Ontem fui beber com amigos e toda a redação na Vila Madalena. Despedidas a fazer, realizações para comemorar. E beber. E eis que, de repente, saindo do Cartão Verde da TV Cultura, Sócrates e Xico Sá aparecem para emendar umas ampolas também. Não conversei com nenhum dos dois sobre futebol, política, medicina ou música. Ao menos, pelo que me lembro.
Mas topei com o Xico Sá na fila do banheiro. Sim, há momentos na vida em que os grandes homens estão no banheiro. Um sujeito, estabanado, entrou e furou a fila. Ao dar por si do agravo, tomou a rabeira da fila e disse "desculpa, não vi o senhor aí".
Xico Sá emendou de primeira um "que isso, senhor está no céu... se bem que eu sou ateu". Aí o sujeito estabanado, "poxa, eu também". E eu também, por minha conta, revelei minha descrença. Um quarto, ainda, se abeirava e teve tempo também de professar sua fé em que nada mais existe.
Fossemos nós crentes, seria quase como uma congregação, um encontro ecumênico. Aos risos, Xico Sá disse que era aquele o maior encontro de ateus de São Paulo. E eu emendei "dá até pra começar uma igreja".
Blogue do Xico Sá aqui.
sexta-feira, 21 de maio de 2010
O dia em que falei sobre religião com Xico Sá
às 16:33 9 comentários Marcadores: Evangelhos, Memórias
terça-feira, 18 de maio de 2010
O melhor site do mundo é...
... aquele em que você trabalha. Ok, péssimo lugar para fazer propaganda, mas vamos lá. Deem uma olhada no novo site da Placar: http://placar.abril.com.br
Modéstia à parte, um trabalho legal pra cacete.
[/fim da auto-promoção]
Prometo que não faço mais, distinta comunidade de sete leitores.
às 21:34 0 comentários Marcadores: Mídia, Tecnologia
Tricampeonato
Joana era morena e tinha olhos de avelã. Ela me ensinou muita coisa. Era baixa. Os sorrisos de Joana rimavam com seus passinhos leves. Joana flutuava sem medo de cair nos meus sonhos de paixão. Joana adorava maçã vermelha e tinha pele de pêssego. Joana não era mulher, Joana era um clichê. Foi com Joana que aprendi a trair.
Luciana foi meu primeiro amor. Por ela, vi meu sorriso se esvair. De criança, encantamento que se multiplicava nas leves ondulações de seus cabelos morenos e tépidos que nunca logrei desconfiar do cheiro ou mesmo toquei. Gostar dela era heresia, não fazer nada era uma anestesia, fazer algo era temeridade. Derretia ao admirar ela sorrir. Paixão que eu sofregamente alimentava ouvindo sua voz e sonhando com a eternidade. Com Luciana aprendi poesia.
Depois veio Eloísa. Eloísa foi a pior. Eloísa ressaltou o que havia de melhor em mim. Eloísa me fez gente. Por Eloísa, eu me barbeava. Eu até comprava roupas, por Eloísa eu até ia no teatro. Ela me ensinou a amar multiplicando por quatro, dividindo tudo por nós dois. Eloísa era amada como se não houvesse amanhã, e foi com ela que aprendi a esquecer como se sempre houvesse milhões de amanhãs atormentados. Eloísa tinha algo de indomável. Eloísa pisava nos meus calos, e eu sorria, agradecido, por tamanho favor. Eloísa não era mulher, Eloísa era um verdugo. Uma máquina de moer sonhos. Com Eloísa eu aprendi a Relatividade.
E no fim das contas, quando eu já aprendera de tudo, já tinha passado por todas as filosofias e teorias, quando eu já estava pronto para não dizer mais amém, quando já investia razão para viver dos lucros nos juros da lucidez não veio mais ninguém. Não veio mais ninguém.
domingo, 16 de maio de 2010
Lanegan no Brasil - de novo
Mark Lanegan de volta ao Brasil no dia 24 de junho. Pronto, já dá pra dizer que 2010 acabou e valeu bastante à pena. Vai custar um rim, vai ser longe, na verdade ainda não tenho a menor ideia de onde será, mas que se foda, vai ser em São Paulo e eu vou, porque Mark Lanegan sabe das coisas.
Ah, Marquinhos.
