quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Cagarolas

Enchi o peito, bradei aos quatro ventos:
que não podia mais, não tinha mais sentimentos.
De fôlego renovado corri feito um acovardado.

E disse comigo mesmo, como fui bobo,
dei-me a ingrata tarefa de imitar

um cordeiro que desafiou um lobo.

Livros

"Da sua boca eu ouviria as notícias mais tristes".

Li hoje. Numa vitrine.

Tempos

E se fosse o tempo uma das minhas veredas
Se fossem de vento os teus caminhos e certezas
eu correria todas as estradas pela quimera
de uma vez mais acabar com nossa espera.

Enquanto o futuro pega na sua mão delicada
corro pelo presente em busca do passado
acerto o passo da memória com o relógio, conservo-a dedicada;
ainda que tênue a cada lapso.

Não é de sonetos que se vive a vida.
Nem de hai-kais que se dá tino a história,
Mas é de palavras que fazemos toda saudade sentida.

Há uma verdade oculta em cada dia cinza.
Que a cor do céu nos alegrou e abraçou,
enquanto fez do mundo um lugar mais ranzinza.

Rádio: Elvis Presley - You've Lost That Lovin' Feelin'

Uma das maiores canções do Rei. Eu vivo boa parte dessa letra. Quem dera viver ela toda:


Dizia Mark Lanegan

"Something has gone badly wrong with me..."

Grande Marquinhos, ele sabe das coisas.

Volta às aulas

Eu sou um sujeito calibrado para reparar em bagatelas e, usualmente, encontrar nelas sentidos transcendentais. Não que eu sobrevalorize experiências e situações corriqueiras. Eu, mais do que muita gente, presto atenção a essas situações. E acabo tecendo comentários e mais comentários sobre elas. Vai que um dia eu tenho uma boa ideia e escrevo um livro? É tudo um treinamento, portanto.

Enfim, de qualquer forma, o que iria escrever aqui é sobre a volta às aulas. Sim. Em setembro, vias de outubro. E de 2009. Minhas volta a uma sala de aula depois de praticamente dois anos de período sabático. E dessa vez foi na pós-graduação. O mundo acadêmico, por certo, não me seduz nenhum pouco - tenho ojeriza aos melindres do mundo acadêmico - mas uma pós-graduação em jornalismo literário, convenho, é de muito interesse.

Mais do que a experiência de voltar às salas de aula, o que me chamou a atenção foi o fato de que gostei. E isso é algo razoavelmente inédito na minha carreira de estudante e aluno relapso. Uma pós para fazer, portanto. Quem diria.

Quem diria.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Mentiras e mais mentiras

Há pessoas que mentem, omitem, deturpam e manipulam a troco de esconder suas fragilidades em lidar com coisas maiores que elas mesmas. Muita gente é assim, é um mecanismo de defesa. O problema acontece quando temos para com essas pessoas uma relação de amizade, de devoção, de admiração. Aí nos tornamos vítimas potenciais dessas situações.

E eis que fui eu vítima recente de uma dessas manipulações. Me comovi com o último texto de José Saramago em seu blogue e quando eu já dava como favas contadas que não mais teria o prazer de ler suas postagens aleatórias, eis que ele retorna.

Isso não se faz, Saramago.

Metrópole de meia pataca

Esqueçam toda a papagaiada midiática que se refere a São Paulo como a cidade que nunca dorme. Cheia de serviços 24 horas, disponíveis aos insones, boêmios e ébrios. Ou simplesmente àqueles que, como este que vos escreve, funcionam melhor pelas madrugadas. Não há nenhuma pizzaria que eu conheça que seja 24 horas. Bares na região da Augusta têm a audácia de fechar. Conheço apenas um supermercado dia e noite, 24 horas mesmo, mas que, embora próximo, coisa de 15 minutos de caminhada, é distante o suficiente para ensejar assaltos e contratempos que tais no percurso.

Metrópole provinciana.

domingo, 27 de setembro de 2009

Hai-kai nº 17 (Assimétrico)

É tudo poesia
Há muito que percebo:
verso me dá azia.

Hai-kai nº 16

Na rua Augusta
Há toda uma vida
que me assusta.

sábado, 26 de setembro de 2009

Rádio: Elvis Presley - Suspicious Minds

Eu não sei como deixei passar uma injustiça dessas. Eu, logo eu, deixar de fora o Rei. Para remediar o agravo, eis aqui uma apresentação do Elvis antes dos anos decrépitos. "Elvis é foda, muito foda. Meu Deus, como ele é foda", disse uma vez um amigo. Pois é:


É como os Power Rangers...


"O foda dessas situações, como você bem sabe, é que elas são como os Power Rangers. Quando você acha que tá tudo bem e dando certo, elas chamam os Megazords e fodem com tudo..."

Eu tenho um amigo impressionante em definições e corolários.

Meu melhor

Eu vou escrever hoje meu melhor poema, meu amor.
Vou esgrimir com os versos, vou me econtrar onde quer que for.
Estarei lá, ao pé de toda a tristeza, rir e enfrentar o pavor.
Vou correr o risco de chorar novamente, só para te chamar de flor.

Vou te dar hoje, meu amor, o meu melhor sorriso.
Entre o som da sua voz, a carícia do seu olhar indeciso
vou encontrar o mérito de tanta teimosia para acariciar teu cabelo liso.
E com as rimas te acalmarei, toda essa angústia, eu amenizo.


