Há poesia
na apoesia?
A poesia
é a poesia.
Onde há poesia
não há apoesia.
Ou a apoesia
é onde há poesia?
Quanta idiotice.
quinta-feira, 30 de abril de 2009
A poesia
quarta-feira, 29 de abril de 2009
Sempre tem uma vez mais
Saudade...
a gente só tem saudade do que se ama.
A gente sente falta, se preocupa.
Dói. Perde todo dia um pouco mais.
Se abraça na culpa.
Não sabe o que faz.
Pensa, repensa, desiste.
Resiste.
Chora o amor que não pode.
O amor que foi pobre,
Ama.
E existe.
O amor não acaba.
O amor é.
O amor está.
Se acaba, não é.
Nem nunca esteve.
Quem ama, ama amar.
tira versos do aperto da garganta.
Sorrisos das lembranças.
Paz das lágrimas.
E amor do coração.
Você sentiu minha falta.
Pensou em mim.
Desejou meu rosto ao seu lado.
Meu carinho gelado.
Meu coração sem fim.
Não acaba.
Você me ama em segredo.
Me odeia. Me ama.
Paixão com ódio.
E eu amo sem medo.
Você sente falta do meu sorriso
Do meu interesse.
Dos meus dias bons.
Do cinema comigo.
Do meu cheiro.
Não acaba.
Você me ama.
Você sabe que estou em você.
E você em mim.
Pra sempre.
Da vida
E no no fim das contas, talvez, a vida não seja um porre de serotonina.
É na verdade uma embriaguez de cicuta,
que a gente vai bebericando de golinho em golinho,
Vive e envenena-se numa eterna labuta;
Experiências, pessoas e sentimentos...
E tudo, no fim, foi um sonho de que se acorda sozinho.
terça-feira, 28 de abril de 2009
Solidão de guache
Sempre quando fico meio mal, numa béde, caio num bode, tenho vontade de recitar, falar para alguém que possa me ajudar, um versinho que aprendi com duas amigas queridas.
"Meu dia está em branco;
cadê você com meus potinhos de guache?"
O meu conceito de solidão é não ter para quem recitá-lo.
às 10:01 0 comentários Marcadores: Memórias
segunda-feira, 27 de abril de 2009
Agnóstico por opção
Eu não sei do que são feitos os sonhos.
Mas isso não quer dizer que eles não existam.
Sou um agnóstico dos sonhos.
Tenho fé só na vida.
Só acredito no dia que vejo.
E não memória que tenho.
Tampouco posso provar que não existam.
E se o tempo é a medida da precariedade de tudo;
É certo que o sonho é o conceito da verdade,
da verdade insolúvel das coisas que não se vive.
Mas não posso ver neles verdades da vida.
Vejo nos sonhos as fantasias,
a realidade arrependida,
da alegria em que tudo poderia.
Os sonhos são feitos no coração.
vivem na alma, desmoronam na mente.
Propagam as diástoles de quem sente,
desfazem-se, doem e morrem de inanição.
Cenas dos próximos capítulos
Foi quando eu olhei pela janela
na última vez em que vi.
Ali matei e morri.
Foi quando eu busquei o sonho
Vi a verdade entre as lágrimas
E adormeci.
Voltei ainda pra dizer adeus.
E nunca mais.
E também algo mais.
Não disse o que devia.
Calei o que sentia.
E pela primeira vez eu mentia.
Voltei a olhar pela janela.
Me vi sonhando.
Me vi amando.
Aí acordei do sonho.
Olhei pela janela.
E não vi ninguém.
domingo, 26 de abril de 2009
Blogger, eu te adoro
Descobri que programar as postagens funciona. Você marca o horário que ela deve subir e tornar-se pública. Um barato. Posso viajar hoje pra São Paulo e ficar tranquilo, porque durante toda a noite, nos horários marcados, meus textos serão postados.
Evidente que seria ainda mais legal se fossem lidos. Mas eu já abri mão de muitas ambições, e a de ser lido tem sido uma delas, ultimamente.
às 11:07 2 comentários Marcadores: Entretenimento, Tecnologia
sexta-feira, 24 de abril de 2009
Eu torço o nariz com a maior angulação possível permitida pelos músculos da face para o fenômeno do microblogue. Das diversas ridicularias que o progresso da informática nos traz, quero crer, o Twitter há de ser o limite. Não dá pra ir mais fundo nesse poço. E para continuar na anatomia, declaro que ao pensar nesta rede social eu exercito os bíceps do desprezo.
