quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Rádio: The Doors - Riders On The Storm

Às portas para uma nova consciência:


Do fundo da moringa

Chega, meu caro
paremos com isso
A vida urge...
e sonhar dá esclerose
chega de verso choraminga
a garganta está seca
tome uma outra dose
esvazie a seringa
é serotonina na veia
e poesia por osmose.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Inoxidável

Eu sigo
todo-poderoso na minha impotência
invencível na minha irresolução
inflexível no meu eterno impasse
eu sou o triunfo da experiência
e o fracasso da boa vontade
eu desfaço a indecisão,
eu sigo à deriva com classe
sou inexorável na fraqueza
desdenho da certeza
eu sou metade escolha
metade covardia
eu sou uma nova consciência
uma filosofia tardia.

A verve de Winston Churchill

Não é segredo para ninguém a admiração que voto a Winston Churchill. A sua biografia é algo impressionante, seus modismos, seus trejeitos, seu sotaque. Enfim, eis aí um sujeito apaixonante.

Churchill era muito bom frasista, e foi da sua capacidade espetacular de se expressar verbalmente que conquistou o povo britânico, comandando a resistência e a vitória britânica na guerra, sobretudo quando a Inglaterra lutou sozinha contra o Eixo. E dessa capacidade também, ainda que de certa forma tenha sido um prêmio político, o Nobel de Literatura de 1953. Churchill, de jornalista a historiador, de político a escritor, de orador a estadista tinha um raciocínio agilíssimo, que o fazia responder muito bem a quaisquer provocações ou situações difíceis. Seus aforismos são sensacionais, e já os mencionei aqui e aqui. E aqui existem outras tiradas:



Mas descobri outros, menos famosos, mas tão engraçados quanto no livro "A Verve e o Veneno de Winston Churchill", que eu reivindicaria como presente de Natal, tivesse eu quem me presenteasse e não tivesse eu, enfim, comprado o livro.

Algumas frases colhidas a esmo:

Pressionado por um diplomata britânico para agradar o líder francês Charles de Gaulle (a quem descrevera como "parecido como uma lhama fêmea surpreendida em pleno banho"):
"Vou beijá-lo nas duas bochechas - ou, se você preferir, nas quatro".

Havia um parlamentar que insistia em interromper ruidosamente um de seus discursos:
"Vossa excelência não deveria, de fato, gerar mais indignação do que aquela que é capaz de refrear".

* Depois de uma série de viagens nos EUA e no Canadá nos anos 1930, perguntaram a Winston se ele tinha alguma queixa a reportar sobre a América do Norte:
"Papéis higiênicos muito finos, e jornais grossos demais".

* A política de panos quentes conduzida pelo seu antecessor no cargo de primeiro-ministro inglês, Neville Chamberlain, contribuiu muito para desandar a Segunda Guerra Mundial. E entre muito do que disse sobre o assunto, Churchill declarou:
"Foi-lhe dada a oportunidade de escolher entre a guerra e a desonra. Ele escolheu a desonra e terá a guerra".

* Montgomery, o vencedor de El Alamein, foi um dos grandes comandantes britânicos na guerra. E era tido como chato. Embora votasse ao general legítima amizade, Churchill disse sobre ele:
"Indômito na retirada, invencível no ataque, insuportável na vitória".

Durante a camapanha no Norte da África, o VIII Exército fez prisioneiro o general alemão Wilhelm Von Thoma, e o General Montgomery, comandante das forças britânicas, o convidou para jantar em seu QG. O caso gerou repercusão e enorme polêmica na Inglaterra, pois tratava-se de um general confraternizando com o inimigo. Churchill reagiu assim à polêmica:
"Tenho simpatia pelo general Von Thoma. Derrotado, humilhado, no cativeiro e... (depois de longa pausa para salientar o efeito dramático)... ainda ter que jantar com Montgomery!".

"Engolir minhas próprias palavras jamais me causou indigestão".

* Foi para defender a Polônia que a Inglaterra entrou em guerra - e verdade seja dita, não fez absolutamente nada, em duas semanas a Polônia tornou-se parte da Alemanha. E foi a Polônia o cerne das disputas entre Churchill e Stalin no fim da guerra. Churchill a queria livre e alinhada com o oeste capitalista, Stalin a queria como satélite soviético:
"Existem poucas virtudes que os poloneses não possuam - e poucos erros que não tenham cometido".

