segunda-feira, 30 de março de 2009

Menos, menos

O post (London Calling?) anterior é embalado numa bem justificada indignação, embora ao leitor mais desavisado possa parecer que ele traz uma injustificada radicalidade. Não é bem assim. Para explicar os termos: a digna senhora dona da Daslu - não pretendo escrever o nome dela, é minha forma de não dar audiência - cometeu crime, então prende-se. Mas foi solta por ordem, ora, da Justiça.

Não me embato com o que manda a justiça. Me aborreço supinamente com o que manda a gente togada desta mesma justiça. Concluindo-se, meu calo aperta é com a impunidade.

E por essas e outras que eu já nem repito que o Brasil não acaba. Digo que ele, agora percebo, tem solução: o aeroporto.

sábado, 28 de março de 2009

Era uma vez...

Era uma vez um reino muito esquisito. Onde a justiça era, realmente, como a estatua de Minerva, cega. Mas a sua balança ia além, era desregulada e pesava tudo com as medidas ditadas pelas conveniências políticas e de compadrios. E sua espada, forjada na dureza do coração do homem, feita para ferir e assim vingar o justo, era sem fio. Ou tinha o fio tão desregulado como a balança.

Consta que no fim dos tempos desse reino, quando se pensava que não podia acontecer nada de pior, eis que, aconteceu. A justiça do reino mandou para trás das grades, certa feita, um ladrão de carne. Roubara, é o que consta, para alimentar uma criança que dependia do seus esforços para não soçobrar. É um motivo justo, não há dúvida. Mas não deixa de ser crime, cadeia nele.

E nesses tempos que corriam havia no reino uma muito requisitada e festejada loja, onde se encontravam artigos de vestuários a preços exorbitantes. Não porque fossem necessariamente melhor que qualquer outra vestimenta, mas porque ostentam a assinatura de algum estilista famoso. Se bobear tem tecidos ruins, desfiam, grudam bolinha e encolhem - além de serem desconfortáveis. Mas são caras. E dinheiro confere a tudo que toca - é o do de Mannon - o mérito e o brilho.

A dona da loja fraudou a justiça tributária do país, desviando contribuições e impostos que, se espera, sejam pagos por toda a população para tentar manter o reino nos eixos. Mas ela não pensa assim. Acredita que sua loja e seu nome a ostentam. Ela é importante. Intocável.

Mas eis que no momento menos esperado alguns esbirros, alguns aguazis do reino enfiaram a distinta senhora ladra - porque quem frauda com vistas a desviar dinheiro dos cofres públicos rouba - dizíamos, a ladra foi presa. Comoção. A imprensa do reino é uma das mais atrasadas de qualquer um dos que se contam no mundo, e como pode se imaginar, o clamor de "injustiça" foi geral contra essa outra Maria Antonieta.

Foi solta. Por mais que seja reincidente no crime, foi solta. E diz-se "traumatizada" com a experiência de ter sido presa. Precisará de tratamento, a pobre. Pena. Eu sinto uma pena muito grande. Sou capaz de chorar antes de dormir pelo terror que deve ter sentido a digna larápia.

Ah sim, e o ladrão? Ora, ele roubou carne para alimentar uma criança. Mereceria, por certo, prisão perpétua, afinal, onde é que já se viu. E de fato não teve chance de prisão perpétua. Morreu antes, de AIDS, largado em algum cárcere abarrotado e imundo. Mas teve o que merecia, roubou, dirão alguns.

É por essas e outras que o Brasil não acaba. Vivemos num país de faz-de-conta. Eu ainda não sei como, mas sou capaz de me indignar. Me sinto como uma outra Velhinha de Taubaté, aquela que acreditava. Acreditar, ah, isso não é mais comigo. Mas me indignar, sim.

Eu poderia vir aqui e escrever sobre a sensação de ver as notícias tratando essa criminosa (tenho ganas de chamá-la de palavrões, mas eu manterei a decência) a pão-de-ló, citando a "violência de tirá-la de casa pela manhã e simplesmente colocá-la numa cela", como se não fosse o que acontece todos os dias. Como se ela estivesse acima da lei.

