As mariposas, que começam a irromper a valer por esses dias conforme o tempo aquece, se atraem pela luz e calor das fogueiras. Talvez, lá no fundo, no âmago do seus bulbos que fazem às vezes de cérebros, elas saibam que o fulgor daquela luz toda, que o calor que ondeia pelo ar e lhes atrai o voo vai destruí-las, mas ainda assim elas seguem resolutas em direção da força que as irá consumir de maneira inapelável, num voo que de lá não sai chamuscado, mas sim consumido. Esse sou eu com as mulheres.
segunda-feira, 24 de outubro de 2011
domingo, 23 de outubro de 2011
Dúvida tecnológica
Upgrade intenso do PC ou notebook novo?
às 22:48 2 comentários Marcadores: Memórias
domingo, 16 de outubro de 2011
Mercados
Vemos aí o gestar de um novo tempo. Jovens, velhos, sonhadores e gente comum, tão importante e heroica quanto os demais, se revoltam em todo o globo contra o despotismo esclarecido exercido por financistas e sua capacidade homérica de gerar riqueza e nos empobrecer, gente normal, no processo.
Não se sabe se os protestos e o despertar de uma gente, sobretudo em países mais avançados, acostumada ao guarda-chuva eficiente do estado de bem-estar contra o financismo dos mercados vá dar em alguma coisa, em um sistema mais justo e estabelecido no real da economia. São pessoas que sentem na carne o apertar de cintos que FMIs e "mercados" orientam no momento de crise. Eles não querem perder direitos, não se sentem felizes com a hipótese de perda de qualidade no serviço público e, só agora, sentem o desgosto que foi ser brasileiro em boa parte dos últimos 30, 35 anos.
É um povo revoltado e disperto contra a ameaça do financismo que desmontou o mundo nos últimos vinte anos e fortaleceu o pináculo da pirâmide social, onde equilibram-se faceiros os tubarões de Wall Street e adjascências na falida "aldeia global".
Que venha, pois, este admirável mundo novo. Sem as alavancagens mirabolantes que, na calada da noite, resolvem a sorte de famílias, empresas, países. Sem a venda de "papéis". Sem a ilusão de um dinheiro que não se paga e se multiplica na ganância ilimitada de uma gente que devota sua vida a multiplicar e não a fazer. O que não é demérito. Demérito é nos empobrecer a todos, inofensivos, que desejamos da vida um tanto de conforto e outro tanto de dignidade. Eles multiplicam bits em um computador que não existem em cofre algum, mas podem ser sacados em qualquer caixa num processo exclusivo por natureza e nada edificante, como a sucessão de bancarrotas e empobrecimento coletivo no primeiro mundo e na Europa não cansam de atestar.
O processo todo de debacle do capitalismo, não diga, nasce da cobiça que moldou a perversão humanística que veio a ser chamada de neoliberalismo. Nos países vergastados pela atual fuga de crédito a origem dos problemas está na pólvora que se converteu o financiamento imobiliário. A intenção, vá lá, não era ruim. A ideia era dar condições a mais ou menos qualquer um de bancar, via crédito, a morada da sua vida, a casa própria.
O problema é que dívida, de estados, países e pessoas, pode ser um bom negócio. É lucrativo ser credor quando a perspectiva de ser pago em dia, e com os juros acordados, é boa. Só que ao vender crédito a praticamente todo mundo, você abre mão de garantias sólidas, porque os mais pobres podem ter problema para pagar. E quando eles não pagam, e você é credor de uma multidão de gente que não paga.
Mas antes de isso ser necessáriamente um problema, a oferta crescente de imóveis, acelerada pelo crédito imobiliário barato e irrestrito, não para de subir. Assim como os preços. Então você compra uma casa que não pode pagar em hipótese alguma - e normalmente o banco sabe disso. Passam os meses, e ela vale mais do que o valor que você está pagando. Então compensa vendê-la para outro idiota financiar, pagar sua dívida original com o dinheiro da venda e embolsar o lucro. Dois problemas disso: idiotas são um recurso vasto, porém limitado. E a dívida só muda de mãos, um dia ela quebra um idiota que não encontra comprador para o imóvel e os bancos porque perdem a perspectiva de serem pagos. Olhos abertos, porque no Brasil algo muito semelhante está em curso.
E quem conserta a monumental cagada é o estado. Ou ao menos ele tenda algo assim, como tentou em 2008. E claro que não dá certo, porque a saída dos governos, incapazes de peitar os financistas que, em última análise, os colocaram no poder, é jogar dinheiro novo nos bancos que, claro, irão aspirá-lo em vigorosos haustos com os quais continuarão soprando ar no balão que se chama crédito.