Presumo que um serviço que permite que se diga algo em 140 caracteres, na verdade, permite que não se diga nada. E é comovente o número de pessoas que não tem nada a dizer e o número das interessadas em nada. São as que seguem. "Seguir" é ler o nada que outros tantos dizem por aí, via sites, mensageiros instantâneos, sms e outras modalidades de inundar a internet de nulidades.
O recordista em fiéis no serviço de microblogue é Ashton Kutcher, que vem a ser o distinto senhor de Demi Moore, somando 1,384,263 seguidores até o momento, e contando. Uma celebridade de segundo escalão, portanto, que pode bradar aos quatro ventos, desde que em no máximo 140 toques, a duvidosa, a meus olhos, honra de que "é o primeiro twitter a romper a barreira do 1 milhão de seguidores" - o que nos dá 66 caracteres, descontadas as aspas. É o homem a ser batido no Gorjear até o momento. Gorjear que vem a ser a tradução de "twitter". Gorjear, afiançam os dicionários, é propagar sons agradáveis, sobretudo se você for um pássaro. No caso, permita-se a liberdade poética de se dizer que na internet gorjeia-se a não mais poder escrevendo, e não emitindo ruídos. Ainda.
Mas não são apenas as celebridades de baixo quilate que se entregaram ao, até aqui inédito, sistema de comunicação onde se diz muito pouco, se comunica menos e se difunde muito. Obama tem twitter, man. Aqui no Brasil Marcelo Tas assinou um generosíssimo contrato com a Telefônica para que a empresa patrocine seu microespaço. Até o bispo Macedo dá sua contribuição, em 140 caracteres, sobre os preceitos do bom Deus, que caso tivesse ditado seus Evangelhos nos doidos tempos que correm, provavelmente, teria muito mais fiéis do que tem, sobretudo se fosse capaz de espreme-los nos 140 toques permitidos - mas para Deus nada é impossível, ao menos assim rezam os mesmos Evangelhos.
Dizem que gorjear é apenas mais um passo na revolução da cultura snack da informação, para qual 50 em cada 10 jornalistas estão vergonhosamente despreparados. Me dá calafrios. Não por conta da profissão, mas por conta do mundo.
Para embasar mais esse meu panfleto contra o microblogue, fui eu estudar o que, afinal, Kutcher tem a dizer de tão contundente para que mais de 1 milhão de pessoas façam-lhe a honra de lê-lo em tempo real. A mais sensacional das micropostagens do marido de Demi Moore deu-se em março último, quando este postou uma foto da porção final da espinha da venerada atriz, que como se sabe é uma área excusa da anatomia. No caso de Demi Moore há que se mencionar que há uns bons 12 anos que a referida porção de é de domínio público. Desconhece-se, contudo, em quantos caracteres orçam os glúteos da esposa do maior gorjeador de todos os tempos, até o momento. Meu palpite é de que, caso tenham mantido as proporções e linhas de 12 anos atrás do Striptease, sem dúvida, trata-se aí de nádegas de muito mais do que 140 caracteres, sim senhor.
Mas não é só de nádegas que Kutcher fala o seu nada cotidiano. Mais que isso, Kutcher faz jus ao sucesso. Seu repertório de corolários, aforismos e sentenças abarcam muito da sabedoria humana, como, por exemplo:
"O twitter está fazendo o meu cão Bama muito anti-social"
"Meu milionésimo seguidor foi...Sinneratre100. obrigado!"
"A melhor maneira de se saber se alguém é confiável é confiando. E Hemingway."
"Qual a melhor maneira animal-amistosa de se fazer com que um cão pare de latir?
"Estou de saída para uma festa de níver surpresa para... Uh, melhor não dizer o nome."
"Alguém por aí viu algum filme bom no fim-de-semana que passou?
"Nossos cachorros nos levaram para dar uma voltinha."
"Vírus estomacal, vai-te daqui! Quem poderá dizer que vomitou e teve diarréia na casa de seu rabino?"
