sexta-feira, 25 de maio de 2012

Mil e contando

Esta é a milésima postagem deste blogue. Não é nada, não é nada e... não é nada mesmo.

Feliz Dia da Toalha

"O fato de que vivemos no fundo de um poço profundo de gravidade, na superfície de um planeta coberto de gás que gira em torno de uma bola de fogo nuclear a 150 milhões de quilômetros, e achamos isso normal, é obvimanete uma indicação do quão torta tende a ser nossa perspectiva de normalidade".

Douglas Adams

O mundo seria um lugar melhor se as pessoas lessem os escritos desse cidadão. Feliz Dia da Toalha para quem é.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Férias, Porthos e Mousqueton

Venho programando minhas férias nos últimos dias e o processo recorda-me diretamente dois personagens e alguns livros. Antes de explicar quais e por quê, preciso dizer que programar férias é um trabalho delicioso. Melhor ainda quando você tem fundos para cobrir todos os passeios, excentricidades e distrações. O que não é bem o caso, mas isso tudo é problema para o Tertuliano do futuro resolver.

Gastar à crédito é, em resumo, tomar emprestado de você mesmo. Do futuro. 

Mas toca a dizer que estimo minhas férias em uma viagem ao pedaço mais setentrional da América do Sul e que, dando tudo certo e me sobrando os dinheiros, divido o percurso em dois pedaços. A primeira jornada leva-me à capital do Uruguai, Montevidéu, não diga, onde pretendo passar 10 dias. Comes, visita ao Centenário, aquisições de idumentárias da Celeste e uma enorme bandeira da República Oriental do Uruguai para irritar os Pachecos em 2014 estão na ordem do dia.

De Montevidéu pulo a ponta de água e piso em Buenos Aires, seis anos depois, unicamente para embarcar no trem que desce para a Patagônia, e me deixa a meio do caminho, em Bariloche - onde, a dar-se fé nas informações, neva, faz frio e vê-se gente. Lá pretendo tiritar ao frio, pisar na neve, engarrafar uma porção dela para trazer aos trópicos, quem sabe tomar um chocolate quente e comprar agasalhos de frio ridiculamente exagerados para o uso no Brasil. Calculo para isso tudo 6 dias. Terminadas as escaramuças em Bariloche, retiro o automóvel alugado previamente, sujeito precavido que sou, e cruzo alguns milhares de quilômetros, não tenho ideia de quantos, mas me alegro enormemente que sejam milhares, sei que de ônibus são 22 horas, até Buenos Aires, onde devolvo o veículo no dia seguinte.

Não tenho ideia de como ou através de que rota volto para a casa. Mais uma vez, deixemos o Tertuliano do porvir resolver-se.

A ideia de dirigir me arrebata por conta das paisagens, a perspectiva de algumas horas no carro num clima frio e numa paisagem diferente e bonita seduzem todas as fibras do meu ser, a ponto de me fazer considerar essa a melhor porção da viagem. Dane-se a atração irresistível da terra de Galeano, às favas os alpes argentinos. Dirigir sempre me foi uma válvula de escape das mais eficientes. De triste mesmo é a perspectiva de fazer todo o passeio sozinho. Verdade seja dita, eu gostaria é de ir de carro todo o caminho. De Curitiba a Bariloche, ida e volta.

Calculo que volto para casa com bons 10 dias para gastar fazendo nada, vendo filmes, bebendo e jogando video-game. Para ser melhor que isso, só tendo o dobro do tempo e dinheiro.

Faltou dizer quais são as personagens e os livros que o projeto de minhas férias remetem. Simples. Mousqueton e Porthos, em Vinte Anos Depois. A bem da verdade é que nesta altura da obra já eram o criado, Mouston, e o Barão de Bracieux, mas aí são detalhes. O fato é que os dois, Porthos e Mousqueton, ocupavam-se de fazer girar um globo terrestre e pará-lo ao colocar o dedo sobre qualquer ponto da esfera. Verificavam onde situava-se o lugar e prometiam os dois, solenemente, que jamais pisariam os pés naquela paragem.