Isso se explica porque os principais bancos do mundo, lotados nos EUA ou com negócios lá, comemoram uma década de liberação de um freio legal que os impedia de usar dinheiro de correntistas em operações de alavancagem (é a mágica que bancos fazem para multiplicar dinheiro e emprestá-lo ao mercado). Isso insuflou essa bolha que, hoje, paira sobre nossas cabeças e ao estourar há de nos consumir todos.
O grande problema de um panorama deste está em não nascer daí uma catarse. De se derrubar o edifício do capitalismo, minando na mesma hecatombe as fundações da democracia, que é bem ruim, mas é o que de melhor temos. Abrir mão do capitalismo financista não é ruim. Perder a liberdade e o direito de escolha, é muito ruim. Um cenário em que as sociedades confrontadas com a ameaça de perda de direitos garantidos há décadas busquem guarita em velhos, mofados e empoeirados discursos da velha direita radical. É um risco que já se verificou na aurora do século passado e que resultou, ao menos diretamente, em 60 milhões de mortos na Segunda Guerra Mundial. Isso descontados os tantos milhões que pereceram em escaramuças paralelas e menos relatadas na Manchúria, no Oriente Médio, na África. Não se admira que da porção dos 60 milhões aniquilados estejam notoriamente o holocausto judeu que são reconhecidos, como eram naquele tempo, como notáveis financistas.
O mundo precisa aprender a inverter a lógica do dinheiro. A mantê-lo como meio de troca e intermediação de negócios, o que pressupõe sua escassez, mas impedir que seja ferramenta de dissolução de valor real, de emprego, de dignidade, de sonhos e de vida de tanta gente que, cansada, confronta-se com o noticiário de nova crise com um sorriso triste no rosto de quem diz "mais uma vez e até quando?"
Só o tempo vai dizer. Temos Wikileaks, Anonymous, Occupy Wall Street e o Democracia Yá!. São movimentos vigorosos e de grande repercussão que ajudam na marcha em direção a uma revisão da desgraça de mundo que fomos capazes de criar. Eu espero o triunfo das pessoas normais, mas não posso deixar de fazer eco das palavras do penseroso filósofo eslavo Slavoj Zizek que, em visita ao protesto contra Wall Street nos diz:
"A única coisa que eu temo é que algum dia vamos todos voltar para casa, e vamos voltar a encontrar-nos uma vez por ano, para beber cerveja e recordar nostalgicamente como foi bom o tempo que passámos aqui. Prometam que não vai ser assim".
É preciso, no resumo, saber querer. E não ter medo de querer um mundo um pouco melhor.
às 20:17 4 comentários Marcadores: Atualidades, História, Memórias
terça-feira, 11 de outubro de 2011
Medos e soluções
Morro de medo de duas coisas na vida: dinossauros e juros. Quanto aos primeiros, não posso fazer muita coisa. Quanto aos juros, bem, chegou a hora. De agora para frente não. Chega de ser fodido pelos juros, é hora de fodê-los.
às 19:00 0 comentários Marcadores: Memórias
domingo, 2 de outubro de 2011
Planos
E se nada disso der certo?
Bem, eu sempre posso voltar a viver como um ser primitivo, sem escovar os dentes, pentear os cabelos, aparar a barba, bebendo como maluco, urrando pelas ruas e comendo comida estragada.
às 20:56 1 comentários Marcadores: Aforismos, Memórias
sábado, 24 de setembro de 2011
Rádio: Mark Lanegan - Strange Religion
Para os amores impossíveis:
às 12:59 0 comentários Marcadores: Rádio blogue
Aforismos - Fé 3
A fé remove montanhas, mas eu prefiro a dinamite.
às 12:52 1 comentários Marcadores: Aforismos
sábado, 10 de setembro de 2011
Canhão e couraça
A Batalha do Prata, travada no alvorescer de 13 de dezembro de 1939 foi o primeiro confronto naval relevante da Segunda Guerra Mundial, na embocadura do Rio da Prata, perto de Montevidéu, e opôs um encouraçado de bolso, o Admiral Graf Spee, a uma pequena força-tarefa inglesa, comandada pelo então comodoro Henry Harwood, que compunha-se de três cruzadores leves, o Achilles, o Ajax e o Exeter.