Pois é. Vão morrer os jornais, a crise vai acabar com o emprego de todo mundo, a CNN já informa por Twitter (profundidade pra quê?). É o fim dos tempos. Mas não tô nem aí, quero mais que o mundo acabe, que se explodam, a vida num mundo onde tantas pessoas se armam com o Twitter não vale à pena ser vivida.
às 14:34 0 comentários Marcadores: Atualidades, Mídia, Tecnologia
Sem palavras por quê?
Bakhtin não era poeta, e pode ser que isso o faça incompreensível para muita gente. É mais ou menos pra mim, que tenho luzes que cheguem para iluminar alguns dos rudimentos do teórico russo, mas não o entendo em absoluto. Pode ser, portanto, que eu seja uma besta. Por outro lado, veja aí o caso do Schopenhauer, que desancava o Hegel, chamava-o de enganador, de besta e coisa muito pior, porque escrevia Hegel de uma forma tortuosa que poucos compreendiam. Ou compreendem, como é o meu caso que não entendo absolutamente nada do que me diz Hegel, o que pode indicar que ambos, Bakhtin e Hegel, é que são as bestas e não eu, novidade extremamente positiva para animar este meu combalido ego.
E Mário Quintana, que era poeta, o que significa que era um filósofo da alma humana, e na simplicidade explica tudo que Bakhtin se debateu por dizer numa existência inteira:
"A gente pensa uma coisa, acaba escrevendo outra e o leitor entende uma terceira e, enquanto se passa tudo isso, a coisa propriamente dita começa a desconfiar que não foi propriamente dita.
Quando alguém pergunta a um autor o que este quis dizer, é porque um dos dois é burro".
Tudo isso para dizer que, no fim das contas, ser limitado pelas palavras é uma desgraça. Não digo metade das coisas que preciso, posso e devo escrevendo ou falando. É ruim. Não sou só eu, inclusive. Todos nós. Eu só sou um pouco mais obcecado pelo assunto do que as outras pessoas. E não estou sozinho, além de Bakhtin e Quintana, com enorme orgulho cito José Saramago, que dúzias de vezes em seus escritos volta-se a discutir o sentido de uma frase, de uma palavra pelo que é, pode ser, poderia ser ou deveria ser.
O que é, no fundo, uma tremenda burrice, porque inútil. O assunto é insolúvel, não só para meus modestos predicados intelectuais, mas também para os Bakhtin(s) do mundo. Só seria resolvido na medida em que desenvolvêssemos uma forma de comunicação que trata-se das coisas pela sua essência, e essa seria a telepatia - comunicando nossos pensamentos pelo seu sentido exato, que é por definição inexprimível na língua falada e escrita.
O que por conclusão nos diz que o cerne do problema está em que não há quem leia e ouça que possa entendê-las, as palavras, pelo que são. Pelo que falam, pelo que dizem, pelo que deixam de dizer, pelo que se completam nas lacunas de um pensamento errático, claustrofóbico e ansioso - como o meu, por exemplo. É uma sensação de solidão estranha descobrir que falando, ninguém se entende.
Numa língua telepática os pensamentos falariam. Você não sentiria mais a cadeia de "não ter palavras" para designar um estado de espírito, ou uma sensação, provavelmente nos entenderíamos todos muito melhor, além do que os idiomas seriam dispensáveis. Hoje ao sermos confrontados com uma situação extrema, de qualquer tipo, caímos no "não tenho palavras". O que nos leva a pensar, ou leva à mim a pensar, sintam-se à vontade em discordar, que o mal do mundo é que os sentimentos não falam. E falar por eles, conforme a larga história humana nos tem mostrado, é o princípio dos inauditos fracassos humanos.
Não há Bakhtin que resolva isso no mundo. Mas há muito Quintana para dizer que, no fim das contas, todos passarão, e eu passarinho. Há muito(s) Quintana(s) no mundo para dizer o que é a vida, as escolhas, as dúvidas e o que somos. Queria eu ser um deles. Porque se minha capacidade de entendimento do mundo é limitada a tal ponto que minha capacidade de extravasá-lo, descrevê-lo e transcendê-lo torna-se vã e sensivelmente falha, mais vale deixar de lado qualquer pretensão de sentido pleno, de clareza, de objetividade e ser poeta. E o mundo sempre precisará de poetas, por mais que muitos pareçam dizer nada com nada e falem coisas das maneiras mais distantes, abrindo toda a sorte de possibilidades de interpretação, o que amplia o problema do limite da linguagem. O mundo precisa de mais Quintana(s), Drummond(s), Neruda(s), Parra(s) (etc), porque poetas dessa dimensão são capazes de dizer muito com pouco.