às 03:22 0 comentários Marcadores: Cultura, Memórias
sábado, 15 de maio de 2010
Subindo a Beau Rivage
Ok, vocês venceram. Depois que fui sugado pelas engrenagens bem azeitadas da roda que esmigalha sonhos juvenis e remunera mal da mídia prevalecida, não tive tempo e dedicação para este blogue, o que é uma desmedida injustiça com os caros sete leitores, cativados e conquistados a forceps nesses anos todos.
E não é agora, em pleno plantão, que vou desfazer o agravo. Vou postar, estou postando, é verdade, mas nada que vá arrancar suspiros, comova alguém, devolva o meu hamster que punha todos os dias para correr num cilindro e ficava admirado em ver suas evoluções sem sentido e objetivo.
O post, que merda, é uma ridicularia sobre Fórmula 1. Correm os bravo e habilidosos pilotos neste domingo pelas ruas ensolaradas do Mônaco. Mônaco, qualquer um sabe, é uma cidade onde carros se desdobram descendo suas ladeiras desde 1929. Tamanha tradição, claro, criou símbolos. E nada mais simbólico e charmoso que o nome das curvas do traçado monegasco:

Dá quase para recitar os nomes. Mônaco, para quem gosta de Fórmula 1, é uma poesia.
às 16:02 0 comentários Marcadores: Fórmula 1
domingo, 9 de maio de 2010
Rádio: Mark Lanegan - Shiloh Town
O inoxidável Mark Lanegan:
Performance num show no mês passado em Utrecht, na Holanda. Bem que ele poderia voltar ao Brasil.
às 18:39 0 comentários Marcadores: Rádio blogue
segunda-feira, 3 de maio de 2010
O que eles queriam?
Eu sempre fui muito interessado por história. Bastante por história militar e extremamente pela Segunda Guerra Mundial. E aí, numa tropeçada na internet, ia eu atrás de pauta para vender meus laboriosos e industriosos esforços na nobre arte de exercitar a hipocrisia, o jornalismo, para editores e chefes de redação quando, enfim, dizia eu, tropecei neste texto, que vem a ser uma reportagem de Vasily Grossman, soldado e jornalista soviético, que escreveu sobre a capitulação alemã e a captura do Reichstag em 2 de maio de 1945. Há 65 longos e aborrecidos anos:
"Milhões dos nossos soldados viram estradas bem construídas ligando uma vila a outra e as auto-estradas alemãs [...] Nossos soldados viram nos subúrbios as casas de dois andares, com eletricidade, gás, banheiros e jardins belamente cultivados. Nossa gente viu os palacetes da rica burguesia de Berlim, o luxo inacreditável de castelos, propriedades e mansões. E milhares de soldados repetem essas perguntas com raiva quando olham a seu redor na Alemanha- 'Mas por que vieram atrás de nós? O que eles queriam?'"
É incrível. Tire todo o matiz polítco, a carga ideológica do totalitarismo nazista e do comunista e centre-se no indivíduo. No pastor humilde que foi retirado dos longos campos dos Urais para pegar num rifle e matar os invasores. No sujeito que tinha água, luz e telefone como luxos inconquistáveis na ditadura do proletariado, insuperável na capacidade de dividir as misérias. A este antes pastor, mesmo que inebriado por todo ódio da propaganda do Politburo, no final das contas, a indignação do "putz, eles tinham tudo, o quer foram procurar na Rússia?" é um resumo impactante do absurdo da guerra.
E, afinal de contas, o que eles - eles, não ele, Hitler - o que eles, alemães, soldados, queriam?
às 23:03 1 comentários Marcadores: História
Duvido que faça um poema em 5 minutos
Eu nasci pronto
um, dois, três, todos os números
vitorioso no confronto
fiz um poema de uma faísca
e sem chance ao contraponto
estou vivo! Berro,
eu corro, conquisto
chego e me vanglorio
eu nunca dou aviso.
Eu nasci preparado para o improviso.
sábado, 1 de maio de 2010
Olhe pra cima
E qual não seria a surpresa de Kepler, de Copérnico, de Galilei ao descobrir que, enfim, uma batata orbita Marte?
às 20:23 1 comentários Marcadores: Cosmo por ele mesmo
Hoje
Eu era um poeminha querendo rimar. Minha metade era prosa, eu pensava em verso, meu coração pulsava em melodia e eu dizia; alegria! Meu sonho se media nas piscadelas que a vida me dava, meu objetivo era sonhar.
Hoje eu só quero saber a que horas sai o trem, o preço da cerveja e se, por lá, vai ter mulher.
