Morreu José Saramago. Tudo se cala, a palavra não flui mais, todos os adjetivos empalidecem, o verbo não flexiona, a voz não exprime, o pensamento empalidece. Porque havia José Saramago, e deixou de haver. Já não há mais.
No fundo de tudo que há para se calar sobre a lamentável notícia, me vem no fundo do peito uma frase que abria um livro e dizia, solene e impactante, que "no dia seguinte, ninguém morreu".
Eu digo que, doravante, à luz da perda irreparável, no dia seguinte, ninguém viveu.
sexta-feira, 18 de junho de 2010
Não há mais
às 09:29 0 comentários Marcadores: Atualidades, Cultura, Memórias, O dia em que cresci
segunda-feira, 14 de junho de 2010
Escaravelhos de quitina
Observava eu um besouro inadvertido. Deslocado no tempo - é inverno - e no espaço - é São Paulo - rastejava com seus três pares de patas quitinosas, arriscando uma caminhada muito inútil para quem sabe voar - mal - mas sabe. Besouros, o sabe toda gente, podem ser também chamados de escaravelhos. Escaravelho é uma palavra bonita. Escaravelho de Ouro é o nome de um livro de Edgar Alan Poe que eu li, mas não lembro nem de como começa, nem do que se trata - se de escaravelhos em si ou de presumidos - e muito menos recordo-me como se acabam as portentosas linhas do Machado de Assis dos norte-americanos.
Besouros, ou escaravelhos, conforme eu mais ou menos disse, são criaturas que não deviam voar. Aerodinâmicamente seus corpos rotundos seriam proibitivos para qualquer evolução no ar e sua relação de peso/força é claramente alta, o que deveria segurá-los ao chão e evitar que voassem às cabeçadas por aí. Besouros não foram feitos para voar, mas voam. Besouros não sabem nada de aerodinamica, força, torque, peso - e por isso voam às apalpadelas.
Escaravelhos, ou besouros, são criaturas irrelevantes às quais votei insuperável pavor nos meus cinco anos de idade. Me apavorava a imperícia - que sempre superou em larga escala a capacidade dos bichos em fazer mal - com que voavam aos tropicões. Meu pavor era que me caísse um nos cabelos. Ou na boca.
Toda essa fixação sobre os distintos artrópodos negros, que voam sem que devessem voar, veio não apenas de ter topado com um. Ocorre que li algo de Ivan Lessa dando conta de que os bichos, na África do Sul, atraem-se por 1,5 kg - nada menos, nada mais - de bosta de elefante. O que me deixou deveras curioso. Afinal, bosta?
Nunca notei nas fases de muitos besouros pelo chão da escola uma igual incidência de montículos de bosta esturricada de sol, ou fresca e tenra, recém saída das entranhas de algo - muito menos de algo grande, cinzento, adornado por enormes presas de marfim e complementado por uma tromba. Creio que, portanto, os bichos, ao menos aqui no Brasil, não se atraiam por qualquer quantia mais ou menos ordenada, esturricada ou não, de bosta. Besouros, aqui, servem para aparvalhar guris incautos e, com o passar dos anos e perda das graças, dar o que pensar quanto as possibilidades aeronauticas de seus nada esguios corpos.
Nunca tive o tamanho azar com besouros, de tê-los na boca - embora tenha caído-me algum no cabelo. Cresci um pouco e perdi o pavor. Fiquei, como mais ou menos tudo na vida, indiferente aos insetos. Com o tempo comecei a me dedicar a arte de catá-los no chão na época em que abundavam no pátio da escola, tendo sempre o cuidado de escolher aqueles vivos, e a correr com eles nas mãos atrás das meninas. Me divertia fazê-las gritar de pavor e jogá-los, os besouros, nas suas cabeças, onde se embrenhavam e se debatiam nas suas vastas e lisas cabeleiras.
Saudades de quando os besouros me eram úteis.
às 19:17 1 comentários Marcadores: Memórias
Aforismos - Apaixonar
Quando um homem domina todos os saberes, tem plena consciência de tudo que está acontecendo, ele seduz. Quando um homem não faz a menor ideia do que está acontecendo, ele se apaixona.
às 18:25 1 comentários Marcadores: Aforismos
quinta-feira, 10 de junho de 2010
Teste de lógica nº1
A qualquer momento, ou nunca mais, um novo teste de lógica a desafiar a falta de lógica religiosa/bíblica:
às 22:21 0 comentários Marcadores: Evangelhos
segunda-feira, 7 de junho de 2010
Pressinta
Não é a mentira dita
a ofensa fria
e não é o que se entende
o mal de tudo é o que se pressente.
