Não lembro quem disse, mas "por pior que seja o ano, ele ao menos terá uma coisa boa: um filme do Woody Allen".
E é verdade.
Trailer de Whatever Works:
quarta-feira, 20 de maio de 2009
Woody Allen salvando os anos
às 20:42 0 comentários Marcadores: Cultura, Entretenimento, Memórias
Navegar é preciso
Eu vivo nas sombras das minhas tormentas.
Navego pelos sonhos.
Atravesso as vagas, venço batalhas horrendas.
Navegar é preciso.
Mas se o barco afundar e for ao fundo,
eu não me lamento.
Já perdi amor demais nesse mundo.
Ah, as crianças
Fui dia desses passear com a minha afiliada. Conta hoje oito anos, a menininha. Uma graça, como são todas as crianças, e eu adoro crianças. Gostaria um dia de ter muitos filhos, adotar outros muitos e viver em meio às crianças, porque elas me divertem profundamente com seu jeito de levar a vida.
Íamos os dois no carro conversando sobre as amiguinhas invejosas e as peraltices dos meninos. Foi motivo de consternação para ela quando lhe contei que eu, quando somava meus 6 ou 7 anos, tinha o prazer insuperável de correr com besouros atrás das cabeludas meninas e pô-los, os besouros em seus cabelos compridos, pois sabe-se que o inseto gruda-se tenazmente, e há uma certa aversão, naqueles dias e ainda hoje, absolutamente incompreensível para mim entre mulheres e insetos inofensivos. Elas gritavam, e eu adorava.
Superado o trauma dessa revelação, o milagre da descoberta nem sempre é uma coisa bonita, e ia eu fazendo as micagens que só tenho coragem de fazer na frente dela, porque se fizer perante outra pessoa, me sentiria ridículo até a espinha. E ela ria. E eu adorava.
Ela dedilhava a tela do iPod, maravilhada com a tecnologia, se divertindo ao escolher clipes, filmes, episódios de Life ou House, músicas. Até que parou numa foto. E fez perguntas. E criança se arma de perguntas, como larga literatura nos tem mostrado, e nós executamos as mais variadas manobras para encontrar respostas adequadas e que deem sentido às perguntas.
- Quem é na foto?
- Deixa eu ver...
Devo ter quebrado umas 20 leis federais para pegar o iPod e ver a foto, enquanto dirigia - eu sou bom de boleia, considerem que sou um piloto de F1 frustrado, eu sabia o que estava fazendo, bolas. E vi de que foto se tratava e pensei, "a-há, agora encontre uma boa resposta..."
- Ah, é uma pessoa - por certo que é uma - que conheci - se tenho foto... - e que não vejo há algum tempo, por isso carrego a foto, assim posso ver quando me der vontade. Sabe como é, saudade, você sente saudade de alguém?
- Sinto... - aí ela ficou um tempo falando das saudades do meu irmão, acho que foi a primeira experiência que ela teve de morte próxima, daí a referência.
Mas não saciei a curiosidade. Ela se armou de "qual é o nome?", "de onde você conhece?", enfim. Ah, as crianças. "Como eu te disse, é uma pessoa muito importante, que foi embora".
- Ela morreu?
- Não, não morreu não. Mas foi embora.
- Mas ela também gostava de você?
- Presumo que sim.
- O que é presumo?
- Quis dizer que imagino que sim.
- Então porque ela foi embora?
- Ah, é complicado...
- Como assim?
- Foi embora porque quis, ué. Não sei, foi.
- Ahhhhhh...
...
- Que foi?
- Igual na novela?
- Hahahaha, que novela?
- Quando alguém vai embora, as pessoas ficam tristes e dizem que é complicado. Mas não é, as pessoas mentem nas novelas.
- É, provavelmente é como na novela. Mas é que é complicado.
- Hum...
Mas na verdade não é complicado. A gente complica, a gente dificulta, a gente dá com a cabeça nas paredes. A gente faz bobagem atrás de bobagem pra consertar as bobagens passadas e vai se arrastando indefinidamente. Um horror. Acho que muito do meu fascínio pelas crianças reside nessa simplicidade, nessa (te esconjuro) objetividade com que enxergam as coisas. E provavelmente por isso que protagonizo atitudes idiotas, me baseio muito nisso e, claro, dá errado. Todos parecem, no final, querer viver numa novela. Menos eu. Ou é o contrário? Palavra que já não sei mais.