"Minha mulher e eu tentamos duas ou três vezes tomar juntos o café da manhã, mas foi tão desagradável que tivemos que parar".

Quando finalmente aceitou a ideia de mulheres exercendo cargos públicos, Churchill assinou o decreto com a frase:
"Que venham as mulheres!".

Uma mulher, após a primeira eleição de Churchill para a Câmara dos Comuns, disse-lhe: "há duas coisas que não suporto no senhor: sua política e seu bigode". Winston respondeu:
"Madame, por favor, não se aflija, é muito pouco provável que vá entrar em contato com qualquer delas".

* Saindo de um clube tarde da noite e embriagado, Churchill esbarrou numa mulher, que o censurou por estar visivelmente bêbado:
"Amanhã, madame, eu estarei sóbrio. A senhora, por outro lado, continuará feia".

* Em um momento especialmente difícil da guerra, navios mercantes ingleses sofriam inclementes ataques alemães. Em discurso via rádio, Winston acalmou a população:
"Tenho a satisfação de dizer-lhes... que o ímpeto e a fúria germânica vem excedendo em larga escala a precisão de sua pontaria".

Por fim:

Quando, em 1960, um jornalista do Evening Standard de Londres perguntou o que ele achava da recente previsão de que, no ano 2000, as mulheres estariam governando o mundo, ele resmungou a sombria resposta:
"Continuarão sendo elas, não é?"

* Notas de contextualização redigidas por mim. As demais foram extraídas do livro.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Rádio: John Schooley & His One Man Band - Drive You Faster

Banda pra quê? Você põe um cara, dá um violão ou guitarra, o cerca com a bateria, apóia uma gaita de sopro na boca e deixa o microfone por perto para que ele cante. É o minimalismo na música. John Schooley é praticamente um workaholic do rock. Ele faz tudo sozinho com a sua banda de um homem só. Recomendo os dois discos: "John Schooley And His One Man Band" e "One Man Against The World" (Um homem contra o mundo, em libérrima tradução), procurem na rede que, palavra, vale à pena. É um bom exemplo de som bacana, pouco conhecido, com a especificidade única de ser feito por apenas um cara. É uma das melhores coisas do rockabilly nos macambúzios tempos que correm.


Flagelo

Amar.  
é um
flagelo.

Algo ruim
e incompleto,

Amar
é ver
tudo azul...

... acabar amarelo.

BlogPress é o cara

Não vou mais postar do iPod para não acabar parecendo um desse neófitos irritantes deslumbrados com bens tecnológicos. Até porque não posso me deslumbrar, disponho do aparelho há quase um ano. E também porque os dois posts anteriores não foram os primeiros do dispotivo, há inúmeros assim ao longo desse ano.

A diferença é que os dois últimos vieram de um programa que descobri para iPod Touch e iPhone - como sou hype! - e que se presta justamente a nos ajudar a postar com decência de uma máquina que não possui teclas e, sabe-se, não se posta sem teclas, porque precisamos escrever. O nome do programa, a quem interessar possa, e não possa, é "BlogPress", encontrável no caso de você possuir um cartão de crédito internacional e vontade de adquiri-lo originalmente na Apple Store - custando, no site da Apple, módicos US$ 2,95. Ou no site que congrega as versões, digamos, genéricas dos softwares para iPod e iPhone, que é este aqui, e que eu não estou recomendando, apenas comento neste texto a título de informação. Não vou eu fazer apologia à, te esconjuro, pirataria, vade retro, e acabar tendo meu blogue perseguido pelos pulhas, ignorantes, fascistóides da APCM, gente detestável que eu, após expremer o mais que pude minha criatividade, consegui chamar de "filhos da grandíssima puta da indústria do entretenimento, aquela devassa escrota, de fundilhos alargados por tanta e tamanha putaria no último século, este da reprodutividade técnica, com direito a replay".