Poderia vir aqui e citar meus engulhos ao saber, já de ante-mão, o final da história: liberdade a ela e aos outros canalhas presos. Poderia lembrar que no Brasil a gente persegue o delegado e juiz do caso Daniel Dantas, simplesmente porque foram exemplares no seu trabalho, enquanto fecha os olhos para a sujeira, para a lama que querem esconder debaixo do tapete.

Poderia vir aqui, enfim, falar tudo isso, porque são coisas que a esmagadora maioria da população desconhece, porque ou lê a criminosa Veja, ou se influencia por ela. Poderia. Mas pra quê?

E é aqui que eu olho pra gata e continuo a dizer: "sou uma pessoa profundamente infeliz".

sexta-feira, 27 de março de 2009

A mãe de todas as ressacas

Kenny Rogers nunca me pareceu tão sábio. "I just dropped in to see what condition my condition was in", diz ele numa obscura canção dos anos 60 que eu ouço demais - tenho o mal vezo de gastar uma música até não suportá-la, para aí então tornar a gastá-la. (Apertando a tecla SAP: "eu caí em mim para ver a condição em que minha condição estava"). Pois é.

Beber é mal, mas é muito bom. Encher a cara, locupletar-se como se fosse conviva de Dionísio (Baco), deus bonachão romano dos porres e adjacências, em alguma muito bem humorada bacanália (que vem de, não diga, Baco) pelos lados de Roma, uma Roma que chamamos de Pauliceia desvairada. Fossem os deuses mitológicos romanos - e gregos - algo sérios, muito provavelmente, Dionísio revoltar-se-ia com toda a razão pelo sacrilégio de uma das suas sagradas orgias virem a ser realizadas numa cidade com o nome de São Paulo. Pois sim, nome de santo, onde é que já se viu. Mas Baco não ligaria, a festa já acabou.

Mas hoje é outro dia. A sensação sentida daqui desse colchão, de tudo a girar, como num caleidoscópio perturbador, afiança que já passou. Aliás, passou a festa. Não o dia seguinte. Aliás, deve ser o dia seguinte. Aliás, eu já tive experiências de dormir demais no dia seguinte a ponto de acordar e ele ser o dia seguinte do dia seguinte, o que é horrível. Tudo quieto, deve ser de manhã, do dia seguinte, claro. Aliás, que dia foi ontem?

O terrível de um porre não é vomitar. Nem a dor de cabeça. Muito menos o gosto de cabo de guarda-chuva (guardachuva?) na boca. Uma desgraça, pior que doença, é se sentir sozinho. Eu sempre acreditei que, depois das mulheres, só podia ser o tédio a moléstia do século. Bobagem. Deve ser a solidão da ressaca.

E depois da solidão - não há capacidade narrativa capaz de traduzir uma ressaca - é, aí sim, o tédio. Não há uma maneira de se compartilhar a angústia de uma ressaca com uma mulher, o que é uma felicidade. Se houvesse, estou certo, ninguém chegaria a um segundo porre. O tédio advém do fato de que não há absolutamente porra nenhuma que dê para fazer mareado.

Ficar estirado na cama é ruim. O mundo gira, e é desagradável demais se sentir num carrossel, quando se sabe que não está em um. Levantar é pior porque girar parado é contornável se você se concentrar e fechar os olhos. Mas sentir o mundo dançando em pé é desconcertante.

Ler? Como? Não, traria portentosas e bastante aborrecidas dores de cabeça mais tarde. Que, aliás, já está doendo. Ver TV, pois olha, meu caro, se eu sequer desconfiasse onde diabos foi parar o controle da TV poderia vir a ser uma ideia. Mas aí eu teria que ir até o controle, e tenho medo de me mexer. Sinto no ventre
uma forma líquida e flutuante, independente da minha vontade, o mesmo que a personagem da Sigourney Weaver deve ter sentido no Alien. É, aquele filme ridículo, cheio de gosmas barulhentas e ridículas, dirigido pelo não menos ridículo diretor que vem a ser, veja você, diretor do (te esconjuro) "Fabuloso Destino de Amélie Poulain", largamente difundido por ser absolutamente ridículo.