Eu não gosto de novela, tenho orgulho e galhardia em gritar pros quatro ventos que a última que vi foi o Cravo e a Rosa, e mesmo antes dela, a última tinha sido a do Rei do Gado. Não sou, precisamente, uma autoridade no assunto folhetim televisivo, mas tenho cá comigo luzes que cheguem pra saber ao que ela se referia. E é por isso que morri de medo das perguntas.
- Ela é bonita.
- É.
- Qual é o nome dela?
- Você vai querer sorvete? Sabe, tá frio pra sorvetes. Talvez a gente coma batata-frita, como da última vez, lembra? Batata? Quer? Não tá com fome? Tá com frio? Ligo o aquecedor, se quiser.
- Hahahahahaha, você faz igual na novela.
É. E quem, por esses dias, não vai dizer que vive numa?
às 14:33 0 comentários Marcadores: Memórias
Trovas do jardineiro
No jardim há flores e arranjos,
e há a rosa cálida e tépida,
que amanhece os dias coroada pelos anjos
e idealizada na mentira pérfida,
de que não existe de verdade.
Mas há quem olhe por aqueles espinhos.
Há quem desarrume suas pétalas de saudade
quem trate de suas dores, quem lhe afaste dos ninhos,
quem se morda com tamanha maldade,
da flor que não existe nos meus caminhos.
De todas as vezes que morri na verdade,
digo que gostava de viver na mentira.
Onde não havia a crueldade,
de negar que a flor nada sentira,
ao me ver morrer de saudade!
terça-feira, 19 de maio de 2009
RPM
Desisto.
E assim já não existo.
Recomeço.
E assim me despeço.
Resisto.
E assim insisto.
Derrota-me.
E assim apaixono-me.
Fugimos;
E assim somos infelizes.
Fórmula 1 nas ruas
Estou vendo que será um desafio manter essa seção, porque é difícil achar curiosidades que interessem a quem não se interessa, sentiu o drama?, pela Fórmula 1. Mas eu sou teimoso. Vamos tentar.
Nesse fim de semana tem o Grande Prêmio de Mônaco, que acontece, não diga, em... Mônaco. Trata-se, qualquer colegial sabe, de um enclave, uma cidade, que é estado, entre a França e a Itália. É um dos lugares mais caros e chiques do mundo, e a corrida de F1 lá é a que tem mais charme, tradição e glamour. Mônaco é um barato, conforme as imagens mostram.
E a prova lá é realizada nas ruas do principado. O lugar é muito pequeno, e eles preferem aproveitar o espaço para mansões, não para autódromos. Como todo o lugar é bonito, há uma considerável porção da pista que dá para o mar, tendo sido comum nos anos 1950 que carros caíssem no oceano em virtude de algum acidente. Além disso, estrelas do cinema, da música são vistas pela pista, e quem dá o prêmio ao vencedor no final é a família real, enfim, há todo um charme.
Pensando nisso, em Fórmula 1 na rua, lembrei do vídeo abaixo: a equipe Red Bull, aquela mesmo, que dá asas, segundo afiançam anos e anos de reclames, realizou em 2006 um evento promocional às vésperas do Grande Prêmio do Brasil daquela oportunidade e pôs, para alegria do cidadão paulistano perturbado com o trânsito, um F1 para rodar do Theatro Municipal até o Ibirapuera, pela 23 de Maio:
às 17:20 0 comentários Marcadores: Fórmula 1
Porquês
Eu escrevo pra te encantar.
Eu não rimo pra te encontrar.
Eu te amo pra viver.
E vivo pra te amar.
Eu sorrio pra te dizer.
Eu quero mais é te lembrar,
de me querer.
de me amar.
segunda-feira, 18 de maio de 2009
Trotes?
Só pode ser um trote. Porque havia todo o ruído, a voz indistinguível e o inesperado.
Trote, só pode ser trote.
às 16:40 3 comentários Marcadores: Memórias
Como fogem os poemas?
O homem chegou apressado;
mas o que o deixara nesse estado?
Soube, houvera ele perdido,
seu poema, que tinha olhos.
"Estou com o peito ardido!"
Disse ele ao contar toda a aventura,
Tive pena de mais essa desventura,
De mais um poema que correu,
e mais um amor que morreu.