O que faziam por filosófica bazofia, creio, farei eu pela timidez de recursos, propensão natural ao postergamento e pura preguiça. É bem capaz de abortar as viagens por qualquer um, se não mesmo todos, esses motivos.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Rádio: Renato Borghetti - Milonga para as Missões

Reinventando o repertório:

"Kelly's Heroes" é o pior filme da carreira de Clint Eastwood como ator

Eu devo ter baixado "Kelly's Heroes" (ou como fora batizado em sua hedionda versão nacional, "Os Guerreiros Pilantras") por conta da participação de Clint Eastwood no longa de 1970. Ele vive o soldado (tenente?) Kelly que batiza o longa e protagoniza, sem dúvida, o pior filme da carreira. De lambuja, faz ainda o seu pior trabalho como ator.

Ponto, parágrafo. É bem possível que o problema de "Kelly's Heroes" tenha sido o fato de que, 42 anos depois, ele está datado. Mas ainda assim, filmes do período e com temática semelhante, e mais antigos, envelheceram muito melhor. "Fugindo do Inferno" e "M*A*S*H*" surgem na mente como base de comparação. Do segundo, inclusive, falarei mais abaixo.

O filme não é nenhum primor em termos de peça bélica e menos ainda de humor, como se entende da premissa do roteiro. A ideia central gira em torno de Kelly, que desencantado com o serviço, descobre que alemães estocam considerável fortuna em barras de ouro (que valem mais do que dinheiro) em Clermont, cidade que naquele instante situava-se bastante encravada no território alemão (se faltou dizer que o filme se passa na Segunda Guerra, fiquem tranquilos, não temos mais este problema, citado está). A ideia era fazer rir, e o filme não o faz. Alterna uns bons momentos em cenas de ação e combate, mas para por aí. 




Para buscar as 40 mil barras de ouro, Kelly precisa recrutar outros ineptos e desencantados soldados para ajudá-lo na tarefa. Aí o filme tropeça em si mesmo diversas vezes. Primeiro porque os personagens são escarçamente factíveis, o que caberia numa comédia, que "Kelly Heroes" não é em nenhum momento. Segundo porque esboça traços e caricaturas fracas demais para o contexto. Há, por exemplo, os soldados da infantaria blindada que são hippies. Em 1944...

Na verdade, o filme presume uma única piada em si. É a ideia de que, na busca desenfreada pelo ouro, subvertendo recursos e material do exército, o desencantado grupo de herois de Kelly acabam protagonizando um golpe irrecorrível às defesas nazistas. O problema é que a piada só se faz clara no quarto final do filme de duas horas e vinte minutos e, mais uma vez, é bem pouco para uma comédia. Durante três quartos do longa se cria a impressão de que o grande problema dos ladrões será dividir a fortuna com a enorme força tarefa mobilizada para conquistar o objetivo. Por razões insondáveis, essa perspectiva mais cômica é abortada no transcorrer do filme.


Em termos de filme de guerra é ainda mais desconexo. Em que pese algumas boas cenas de ação e combate, "Kelly's Heroes" calça toda a ação em personagens fracos demais. Além do insosso Kelly de Eastwood, há o sargento Big Joe, de Telly Savalas. É outro caso de um ótimo ator entregue a um personagem pálido e contraditório demais. Em boa parte do começo do filme, Big Joe está preocupado em colocar seus soldados em folga em alguma cidade, para que possam embebedar-se e desfrutar da companhia de solicitas moças francesas. De uma hora para outra, torna-se um defensor do dever e tenta impedir que seus soldados sigam Kelly na busca pelo ouro. E, mais uma vez, sem explicação, torna-se um dos cruzados em busca das 40 mil barras de ouro depositadas em Clermont, que valem mais do que dinheiro.