Poderia ouvir música. Mas minha cabeça dói. Pensar na vida? Eis aí, meus caros, algo que dá para ser feito numa ressaca. Para quem nunca teve ressaca (aham, nunca? Sei...) é como estar acamado numa gripe. Você fica tendendo a comiseração e a um estado bastante contemplativo. É um tipo de lucidez que só um, ironia, porre pode nos trazer. A gente se vê em perspectiva, o que não é assim tão difícil de se fazer quando se está girando, uma hora ou outra você cai do carrossel. Os bêbados em ressaca sabem coisas que os sóbrios, em sua inútil filosofia, jamais sequer desconfiariam. Provavelmente é por isso que Guy Debord, uma notável autoridade no assunto, disse uma vez: "há homens que se embriagam uma vez e assim permanecem para a vida toda".

O mal da ressaca passar é que essa sabedoria vai embora. Desfaz. Porque se "tudo que é sólido desmancha no ar" (veja Marx), é muito mais justo esperar volubilidade instântanea de coisas que se julgam de ante-mão efêmeras. Mas o fato é que eu poderia ouvir música. Porque se não sou capaz de dizer onde estão o iPod e o celular, há ali um rádio perto de mim. É só girar o botãozinho e, voi-lá, som. Ruído. Algo para me dizer que há vida depois do porre.

Mas há riscos. Eles poderiam tocar funk. Sertanejo, pop, meu Deus, quase que com certeza eles tocaram algo que eu não goste - e eu já tenho problemas demais. Não. Música é arriscado.

Comida também é um caminho muito seguro para uma catástrofe. Há o refluxo. Não vale à pena arriscar e, arrisco dizer, se fosse buscar algo para forrar o pandulho é bem provável que não encontrasse nada que me apetecesse e, se somar o porre, a ressaca e a consciência a uma decepção dessas, é difícil de dizer, mas acho que não sobreviveria. Uma luz, neste momento em que você considera a ingestão de qualquer coisa uma possibilidade intensa e importante como seria discutir com Trumam se, afinal, valeria à pena jogar uma bomba em Hiroshima e ver que bicho dá, surge na sua cabeça: e onde diabos estarão aquelas cartelinhas de engov?

Engov. Na hora me pareceu um nome russo. E tem semelhanças: Andropov, Kasparov, Mutalikov, Karamazov, Engov. Talvez o comprimido passe a fazer as propagandas da Net e saudar-nos, sempre sorrindo, skavurska!. Aí você começa a cantarolar deitado em berço esplêndido Conditions do Kenny Rogers como um idiota, tropeçando em todos os versos possíveis e impossíveis. "Beber é um troço idiota, cara". "Eu sei. É por isso que eu bebo".

Nisso vem a gata branca que parece-me constituída de pelos (sem acento), ela só faz perdê-los, o que me deixa feliz, porque segundo todas as probabilidades, ficará careca muito antes de mim, vem ela, afinal, roçar-me as pernas estendidas. Diabos, o fato de você levantar o pescoço e a cabeça e "tá tudo bem" mostra que está passando. Aliás, tudo passa. Amanhã você é o mesmo sujeito de antes, o que é triste. Esquecerá cada uma das elucubrações e profundas verdades que a ressaca te permitiu perscrutar na alma de seus semelhantes. É o destino inexorável. Agora pare de cantarolar e diga para a gata: "sou uma pessoa profundamente infeliz".

quarta-feira, 25 de março de 2009

Radiocabeça, Cabeçaderádio, Radiohead

Eu fui no show da cultuada banda inglesa no fim de semana, em São Paulo. Radiohead é uma das minhas bandas preferidas há um bom tempo. O som introspectivo, a qualidade dos arranjos, a impressionante capacidade de se reinventar a cada álbum (eles fazem coisas completamente diferentes de disco pra disco), são algumas das boas razões para curtir o som da banda. Talvez em matéria de bandas só outras três disputem minha atenção na mesma intensidade: Sigur Rós, George Thorogood and The Destroyers e Placebo (e aqui só falo de bandas. Estou excluindo artistas solo). Radiohead é muito legal. Eles, por exemplo, acham legal você comprar o cd, ou as faixas pelo iTunes. Mas se você baixar as músicas de graça eles acham legal também. Foi assim que o último disco, o In Rainbows, foi lançado: pela internet. Você baixa ele todo gratuitamente e, se quiser, dá alguma quantia para a banda - quanto quiser.