E é curioso perceber que se um número dramaticamente maior de pessoas lessem Quintana, cada uma delas entenderiam de uma forma, ou seja, não contornamos o problema da linguagem, apenas agravaríamos. Mas ainda assim seria um mundo mais bonito. Múltiplo, confuso como é hoje, mas muito mais bonito.
Eu queria, mais do que ser como Quintana ou Saramago, que minhas palavras, ditas, escritas e pensadas, fossem tidas pelo que dizem, e até pelo que omitem. Mas jamais pelo que os outros querem ler delas.
às 01:44 0 comentários Marcadores: Cultura, Memórias, Semiotices
quarta-feira, 22 de abril de 2009
O Reino ruindo, o Poder esvaindo II
Apenas para complementar o post sobre o desditoso destino do The New York Times, vale ilustrar aqui alguns números:
- Em 1965 o jornal tinha mais de 5000 funcionários, dos quais 1000 eram jornalistas.
- Hoje a equipe de jornalismo não chega a 300 pessoas espalhadas pelo mundo.
- O faturamento do NYT em 1965 era de 137 milhões de dólares.
- Os custos eram de 134 milhões, ou seja, o jornal lucrava apenas 3 milhões/ano.
- Em 2007 o faturamento foi de US$ 3,195 bilhões.
- Os custos em 2007 estiveram por perto de 2,9 bilhões, o que redunda num lucro de US$ 280 milhões de dólares. Tenha em mente que 2007 não foi tão afetado pela crise.
Os números referentes aos anos 1960 estão no livro "O Reino e o Poder". Os dados referentes ao ano de 2007 foram os mais recentes que encontrei, e estão aqui.
Interessante é notar o salto dos valores de 1965 para cá. A economia cresceu e inflou.
Deu no que deu.
às 15:35 0 comentários Marcadores: Atualidades, Cultura, Mídia
Susan Boyle
Enquanto o vídeo não é removido daqui do Blogger você pode assistir aqui. Caso seja por conta dos direitos autorais, assista aqui!
Eu também sonhei um sonho.
E quem não sonhou?
às 14:59 0 comentários Marcadores: Cultura, Entretenimento, Mídia
domingo, 19 de abril de 2009
Família grande
Descobri lendo "O Reino e o Poder" que há um Garrett com destaque na história do jornal The New York Times.
Pronto, ficarei insuportável.
Mas passa. Tudo, aliás, passa.
às 23:38 0 comentários Marcadores: Cultura, Memórias
Amor é importante, porra
Acordar atrasado é sempre ruim. Mas em São Paulo é muito pior. Significa que os mais formidáveis contratempos e tropeços estarão no seu caminho para qualquer compromisso e a melhor de todas as desculpas para o embargo do sono, que é, evidentemente, o trânsito, não costuma salvar a pele de ninguém. Afinal, todos conhecem os problemas de tráfego e exatamente por isso precisam acordar muito antes para compensar os atrasos do, contrassenso (agora com dois S), trânsito que não anda.
Enfim, para diluir o atraso, muita correria, apelo ao táxi, torcer para o ônibus não demorar e o aperto do metrô não ser aquela desgraça de 6 da manhã da Paulista. Mas sempre é, porque é 6 da manhã e é a Paulista. Nunca vai mudar.
Entrei no tubo cilíndrico metálico no último vagão, que será primeiro assim que ele, o tubo, desandar toda a linha. Gosto do fundão. Na faculdade sempre sentei na última carteira, inclusos aí os anos de jornalismo e de engenharia. No cursinho mesmo, sentava-me na última fileira da enorme sala, levava minha tv de bolso e fones de ouvido para ficar vendo a Copa do Mundo de 2002. Gritei gol numa aula de matemática uma vez, mas ninguém ligou. Era cursinho, afinal. E era gol do Uruguai. Todos estavam cagando e andando pro Uruguai, que fez o favor de dar vexame na primeira fase da Copa mais sem graça de todas as que eu vi.