Aberturas de The Pacific e Band of Brothers
The Pacific é um seriado em 10 episódios que aborda a campanha norte-americana no, não diga, teatro de operações do Pacífico na Segunda Guerra Mundial. Estreou há pouco mais de um mês e é, de certa forma um projeto que dá sequência a para lá de premiada e festejada série Band of Brothers, que será transmitida pela Band em canal aberto, 10 anos depois de lançada.
Estou acompanhando The Pacific. É um bom seriado. Mas acho que fica muito atrás do Band of Brothers. A não ser na sequência de abertura:
Em comparação, a abertura de Band of Brothers, que se por um lado não tem uma ideia tão original como o carvão e o grafito delineando as linhas do destino, as faces das personagens e a "sujeira" do campo de batalha, tinha uma trilha sonora muito mais emocionante:
às 17:49 0 comentários Marcadores: Cinema, Cultura
16
Hoje completa-se 16 anos que Ayrton Senna rebentou-se inapelavelmente em muro italiano. Não há muito o que dizer. Lembro que ele marcou minha vida, era um heroi. Hoje relativizado pela compreensão mais madura da sua trajetória e irrelevância. Mas eu gostava de Ayrton Senna. Chorei quando ele morreu e fiquei bastante comovido. Era como perder um amigo.
Senna não foi messias, heroi, não foi exemplo como muitos pintam, porque ele não era sempre íntegro dentro da pista. Era só um cara dando tudo que tinha para ser o melhor naquilo que fazia. E ele era. O que Senna foi, mesmo, é ser genial naquilo que fazia: guiar carros rápidos, ser o melhor piloto, quase imbatível, forte, talentoso. Senna era uma força da natureza.
Todo menino precisa de um cachorro, dizem algums. Todo menino precisa de um carrinho de rolimã, de um pai legal, aprender a empinar pipa, descobrir se gosta de pescar, se é bom em galgar as árvores. Todos precisam de amigos. Completar um álbum de figurinhas. Mas todo menino precisa de herois. Bem ou mal, Ayrton Senna foi o meu heroi por muito tempo, e aqui vão, do fundo do coração de quem vive a regar o jardim das flores mortas do passado, as melhores saudações e as maiores lembranças ao eterno campeão.
às 17:32 0 comentários Marcadores: Fórmula 1, Memórias
sexta-feira, 30 de abril de 2010
Crise
Crise.
criativa
é não ter metas
é olhar pras paredes
não ver sentido
nem arestas.
Crise
criativa
é não ter paciência de Jó
é escrever
poema
sem rimar
com verso
de uma palavra só
achando
que
isso
é
criar.
quinta-feira, 29 de abril de 2010
Rádio: Mark Lanegan - Ugly Sunday
Ê Lanegan velho de guerra:
às 17:16 0 comentários Marcadores: Rádio blogue
segunda-feira, 26 de abril de 2010
Igualzinho
Curioso: irmão gêmeo do presidente polonês, morto recentemente num desastre aéreo, se candidata à presidência da Polônia.
às 11:39 0 comentários Marcadores: Atualidades
domingo, 25 de abril de 2010
Atonismo
Estamos todos juntos
e vamos de braços dados
desbravando nossos mundos
vamos nos escaldar no gelo desse inferno
dormindo ao relento
com destinos abraçados
esquecer do eterno
fazendo caso dos sonhos pequenos
Vamos todos juntos,
uns mais, outros menos
aquecer o inverno.
sexta-feira, 23 de abril de 2010
Torquatozan de Drummonzanil
Eu também queria
que ao nascer
me viesse um anjo torto
que me chutasse pra esquerda
nem muito, nem pouco
e me fizesse do contra.
Eu queria um destino sem conforto
dum anjo muito louco
entregue aos dementes
que me dissesse pra desafinar
e eu fosse
sorrindo estragar
a cantoria dos contentes.