O aplicativo, não esqueçamos do nome, "BlogPress", é intuitivo, fácil, funcional e tudo mais. Tem a enorme vantagem de, ao contrário de todos os outros que testei para a função "postar-coisas-no-meu-blogue-a-partir-do-ipod-sem-ser-da-maneira-convencional", funcionar. Fujam dos outros. Todos; testei-os e não funcionaram. Ou não logava, ou não postava, ou postava apenas em "draft" (o post ficava configurado como rascunho), ou aconteciam falhas esdrúxulas com as imagens - e este "BlogPress" permite configuração com álbuns de serviços como o Picasa, o que facilita muito a vida de quem posta com imagens desse banco de... imagens. "BlogPress" é o cara. Fosse eu publicitário, recomendaria o slogan de "um novo conceito em postagem a partir de dispositivos móveis". Por que, me pergunto, as pessoas costumam dizer que seu empreendimento é um novo conceito em alguma coisa? Sendo que nunca é? Uma lan-house que se posicione assim é o quê? Oferece mojito enquanto o cliente navega? Mulheres nuas? Shows de strip? Qual é o conceito de "um novo conceito" para esse pessoal que oferece um serviço sem novidade nenhuma perante o mundo e os seus pares?

Enfim. Agora sim posso viajar tranquilo para onde for, sabedor de que, munido de iPod meus registros inúteis, vazios e dispensáveis do dia-a-dia poderão ser divididos com meus 9 leitores em tempo real. E nem preciso me preocupar em espremer tudo em 140 caracteres.

É só vantagens a vida com um iPod Touch.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Miopia

Cara, como eu odeio usar óculos.


-- Post From My iPod

Teste



Testando o iPod...


-- Post From My iPod

sábado, 12 de dezembro de 2009

Sapo e Princípe

Numa inauguração recente, Lula disse a palavra "merda". Inauguravam obras de saneamento básico e Lula disse que não interessava a ele o partido do prefeito daquela ou de qualquer outra cidade, interessa saber se "o povo está na merda, e quero tirá-lo da merda em que se encontra".

Curto e grosso, sem eufemismos. Claro que muita gente se horrorizou, afinal, é o presidente da república. E claro que a gente que se horrorizou é a que não compreende que um sujeito como esse, vindo de onde veio, sem diploma, nenhum pouco poliglota, que ainda fala errado, tem vícios de linguagem constrangedores e metáforas ignóbeis tenha mais de 80% de popularidade aqui no Brasil.

Essa gente não entende nada. Cheguei a essa conclusão. Esse povinho está orbitando numa outra galáxia. O presidente falar merda os choca, os ex-presidentes, como FHC e Sarney, que só fizeram merda, não os constrange.

Falando ou não merda, Lula foi escolhido pelo "El País", atualmente considerado por muita gente de tino o melhor jornalismo do mundo, o personagem do ano. Nas publicações mais sérias do planeta, não importa o matiz que as norteia, o presidente que fala em tirar o povo da merda é festejado como estadista e líder contemporâneo incontestável. As posições de Lula são consideradas em qualquer debate mundial, o Brasil está no mapa.

Ao tucanato empoado e plutocrata que desmontou o país, e não falou em merda, mas a fez em proporções industriais, nenhuma mísera linha em qualquer lugar.

Lula foi, sim, vulgar no que disse. Mas que bom que é no que diz. Triste mesmo é quem sempre foi vulgar no que fez, e sempre contou com a gentil guarida de uma imprensa preconceituosa e abobalhada, que ainda hoje tece teorias e elipses para entender um operário presidente. E estadista.

O sapo não é, pois, o que fala merda. Esse, boquirroto, é o príncipe. O sapo é o que só fez merda e não entendeu nada.



Rádio: The Rolling Stones - You Can't Always Get What You Want

Sou visto como herege pela maioria de meus amigos, mas não tem jeito, aos meus olhos, e ouvidos, Rolling Stones é melhor que Bealtes. Muito melhor. Gosto mais, e pronto. O que não quer dizer, de maneira nenhuma, que desgoste de Beatles, ou que os ache ruins. Beatles é genial, só que Rolling Stones é melhor.

A canção abaixo não é das mais famosas, mas compõe um dos discos mais conhecidos, e por sinal meu preferido, de 1969, "Let It Bleed". Sacaram o trocadilho? Beatles é "deixar ser". Stones, deixa sangrar. Rá, eles são mais legais, não tem como negar. Nos Stones ninguém tem aquela afetação toda do Lennon. Aliás, Mick Jagger, nunca, jamais, sob hipótese alguma, casaria com alguém como Yoko Ono, basta ver a lista de beldades que já frequentaram a alcova do vocalista - e essa postura judiciosa de Jagger em relação a mulheres feias e irritantes pode ser um dos segredos da longevidade dos Stones. Keith Richards, guitarrista, é um mito porque há uma lenda de que ele teria fumado as cinzas de seus pais mortos. Além do que, ele não nega para ninguém, largou da heroína depois das sucessivas e intermináveis internações. Mas ainda fuma e bebe como se tivesse 20 anos. Ele tem 66. Os Bealtes não tem charme.