Para fechar o trio de atores pesados do elenco, temos o personagem Oddball, conduzido por Donald Sutherland. Ele é o comandante de um tanque Sherman e, de longe, a única atuação e personagem que valem o filme. A premissa de hippies em 1944 foge do contexto porque é mal construída em um filme que não é um bom drama bélico e nem uma boa comédia. Mas Donald faz rir com suas intervenções profundamente distraídas e seu discurso otimista e relaxado, e bastante covarde. Não chega a ser um convite para assistir ao filme, mas o ar bonachão e bobalhão de Donald como Oddball é uma das duas únicas coisas que valem o trabalho, e em certos momentos, tortura, de ver "Kelly's Heroes".

O ourtro ponto positivo é a canção tema, que leva a marca de Lalo Schifrin (vivo, o argentino ainda compõe temas para grandes orçamentos e séries), compositor que marcaria diversos, se não todos, os filmes da primeira fase da Malpaso, produtora que lançou Eastwood como diretor ainda nos anos 1970 (conta-se aí todos os filmes do tira durão Dirty Harry e os westerns revisionistas de Eastwood neste período). A canção chama-se Burning Bridges e é gostosa de ouvir. Tem no YouTube.

O trecho final do filme faz uma clara referência à "O Bom, O Mau e O Feio". Num estilo duelo do velho oeste, Oddball, Kelly e Big Joe encaram um Tiger alemão numa praça de Clermont ao som de uma, digamos, infeliz releitura do trabalho de Morricone na trilogia do dólar. É só um detalhe para que você, caso veja o filme acompanhado, possa olhar para o lado e desfiar toda a sua erudição, contando de onde vem a referência e o porquê dela estar ali.

Por conta do ano, 1970, é inevitável comparar "Kelly's Heroes" com dois grandes filmes de guerra do ano: "M*A*S*H*" e "Patton". No primeiro, um humor para lá de refinado em uma das mais comoventes e bem pensadas sátiras e críticas à guerra já filmadas (encontrando, talvez, paralelo de igual importância somente em "A Ponte do Rio Kwai") - contando, curiosamente, com a participação de Donald Sutherland como o impagável Hawkeye. No outro, uma cinebiografia do general mais porra-louca da Segunda Guerra e que redundou num tremendo fracasso de bilheteria. Na comparação, "Kelly's Heroes" consegue ser pior do  que os dois porque tenta abraçar os dois gêneros: o épico de guerra e a comédia.

Com direção de Brian G. Hutton, "Kelly's Heroes" é um filme fraco que não recomendaria à muita gente. Vale mais como testemunho do fato de que mesmo Clint Eastwood pode fazer um trabalho mal e porcamente e que um ator como Savalas pode ser bem mal aproveitado. Vale como registro da carreira dos dois e Donald Sutherland e por uns 10 minutos, quando toca a canção tema. De resto, não fará falta na sua vida perder essas duas horas.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Poema do suicida que ama a vida

Eu quero a morte
tanto quanto quero a vida
eu vivo na sorte
de quem se intimida
e que não é forte
minha vida é porre de formicida
eu quero tanto a morte
quanto eu quero a vida.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Rádio: Mark Lanegan - Pendulum

Tenho certeza absoluta que essa canção já passou por aqui nessa seção "Rádio Blogue", macacos me mordam, como sou criativo. Criei a seção com o intuito de nunca me repetir, o que é impossível, sujeito sem episódios que sou. "Pendulum" é uma das minhas preferidas de um dos meus artistas preferidos. Ainda fala-se artista? Enfim. Não por acaso, já que a letra embala e diz: "lord, my lord, don't you bother me, I am tired as a man can be". Sim, estou com os bagos cheios. E, meu senhor que não existe, não me encha mais.

E no caso de "Pendulum" não ter tocado aqui, ora, isso só vem provar o enorme bigorrilhas que sou.