Foi a última batalha naval da história nos moldes clássicos deste quilate de confronto bélico: o embate entre o canhão e a couraça, sem mísseis e dispositivos eletrônicos, sem radares, sem submarinos, monitoramento via satélite, aviões espiões não tripulados.
Os britânicos venceram, sobretudo pela boa antecipação dos movimentos do inimigo de Harwood, pela vantagem de número, 3 vs 1, e pelo destino, que sempre significa a sorte de esquadrilhas, pelotões e naves de guerra. Os canhoaços do Graf Spee, de assombrosas 11 polegadas, castigaram o mais que puderam o Exeter, fortemente danificado no embate. As armas de menor calibre do navio germânico vergastavam como podiam o Ajax e o Achilles, conforme estes se moviam e, por seu lado, concentravam o fogo nos alemães.
O confronto arrebentou a valer o Graf Spee, que vitimado por uma rajada certeira vinda provavelmente do Exeter, teve à proa o casco perfurado metros acima da linha de flutuação. A avaria se sentia grave na medida que se acelerava a nave a alto mar: as grandes ondas que o esguio casco do navio precisava cortar acabavam entrando pelo buraco sem a menor cerimônia. Sem reparo no casco, o Graf Spee não poderia correr em mar alto, sob pena de acabar afundado. Este tiro selou o destino do encouraçado de bolso germânico que, ferido de morte, precisou negar fogo e refugiar-se no porto de Montevidéu.
Foram dadas 72 horas para o Graf Spee deixar seus 36 tripulantes mortos e 60 feridos em terra e fazer-se ao mar em virtude da neutralidade do Uruguai em relação ao conflito. Ciente de que a matilha lhe esperava a lamber os beiços a poucas milhas, o capitão do Graf Spee, Hans Langsdorff, com um navio manco, não teve outro recurso que abandonar o porto, levar o navio além das águas territoriais do Uruguai e o afundá-lo, suicidando-se dias depois, com a segurança de sua tripulação garantida em Buenos Aires.
Graf Spee era o nome do valente almirante imperial da Alemanha na Primeira Guerra Mundial, campeão da batalha de Coronel - escaramuça travada ao largo da costa do Chile - em que sua esquadra desmantelara os rivais britânicos, em 1 de novembro de 1914, custando à sua majestade a perda de 1570 homens e dois cruzadores, Monmouth e Good Hope. Os alemães contaram em seus diversos vasos de guerra apenas três feridos.
Em 14 de dezembro de 1914, mais de um mês depois, a esquadra de Graf Spee encontrou-se com o destino e com o inimigo, mais uma vez, desta feita perto das ilhas Malvinas. A Batalha das Malvinas selou a derrota de Spee, que perecera no confronto em companhia dos dois filhos, que serivam como oficiais em navios da sua esquadra. É irônico, porque Coronel foi um dos primeiros confrontos navais da Primeira Guerra, vencida por Spee, que morreria no Atlântico Sul, perto das Malvinas, em 14 de dezembro de 1914. Em 1939, na véspera do aniversário de 25 anos destes sucessos, um Graf Spee, desta vez o navio que levava seu nome, sofreria o mesmo destino, também em uma das primeiras batalhas navais da guerra, em águas próximas do local onde o almirante Spee morrera.
Churchill precisava de uma vitória e fez um tremendo carnaval com o sucesso de seus cruzadores no Atlântico, ele que, àquela altura, ainda não assumira o gabinete e era então o Primeiro Lorde do Almirantado, função equivalente ao que seria o Ministro da Marinha na época em que o Brasil dispunha de ministérios separados e exclusivos a cada uma de suas forças bélicas. Sucesso que seria seguido pelo clamoroso desastre da campanha da Noruega, que abreviou o governo de Chamberlain, colocou Churchill no cargo de primeiro ministro, logo ele, responsável maior pelo malogro e pela aventura na costa norueguesa.
Na Alemanha, o desgosto pelo insucesso do Graf Spee reafirmou o velho conceito de que travar a guerra em mar alto com naves e táticas convencionais era atalho para um retumbante fracasso, conforme amargamente demonstrara a campanha naval da Marinha Imperial Alemã na Primeira Guerra Mundial. Em virtude disso, passaram boa parte da guerra estaleirados e ancorados em águas alemãs os grandes encouraçados e cruzadores que haviam sido armados com enorme criatividade no sentido de não derrubar as cláusulas do Tratado de Versalhes e que deviam ser os sequazes de Hitler na guerra do mar. Foram desencorajados projetos de superfície, como o porta-aviões Graf Zeppelin, que jamais foi concluído pelos nazistas e serviu, depois da guerra, como elemento de prática de tiro naval à marinha soviética.