Velharias
Ainda correm nas minhas veias,
pedaços de sonho invisível.
É a sua falta que me faz tão sensível,
e enche meu peito de teias.
Escrito a giz
Ah, Quintana...
Te juro:
se me levar às lágrimas,
mais uma vez,
te espremo nas páginas,
te deixo nas traças,
corro, fujo pelo mundo,
ando pelo universo,
e tudo isso, no fundo
só para não admitir,
que a verdade que me diz,
não me faz sorrir,
está escrita no coração de giz.
É tudo um jeito para mentir,
só para dizer que esqueci,
mas lembro de sentir,
o que devia ignorar,
ainda que pra isso tenha que me matar
um pouquinho mais assim,
e te abandonar pelo bem
do restinho que sobrou de mim.
Eterno retorno
Em todas as vezes que morri,
deitei um pouco de mim na cova.
Ressuscitei, corri.
e me abracei na esperança da vida nova.
E aí me decepcionei
Nas vezes que levantei,
encontrei flores nas minhas estradas,
e de todos os caminhos em que andei
o único que esqueci foi justo aquele,
onde você vivia pelas madrugadas.
A vida é buscar encontrar estradas percorridas,
onde deixamos algo de bom que nos falta.
É triste caminhar e não encontrar nas minhas morridas,
a alegria distraída que hoje te assalta,
e ilumina esse seu sorriso e tuas mãos floridas.
Invernos em nós
No dia em que pela madrugada,
eu for como a neve ao vento,
e encontrar a sua pele orvalhada,
vou lhe trazer todo o acalento.
E serei, mais uma vez, como o nada.
No dia em que eu for coração,
e for quente como o calor
vou trocar o inverno de estação.
e te dar no frio todo um novo amor,
todo ele de sol, feito de verão.
domingo, 17 de maio de 2009
Eu Zacaria, tu Zacarias
E eu vou marlonbrando tudo até o fim.
Assim como tu zacarias, se pudesses.
Eu olavo de tudo, afinal.
Tu tobias aqueles momentos.
Enquanto vamos orlando,
pra lá e pra cá.
Talvez assim eu também pudesse jair,
pra logo depois nostradamus tudo outra vez.
Ah, as palavras do mestre
Morreu hoje o poeta uruguaio Mario Benedetti. Frio, direto, conciso, até objetivo, dirão alguns idiotas da objetividade. É o "abre" perfeito para um lide estoico, mas em regra, para uma matéria que diga que, afinal, morreu aos 88 anos o tal poeta uruguaio. Nelson Rodrigues diria: "uma merda. O fato em si é uma merda."
Não conheço, em absoluto, nada do poeta Benedetti, e a isso peço que ele, estando por hora onde esteja, me perdoe. Meu consultor particular em tudo quanto é tema vinculado a cultura de língua espanhola, que atende pelo nome de Júnior, sobrenome, Melhor Amigo, disse que conhece, de seu lado, algo do tal poeta, e que o tal é bom, tendo ele lido um livro de autoria do uruguaio quando de seus dias pelo Chile. Fico com seu julgamento, que normalmente converge com o meu, amigos que somos. De qualquer forma me constranjo um pouco a vir aqui falar dele de quem nada sei.
De toda forma, imagino que sentiria sua morte, caso fosse um leitor recorrente seu. Por certo que sentiria, eu chorei quando morreu Porthos, na caverna de Locarna (ou Locmaria? A conferir) no Visconde de Bragelonne - e ele era um personagem! Uma imaginação, um sonho, uma ideia, algo como O Cavaleiro Inexistente de Italo Calvino, Agilulfo, aquele que era feito de vontade, sequer existia de verdade. Porthos, assim como tantas figuras queridas, só vivem porque os lemos. Mais ou menos como em Emília no País da Gramática, de Monteiro Lobato, onde descobrimos que as palavras são mais saudáveis e vivas na medida em que as usamos. E esse parágrafo todo, à luz de A Arte de Escrever de Schopenhauer, é uma merda, porque parece que não escrevi nada usando ideias minhas, o que é o cúmulo do opróbrio de um autor na visão do filósofo tedesco. Em partes. Foi preciso algum fosfato para condensar isso tudo, afinal.