Pendulum by Mark Lanegan on Grooveshark

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Sopro

A vida tem sido meio bandida ultimamente. Não que um dia tenha deixado de ser, é verdade. Mas apesar de todas as idas e vindas, das desgraças homéricas que se abatem, ao menos, comemoro o fato de que está frio. Só mesmo o frio para suspirar um pouco de vida nesse coração de gelo.

sábado, 12 de maio de 2012

Rádio: Rogério Skylab - Você é Feia

Eis a música que eu mais vezes cantei bêbado em todos esses nem tão bem vividos 27 anos.

Você É Feia by Rogério Skylab on Grooveshark

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Rádio: Almir Sater - Tocando em Frente

"Sinto que seguir a vida seja simplesmente conhecer a marcha, ir tocando em frente"...

Tocando Em Frente by Almir Sater e Renato Teixeira on Grooveshark
 

Finding our true bearings in the cosmos

Quem me cerca e não é cético, ou ao menos, tanto quanto eu, parece extremamente desafiado pela ideia de que eu devote minha vida e lucidez a traçar complicadas linhas de argumentação, que dêem sustentação à minha visão de universo, ou na frase de Carl Sagan de difícil tradução em português: "our true bearings in the cosmos". É esse "bearings" ali que desafia todo o pouco inglês que nunca soube. Um tiro de 12 (shotgun, pois não? Não! Abrasileiremos, o mais que pudermos, que já começamos o post com título em inglês, e isso não há de cair bem na minha campanha contra a terminologia inglesa em todos os nossos diálogos. Digamos, então, no mais brasilzão que pude, "um tiro de 12, dessas espingardas de matar viado na curva". Seria, pois, veado? Palavra que já não sei e tenho urticárias e resistência física à tracejar origens etimológicas, motivo pelo qual, rendo-me, e estabeleço que o dito popular referia-se aos sujeitos nascidos homens mas que, em dada circunstância, abraçam outra orientação sexual, transformando-se naquilo que o humor mais fácil do outro tempo, tão caro a mim que vivo de regar o passado de mortas flores, resolveu chamar de "pula-pocinhas". Não há nada mais viado que chamar quem quer que seja de pula-pocinhas) feita a digressão, voltemos ao texto. A frase do Sagan, pois, dá um belo de um balaço de espingarda de matar viado na curva no meu bem pouco lustrado léxico da língua saxônica que não vai mais, parece, dominar o mundo. O idioma, não o meu léxico, que modesto como tudo que é meu, não vai nunca se meter a besta. Dá para traduzir "bearings" para coordenadas, mas eu acho que perde sentido. Enfim.

Mas eu não sou ateu e racional integralmente e, não, zombar e fazer escárnio com religiosos não é sequer um hobby. Nem mesmo uma distração que justifique o tremendo esforço e paciências, se preparem para a hipérbole, bíblicas exigidas na tarefa.

É só um senso de justiça, um tipo de indignação. Eu, por exemplo, sai da escola com dúvidas bem razoáveis sobre o Big-Bang, sobre a existência do átomo. Sai da escola ponderando que as previsões de Nostradamus poderiam fazer sentido, que ninguém poderia claramente afirmar que astrologia não era real. Sim, eu era uma toupeira.

Toda vez que esgrimo deboche e comentários ácidos à quem dedica tanto tempo e sentimentos a entidades metafísicas inexistentes não estou sendo perverso, ou procurando dar vazão a um hobby, procurando brigas ou demonstrando ansiedade para exibir todo o conhecimento que colhi de livros de divulgação, destinados para leigos, nerds e curiosos em geral.

Pode não ser a melhor política no tema, mas é a minha forma de chocar idiotas e procurar fazê-los enchergar a razão. Descobrir um universo absolutamente fantástico de ciência, causa, efeito, fenômenos e beleza incrivelmente complexa e abandonar as trevas do deus que te castiga por um pecado, da crença de que fé transforma a suas perspectivas, ou do fato de que estrelas explodindo indiferentes a bilhões de anos-luz daqui têm qualquer coisa que ver com sua personalidade, mau humor sazonal, ou o fato de que você teima em comer fritura.