Desencorajadas as ações de superfície e confinada a marinha nazista a seus portos, ganhou respaldo e incentivo o Almirante Doenitz, a quem agastava violentamente o investimento feito em navios de superfície, caros e de menor mobilidade, se comparados aos submarinos, que a Alemanha fabricou em ritmo assustador durante boa parte da guerra. A noção de mobilidade e agilidade destes meios navais aos quais os britânicos não estavam bem preparados para enfrentar, soberanos que eram na superfície dos mares nos últimos 300 anos, foi quase decisiva no resultado da guerra. Em certa altura, os u-boats alemães afundavam mais navios do que era capaz a Inglaterra de repor. Churchill admitiria, anos depois, que só temeu perder a guerra para as matilhas de submarinos germânicos que vergastavam as rotas navais e causavam prejuízos quase insustentáveis ao país e, especialmente, ao esforço de guerra.
Este texto caiu-me dia desses de um livro que coloquei na estante. Era um manuscrito muito semelhante, só fiz breves correções e pequenas adições de conteúdo. Fora uma dissertação que eu escrevera no tempo em que sonhava em entrar para o Colégio Naval e seguir carreira na Marinha do Brasil. O que só prova que a pré-adolescência é a mãe de todas as péssimas ideias.
às 15:56 0 comentários Marcadores: História
domingo, 4 de setembro de 2011
Meus projetos
Um dia terei dois veleiros e todo o tempo disponível para, em alto mar, me aborrecer enormemente dentro deles. Ou ao menos dentro do maior, que batizarei de Hornblower. O menor, para passeios costeiros mais inconsequentes e adestramento conveniente nas artes da marinharia, será o Papillon. Ou Sputnik, há ainda disputas para se resolverem nesse quesito. Papillon é borboleta em francês, mas acima de tudo, recorda o filme homônimo de 1973, com Steve McQueen e Dustin Hoffman. O personagem de Steve é Papillon, um sujeito absolutamente obcecado com a ideia de liberdade, tal qual seria eu dentro de um veleiro com 7 mares e todos os oceanos para desbravar. E que além disso, ao fim do filme, foge de uma ilha flutuando num pontão feito de barris. Sputnik significa em russo amigo. É também o nome do primeiro satélite artificial que o homem lançou ao espaço, e assim seria eu com meu veleiro, minha primeira excursão em um outro mundo, esse das abissais distâncias, dos perigos e das veredas intermináveis dos oceanos.
às 19:23 1 comentários Marcadores: Memórias
sexta-feira, 2 de setembro de 2011
Uma ideia na mão e uma câmera na cabeça
E uma ideia sensacional. Descobri a história visitando um de meus blogues preferidos, conduzido por Flávio Gomes. Trata-se de um filme francês de 1976, "C'était un rendez vous", que em libérrima e desavergonhada tradução dá em "Foi um encontro", um curta, realizado por Claude Lelouch em 1976.
Assistiu? Pois é, é o limite da irresponsabilidade e da arte. Deu cadeia, inclusive, quando o filme foi lançado e ia devidamente assinado por Lelouch, que como todo o artista, fez absoluta questão de vincular seu nome ao filme/crime.
A cidade, supondo que você não a tenha identificado, é Paris. Às 5 da madrugada. O carro, uma Mercedes 450SEL, dublada por uma Ferrari 276 GTB. A bordo, dois assistentes de audio apavorados, uma câmera no para-choques e um Claude Lelouch muito louco na boléia. Ele confessou que teve a ideia ao longo daquela noite, e homem de ação que é, não postergou nada, saiu alucinado pelas ruas de Paris para fazer seu curta de um take.
É genial. Mas é irresponsabilidade. Alguém poderia ter se machucado. Há lugares para doidos como esses na nossa sociedade, e eles não são dotados de um motor a explosão e de um volante. Mas Lelouch fez o filme pelo cinema, pela arte. Alguém poderia argumentar que Mengele pintava olhos castanhos de azul com tinta em nome de uma concepção estética também da vida, e nem por isso era menos monstro.
Vendo o curta, não pude deixar de lembrar do caso do sujeito maluco que arrancou com o automóvel para cima de uma multidão de ciclistas em Porto Alegre no começo do ano. A rigor, os exageros de Lelouch e do gaúcho são iguais: irresponsabilidades ao volante, a intenção manifesta de transgredir e, com isso, colocar a vida de outros em risco. Crimes, no resumo.