Chega de falar de livros e autores. Morreu o poeta, eis tudo, diria a perversa "objetividade" - sei - dos nossos tempos. Diria. Porque se você for agora neste link, e acessar o blogue de José Saramago, lerá toda a singeleza de um belo epitáfio, toda a leveza de um panegírico sincero, de belas palavras, bem colocadas. Um lide, sim senhor, lide que nenhum repórter de qualquer conglomerado seria capaz, porque é um lide que se dá ao direito de sentir e de lamentar uma perda. E a morte é isso, por mais que nos queiram dizer o contrário.
José Saramago.
Dá até vontade de dar uma morridinha para ganhar palavras assim: havia, agora não há mais.
às 21:20 0 comentários Marcadores: Atualidades, Cultura, Mídia
Música para meus ouvidos
Você pode até considerar exagero quando algum fã de Fórmula 1 diz que ouvir os motores berrando em 18 mil rotações por minuto pelos autódromos do mundo é música. Agora terá de concordar.
No vídeo abaixo, um Renault canta o hino da Inglaterra (ou da Grã-Bretanha? Ou do Reino Unido?), "God Saves The Queen". Isso é possível através de uma programação no módulo eletrônico que gerencia a atividade do motor, fazendo com que ele altere seu regime de trabalho na modulação da música, produzindo a melodia:
Em teoria isso seria possível nos motores dos nossos carros de rua, que são também gerenciados por módulos eletrônicos, conhecidos vulgarmente por injeção eletrônica.
Apenas para constar: é o Renault R25, de 2005, com o qual Fernando Alonso conquistou o primeiro campeonato mundial. O vídeo foi filmado no Festival de Goodwood de 2006, que é um evento de automobilismo muito cultuado na Inglaterra.
às 18:00 0 comentários Marcadores: Fórmula 1
Versos para combater o clamor
Um verso:
para amar.
Dois versos!
para viver.
Três versos:
para dizer adeus.
Quatro versos?
para se arrepender.
sábado, 16 de maio de 2009
Hans Donner já era
Eu simplesmente amo F1. Do reduzido número de coisas que eu realmente gosto, a Fórmula 1 é uma das mais importantes. Não perco uma corrida, sempre estou lendo sobre o assunto. Estou aos poucos criando um acervo de corridas antigas... enfim, é uma paixão.
Em muito alimentada pela meu maior sonho de criança, que era ser piloto. Lógico que não tive a menor chance de pô-lo, o sonho, em prática. Assunto para um texto, quem sabe, quando eu esteja inspirado a me queixar da vida.
Enfim, este post irá inaugurar uma nova categoria aqui no blogue: Fórmula 1. A ideia é, para não espantar meus sete leitores, a tanto custo garimpados em quase três anos de blogue, falar apenas de curiosidades e coisas interessantes da F1.
E hoje recomendo que façam a seguinte comparação: o primeiro vídeo, abaixo, é a vinheta da Rede Globo, para a transmissão das corridas. Na sequência, a vinheta da BBC (é a versão mais longa, usada na primeira corrida do ano, a versão que a BBC vem usando é mais curta, e começa aos 1:20 do vídeo - assim que eu tiver tempo, faço umas legendas para ele):
Abertura da Globo:
Abertura da BBC:
Se você for mais impaciente, pode ver a versão normal aqui.
E aí? Hans Donner tá bem desatualizado, certo?
às 20:29 0 comentários Marcadores: Fórmula 1, Mídia
O mundo sem ninguém
Dia desses, usufruindo de TV a cabo, tropecei num documentário do History Channel sobre como seria o mundo se a raça humana desaparecesse. É sensacional. Perceber a decadência dos vestígios de nossa civilização ao longo de décadas é uma impressão interessante, que nos faz lembrar o quanto somos todos episódicos no mundo.
Se você quiser baixar o documentário "O Mundo Sem Ninguém", vá aqui.
Mas... não é exatamente sobre isso que eu queria falar. Na verdade, não sei direito sobre que queria falar. Conversando com meu avô lembramos hoje o desastre de Chernobyl. Trata-se de uma cidade ucraniana onde havia uma usina nuclear e que explodiu, ainda nos tempos em que a Ucrânia era parte da URSS. Isso foi em 1986, antes, portanto, da queda do Muro de Berlim, que aconteceu em 1989 e azedou a vida dos soviéticos.