O mal de tudo é o abraço
é o calor que já não me acolhe no teu regaço
o mal de tudo é o que se sente
à mal da verdade, o bem de tudo
é que no fim das contas,
sei que você mente.
domingo, 6 de junho de 2010
Rádio: Mark Lanegan - Last one in the world
Ingresso comprado para o maior show de todos os tempos em 24 de junho vindouro. Dane-se a Copa, dane-se o trabalho, vai ter que caber, porque é show do Marquinhos, que sabe das coisas:
às 00:15 0 comentários Marcadores: Rádio blogue
sábado, 5 de junho de 2010
Fugindo da literatura e de suas emissárias
É um episódio menor na escala cosmológica da minha vida, mas voltava do cinema (conservo com muita galhardia o bom hábito de ir ao cinema sozinho) e tropecei numa dessas agitadoras culturais que abundam na região. Tratava-se de um coletivo de poesia, acho, coisa do gênero, e consistia sua agitação cultural dessa noite fria e nauseante sair perguntando para pessoas desacompanhadas uma frase de amor que tivessem ou dito, ou ouvido, em virtude de um projeto para o dia dos namorados do tal coletivo literário donde milita e onde entrega seu tempo livre. Há louco para tudo.
Alguma confluência astral deu-me vezo de respondê-la quando me abordou. De ordinário, não o faria, seguiria cismando sem dar satisfação a sanha literária de desconhecidos, perseguindo as sombras frias e me esgueirando nas garatujas que se insinuam nos muros e fachadas, me escondendo e escorrendo livre da gente sorridente que assola a região.
Mas dei atenção e respondi. "Qual a sua frase de amor, dita ou ouvida?" Não pestanejei muito, larguei um "mesmo quando estou contigo, sinto a sua falta". Algum efeito causei, porque diferente dos que tinham me precedido, à mim ela perguntou: "hum, mas você disse isso? Quando e a quem?". Fiz transparecer, esbocei, gritei pelas expressões e trejeitos minha intenção de ir embora sem dar resposta alguma. Mas, subitamente, ainda me detive, encarei a garota e disse: "minha querida, o segredo de toda literatura está em não dar todas as respostas".
às 23:01 0 comentários Marcadores: Memórias
Haja coração, amigo, é clima de Copa do Mundo!
Eu olho para este blogue, ele olha para mim. Eu rosno, ele resmunga. Somos alter-egos um do outro e nos damos mal pra cacete. Eu queria descrever um insight meio noire para um texto que tive em virtude de um reflexo meu atravessado numa vitrine da Frei Caneca - véspera de Parada Gay faz da rua mais gay de São Paulo, à noite, transforma nós, homens de todas as orientações, em gatos pardos - mas não vou conseguir porque já há muito que a senhora criatividade não reside aqui.
É, de resto, meu último fim de semana de folga até final da Copa do Mundo. Se antes de começar o torneio pouco eu escrevia, muito menos escreverei a partir dessa semana, agravo que só servirá para alimentar e inflar ainda mais as intermináveis rusgas que alimentamos nós dois, blogue e eu, alter-ego um do outro.
De resto, sigo eu aqui regando as flores mortas do passado, ajeitando a boina, enquanto amaldiçoo, como homem velho e ranzinza que sou, a água que teima em me embaçar os óculos...
às 22:17 0 comentários Marcadores: Memórias
sexta-feira, 21 de maio de 2010
O dia em que falei sobre religião com Xico Sá
Ontem fui beber com amigos e toda a redação na Vila Madalena. Despedidas a fazer, realizações para comemorar. E beber. E eis que, de repente, saindo do Cartão Verde da TV Cultura, Sócrates e Xico Sá aparecem para emendar umas ampolas também. Não conversei com nenhum dos dois sobre futebol, política, medicina ou música. Ao menos, pelo que me lembro.
Mas topei com o Xico Sá na fila do banheiro. Sim, há momentos na vida em que os grandes homens estão no banheiro. Um sujeito, estabanado, entrou e furou a fila. Ao dar por si do agravo, tomou a rabeira da fila e disse "desculpa, não vi o senhor aí".
Xico Sá emendou de primeira um "que isso, senhor está no céu... se bem que eu sou ateu". Aí o sujeito estabanado, "poxa, eu também". E eu também, por minha conta, revelei minha descrença. Um quarto, ainda, se abeirava e teve tempo também de professar sua fé em que nada mais existe.
Fossemos nós crentes, seria quase como uma congregação, um encontro ecumênico. Aos risos, Xico Sá disse que era aquele o maior encontro de ateus de São Paulo. E eu emendei "dá até pra começar uma igreja".
Blogue do Xico Sá aqui.
às 16:33 9 comentários Marcadores: Evangelhos, Memórias
terça-feira, 18 de maio de 2010
O melhor site do mundo é...