Mas é curioso. No caso de Lelouch, não canso de achar a inutilidade genial - o filme é inútil. Mas é transgressor, coloca um conceito em cheque e isso, mais ou menos, é o resumo da arte pós-moderna, a ideia de reiventar e colocar tudo em questão, de ruptura. E para quem gosta de carros e de simuladores, onde pode libertar o Lelouch que há dentro de você, a ideia de percorrer uma cidade como se não houvesse amanhã não deixa de parecer sensacional.
É, também, um sinal dos tempos. Hoje, na era do politicamente correto, há limites auto-impostos muito mais severos no que tange o que pode ou não ser arte. Não vivemos em tempos de um Claude Lelouch. Qualquer cineasta contemporâneo, com uma ideia tão irresponsável quanto, seguramente pensaria duas vezes antes de colocá-la em prática. E isso faz de "C'était un rendez vous" um filme ainda mais adorável. O olhamos como um resumo de um tempo onde indignação, insatisfações e frustrações diversas encontravam o solo fértil da arte e ali frutificavam e, falo por mim, lamentamos que já não seja assim. Eram tempos diferentes. Vivemos tempos de maus filmes e de uma moral duvidosa, que berra por liberdade de expressão à toda esquina, mas te crucifica se você fizer uma piada de gosto duvidoso. O gosto, o filme, o livro, tudo pode ser de gosto questionável na arte. E deve ser questionável. O que não pode é ser proíbido.
Por fim, o grande barato deste filme é dividir as pessoas entre aquelas que invejam o passeio de Lelouch e as que o execram. Eu o invejo.
às 14:26 0 comentários Marcadores: Cinema, Cultura
sábado, 27 de agosto de 2011
Desmontando a onifodeza: breve guia de combate ao deus absoluto
Deus é, antes de tudo, um conceito absoluto. Para quem crê na sua existência, dá sentido a tudo e mensura tudo. Mas nada pode ser absoluto, ao menos na nossa experiência da realidade, e é isto que este breve guia vai demonstrar: a relativização da onifodeza. Deus é tido como onifodão (onifodão é o somatório das características absolutas exclusivas a deus: onipresença, onipotência e onisciência).
Mas como praticamente tudo que envolve mitos, essas noções não sobrevivem olhar mais cuidadoso e balizado pela realidade. Diante disso, aqui vai um guia básico de combate argumentativo às noções que perfazem o conceito da onifodeza:
Onipotência: Um ser onipotente é um ser que detém poderes ilimitados. O infinito é uma medida convencional e não há restrição alguma para o que ele, o onipotente, possa fazer. Cristãos e seguidores de outros credos gostam de entender sua divindade nestes parâmetros, vale para qualquer fé moderna.
Só que é um valor absoluto. O infinito não se dá bem com a realidade. A rigor, não há nada real que seja infinito. Há uma porção enorme, mas finita de matéria no Universo. Há um consenso mais ou menos estabelecido no sentido de que, sim, o universo tem fim. Números são infinitos, mas não são reais, são construções ideológicas - existem porque nós os contamos, em resumo. Estes são exemplos da noção de infinidade.
Deus para existir precisa ser real. E seu poder precisa se manifestar na realidade, do contrário sua existência é ainda mais questionável. Então, para desmontar essa noção de poder infinito, basta questionar: pode deus criar uma pedra tão pesada que nem mesmo ele tenha poder de levantar?
Essa pergunta admite apenas duas respostas: sim e não. Se sim, então, deus não é onipotente, porque terá encontrado um limite para seu poder, o peso de uma pedra assombrosamente grande. Se não, então deus também deixa de ser onipotente, porque terá o limite do seu poder na impossibilidade de criar algo tão pesado que não possa levantar.
Esse tipo de raciocínio lógico é altamente corrosivo com a religião porque coloca entidades e conceitos abstratos, como onipotência e infinidade, nos limites do real. E, no fim das contas, mostra que apenas com a linguagem você pode provar que um deus onipotente não faz sentido.
Onipresença: onipresente é aquele que está em todos os lugares ao mesmo tempo. O recurso aqui para relativizar esse valor absoluto é a pergunta: pode deus criar um lugar onde ele não possa estar?
Se sim, ele pode, então deixa de ser onipresente. Se não, ele não pode, deixa de ser onipotente.
Onisciência: aqui o raciocínio é mais complexo. Onisciência é o atributo de quem sabe tudo que aconteceu, que acontece e que acontecerá. Nesse cenário, equivale dizer que se existe um deus e ele é onisciente, ele simplesmente sabe absolutamente tudo do passado, do presente e do futuro.