Na verdade acredito que os Beatles só ficaram do tamanho que ficaram porque acabaram. Porque tiveram sua trajetória interrompida, foram alçados ao status de mitos. E são, não há que se negar. O fato é que, sob esse ponto de vista, se não tivessem acabado, estariam no nível conferido pela massa aos Stones. E de mais a mais, Beatles é muito "modinha". Convencionou-se que é bom, então você tem que conhecer, e achar legal. Aí falta tempo para ouvir e contrapor outras bandas e artistas do mesmo período, que foram tão ou mais importantes. Enfim, sou recalcado e acho injustiça o cartaz que os garotos de Liverpool têm.

Sem mais delongas:



"Você não pode ter tudo que quer... mas se você tentar algumas vezes, yeah, você encontrará o que precisa".

MSN

"Vai no show do Wander Wildner no hoje? Ouvir "Mantra das Possibilidades" e "Eu Não Consigo ser Alegre o Tempo Inteiro"?

Vou sim. E, nossa, vou me afogar no meu próprio veneno e apodrecer mais ainda, corroído pelo rancor e ódio se não tocar o "mantra".

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Dizendo adeus

Ah meu amor,
agora eu vou mesmo
vou-me embora
vou do meu jeito
pelo caminho escolhido a esmo
pra nunca mais voltar, vou agora
negando tudo, com a mão no peito,
é hora de jogar tudo fora.

Vou sim, meu amor.
Não vou te dizer adeus,
meu coração, nada foi perfeito
não vou chorar,
quero que não me esqueça
porque eu vou te lembrar
coração, eu levo você na cabeça
e te deixo toda a minha solidão
porque quero entrar leve nesse novo caminho
carrego só as minhas lembranças
Aonde quer que eu vá, vou sozinho
A você, tudo, teus sorrisos e minhas desesperanças.

Eu vou, eu vou.
Não vou mais demorar,
eu escolhi o rumo,
Não quero nem saber, mulher,
vou-me porque o futuro pega na minha mão.
Vou, coração, porque você quer
vou porque sou valente até na minha covardia
vou correr os caminhos do mundo
e desandar o desatino imundo
de te deixar
vou esquecer da galhardia,
da jura e do destino,
vou pensar em mim e no que estimo,
mesmo que a dor não me deixe mais voltar.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Aforismos - Igreja

A Igreja levou 400 anos para perdoar Galileu Galilei. Aliás, perdoá-lo por ter ele, Galileu, dito a verdade, fruto de sua inteligência, é quase como prender um policial por ele ter descoberto um criminoso. Considerando tamanha demora para "perdoar" (!?) uma verdade, não consigo ser otimista em relação às indulgências que os fiéis pedem pelos seus pecados reais.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Rádio: Nirvana - Heart-shaped Box

Fui começar a ouvir Nirvana com mais atenção e interesse muito recentemente. Antes eu não ouvia, achava até mesmo chato, conhecia só as músicas mais "gritaria", que era como as classificava, e achava - correção, ainda acho - a vida depressiva do Kurt Cobain uma merda e que se ele fosse mesmo inteligente, estava aí ainda hoje engravidando as toneladas de fãs chatas que ele deixou. Enfim, também costumo desdenhar olimpicamente de seus fãs anarco-punks que acham o life-style do vocalista um padrão, um exemplo de vida. Depressão é doença e quem pensa o contrário, acha legal, é um tremendo babaca.

Mas isso tudo não me impede de render panegíricos para tudo que a banda conseguiu construir numa trajetória tão curta - sua influência, por exemplo, nos livrou dos sintetizadores e do Duran Duran e asseclas dos anos 1980, numa visão histórica bastante simplista, ignorante, torpe até, que é bem típica das minhas generalizações, expediente discursivo que recorro quando tenho enorme preguiça de fazer digressões. Nirvana é demais, das bandas do início dos anos 1990 vindas de Seattle só fica atrás do Screaming Trees, segundo as minhas contas, que se frise. Nirvana vale à pena ser ouvido. Heart-shaped box é uma das minhas preferidas do grupo:



"I've been locked on your heart-shaped box for weeks".