Teve também um dia em que eu estava numa ressaca que não está no gibi depois de ter emendado a noite, visto o jogo do Brasil de madrugada, tudo isso bebendo sem parar. Fui sem dormir para a aula, feito um zumbi. Dormi no fundão o sono dos justos, com a cabeça girando bem longe da química e da física e vomitei depois da aula - um amigo veio perguntar, em função da cara que eu apresentava: "cara, você cheirou?". Eu era muito underground.
Eu gosto de fundão. Eu gosto de ser o último. Acho que não tenho perfil de líder, não gosto de dizer para as pessoas o que elas devem fazer. Acho presunção. Provavelmente nunca serei um executivo de sucesso ou um grande líder político - pra começar não tenho carisma. Talvez eu seja um bom parlamentar um dia, caso decida perseguir a vã carreira política no Brasil.
Talvez o problema com liderar tenha a ver com a minha busca por não assumir responsabilidades. Ou nem isso. A busca por não assumi-las maiores que meus ombros, sei lá. O fato é que eu gosto do fundão. Ser primeiro lugar não me diz muita coisa. Sou modesto.
No metrô dei sorte, encontrei banco pra sentar - normalmente o primeiro e o último vagão são os mais vazios. Desconfortáveis são os bancos do metrô de São Paulo, mas é melhor do que ficar em pé, espremido. Não há dúvida. Tinha um longo caminho, 6 ou 7 estações pela frente, e ficar em pé equilibrado é um saco, ainda mais com a mochila. Desço na última estação construída da linha verde, pulo pra van, sigo até a estação de trem da Cidade Universitária da CPTM e mais uma, pronto, vamos lá negociar o trabalho das próximas semanas.
Sentado comecei a folhear o tabloide, já não mais acentuado, que distribuem gratuitamente nas estações, chamado Metro, sem acento desde sempre. Descompromissadamente vi que o jornalzinho, gratuito que é, ainda sofre de maus textos, de más pautas, de má diagramação - na verdade é uma merda, mas é uma merda inofensiva. A Folha de S. Paulo é uma merda também, mas me ofende. Enfim distrai que uma beleza o tabloide no aborrecido trajeto subterrâneo, onde não há paisagem nenhuma que não seja o negrume macambúzio dos túneis e o som dos engonços do vagão gemendo, dos sobressaltos das rodas nos intervalos dos trilhos, a voz monótona do condutor avisando, lá da frente "próxima parada, estação Brigadeiro...", dos assovios agudos do trem roçando o terceiro trilho, que é o que dá choque de 750 volts, se tocado por alguma desavisada mão humana.
É uma epopeia, agora sem acento, viajar de metrô, mas nada doutro mundo - era muito mais nos primórdios desse transporte, onde as composições andavam à lenha nos subsolos londrinos, o que deveria ser horrível por conta da fumaça. Soquei o jornal na mochila. E, absorto, pensando no itinerário, sentado, ao mexer no iPod pra trocar a música - com o sono que eu estava, ouvir Mogwai era burrice - esbarrei na pessoa ao lado. Fernanda, ela. Estava no crachá. Fernanda é uma garota loira, de pele muito lisa e um sorriso estonteante quando você diz "desculpa!". "Não foi nada".
Fernanda, olha só, gosta de Mogwai. Proporcionalmente é mais ou menos como você estar em Pequim, no meio de 200 milhões de chineses, e encontrar um que conhece a cidade de onde você veio, lá do interior do Paraná. É uma falha da Matrix, uma aberração. Mogwai é uma banda de post-rock, pouca gente conhece, menos ainda gosta, e uma porção minúscula desses que gostam compreendem algo do som - mas aí é que está, é arte pós-moderna, não precisa entender, precisa sentir, dizem bons e maus livros do tema. Fernanda viu no iPod que era Mogwai que eu ouvia, e disse que eu devia ter bom gosto.
"Ah, se você soubesse..." - tive vontade de dizer. Mas aí ela ia perguntar "soubesse o quê?". E eu teria de explicar, e eu não queria explicar. Então eu não disse. Agradeci.
Passei pra um BB King, mais animado. Adoro blues, BB King é o cara. Fernanda conhece pouco de blues, mas acha simpático. Eu digo que ela deveria ouvir "Riding with the king", não há como não gostar. Ofereço um fone de ouvido. Nos conhecemos há 15 segundos e já compartilhamos algo mais do que palavras. O romantismo é meu maior defeito.