Foi um bom evento, o show foi inesquecível: todo o último álbum foi tocado, além de alguns hits. No palco a presença de Tom Yorke, o vocalista, foi impecável. A brincadeira com as micro-câmeras projetando nos telões imagens distorcidas, que pareciam clipes, foi genial. O jogo de luzes com neon, mudando e vibrando conforme a música deu um toque ainda mais incrível ao ambiente, fazendo parecer que tudo, tudo mesmo, girava em torno da música.

Além disso estava na companhia de amigos queridos numa apresentação espetacular. Foram mais de 30 mil pessoas, chuva fina aqui e ali. Uma sensação de catarse há muito esperada, sobretudo ao ouvir "Last Flowers", "Fake Plastic Trees" e "Creep". De quebra o festival Just a Fest ainda tinha Los Hermanos - não gosto - e Kraftwerk, que é uma bobagem alemã sobre música eletrônica. Mas parece que são extremamente adorados por quem curte o "gênero". Eu achei uma merda.

Mas tinha ido lá pelo Radiohead. E saí ganhando.

Vídeos do Show:







* Ia postar uma foto com minha cara, ali, pertinho do palco. Mas não. Aí você veria minha face, caro leitor(a). E o que seria da gente se não mantivéssemos, por pouco que seja, uma pequena aura de mistério em tudo que por aqui fazemos, não é mesmo?

** E a bem da verdade é que não perde nada. Sou feio.

*** Postaria também minhas "footages". Fiz filmagens de algumas performances, sobretudo de "Karma Police" e "Idioteque". Mas ficou uma bosta, não dava pra filmar bem pulando.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Quanto?

Quanto pesa uma lágrima?

terça-feira, 10 de março de 2009

Mas claro que não podia ser perfeito

Ah sim, não tenho MTV. Então não poderei assistir ao programa.

Comigo tem sido assim há um tempo. O pouco que eu ganho, eu perco.

Um pouco de felicidade em meio ao caos

Não vivo uma boa fase. Ontem foi um dia em que simplesmente tudo deu errado, problemas pessoais, no trabalho e na família. É o caos. Catástrofe atrás de catástrofe. Enfim.

Hoje fico sabendo que logo mais, no MTV Debate, dois dos meus melhores amigos, dos meus irmãos sem relação consanguínea estarão lá. É uma honra. Sinto-me feliz por eles. E lembro com alguma alegria o dia em que disseram que nós éramos apenas três incompetentes e indolentes debochados. São eles que vão ao programa, por certo, mas sou eu quem fico com o orgulho.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Idiotas da objetividade

Eu fui avacalhado por um idiota da objetividade numa banca. Chegou a dizer o distinto colega, hoje o somos por força dos fatos, que "tudo é objetividade" - na vida e no mundo. Não discuti. Como dirá logo a seguir Nelson Rodrigues, o idiota da objetividade é um cretino fundamental. E cretinice, leiam no dicionário, refere-se à ignorância. Com ignorantes não discute-se, concorda-se.

Trecho de entrevista de Nelson Rodrigues à Geneton Moraes Neto - não é dos meus preferidos, mas vem a calhar - onde Nelson, tão bom em simplificar coisas difíceis, nos diz o que é, afinal de contas, um idiota da objetividade, os grifos são meus:

"GMN : O jornalismo brasileiro continua padecendo de objetividade? – que o senhor considera uma “doença grave”?

Nélson :“O idiota da objetividade é o jornalista que tem grande fama, todo mundo, quando fala dele, muda de flexão. Mas eu acho o idiota da objetividade um fracasso. Isso num julgamento absoluto. O idiota da objetividade é também um cretino fundamental”.

GMN : Quais foram as causas da ocorrência desse culto à objetividade que, no conceito do senhor, corresponde à falta de emoção?