Morreu Alborghetti

Um reacionário a menos no mundo. Morreu hoje Alborghetti, o que deve ser motivo de gáudio para muita gente togada que o processava em virtude da sua, digamos, pouca fineza no trato acerca de questões diametralmente maiores que a bitola da mente meio bronca de quem dizia "bandido bom é bandido morto". Não comemoro falecimento de ninguém, ao contrário dele que cantava "Aleluia" de Handel sempre que um bandido era dado como morto. Apenas me compadeço, porque sem suas escatológicas exortações o mundo me ficará um pouquinho mais sem graça.

Deve ter morrido de overdose, como todos os ídolos da minha geração. Abaixo você acompanha alguns dos grandes momentos do mestre Dalborga.

Vá a merda, porra!



Isso é uma putaria!



Ééééééééé boa noite!


Rádio: Raul Seixas - Tu és o MDC da Minha Vida

"Não há Pepsi-cola que sacie a delícia dos teus beijos".


O obscurantismo de Bento XVI

Há uns anos, 2005, acho, quando a Igreja Católica reunida em conclave escolheu o atual papa, considerando que podiam ter naquele instante escolhido um negro, um asiático ou até um latino-americano, ou ao menos alguém de perfil moderno e liberal, e optaram por um alemão conservador, ex-membro da Juventude Hitlerista, a quem um show de rock não é uma manifestação cultural, mas sim um culto ao satanismo, dentre outras idiotices, eu disse cá com minhas teclas cor-de-marfim: "a Igreja deve ter chegado a conclusão de que tinham fiéis de mais e que poderiam perder pelo menos a metade".

Bento XVI, que não é nome de pontífice, é nome de caipira, disse ontem, perante o monumento do Imaculado Coração, lembrado no dia de ontem em cerimônia, que a imprensa, a comunicação e a mídia, ao noticiarem o caos em que o mundo se encontra, são, na verdade, culpados do estado das coisas. Para o papa, as notícias das catástrofes hediondas que compõem o rosário de misérias da vida cotidiana "endurecem o coração dos homens". O papa, portanto, presume que o homem só pode ser feliz se nada souber. Ao papa, às luzes que iluminam a mente do homem e o dão a conhecer o mundo são nefastas.

É impressionante. Pessoas morrem de fome na Etiópia. A mídia notícia, e a culpa, segundo os tortuosos e obscuros recursos mentais de sua santidade só pode ser de quem reporta. Ao papa convem culpar os meios de comunicação por observarem e reportar o mundo, mas jamais, sob hipótese alguma, perceber que a instituição que comanda, a Igreja Católica, tem parcela de culpa incomensuravelmente maior em muita desgraça que se desenrola sob os nossos pés. Curiosamente, no entanto, a Igreja que ele comanda dispõe de um canal no YouTube (onde podemos vê-lo dizendo que a mídia é um mal do mundo), redes de TV e sites de notícia pelo mundo todo. E as suas declarações ignóbeis só chegam aos ouvidos dos seus fiéis porque há uma mídia para reportá-las - grande parte dessa mídia é aparato do Vaticano, inclusive. Esse papa é muito burrinho.

O papa, ao dizer que é o fato de conhecer o mal das coisas que nos faz frios e de corações endurecidos, parece pegar na bandeira do obscurantismo, centelha às avessas tão cara às organizações de caráter didatorial e obscurantista, como são, via de regra, todas as religiões. Ao dizer que é o fato de dar a conhecer o que vai mal às sociedades que faz com que o mal se perpetue, o papa parece se abraçar na ideia de que se conhecermos menos, melhores seremos, mais aquecidos são nossos corações. Se eu não souber de uma catástrofe, então, tenho coração melhor. Se eu não souber de um crime chocante, mais capaz de piedade eu serei - quando é justamente o contrário, me dei conta do horror do mundo, e ainda penso nisso, quando um menino morreu arrastado num assalto ano passado. Ao papa convem que sejamos ignorantes acerca do que nos cerca, assim seremos melhores, mais integros, quiçá felizes. Na verdade ele não é burrinho, essa lógica é a que permite a subsistência da Igreja: medo, ignorância, temor pela liberdade advinda das luzes, das ideias. Ao papa interessa que ignoremos a realidade do mundo, e fiquemos a contemplar a beleza incidental das flores que rebentam dos botões no campo por obra divina.