Mas quando eu nasci
veio um anjo sem sal
abobalhado e comum;
e o desgraçado, me disse
vai, rapaz, se vira
você é só mais um
que veio fazer coro
com os indecentes.
quinta-feira, 22 de abril de 2010
Estados
A título de complemento, porque abundam mentes pueris, sedentas em dar vazão às suas repreensões e inseguranças arrotando uma erudição que não têm e um conhecimento do qual sequer desconfiam, é uma boa ocasião dizer que Estado, estado nacional, construção humana que fundamenta a noção comum que define e distingue o que são os países, é um conceito que se embasa no reconhecimento dado pelas instituições que congregam o coletivo de países, das quais a mais notável é a ONU. Ou seja, o Tratado de Latrão, apenas como um exemplo, não faz do Vaticano um país. Faz do Vaticano, reconhecidamente, um território independente à vontade da Itália, que o cerca por todos os lados. O Tratado firmado em 1929 apoquentou as demandas católicas, nascidas com a unificação italiana no século XIX que causou à Igreja a perda de todo o vasto império que detinha e que se extendia do salto da bota ao norte do que hoje é a Itália - com Roma e tudo mais, inclusive. O tratado, enfim, deu paz ao governo de Mussolini, o líder fascista que precisava do apoio católico e engessou qualquer ingerência religiosa ao fazer a vontade do papa, lhe conferindo uma porção de terra na qual ele, Mussolini, não teria qualquer autoridade. De resto, a Convenção de Montevidéu, vim a saber depois de breve pesquisa, vem a ser o marco regulador daquilo que se define estado e que obriga a existência de: território, povo e governo reconhecido externa e internamente e que mantenha relações com outros governos. Daí conclui-se: o Vaticano, por pequeno que seja, dispõe de território, mas é questionável se possui "povo" e se seu governo é, de fato, reconhecido externamente.
O Tratado de Latrão, portanto, não configura o Vaticano como um estado independente. Apenas o faz uma porção de terra independente da vontade romana e italiana - e isso, insisto, não é o caráter de estado. O que o faria um estado seria o reconhecimento da ONU, assim como das nações do mundo, a composição de um povo, a presença de embaixadores vaticanianos nas Assembléias Gerais e mais variados conselhos da ONU, o que nunca aconteceu, e para nosso bem estar comum, é bom que não aconteça. Dizer, enfim, que o Vaticano é um estado nacional de direito e que, por conseguinte, o seu governante, o papa, é um chefe de governo e estado é um ridículo que ultrapassa os dilatados limites do ridículo, mesmo vindo o argumento de quem vem, porque como dizia o Barão de Itararé, "de onde nada se espera, é que não sai nada mesmo". Sobretudo, nada que preste.
às 00:01 2 comentários Marcadores: Evangelhos
terça-feira, 20 de abril de 2010
Hai-kais e frustração
Hoje eu fui tentar escrever um hai-kai. Hai-kai demanda de observação, porque o gande barato nesse método de poesia está na relação entre o abstrato e o real, o sensível e o imponderável. Hai-kai, portanto, basicamente, é coisa de espíritos mais contemplativos, o que, desconfio, não é bem o meu caso.
Para além disso hai-kai viaja nas sinapses do coração e nos pulsos da mente com a velocidade da luz. Hai-kai não é rápido porque é curto, 3 versos, 5-7-5 ou 7-5-7 sílabas, hai-kai é rápido porque é um pensamento desses que a gente tem todo o tempo, só que eternizado por alguém que o escreveu e embotou em rimas.
Hoje eu fui tentar escrever um hai-kai, e como é mais ou menos uma constante inexorável na minha relação com esse honorável modelo de poesia japonês - talvez a única contribuição do Japão à cultura que realmente é relevante - ocorreu que fracassei miseravelmente, deu até vontade de, dando vazão às modas japonesas tão em voga, de cometer um haraquiri. Hai-kai, a despeito da aparente simplicidade, é um tipo de poesia que se faz à forcéps.
E é melhor eu voltar a trabalhar.
às 16:53 1 comentários Marcadores: Memórias
segunda-feira, 19 de abril de 2010
Bad trip
Pai, eu estou todo fodido. Está todo mundo fodido. Pai, eu acho que não dá. Dá, porra, sempre deu. Pai, tá cada vez pior, vai desandar, é tudo a mesma merda. Tá todo mundo reclamando disso desde sempre. Pai, eu tô fodido. Relaxa, que tá todo mundo fodido. Quando você for embora, eu vou virar essa merda toda de pernas para o ar.
Ela era tarada por organização.
Eu vou avacalhar tudo. Vou criar ratazanas nos lençol, vou alimentar baratas na louça. Que se foda, eu vou virar essa merda toda de pernas pro ar. Não vou deixar a janela aberta, aqui não nasce mais sol. Que se foda. Vai brotar mofo na penumbra estéril desse quarto. Meu desodorante será o formol, meu sorriso decadência. Eu quero anarquia, desordem, odor.
Eu era tarado por liberdade.