O problema com essa noção está no valor do livre-arbítrio, muito caro à religião católica, e que preconiza que você é livre para fazer de sua vida o que bem entender, tendo, contudo, que prestar contas de suas escolhas num tipo de julgamento ministrado por deus no final dos tempos, onde quem passar no juízo terá a vida eterna - o que deve ser um saco, diga-se de passagem - e quem reprovar, terá tormentos, dor, pranto, sofrimento e tristeza eternidade à fora - mas, claro, deus te ama.
A idéia de livre-arbítrio não pode conviver com a noção de um deus onisciente. Porque se deus é onisciente, significa que sua vida está escrita, porque deus simplesmente já a conhece. Você, por exemplo, não escolhe ser ateu, neste cenário, sua vida já foi desenhada para embocar nesta realidade. Se você não exerce escolhas e já tem um destino desenhado, não faz sentido falar em livre-arbítrio e menos ainda em esperar um julgamento, posto que você foi, por toda a existência, escravo da mente de um deus absoluto.
Para exemplificar: suponhamos que deus, por ser onisciente, saiba que amanhã no café da manhã eu vou comer um pão com manteiga. Há alguma maneira de eu não comer esse pão com manteiga?
Existem duas respostas possíveis. Se sim, eu posso escolher comer outra coisa então deus "errou", e portanto não é onisciente. Se não, então eu não tenho livre arbítrio de fato, apensa penso ter escolhido o pão com manteiga dentre as outras coisas que poderia ter comido. E nesta hipótese, deus é onisciente e continua fodão, mas a religião perde inapelávelmente o bastião do livre-arbítrio. Na outra opção, ela conserva o conceito de livre-arbítrio, mas deus não é mais onisciente.
às 19:56 1 comentários Marcadores: Evangelhos
sexta-feira, 26 de agosto de 2011
sexta-feira, 12 de agosto de 2011
Balanços
Os fatos básicos são estes. O Universo que conhecemos tem 14 bilhões de anos de idade. Até aqui, mais de 460 planetas foram descobertos orbitando estrelas distantes, dos quais um punhado pode suportar vida. Fomos bem sucedidos em desvendar as origens de nossa espécie até o mais remoto passado deste planeta em que vivemos e que, é fato consumado, tem formato esférico e orbita uma estrela, tal e qual os bilhões de outros que devem existir neste universo em constante mutação. Conseguimos mapear o genoma humano. Já enviamos naves e sondas a mais de 40 outros mundos. Seres humanos já pisaram no solo de outro corpo celeste. Cosmólogos debatem nossas origens com cada vez mais convicção de onde viemos e mesmo pra onde vamos. Teorias começam o audacioso passo de abraçar toda a física que conhecemos numa coisa só nessa dança epistemológica do conhecimento humano, nascido do brilho do iluminismo. Outros universos podem existir e evidências disso já são discutidas entre físicos de renome. Cada uma dessas conquistas encerra pequenos triunfos do espírito humano ao fazer vergar até romper as barreiras da superstição, da religião e do medo de pensar. Cada uma delas narra a história de homens, mulheres e ideias que não calaram diante da resposta pronta da Bíblia, da Torá, do Corão e de quaisquer outros livros religiosos que encerram verdades absolutas, eles foram além do convencional, e redefiniram nosso lugar no cosmos.
E, em meio a tudo isso, tendo consciência de cada uma dessas verdades e dos seus custos, você vem me pedir fé?
às 16:58 1 comentários Marcadores: Memórias
segunda-feira, 8 de agosto de 2011
Crise é rotina
O mundo tá aí, estourando em crises. Os capitais que escorrem pelo ralo da realidade são a pólvora que impulsiona multidões em Londres. O valor do dinheiro escorre nas evoluções espetaculares de um capital que não existe. Um exame mais detido sobre como funciona o sistema financeiro global lhe dá claras mostras de como a coisa toda não fecha, que há muitos algarismos e poucos valores, muitos números e poucos bens. Mas quando você acha que há alento em crises como a de hoje, que cenários desesperados e analistas contritos na tv concorrem para uma sadia sacodida do sistema, derrubando no processo os pulgões, quem cai do lombo dessa cadela velha e carcomida é você: a conta não fecha, não há dinheiro no mundo que cubra os capitais inflados de ganância e irresponsabilidade que se equilibram há décadas ameaçadores sobre nossos destinos. Quando, no fim das contas, você considera que bolsas derretendo, capital sumindo, bolhas estourando, enfim, são a ante-sala da prosperidade e da racionalidade, você lembra que há uma boa porção de gente que investiu no debacle e que ganha dinheiro com a evolução do caos. Sãos os que especulam com derivativos, no resumo, dinheiro que não existe investido na possibilidade de crescimento de um preço no futuro: sim, eles ganham dinheiro apostando em mais dívidas de todos: empresas, estados e pessoas. Por isso, esqueça. Nada muda. Esses mesmos pavimentarão as veredas da próxima crise, assim sucessivamente, até que se diluam as mais firmes reservas de valor - a dignidade foi-se dessa dança voraz há tempos - até que passemos todos a nos alimentar via escambo.