Num único discurso aquele que é o depositário da imagem de bondade e integridade que tanta gente procura em ícones - e o papa é um - desmente mais de 400 anos de filosofia ocidental. Joga no lixo o iluminismo, a liberdade pelas ideias, desmente o progresso humano na esteira das noções de liberdade e igualdade que andam juntas, de mãos dadas, aos tropeços, mas sempre unidas, de saber e ser livre. Noções que desaguaram em catástrofes, não há dúvida, mas que permitem, por exemplo, hoje uma mulher usar calças e ir trabalhar. Ou eu dizer que o papa é burrinho e não ser queimado vivo como herege.

Ao papa, sinceramente, minhas condolências. Que ele suponha que sua massa cada vez menor de seguidores o creia e dê fé nas sandices que declara de vez em quando não me surpreende. Mas que espere que gente de discernimento compre ideias tão derrotadas e ultrapassadas é algo que merece apenas minha mais profunda piedade. E pasmo: porque até poucos anos atrás o Vaticano e a gente de batina e solidéu dizia que tudo que o papa proferia vinha da boca do Deus presumido. O princípio da infalibilidade papal que era, e ainda é, porque há quem o defenda, absolutamente imbecil. O papa não é deus e nem está em conexão com um, qualquer que seja ele. O papa é humano, demasiado humano.

Não é atoa que Schopenhauer disse que as religiões são como vagalumes: precisam da escuridão para brilhar. E é isso que Bento XVI nos demonstra, que o mundo sem saber do que é o mundo é o lugar ideal, porque só aí nasce bondade e o bem. Para sua santidade conhecer e saber não liberta, não engrandece. A Igreja, não se enganem, precisa de escuridão, medo da morte, crença na punição, dualidade entre o bem e o mal, a fé no demônio para existir. A Igreja não me inspira à piedade pelos homens, a Igreja me inspira à piedade por ela, Igreja, tão desengonçada e alheia da realidade. A Igreja me dá pena, porque é uma das instituições com maior potencial de unir e congregar pessoas em torno de coisas realmente boas e importantes, mas o faz apenas para louvar a Deus, o que pode ser muito bonito e válido em algumas culturas, mas é de uma redundância atroz: se eu sou Deus e tenho consciência disso, pra que raios preciso de multidões bradando meu nome e me lembrando do quão fodão eu sou, se eu já sei?

Sempre achei presunção demais supor que um ser infinito, um ser indefinível pelas medidas que damos às coisas do nosso mundo, carecesse do nosso louvor.

É aquele velho aforismo: se há um deus indiferente a nossa dor, não sofreremos, porque a ele tanto se lhe dá o que fazemos ou não fazemos. Se há um deus justo, nesse caso, podemos todos ficar tranquilos, porque ele não poderá nos punir pelo uso honesto e consciensioso da racionalidade. E nem da mídia como forma mais ou menos eficiente de nos informar-mos sobre o mundo. Mas se, por fim, há um deus injusto, aí sim, devemos todos temer, tal como o cristão de quatro costados, porque o desequilíbrio dessa entidade poderá nos cegar e nos avacalhar miseravelmente. Poderá esse deus dizer que, enfim, saber é mal, que o homem que resolve conhecer as coisas mediante a observação e a ponderação da realidade que o rodeia terá o coração endurecido e merece o fim ignominioso que se dá àqueles que pensam diferente.

Diante disso, voto no deus justo. Ou no deus de "um sábado qualquer". Ou ainda em deus nenhum.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Trocadalho

"Torcedores do Coritiba usam pedaços de madeira e placas de publicidade para agredir a polícia".

Propaganda é a arma do negócio.

Direitos autorais

Tudo bem, tudo bem. Coisa feia essa história de mensalão no Distrito Federal. Tudo bem. Mas que José Genoíno e José Dirceu, não esquecendo do tucano Eduardo Azeredo, deviam cobrar royalties pelo modelo de corrupção e, digamos, gerenciamento político, ah, isso deviam.