... aquele em que você trabalha. Ok, péssimo lugar para fazer propaganda, mas vamos lá. Deem uma olhada no novo site da Placar: http://placar.abril.com.br
Modéstia à parte, um trabalho legal pra cacete.
[/fim da auto-promoção]
Prometo que não faço mais, distinta comunidade de sete leitores.
às 21:34 0 comentários Marcadores: Mídia, Tecnologia
Tricampeonato
Joana era morena e tinha olhos de avelã. Ela me ensinou muita coisa. Era baixa. Os sorrisos de Joana rimavam com seus passinhos leves. Joana flutuava sem medo de cair nos meus sonhos de paixão. Joana adorava maçã vermelha e tinha pele de pêssego. Joana não era mulher, Joana era um clichê. Foi com Joana que aprendi a trair.
Luciana foi meu primeiro amor. Por ela, vi meu sorriso se esvair. De criança, encantamento que se multiplicava nas leves ondulações de seus cabelos morenos e tépidos que nunca logrei desconfiar do cheiro ou mesmo toquei. Gostar dela era heresia, não fazer nada era uma anestesia, fazer algo era temeridade. Derretia ao admirar ela sorrir. Paixão que eu sofregamente alimentava ouvindo sua voz e sonhando com a eternidade. Com Luciana aprendi poesia.
Depois veio Eloísa. Eloísa foi a pior. Eloísa ressaltou o que havia de melhor em mim. Eloísa me fez gente. Por Eloísa, eu me barbeava. Eu até comprava roupas, por Eloísa eu até ia no teatro. Ela me ensinou a amar multiplicando por quatro, dividindo tudo por nós dois. Eloísa era amada como se não houvesse amanhã, e foi com ela que aprendi a esquecer como se sempre houvesse milhões de amanhãs atormentados. Eloísa tinha algo de indomável. Eloísa pisava nos meus calos, e eu sorria, agradecido, por tamanho favor. Eloísa não era mulher, Eloísa era um verdugo. Uma máquina de moer sonhos. Com Eloísa eu aprendi a Relatividade.
E no fim das contas, quando eu já aprendera de tudo, já tinha passado por todas as filosofias e teorias, quando eu já estava pronto para não dizer mais amém, quando já investia razão para viver dos lucros nos juros da lucidez não veio mais ninguém. Não veio mais ninguém.
domingo, 16 de maio de 2010
Lanegan no Brasil - de novo
Mark Lanegan de volta ao Brasil no dia 24 de junho. Pronto, já dá pra dizer que 2010 acabou e valeu bastante à pena. Vai custar um rim, vai ser longe, na verdade ainda não tenho a menor ideia de onde será, mas que se foda, vai ser em São Paulo e eu vou, porque Mark Lanegan sabe das coisas.
Ah, Marquinhos.
às 03:22 0 comentários Marcadores: Cultura, Memórias
sábado, 15 de maio de 2010
Subindo a Beau Rivage
Ok, vocês venceram. Depois que fui sugado pelas engrenagens bem azeitadas da roda que esmigalha sonhos juvenis e remunera mal da mídia prevalecida, não tive tempo e dedicação para este blogue, o que é uma desmedida injustiça com os caros sete leitores, cativados e conquistados a forceps nesses anos todos.
E não é agora, em pleno plantão, que vou desfazer o agravo. Vou postar, estou postando, é verdade, mas nada que vá arrancar suspiros, comova alguém, devolva o meu hamster que punha todos os dias para correr num cilindro e ficava admirado em ver suas evoluções sem sentido e objetivo.
O post, que merda, é uma ridicularia sobre Fórmula 1. Correm os bravo e habilidosos pilotos neste domingo pelas ruas ensolaradas do Mônaco. Mônaco, qualquer um sabe, é uma cidade onde carros se desdobram descendo suas ladeiras desde 1929. Tamanha tradição, claro, criou símbolos. E nada mais simbólico e charmoso que o nome das curvas do traçado monegasco:

Dá quase para recitar os nomes. Mônaco, para quem gosta de Fórmula 1, é uma poesia.
às 16:02 0 comentários Marcadores: Fórmula 1
domingo, 9 de maio de 2010
Rádio: Mark Lanegan - Shiloh Town
O inoxidável Mark Lanegan:
Performance num show no mês passado em Utrecht, na Holanda. Bem que ele poderia voltar ao Brasil.
às 18:39 0 comentários Marcadores: Rádio blogue
segunda-feira, 3 de maio de 2010
O que eles queriam?
