sabendo que logo mais, no MTV Debate, dois dos meus melhores amigos, dos meus irmãos sem relação consanguínea estarão lá. É uma honra. Sinto-me feliz por eles. E lembro com alguma alegria o dia em que disseram que nós éramos apenas três incompetentes e indolentes debochados. São eles que vão ao programa, por certo, mas sou eu quem fico com o orgulho.