Lembrar dessa história tem todo um simbolismo especial na minha família e no meu meio. Somos por aqui decendentes diretos de ucrânianos, e a tragédia que se abateu em Chernobyl há 23 anos nos diz muito respeito.
Ninguém é capaz de precisar até hoje quantos morreram em função do desastre na usina. Há pessoas que ainda hoje sobrevivem com sequelas do acidente. Sabe-se, contudo, que mais de 200 mil pessoas foram evacuadas na região da catástrofe e que o local, onde ainda há grande radioatividade, estará limpo novamente daqui 1000 anos. "Foi uma tremenda cagada", sentencia, sábio, meu avô.
Em números, a explosão do reator expeliu radioatividade 100 vezes maior do que em Hiroshima. "Então por que não houve devastação como no Japão?", perguntei-me. Simples, pequeno gafanhoto, respondi, "ocorre que no Japão foi uma bomba, uma detonação nuclear. Ali explodiu um reator que expeliu a radioatividade que ficava restrita a ele". E só não há mais vazamentos porque o reator explodido foi isolado com sucessivas camadas de ferro, chumbo e concreto, criando o que chamam de sarcófago, de onde a radioatividade, espera-se, não pode escapar.
Como algumas medidas paliativas para reduzir a hecatombe foram tomadas, há alguns pedaços de Chernobyl em que pessoas podem andar sem problemas, desde que munidas de um medidor Geiger - aquele aparelhinho que apita quando há radiação - e que lhe dirá até onde você pode ou não ir. E é nessas excursões que surgem fotos incríveis, como as que selecionei e pus no slide-show abaixo (passe o mouse que a imagem para):
Com menos de 50 anos, Chernobyl, sem o controle do homem, está assim. E aí a gente vê o quanto somos fracos perante a natureza, no fim das contas. Há uma ucraniana que escreve muito sobre o tema, Elena Filatova, que resume bem a sensação de ver o espaço abandonado, morto e desolado de Chernobyl: "o problema de Chernobyl é que ela não deixa nenhuma esperança".
Falam que a esperança é sempre a última que morre. Pode ser. Mas sem dúvida ela é a primeira que adoece.
às 16:44 0 comentários Marcadores: História, Memórias
sexta-feira, 15 de maio de 2009
Por que dente tem nervo?
Ok, provavelmente há uma excelente resposta, mas não há meios de que eu me convença, de que eu tolere um bom motivo para que dentes tenham nervos. Afinal, eles não são imóveis? Sua função não é apenas triturar o alimento? E não fazem isso através de movimentos voluntários da mandíbula? Diante de tudo isso, pergunto, pra quê ter nervo?*
Era o que me perguntava há dois dias. E na verdade ainda me pergunto, mas em menor intensidade. Sentando na sala de espera do dentista, o mesmo de uns 12 anos, pensava em qual seria a razão para que os dentes tenham nervos. Não a encontrava. Mas sentia que precisava dela antes que chegasse a minha vez de consultar. Sou um sujeito muito curioso.
O dente, um dos molares superiores do lado esquerdo, doía em virtude de uma quebra. E doía, meu Deus, como doía. Eu dizia a mim mesmo que o arrancaria sozinho se a dor não parasse. A dor de um dente, vim a saber depois pesquisando no Google, é comparável, em alguns casos, a dor do parto. Particularmente não acho que tenha me doído tanto assim, sempre achei de um heroísmo incrível as mulheres suportarem o parto, e emparelhar meu dente zoado nesse patamar me pareceu presunção. E herdo de minha mãe a característica de ser bastante tolerante a dor física, motivo pelo qual só fui procurar o dentista depois de quase enlouquecer de dor. Ingênuo, achei que passaria por si.
Mas o fato é que doía miseravelmente. Eu tinha vontade de dar com a cabeça nas paredes, não podia dormir direito e três comprimidos de paracetamol não tiveram o menor sucesso em sequer diminuir a dor. Foi uma noite longa. Percebi que diminuindo o fluxo de sangue para a região do dente, diminuia um pouco a dor. Passei, portanto, a deixar a cabeça levantada, o que acabou com minha noite.
Sozinho na sala de espera, pude me observar no espelho e finalmente compreender a expressão que diz que determinada pessoa tem o hábito de fazer "cara de dor de dente". Rosto franzido, cenho carregado, olho expremido e uma sensação de gravidade, seriedade estampada no semblante. É essa a cara de dor de dente.