Hoje, meu bem, será um dia de alegria e de sentimentos.
Enfim, verdades e sentidos irão curar nossos ferimentos,
e no fim da noite escura, o alvorecer da manhã nos assegura,
há muito porvir e há ainda muito o que sentir.


Eu vou caminhar as novas veredas sem olhar para trás.
Comigo, no peito, vão todos os sonhos do mundo,
na cabeça todas as paixões do tempo de rapaz,
e do teu coração guardo o olhar profundo.


Não vou esquecer seu jeito de manhã serena.
Vou viver por outro dia em que lhe acaricie a cabeça morena.
Vou viver do sonho de um dia ter te amado,
e o pesadelo atroz de que o seu amor tenha acabado.


Este poema, meu bem, é o que venho escrevendo
Escondido, condenado às minhas penas, sigo perdendo
Lembrando nossos dias cinzas, de memórias vou vivendo.
De misérias, desditas e solidões, vou-me esquecendo.


Eu te daria outras Notas, diria outros livros.
Construíria planos, de sonhos viveria as tuas dores,
eu te levaria, Flor, onde não existe amor,
só para que juntos construissemos no vácuo novas flores.


Meu amor, te espero ciente da inutilidade.
Já demos adeus demais, e eu sou jovem demais pra tanta bobagem,
eu queria mesmo era um novo sentido para a felicidade,
queria dar a ela o plural, a verdade da sua imagem.


Não posso ser alegre enquanto meu coração ama.
Não posso deixar de te amar, porque senão meu coração reclama.
Não posso correr porque não há para onde ir.
Não posso ficar porque não há mais motivo para rir.


Eu cansei de colher tristezas dessa nossa desdita.
Meu amor, a vida é feita de escolhas e de alegria.
Amor e covardia não vivem juntos, antes machucam
E nos afastam amargamente, nos deixam viver de incerteza.


Meu coração, estou onde sempre estive, ainda te amo.
Penso em você e esvazio meu coração em cada segundo,
mas não posso mais, sou jovem demais, é tanta tristeza!
E quieto, meu amor, escrevo meu melhor poema,
na convicção fria da dor da sua apatia,
do amargo da minha saudade,
do peso de tanta responsabilidade:
fazer verso para nenhuma lealdade.

Isso é a maior putaria

Também acho, Alborghetti, também acho...



Alborghetti pra presidente, já!

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Vida de clichê

Tudo que direi neste texto, provavelmente, será um clichê. E assim será interpretado. É o destino traçado desse texto ser lido assim. Mas nem por isso trata-se de algo verdadeiro. Clichês são coisas que um dia foram novas, verdadeiras. Acabaram desgastadas e artifícios da preguiça de pensar que ora ou outra manifestamos.

Dia desses eu fui ao mercado. Nada de novo. Na entrada havia uma mulher negra, sentada ao chão, de costas para a parede, perto da porta do mercado. A mulher carregava no colo uma criança de colo. Mais parecia um embrulhinho.

O que me chamou atenção à cena foi que quando eu contava uns dez passos da entrada e, portanto, do foco de atenção do parágrafo anterior, aproximou-se da mulher um sujeito que lhe deu maçãs. Pensei. "É pouco. Maça chega para aplacar a fome do momento, mas e a que vem depois?".

Não tinha no momento dinheiro miúdo comigo. Ao passar pela mulher, antes mesmo de ela ter chance de me pedir, disse que lhe daria algo ao sair. E fui às compras. Pouca coisa, bobagens e comida; nada de especial.

Na fila do caixa observei as pessoas que a ignoravam ao passar. E me dei conta do clichê dessa situação. Cidade grande, gente necessitada, gente sem coração, gente com coração, gente com pressa, com problemas. A vida, ela toda, é um grande e repetitivo clichê.

Na saída, com alguns trocados na mão, dei-os à mulher. E mesmo assim me senti mal. Eu me sinto mal ao dar esmola e ao não dar, tenho um problema não resolvido com algumas parábolas bíblicas e a da esmola é uma delas.. Eu tenho vergonha de que meus problemas sejam tão mesquinhos. Que ao fazer um frila eu arrume, provavelmente, mais dinheiro do que aquela mulher consegue em meses. Eu me sinto um canalha.

Um clichê canalha.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Hai-kai nº 15 - (Das desilusões)

Amor sobe e desce.
Vida que dói.
Vê se desaparece.

Hai-kai nº 14

Faça um hai-kai por dia.
E viva assim
paz que angustia.

Hai-kai nº 13

Dia de primavera
chuva que lava,
dissolve quimera.

Hai-kai nº 12

Setembro em flor
o coração floresce,
um novo amor.

Mecânica quântica aplicada

Já vivemos tudo, meu amor.
Hoje eu corro os caminhos do mundo,
sonho com meus dias de novidade
e renasço outro dia cinza num sonho profundo,
tudo na busca de uma nova serenidade.

Já, já viveremos tudo, meu amor.
Uma nova vida, um novo desalento.
Haverá tempo para encontrar a certeza,
e toda a lembrança que sói com o tempo.
E de tudo, ficarei só, só com a nossa tristeza
e a fria certeza de que te fui só um passatempo.