Nélson : “Pois é, é esse o negócio (ri de novo). É a falta de complexidade do sujeito que diz só a coisa certa ou aparentemente certa e não vê que todo fato tem uma aura. A verdade é que o fato só, em si mesmo, é uma boa droga. Olhe aí (e mostra a crônica “A Desumanização da Manchete”):

O “Diário Carioca” não pingou uma lágrima sobre o corpo de Getúlio. Era a monstruosa e alienada objetividade. As duas coisas pareciam não ter nenhuma conexão: o fato e a sua cobertura. Estava um povo inteiro a se desgrenhar, a chorar lágrimas de pedra. E a reportagem, sem entranhas, ignorava a pavorosa emoção da população. Outro exemplo seria ainda o assassinato de Kennedy. Na velha imprensa, as manchetes choravam com o leitor. A partir do copy-desk, sumiu a emoção de títulos e subtítulos. E que pobre cadáver foi Kennedy na primeira página, por exemplo, do “Jornal do Brasil”. A manchete humilhava a catástrofe. O mesmo e impessoal tom informativo. Estava lá o cadáver, ainda quente. Uma bala arrancara o seu queixo forte, plástico, vital. Nenhum espanto na manchete. Havia um abismo entre o “Jornal do Brasil” e a cara mutilada. Pode-se falar na desumanização da manchete”.

GMN : A ausência de um ponto de exclamação numa manchete faz falta ao leitor comum?

Nélson : “Faz. Eu digo o seguinte: na minha infância, havia primeiro o “Correio da Manhã”, um jornalaço. E havia “A Noite” – que vendia muito mais. E era um jornal muito mais amado pelo leitor. “A Noite” era um jornal amado (acentua a voz, ergue os braços). O sujeito comprava “A Noite” disposto a ler ou disposto a não ler. Não fazia mal isto. Ler ou não ler era um detalhe insignificante. Mas o povo gostava desse jornal. E esse antigo jornalismo permitia, por exemplo, que você fosse fazer a cobertura de um incêndio e levasse na mão uma casa de pássaro, uma gaiola e metesse a gaiola com um pássaro lá num certo ponto da casa em chamas. E aí o repórter que não era idiota da objetividade dizia que o nosso querido fotógrafo ouviu toda a cantoria do canário. E terminava dizendo: “Morreu cantando” (a essa altura, Nélson Rodrigues concede uma entonação teatral a esta frase). O repórter fora cobrir um incêndio. Mas o fogo não matara ninguém. E a mediocridade do sinistro irritara o repórter. Tratou de inventar um passarinho: enquanto o pardieiro era lambido, o pássaro cantava, cantava. Só parou de cantar para morrer.
A história desse canário fez um sucesso tremendo. Um sujeito queria uma vala especial para o canário, o nosso querido canário cantor. Era lindo. O jornalismo de antigamente era mais ou menos assim. Hoje, a reportagem de polícia está mais árida do que uma paisagem lunar. Lemos jornais dominados pelos idiotas da objetividade. A geração criadora de passarinhos parou em Castelar de Carvalho, o autor dessa reportagem sobre o incêndio. Eis o drama: o passarinho foi substituído pela veracidade que, como se sabe, canta muito menos. Daí porque a maioria foge para a televisão. A novela dá de comer à nossa fome de mentira”.

Se estiver curioso, pode ler tudo aqui.

Logro

Lendo versões traduzidas de jornais como o Der Spiegel, Financial Times, o El Pais e o Le Monde tenho a nítida sensação de que fui enganado na universidade, que como diria um amigo, "não passa de uma máquina de moer sonhos". E pior, mais do que enganado na universidade, posso um dia ser obrigado a enganar.

Aqui ainda estamos no tempo do lead e da objetividade acima de tudo. Já dizia o Nelson Rodrigues: "ah, os idiotas da objetividade".

quarta-feira, 4 de março de 2009

Pão duro 2

Aliás, muito mais macho do que dizer que quebrei o dente dando mordidas em barras de aço, seria dizer que quebrei-o numa briga. Caso eu ainda estivesse na idade de pôr em dúvida questões como a minha masculinidade e tivesse necessidade de impressionar terceiros, diria isso: quebrei-o numa briga. Mas ainda assim seria difícil, trata-se de um molar, afinal. Para vê-lo só se eu escancarar a boca e a pessoa estiver muito perto. Ou se ela esquadrinhar o espaço com a língua - hummm - aí eu diria: "pois é, gata, meti-me numa briga, foi o que me coube da luta, perder parte de um dente. Mas garanto que o outro sujeito ficou pior. Eu praticamente mastiguei-o".