Fernanda, evidentemente, ia trabalhar. Trabalha num dos buzilhões de escritórios na região da Paulista, ela até me explicou o que faziam, mas eu esqueci, tinha a ver com exportações. Ou direito internacional. Sei que era pros lados da estação Clínicas, que já nem é mais Av. Paulista, mas é perto. E foi onde ela desceu.
Fernanda mora em São Paulo há 12 anos e eu admiro pessoas capazes de suportar essa cidade por mais do que seis meses. Todos que não estão aqui acham a cidade legal, muita gente que conheço diz "nossa, que legal deve ser morar em São Paulo", que é divertido, todos, enfim, que moram na calma do interior se presumem cosmopolitas. Mas poucos são. Eu não sou, Fernanda é.
Falamos sobre trabalho. Eu falei sobre trabalho, mas pensava na vida. E, provavelmente, se falasse da vida pensaria no trabalho, pior que doença. Pensava na fatalidade das coisas, na intangibilidade dos destinos e no vazio de muitas coisas sem sentido que faço, que fazemos todos. Sei lá. Começar o dia com Mogwai é sempre uma burrice. Manifestações artísticas profundas, de qualquer caráter, tem o mal de nos dizer verdades que ignoramos para o nosso próprio bem, e isso como bofetada pela manhã é uma desgraça. Está decidido: doravante, atrasado ou não, acordarei ouvindo o Latino.
Fernanda me fez sentir bem. Simpática. Ao falar, sobre tudo e nada, sobre generalidades, da maneira como falou, do jeito que avaliou situações peculiares da vida - tudo isso no espaço de 5 estações de metrô - pude ver que Fernanda, embora sorridente e disposta a puxar conversa com estranhos nos subterrâneos da maior cidade da América Latina, é vítima das mesmas paixões e temores que eu, que por mim teria ficado ruminando BB King no ouvido sem olhar para os lados. Fernanda por demonstrar a mesma fragilidade que eu tenho me mostrou como é vago questionar coisas que não têm resposta a essa altura. Ela não sabe, nem o tentou, mas me respondeu coisas que eu não conseguia por mim mesmo há um bom tempo.
Interessante. Cidade grande, mundo pequeno. A conversa com Fernanda me serviu para livrar a alma de algumas chagas. Expurgar culpas que não tenho, afinal. Triste, mas é assim que é. Bom conversar com a Fernanda. Precisamente por isso que na próxima viagem vou mudar de itinerário, evitar o metrô e ir de ônibus todo o caminho. Se não tiver jeito, vou sentar nos primeiros vagões. Sabe como é. É preciso evitar esse excesso de convivência: mais umas três estações, e eu estaria perdidamente apaixonado.
Fernanda levantou perto do destino. Esvoaçou os cabelos loiros levemente ondulados, dependurou a bolsa com aprumo, verificou as horas no celular, sorriu, deixou cair o celular no bolso da jaqueta, sorriu novamente - este último um daqueles sorrisos-reflexos que pessoas acostumadas a sorrir dão sem perceber. Preparou-se para compôr a fila de pessoas que o vagão, o último ainda por mais três estações, irá regurgitar na estação Clínicas. "Tchau, Tertuliano*", disse. "Tchau, Fernanda, tenha um bom dia".
Voltei ao BB King. E desliguei dos meus pensamentos ordinários num dia atrasado, de trabalho, como era o caso. Sequer pensei no que diria como desculpa pelo atraso. Trânsito, é sempre o trânsito, será ele novamente. Pena que hoje não chove. Com chuva a desculpa do trânsito cola, porque na chuva a cidade vira uma zona. Mas não chove, então sei lá; foi o trânsito.
Saí do metrô devagar. Estou atrasado mesmo, que se foda. Subi sem a menor pressa, enquanto do meu lado desenrolava-se uma maratona pelos degraus da escada. Pessoas obcecadas com horários são assim. Paulistanos, pensei. Que bom que não sou como eles, que bom que me atraso, penso "que merda", e sigo na mesma toada. Eles se estressam por mim, eu vivo mais.