Eu sai da escola, onde deveria ter aprendido algo sobre ciência, tão ilustrado nos mistérios do universo como um monge franciscano. E, anos depois, mais iluminado no que tange aos nossos "true bearings in the cosmos", sinto um tipo de alegria indiferente que gostaria de extender a todos. Gostaria de poder apresentar esse admirável universo novo a todos. É um lugar fantástico.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Meia idade precoce

Certos eventos dão a medida de quão avacalhado é um sujeito. No meu caso, vivo no presente um tipo de crise de meia-idade, colorida pelo fato de que, normalmente, o sujeito que vive uma dessas tem uns 15 a 20 anos mais do que eu. E quanto atravessa uma, ele compra uma Harley, um conversível, dispensa a patroa e arruma uma ninfeta de 20 anos.

Eu penso em começar uma nova faculdade e mudar de emprego.

Rádio: Mark Lanegan - She done to much

"And It's a bad, bad feeling that you get when you get so lonely"

domingo, 6 de maio de 2012

Mais sobre Journey

Falei sobre Journey, game exclusivo do PS3, em uns posts abaixo. Faltou muito para dizer sobre o jogo. Entre as informações principais estão preço e disponibilidade. Bem, ele só pode ser adquirido online, na PlayStation Store. O custo é bem módico, ao menos levando em conta os preços dos jogos console. São apenas 30 dilmas, se você comprar na Store brasileira, ou aproximadamente 15 obamas na gringa.

sábado, 5 de maio de 2012

Aforismos - Feminismo

"Feminismo é a ideia de que podemos fazer os sexos mais igualitários ao focarmos apenas os problemas de um deles".

Li por aí.

Journey é uma obra de arte que pode ser jogada

Em princípio, jogos oferecem possibilidades que transcendem as de qualquer manifestação artística. Um bom jogo, construído com uma mecânica original, uma boa história, personagens fortes, boa produção gráfica e sonora, tende a marcar a história desta indústria que, infelizmente, inova muito menos do que pode e deve.

Mas, eventualmente, de tempo em tempo, surge algo novo no horizonte. E neste caso é um horizonte desértico, assolado por um sol que não pode ser perscrutado, mas que se faz presente nos jogos de luz e brilho de todo o - absolutamente deslumbrante - cenário. Falo da composição de boa parte de Journey. Jogo exclusivo da PlayStation Store e que pode ser classificado menos como um game, mais como uma experiência estética.




Tudo em Journey parece ter sido cuidadosamente construído para surpreender. No sentido de transcender os padrões, levar a arte a outro nível e encantar mais ou menos todo o tipo de jogador. Journey é um triunfo da engenhosidade, da simplicidade e da poesia.

Journey não é, nem de longe, o primeiro game que recebe a classificação de obra de arte. Mas, sem dúvida, é a primeira obra de arte que, no fim das contas, pode ser jogada. Journey é muito pouco em termos de jogo, desafio, passar fases, resolver problemas, crescer numa história, ou colecionar troféus - algo que parece ter resumido toda a experiência em jogos atuais. Journey é como jogar uma música do Sigur Rós. Aliás, a trilha sonora tem um quê de Islândia e pós-rock.

E se falamos da música, que embala tão bem todo o jogo, é interessante perceber a suavidade dos movimentos da câmera. É muito intuitivo navegar a visão do jogo, que revela um cenário realmente bem imaginado, composto com luz, brilho e cor. Eu não andei até os limites do mapa em nenhum momento porque é tudo tão vasto, ou ao menos, a sensação de vastidão é tão esmagadora, que sentia preguiça em percorrer todas as áreas. Parecem, sim, não ter fim.

E a luz conta muito na hora de definir Journey enquanto experiência visual. Em dois ou três momentos do game, o a luz de um pôr-do-sol batendo de encontro com a areia causa um dos efeitos gráficos mais lindos que já vi em um game. Momentos assim constroem um tipo de choque diante da realidade de tudo aquilo ser muito grande e maior do que você pode experimentar. É como tentar entender o universo, sendo apenas um homem. Em Journey, esse choque de realidade e beleza é cuidadosamente construído num crescente em toda a narrativa.