Pensava ainda no porquê do dente ter nervo. E cheguei à resposta: pra doer. Só pode ser por isso.
Sentava na cadeira do dentista. Sujeito simpático, gosta de conversar, mas sempre me sinto mal nas suas consultas, porque adoraria conversar com ele, cordial, articulado e inteligente - fez especialização na Sorbonne, em Paris - mas é impossível responder com a boca escancarada e isso me faz sentir mal. Parece que mato a conversa; enfim.
Temos uma longa história, o dentista, eu e sua assistente. Ambos, a assistente e o dentista, parecem não envelhecer. Fernanda e Duílio. Pela diferença de idade é, ainda que preconceituosamente, difícil imaginar um enlace romântico. Mas como só os conheço dentro daquele espaço exíguo do consultório de esquina, me parece, muitas vezes, que ambos habitam ali. Como se vivessem no consultório, fossem autômatos, e não pessoas que têm famílias, memórias, projetos e vidas.
Lembro de uma consulta de rotina, há uns 8 anos atrás, talvez até mais, que o dentista implicou com a boa quantidade de cistos sebáceos na minha face e se ocupou em furá-los. Fiquei emputecido, externei, como todo adolescente babaca minha revolta em casa. Ele ficou sabendo. Hoje, sempre que me vê, lembra do episódio e eu me sinto um babaca. Acho que ele sabe disso e justamente por isso não me deixa esquecer a história. Contudo quero deixar claro que eu tinha razão: dentista mete-se com a boca. Quisesse eu uma limpeza na face, teria ido numa clínica de estética, ou num dermatologista. E folgo muito que, dessa vez, quando ele lembrou do evento, tenha dito algo assim. Posso dizer que, enfim, venci. Chupa, babaca.
Sentado ali, com a anestesia, me senti livre. Parecia que a dor, enfim, poderia ser vencida. Parecia que eu poderia esquecer o sofrimento que ela me causava. Eu me sentia como o personagem do filme "Como fazer carreira na publicidade?", que conta a história de um publicitário que um dia se depara com um furúnculo. O furúnculo cresce e toma sua vida, ganha personalidade. Parece ruim, mas é um excelente filme, uma mistura de comédia de humor negro e non-sense com um toque filosófico, profundo mesmo, da discussão dos valores dos anos 1980, sobretudo na ótica dos yuppies. Curiosidade: o filme era fruto de uma produtora de George Harrison, meu beatle favorito, que se ocupava em filmes alternativos e legais.
Me sentia como o personagem do filme, parecia que aquela dor profunda e latejante começaria a criar vida, a interagir comigo. O latejar incessante parecia me lembrar algo, querer discutir alguma coisa. Era uma sensação bizarra e claustrofóbica que teve fim em três agulhadas de anestesia.
Mas, como tudo na vida, a anestesia também teve seu fim. E eu de dente reconstruído, voltei a sentir dor. Em menor intensidade, é verdade, mas ainda dói. E só hoje, no terceiro dia, os analgésicos conseguem fazer algum efeito. Estou, pasmem, sentindo falta da dor. É como se eu quisesse conversar com ela, como se ela estivesse passado por aqui para dizer algo. E eu não perguntei, porque estava ocupado demais a expulsando e me lamentando miseravelmente, esperando a morte chegar.
Paciência. A vida é feita de palavras não ditas, verdades ignoradas. Sentimentos escondidos. A gente vive assim, se enganando. É inevitável. E só é ruim quando nos damos conta de que fazemos isso e que, por termos ido tão longe no enganar a si próprio, talvez, seja já demasiado tarde para uma verdade que conserte tudo.
Acho que o dente ainda vai doer, contudo. Mas sem a mesma intensidade, como se a dor agora fosse outra, mais administrável. A dor verdadeira, acho, não volta mais. Assim como a palavra não proferida, como vim a descobrir recentemente.
*Ah sim, a razão para que dentes tenham nervos, diz-me o dentista, é porque assim podem regular o crescimento de dentina, que é o tecido que compõe o dito cujo. Ainda acho que é só para doer. Unhas não têm nervos e crescem também. Idem para os cabelos.
às 17:18 1 comentários Marcadores: Memórias