Rapaz, isso me dá algumas ideias.

Se a dentista for bonitinha, está decidido, direi que foi briga. Levei um murro na bochecha. Dei outro no olho do adversário. Pois é. Não estou mais na idade de questionar e de impressionar, mas que se dane, são velhos hábitos.

Pão duro

Ontem eu, depois de uma abstinência de alimentos de 7 dias - e isso não é um récorde, já fiquei 9 e só comi no décimo dia porque se tratava de um casamento, e não convinha desperdiçar o bifê - resolvi que era hora de exercitar o estômago e dar-lhe chance de executar o peristaltismo antes que venha a esquecê-lo completamente, o que, embora eu tenha esse apetite tão irreverente, me traria os maiores dissabores (ahn? ahn?), posto que gosto de comer e de cozinhar.

(Peristaltismo, qualquer colegial sabe, é o nome dado aos movimentos que o estômago faz na digestão. Deite-se depois da refeição e observe sua barriga dar pulinhos: é o estômago trabalhando).

Enfim, para dar a chance de meu estômago fazer alguma coisa que lhe justifique a existência, preparei um sanduíche com algumas conservas e um forro de mortadela. Nada que um gourmet se orgulhe, mas ainda assim foi um primor para os olhos e para o palato.

Pão preparado e estômago avisado, sentei-me perante o computador para, enquanto assistia Life (muito melhor que Lost, fiquem todos sabendo), mastigava com o maior vagar possível - vim a saber recentemente que ingerimos tão rapidamente que não damos tempo ao organismo para que este nos avise da saciedade, motivo pelo qual comemos demais - dizia, comia com enorme pachorra, mastigando lentamente cada pedaço da conserva de pepino que fiz, da de cebola que fez minha mãe, da de beterrabas que fez meu avô quando, de repente, eis que sinto como se mordesse uma pedra.

Um pequeno pedaço duro, de alguma substância sem sabor algum, entrou na moagem dos meus dentes posteriores. Pensei: "mas que diabos eles andam pondo nesses pães?", "teria eu feito conserva de pedras no lugar de pepinos?", "é a capsula de um veneno que algum dos meus inimigos mortais teria colocado na minha comida para me envenenar?"

Que nada.

Aconteceu que quebrei um dente. Um dos molares. O que não me apavorou, por certo, sou uma pessoa naturalmente calma e paciente. O que me preocupou foi que julguei que um dente quebrado doeria miseravelmente. E não doeu nada. Não dói, aliás. Meu maior estranhamento veio do fato de que desconhecia que isso acontece com alguma frequência e não é nada de outro mundo. Tenho um amigo que bateu o garfo no dente e quebrou um pedacinho que coseguiram colar. Outro que rachou um canino ao morder uma rapadura.

Fico envergonhado ao pensar que quebrei meu molar com um pedaço de pão. Amanhecido, é verdade, mas ainda assim a pasta de trigo assada com fermento e ovos. É uma vergonha para a minha virilidade admitir que meus dentes são passíveis de quebrarem-se inapelavelmente com pedaços de pães. Eu poderia negar tudo, vir aqui escrever que mordi, de raiva, uma barra de aço por conta de algumas desgraças que me sucedem. Mas não. Passei da idade de mentir para contar vantagem. Passei, aliás, da idade de ter vergonha e de precisar provar a masculindade, e qualquer outra coisa, pra qualquer um. Portanto, brademos aos quatro ventos: meus dentes quebram ao contato com pão.

Passada essa profissão de fé, vale registrar que recorrendo ao pai Google vim a saber que dentes quebrarem é algo mais ou menos comum. Pode significar em casos graves deficiência de cálcio o que, vim a saber depois, é algo raríssimo na minha idade - embora meus hábitos alimentares possam causar uma desgraça como essa (duvido, minha mãe diria isso. Mas não faz sentido, muito antes de eu ter deficiência de cálcio, eu deveria ficar anêmico se a lógica fosse essa, mas não é).

E comum também é o concerto. Se quebrar uma parte dele, a gente cola com resina. Se você engoliu ou esmigalhou a parte (fiz ambos), não tem problema, a gente constrói outra parte com resina também. Se não chegou no nervo não dói nada. Se chegou, doerá espetacularmente e você terá que fazer canal - é quase como a ponte de safena da boca.