Journey, sendo tão pouco como jogo, é muito mais como experiência. A vastidão de sentidos que pode ser colhida de Journey transcende a experiência de se jogar qualquer um dos mais sérios RPGs contemporâneos, como Elder Scrolls ou Fallout. Nesta boa composição não há longos diálogos, cutscenes cinematográficas. O sentido da jornada quem constroi é o jogador: caminho para a redenção de espírito, ou estrada para o nada, jornada para descobrir o que deu errado, enfim. Você decide sobre o que Journey trata: sobre as criaturas, sobre nós, sobre você, sobre a vida, sobre o passado.

Incrível observar que Journey coloca o jogador num papel privilegiado. Numa história aparentemente simples, o jogador tem um único objetivo: surgido em meio a um tormentoso deserto, sua meta é uma só: caminhar até a montanha que irradia luz, no horizonte distante. Com o passar da história, você começa a entender o quanto essa metáfora de rumo, caminhada e luz é imersiva no jogo.

As sucessivas "fases" do jogo oferecem desafios simples e quebra-cabeças que não irão exigir criatividade, ou muito raciocínio. De fato, Journey não se propõe como um jogo para hardcores. É apenas uma jornada, onde a ideia central é experimentar e descobrir.

Há muitas faces para explorar no excelente resultado obtido por That Game Company, a empresa que desenvolveu o título. Mas sem dúvida, o que mais impressiona é o aspecto multiplayer do jogo. Em diversos momentos de Journey você encontrará outra figura, rigorosamente igual a você, caminhando com o mesmo destino.

Mas não há forma de diálogo, não há como saber o ID do jogador - ao menos até terminar o jogo. Num mundinho que vai ficando cada vez mais esmilinguido pelo absolutismo das plataformas sociais e de comunicação na nossa vida digital, a proposta de interagir, mas sem conhecer e sem se comunicar, com outras pessoas poderia parecer boba. Contudo, Journey prova o diametralmente oposto: encontrar seres errantes, no mínimo tão ignorantes como você em termos de propósito da história, e fazer parte da jornada deles e eles da sua, é algo que coloca a experiência multiplayer de Journey em um nível inacessível para qualquer título mais comercial contemporâneo.

A mecânica que impede a comunicação direta com o outro jogador em Journey impede o vazio que multiplayer de grandes títulos acabou virando. Jogar Call of Duty, por exemplo, via PSN é se sujeitar a um universo de idiotas digitais e de garotos cheios de testosterona para derramar no video-game. Eles até podem jogar Journey, mas no ambiente suave e livre do jogo são convidados a serem menos truculentos e mais humanos. E isso é bonito.

Durante minha jornada, "conheci" oito jogadores diferentes. Mas mantive uma relação mais significativa com apenas dois. Um deles na primeira metade do jogo e outro no terceiro quarto da narrativa. Em ambas as ocasiões, nos ajudamos, corremos e procuramos avisar um ao outro por sinais os iminentes perigos (são apenas uns mostros voadores e alguns abismos). Juntos superamos estágios da jornada e durante todo o tempo em que dividi a viagem com eles me peguei pensando: quem são? Onde vivem? São brasileiros ou gringos? será que estão tentando se comunicar?

Uma sensação estranha é quando seu companheiro de jornada resolve sair do jogo. A personagem afunda na areia, como se ajoelhada, e levemente, se desvanece no ar. Sugere algo como uma morte. Ou coisa assim. É curiosa a sensação de incomodo que isso causa, um tipo de abandono e rejeição, porque, inevitavelmente, é criado um vínculo entre você e seu colega e, do nada, ele se vai. Você dificilmente o verá novamente no caminho e, mesmo que o veja, não há o menor recurso de comunicação para descobrir isso e dizer "ei, cara, sou eu, lembra?".