às 18:11 0 comentários Marcadores: Atualidades
domingo, 31 de julho de 2011
Pequena coleção de mim
Também encontrei lembranças e miudezas que usei na outra vida ou que eram ítens de decoração do lugar onde vivi. Meus canequinhos de chope, roubados honestamente do Bar do Alemão em Curitiba. Duas bolas de bilhar que, naquele bom e inocente tempo dos porres homéricos, daqueles pileques de criar bicho, roubei dos botecos por onde estive a afogar as desgraças e embalar as alegrias, porque também as tive. Imãs de geladeira que comprei em Buenos Aires. O relógio de pulso que usei de três dias após a morte de meu pai até não lembro mais onde e que só larguei em favor do visor do celular. E muitas outras coisas que não quis ter o trabalho de fotografar, mas que vão comigo.
É tudo um pouco do passado que a gente não sabe bem se quer lembrar, se quer esquecer, se quer resgatar. O que eu sei é que, brincando, já faz tempo. Os primeiros canecos eu tenho há seis anos. Os imãs são um pouco mais novos. Das bolas de bilhar, honestamente, nem lembrava. Meu primeiro livro é de 1998, ganhei de aniversário de meu pai, "O Homem que Matou Getúlio Vargas". E há no meio disso tudo, mais antigos, comprados em sebos e herdados de um infeliz incêndio.
É um pouco do passado que guardei numa caixa. Um tipo de capsula do tempo que fechei quando me formei. A capsula foi reaberta e de dentro dela saiu nostalgia, saudade, lembranças, memórias, recordações, suspiros, tristeza e risos. Vou levar esse passado rico e cheio de marcas comigo, como de resto tenho feito com tanta coisa mais, que vai aqui, mais ou menos calada dentro do peito. Enfim, é bom dizer, joguei hoje muita coisa fora. Ou ao menos a faceta física de algumas coisas, porque já tinha expurgado dos recessos mais profundos do coração e da memória muita coisa assim. Coisas que há uns anos, supor desfazer-se, seria uma dor atroz a cortar o coração. Hoje é ato corriqueiro, de quem joga fora o que não presta mais. Fico feliz em poder jogar fora o que é lixo e conservar o que é uma ponte para o que de bom se passou.
É sempre bom exercitar o desapego para não se apegar novamente. Aprendi, como tudo na vida, da pior maneira. Eu tenho 4 fotos da infância e isso me ensinou que recordações, boas e más, são importantes. Mas que nem todas merecem ganhar vida nas capsulas do tempo que construímos e acumular poeira pelas prateleiras da vida.
às 22:34 2 comentários Marcadores: O dia em que cresci
quinta-feira, 28 de julho de 2011
Por quê?
Por que você largou tudo? Saiu de São Paulo e veio para Curitiba?
Porque eu descobri que a vida em São Paulo sem dinheiro é uma vida estúpida.
às 14:31 0 comentários Marcadores: Memórias
segunda-feira, 18 de julho de 2011
Uruguai: Por un alma
Há pouco mais de um ano, o Uruguai escreveu um capítulo, mais um só dele, nas páginas da história do futebol e das Copas do Mundo. A mão de Suárez, o pênalti de Gyan, a cavadinha de Loco Abreu. A epopéia que devolveu a Celeste Olímpica, de tanta tradição, glória, tamanho, história, peso e relvância ao primeiro escalão, onde os protagonistas decidem a sorte das glórias imorredouras do futebol. Foi bonito.
Você pode ler meus sentimentalismos por conta daquele jogo aqui.
Neste ano não temos Copa do Mundo, temos Copa América. O Uruguai continua um país pequeno, de praticamente inigualável simpatia. O tempo do Uruguai tem dimensão única e desafia bravamente as leis da física que o dizem relativo. No Uruguai, caros, o tempo é absoluto: tem uma marcha, uma dimensão e uma propriedade. O Uruguai redefine o tempo.