No fim das contas pode-se ver que poderia ser pior. Aliás, sempre pode ser pior. Vai ver que é por isso que me sinto tão feliz com um dente rachado e uma rebarba que roça a bochecha esquerda, sem nada pra fazer, tantas viagens para cumprir neste mês e sem ninguém para me magoar e prender - ou se sentir presa e dizer que me prendia, enfim.

Quer ficar feliz? Quebre um dente!*

(Sintam a ambiguidade)

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

10000!

Não há nada para comemorar. Fiel às tradições pessoais, estraguei tudo. Sem querer fui o 10.000.

Bah.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Quase 10.000

Beirando 10.000 visitas. Tudo é relativo, portanto, parece muito. Mas na verdade é nada.

Twitterando o blogue - II

Estou muito sem tempo, escrevendo isso diretamente do iPod (é meu primeiro post no aparelhinho que vai dominar o mundo), no meio da estrada, e sem muito tempo para nada. Mas logo o blogue voltara a sua programação normal: toneladas de posts ignóbeis para combater a calvície.

Essas idas e vindas me provam que o corpo humano é uma máquina admirável. Até que dê problema.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Twitterando o blogue

Às vezes fica difícil, mesmo, ter alguma fé em Deus.

Aforismos - Carnaval

E vem chegando o carnaval. Bah:

"Vamos pular o carnaval. E ir direto para o fim do mês".

Aforismos - Das companhias

A Bíblia é um excelente depósito de bons corolários e frases impactantes - de tê-la lido de cabo a rabo umas duas vezes, acabei impregnado dessas passagens: "atire a primeira pedra", "dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus", "afasta de mim esse cálice", "olhai os lírios do campo", "cada dia tem o seu mal". Enfim, e há esta, adaptada:

"Me diga com quem andas que direi se vou contigo".

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

A baixaria nunca acaba

Há quem ache a Folha de S. Paulo o suprassumo. Eu sempre achei que ser o suprassumo do jornalismo brasileiro é mais ou menos como ser o suprassumo mundial em tocar guitarras imaginárias. É um nada. Enfim, pãos ou pães, é questão de opiniães, diria o grande Guimarães Rosa.

Mas o que conta é ver a antecipação de 2010. Sim, a sucessão presidencial entra em foco, e olhe aqui a maneira digna, adulta, polida, imparcial ao extremo, decente, irreprochável, com que o comentarista de política, Josias de Souza, trata a sucessão. O que só prova que ser o suprassumo do nosso jornalismo garante ao digno jornal, este baluarte da democracia e do bom exercício da profissão, o direito de fazer, também, jornalismo marrom (clique na imagem para ampliar):


O link do post está logo ali em cima. Pode ser que tirem do ar, então nada mais justo que um print-screen para garantir a posteridade.

Pálido ponto azul

Como somos mediocremente pequenos perante a magnificência do universo todo em constante expansão. Somos insignificantes, pequenos como um átomo pode ser perante o Sol. Não há verdade nova nenhuma nesta constatação, mas é admirável como somos capazes de esquecermos disso. Como somos bons em crer que nossas subatômicas vidas e as demandas imbecis a que damos alguma importância, como se realmente tivessem, são verdadeiras cruzadas. E elas mesmo, as Cruzadas, não são nada perante o tudo. Enfim, somos muito pouco e absolutamente porcaria nenhuma perante a enormidade daquilo tudo que nos cerca e que nós, incapazes de compreender e de vislumbrar os limites desse tudo, nos contentamos em crer que, talvez, seja nada.



É sempre bom colocar tudo em perspectiva às vezes. Ver você e sua vida de fora, sob um outro ponto de vista, é sempre algo que nos ajuda a melhorar. O problema é que fazer isso não é assim tão fácil.

Aforismos - Das inutilidades

Todos nós criamos sentido para a vida na medida em que nos ocupamos com aquilo que julgamos necessário, importante, prazeroso e/ou recompensador em alguma medida. Mas é tudo vão, no fundo a gente sabe.

"O legal de esgrimir contra moinhos de vento é que você nunca ganha. Mas também não perde".