Não quero soar ingênuo, mas em Journey, o momento em que o companheiro de caminhada desconecta é equivalente a perda de sentido. De uma hora para outra, todo aquele deserto e aquelas ruínas se voltam sobre você e te fazem lembrar do fato de que, enfim, você está inapelavelmente sozinho. E, ao mesmo tempo, a ideia de completar a jornada, agora só, parece ainda mais forte e inescapável do que nunca.

É interessante como Journey explora os sentidos sem diálogos, sem cutscenes, sem tiros.

Perder um camarada na jornada abala o jogador. Mas percorrer sozinho boa parte do jogo e encontrar outro estranho pelo caminho, e passar a ser parte de sua viagem, dá um sentido especial ao jogo. É uma sensação amistosa, de integração, uma saudável impressão de que o estranho deseja que você termine a jornada. E você se sente irresistívelmente compelido a desejar o mesmo. E tudo recomeça.

Journey, além de ser especial, faz com que você se sinta especial. E nenhum jogo tinha chegado a isso.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Deixando marcas

A vida vai passando e a gente vai deixando marcas por aí. Eu, por exemplo, obcecado com a ideia de posteridade, criei um blogue. Aqui, venho colecionando nulidades anos à fio com a certeza de que todo o material conta um pouco de mim e convida quem quer que seja a conhecer esse pouco. Me preocupo em poder registrar a passagem do tempo para alimentar a curiosidade dos filhos que não terei.

Ponto, parágrafo. É uma coisa muito minha, como sabem meus oito leitores, o hábito de viver de regar as flores mortas do passado. Ou no caso dos filhos que não terei, de regar os rebentos que não irão nascer. Um tipo de regar as flores mortas do devir que não virá.

Mas, inevitavelmente, a gente deixa, meio sem querer, marcas do que é fora daqui, do blogue. Hoje a Folha de S. Paulo, em mais um claro deslize e visível desprezo pelas boas normas de jornalismo, publicou uma matéria em que eu dou meus palpites. Decididamente, os padrões estão caindo. Comemoro, pois, mais um atentado do jornal ao jornalismo e a novidade de que eu seja protagonista neste ataque. Não disfarço a alegria.

Pobre da Folha. A verdade é que nenhuma empresa jornalística é realmente isenta e ilibada. Nenhuma delas, grandes ou pequenas, pode dizer que é livre de culpas devidamente timbradas nos cartórios dos subúrbios do jornalismo.

De qualquer forma, folgo em observar que fui citado na matéria na companhia de um grande camarada e de um descendente direto de Che Guevara. Já posso morrer.

Rejuvenescendo

Fiz, em dois dias, mais poesias do que fiz em 10 meses. É o frio. A baixa temperatura me faz mais poeta, desperta um bom sujeito em mim, me faz um cidadão resoluto, disposto a tudo para vencer, triunfar e integrar satisfatoriamente qualquer sociedade dessas mais distintas, serendipitosas e íntegras. O inverno põe para hibernar o soturno, macambúzio, sorumbático e acabrunhado eu que só acordará, novamente, quando os termômetros assinalarem o lamentável, e inevitável, regresso do verão.

Postergai

A cada vento que me rói a face
descubro, apalermado,
que não há vida que me baste
e me mato
aí algo me sussurra "postergai!"
a cada noite que amanheço
me lembro do dia
em que não te esqueço
e do que eu podia
e se esvai
a cada dia em que morro
ressuscito ainda outra vez
e desse meu jeito sem socorro
digo que agora já não posso
e que amanhã eu consigo
fazer do hoje algo mais nosso.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Sol frio

Esse sol frio daqui
vem para esfriar
esse coração quente
que morre ali
esse vento felino
vem numa matilha
que lambe minhas feridas
e te leva para lá
e deixa as nossas vidas remidas
as caminhadas estreitas
em cicatrizes desfeitas
o vento que me lembra
do que a vida te dá
é o frio que te ondeia
e me conta que não há receitas
para viver essa vida de desditas
desse jeito inocente de quem verá
todas as lembranças hoje malditas
de quem me esquecerá.