O que não se sabia é que o Uruguai também redefine o espaço. Como pode um país pequeno daqueles ser tão grande? Esmagar, com forças e pesos que não se sabe de onde, gigantes? Como pode um conjunto de 3 milhões de pessoas produzir um time de onze jogadores proporcionalmente muito superior ao que consegue uma nação de 200 milhões?
O Uruguai superou, ao seu jeito, dramático e bravo, seu maior rival. Argentina e Uruguai são, aliás, os grandes rivais na América do Sul. Brasil e Argentina não são rivais, são gigantes, pares de um mesmo sistema, um orbitando ao outro, quase que indiferentes. Uruguai e Argentina dividem os pampas, são um e outro a metade do mesmo rio, são da mesma gente de fibra, admiram os dias frios que amanhecem no Prata com o mesmo ponto de vista, falam a mesma língua e dividem uma porção de heróis nacionais em comum. É amor e ódio portenho, páginas e páginas de um tango que insiste em se renovar. Brasil e Argentina convivem e torcem o nariz para a "rivalidade" fabricada nas TVs.
Não é possível torcer contra a pequena legião, esse adorável bando de Asterixes e Obelixes que compõe esse pedacinho da América. O Uruguai é o Incrível Exército de Brancaleone que deu certo. Essa adorável capacidade de provar do impossível, esse timbre único de gritar mais alto que uma multidão, esse destino inexorável que marca o passo com a história charrua nos gramados, o destino de ser protagonista.
No sábado, aniversário do sagrado Maracanazo, o Uruguai foi, mais uma vez, conviva a seu modo. Expulsou a Argentina da Copa América num jogo maiúsculo, de fibra, garra, vontade. De ganhar no grito, de saber a hora de morder. De atuar como time, com vontade de quem quer se reencontrar com a história.
Não fosse a TV, a internet, os registros virtuais de hoje e se diria, em menor ou maior escala, daqui uns anos, que tal como o primeiro caudilho, Lugano deu um tapa em Messi e desmontou, assim, o time uruguaio. Como um dia se aumentou a verdade e dilatou-se a dimensão do serviço de Obdulio, quando se disse que teria esbofeteado Bigode, desmontado o orgulho brasileiro e levado, debaixo do braço, a Copa para a casa.
Um dia se disse que Obdulio Varela venceu a Copa de 1950, porque era a fera daquela final e que tamanha devoção a vitória se verificava no hábito que tinha de amarrar as chuteiras, hoje cada vez mais coloridas e patrocinadas, não com cadarços, mas com as veias.
Descobre-se onte, mais uma vez, que o hábito transcendeu o primeiro caudilho e hoje é do feitio de qualquer onze jogadores que se prontifiquem a defender o azul de céu uruguaio nos campos do mundo. Só há uma seleção no mundo que com um elenco reconhecidamente inferior taticamente é capaz de passar por cima, com um a menos, de uma seleção mais tarimbada tecnicamente e dona da casa. Só o Uruguai faz do impossível, vereda e no processo, transforma um torneio sem graça e meio vazio, como a Copa América, em algo grande, interessante e importante.
E que pena. Você torce pelo Brasil pelo acidente geográfico de ter nascido aqui. Eu torço pela identidade e porque, simplesmente, não resisto a nada feito com paixão. Vale de boa literatura, passa pelo sexo e vale também para futebol. E se o Brasil é terra de futebol arte, saibam, o Uruguai é terra de futebol paixão. E é isso que explica um time sem Messi e Ganso ser tão bom como é. O Uruguai não precisa de um Messi ou de um Ganso porque tem algo melhor e maior, o coração.
E a paixão precede a arte em tudo.
às 17:39 0 comentários Marcadores: Memórias
sábado, 16 de julho de 2011
Para pensar
Escrevi ontem sobre a estagnação do desenvolvimento do transporte público de qualidade em Curitiba. De qualquer forma, apenas a título de comparação, aqui na capital paranaense transporta-se mais de 2 milhões de pessoas/dia por ônibus. Em Londres, uma cidade muito maior, por metrô, são 3 milhões. Números de respeito, Curitiba não tem 2 milhões de habitantes. Londres, sozinha, abarca mais de 8 milhões de almas.
Imagina se a estrutura tivesse investimentos, competência e capacidade de se renovar com o tempo?
Tivesse tudo isso e Curitiba não teria engarrafamentos em lugar algum.
às 13:02 1 comentários Marcadores: Atualidades, Memórias