Aí a conversa com Fernanda me voltou à cabeça. Lições aprendidas numa jornada pela linha verde do metrô. Me fez sentir aliviado, calmo, em paz. Caminhei e integrei a fila da van. Pensei "porra, vou ter que ir na próxima". Muita gente, universitários em sua maioria, e eu os invejo, como os invejo. Vamos todos pros lados da USP. Pena que eu não vou pra USP - eu gostava de ser universitário - eu vou pra minha vida de gente grande, numa miríade de brincadeiras de criança.
Entrei na van e ruminava ainda os conceitos que Fernanda me disse sem dizer. Era como se ela falasse do voo dos pássaros e com isso me ensinasse engenharia de foguetes ao mesmo tempo - e eu aprendesse. Fiquei em paz por conta das respostas que tive e pude desenhar nos lábios um sorriso, um tipo de "mas... eu já sabia!", que há muito eu precisava. Eu sempre soube, só não tinha confirmação - sou muito metódico quando o caso merece atenção, daí a necessidade de confirmar tudo com uma estranha. Pode soar absurdo, mas não é.
Com novas certezas inabaláveis e inquestionáveis assentadas no espírito, levantei os olhos para ver em que altura do caminho estávamos, dei com um muro do bairro de Pinheiros, onde está escrito, como em centenas, milhares talvez, de outros aqui em São Paulo, com a mesma fonte, do mesmo jeito, como se fosse uma epidemia de amor a assolar as paredes calcárias da pauliceia, hoje também sem acento, na forma de grafite diz o muro pra quem puder ver:
"O amor é importante, porra".
É sim. Pra caralho. Dos amigos, da família, até da Fernanda. Por mais que tenha quem não perceba isso, ou desdenhe, é importante. Assim como os dias, os momentos, as memórias, as lágrimas. Momentos felizes, porque como ensina o mestre Odair José, meu amigo, felicidade não existe. Existem momentos felizes e à luz deles nada mais importa. Nem as lágrimas que aqui e ali me orvalham o rosto.
às 00:10 0 comentários Marcadores: Memórias
sábado, 18 de abril de 2009
Estamos pensando II
Não há um só dia que valha a pena;
não há um dia pleno.
Não há dia que prometa,
metade da paixão que vivi neste poema.
* É possível que esse poema já tenha pingado aqui no blogue em algum momento. Preguiça de conferir. De qualquer forma, eu que sou um poeta de tão poucos méritos, tenho todo direito de me prevalecer daquelas que me parecem as minhas melhores poucas rimas.
quinta-feira, 16 de abril de 2009
Sou um livro
Minha vida é um livro aberto;
Que ninguém quer ler.
Minha vida é um livro aberto.
Na página errada, no capítulo inacabado.
Com o mocinho malvado.
E o bandido apaixonado.
Minha vida é um livro sem errata.
Uma sucessão de volumes.
Um a corrigir o outro.
Em múltiplas páginas erradas.
Minha vida é um livro.
Que não foi escrito.
E não pode ser lido.
Minha vida é um livro.
Um livro que só pode ser sentido.
Aforismos - Das ocupações
O Barão de Itararé foi um frasista e um humorista sensacional. Lembro de ler que, quando ele trabalhava no jornal A Manhã, este fora empastelado por Getúlio Vargas. Os esbirros da ditadura entraram, quebraram tudo, bateram em todos e sumiram. Noutro dia o Barão de Itararé pôs esta placa na porta: "entre sem bater". Mas o que conta é o aforismo que segue, sobre o trabalho:
"Quem inventou o trabalho não tinha nada pra fazer".
às 17:11 0 comentários Marcadores: Aforismos
Gira mondo, gira
O comercial abaixo é de 1991, da Pirelli, em homenagem a Nelson Piquet (na foto ao lado) e Roberto Pupo Moreno, pilotos brasileiros da italiana Benetton (aquela mesmo dos moletons, que um dia resolveu ter uma equipe de F1 e foi razoavelmente bem sucedida nisso - os dois primeiros campeonatos de Schumacher foram a bordo de uma), que tinha motores anglo-americanos da Ford Cosworth, combustíveis da britânica Mobil e, claro, pneus italianos da Pirelli.
Um belo comercial. E eu adorei a música, a letra é linda.
"Il mooooondo..."
às 15:29 0 comentários Marcadores: Cultura, Memórias