Eu sempre fui muito interessado por história. Bastante por história militar e extremamente pela Segunda Guerra Mundial. E aí, numa tropeçada na internet, ia eu atrás de pauta para vender meus laboriosos e industriosos esforços na nobre arte de exercitar a hipocrisia, o jornalismo, para editores e chefes de redação quando, enfim, dizia eu, tropecei neste texto, que vem a ser uma reportagem de Vasily Grossman, soldado e jornalista soviético, que escreveu sobre a capitulação alemã e a captura do Reichstag em 2 de maio de 1945. Há 65 longos e aborrecidos anos:
"Milhões dos nossos soldados viram estradas bem construídas ligando uma vila a outra e as auto-estradas alemãs [...] Nossos soldados viram nos subúrbios as casas de dois andares, com eletricidade, gás, banheiros e jardins belamente cultivados. Nossa gente viu os palacetes da rica burguesia de Berlim, o luxo inacreditável de castelos, propriedades e mansões. E milhares de soldados repetem essas perguntas com raiva quando olham a seu redor na Alemanha- 'Mas por que vieram atrás de nós? O que eles queriam?'"
É incrível. Tire todo o matiz polítco, a carga ideológica do totalitarismo nazista e do comunista e centre-se no indivíduo. No pastor humilde que foi retirado dos longos campos dos Urais para pegar num rifle e matar os invasores. No sujeito que tinha água, luz e telefone como luxos inconquistáveis na ditadura do proletariado, insuperável na capacidade de dividir as misérias. A este antes pastor, mesmo que inebriado por todo ódio da propaganda do Politburo, no final das contas, a indignação do "putz, eles tinham tudo, o quer foram procurar na Rússia?" é um resumo impactante do absurdo da guerra.
E, afinal de contas, o que eles - eles, não ele, Hitler - o que eles, alemães, soldados, queriam?
às 23:03 1 comentários Marcadores: História
Duvido que faça um poema em 5 minutos
Eu nasci pronto
um, dois, três, todos os números
vitorioso no confronto
fiz um poema de uma faísca
e sem chance ao contraponto
estou vivo! Berro,
eu corro, conquisto
chego e me vanglorio
eu nunca dou aviso.
Eu nasci preparado para o improviso.
sábado, 1 de maio de 2010
Olhe pra cima
E qual não seria a surpresa de Kepler, de Copérnico, de Galilei ao descobrir que, enfim, uma batata orbita Marte?
às 20:23 1 comentários Marcadores: Cosmo por ele mesmo
Hoje
Eu era um poeminha querendo rimar. Minha metade era prosa, eu pensava em verso, meu coração pulsava em melodia e eu dizia; alegria! Meu sonho se media nas piscadelas que a vida me dava, meu objetivo era sonhar.
Hoje eu só quero saber a que horas sai o trem, o preço da cerveja e se, por lá, vai ter mulher.
Aberturas de The Pacific e Band of Brothers
The Pacific é um seriado em 10 episódios que aborda a campanha norte-americana no, não diga, teatro de operações do Pacífico na Segunda Guerra Mundial. Estreou há pouco mais de um mês e é, de certa forma um projeto que dá sequência a para lá de premiada e festejada série Band of Brothers, que será transmitida pela Band em canal aberto, 10 anos depois de lançada.
Estou acompanhando The Pacific. É um bom seriado. Mas acho que fica muito atrás do Band of Brothers. A não ser na sequência de abertura:
Em comparação, a abertura de Band of Brothers, que se por um lado não tem uma ideia tão original como o carvão e o grafito delineando as linhas do destino, as faces das personagens e a "sujeira" do campo de batalha, tinha uma trilha sonora muito mais emocionante:
às 17:49 0 comentários Marcadores: Cinema, Cultura
16
Hoje completa-se 16 anos que Ayrton Senna rebentou-se inapelavelmente em muro italiano. Não há muito o que dizer. Lembro que ele marcou minha vida, era um heroi. Hoje relativizado pela compreensão mais madura da sua trajetória e irrelevância. Mas eu gostava de Ayrton Senna. Chorei quando ele morreu e fiquei bastante comovido. Era como perder um amigo.
Senna não foi messias, heroi, não foi exemplo como muitos pintam, porque ele não era sempre íntegro dentro da pista. Era só um cara dando tudo que tinha para ser o melhor naquilo que fazia. E ele era. O que Senna foi, mesmo, é ser genial naquilo que fazia: guiar carros rápidos, ser o melhor piloto, quase imbatível, forte, talentoso. Senna era uma força da natureza.
Todo menino precisa de um cachorro, dizem algums. Todo menino precisa de um carrinho de rolimã, de um pai legal, aprender a empinar pipa, descobrir se gosta de pescar, se é bom em galgar as árvores. Todos precisam de amigos. Completar um álbum de figurinhas. Mas todo menino precisa de herois. Bem ou mal, Ayrton Senna foi o meu heroi por muito tempo, e aqui vão, do fundo do coração de quem vive a regar o jardim das flores mortas do passado, as melhores saudações e as maiores lembranças ao eterno campeão.
às 17:32 0 comentários Marcadores: Fórmula 1, Memórias


