Via de regra, se você quiser ter uma ideia impactante, que debulhe queixos, esgarce as bocarras dos basbaques, basta complementar qualquer enunciado de ideia mais ou menos revolucionária e dramática com o apelo insuperável de "quântica".
Quântico é um termo de origem na Física. A física do muito pequeno, que estuda a interação das partículas e que busca fundir-se com a física do muito grande. Coisa que caminha maravilhosamente bem nas vibrações das supercordas, e na crença dos universos membrana e que nem de longe era tema deste post.
Quântico é tudo que, enfim, tem relação com as interações bizarras características do universo do muito pequeno. De fato, coisas absurdas acontecem, como a possibilidade não se prever o movimento e o momento de um elétron, o que faz ser possível que ele, simplesmente, esteja em dois lugares ao mesmo tempo. O que é impraticável na física das grandes massas, como todos mais ou menos versados na arte de balizar um automóvel em vaga estreita sabem.
Para além dessa particularidade, por exemplo, surgem ideias maravilhosas à espera de confirmação, como a possibilidade de universos paralelos - se a matéria pode estar em dois lugares ao mesmo tempo, pode estar em outras dimensões também, confere? - a Física Quântuica é seara quase inesgotável para colher ideias encantadoramente absurdas que fazem, no fim das contas, que qualquer enunciado idiota com o apêndice de "quântico" no nome ganhe a adesão, curiosidade e encantamento das pessoas. Eu mesmo fui vítima quando vi um documentário charlatão a não mais poder, chamado "Quem somos nós?" ("What the bleep do we know?"). Uma bobajada sem fim de uma seita, que dizia, entre outras idiotices, que nosso estado de humor era capaz de influenciar o comportamento e disposição de moléculas de água - dentre outras ridicularias. E eu que achava que sabia identificar todas as engrossadas retóricas e discursivas dessa bobajada new-age, empalideci diante desse guia para se rebater a bobajada pseudo-científica do filme.
Nessa esteira de usar um termo vinculado à ciência de vanguarda, praticamente desconhecido no âmago pela boa gente que consome, muito charlatão costuma encher as burras de dinheiro e profanar o bom nome da ciência em prol de objetivos espúrios.
É o caso recente das pulseiras estilo "power-balance", que normalmente trazem consigo alguma celebridade - sim senhor - ou algum esportista, que garante que o efeito equilibrador do acessório lhe enseja melhor desempenho nas pelejas da vida e do esporte. Exercitando o dom da hipocrisia, fundamento dessa nobre arte do jornalismo, segundo vim a saber em anos da distinta companhia de Gafanhoto Jr., sejamos puramente imparciais:
Uma pulseira confeccionada em silicone, dotada de um holograma no centro, capaz de anular interferências magnéticas no corpo humano faz de você uma pessoa mais equilibrada.
Dá para acreditar?
O Ocus Pocus da ciência:
Se você acredita no enunciado, meu amigo, volte para os bancos da escola. Primeiro que ondas e campos eletromagnéticos são fenômenos vinculados a duas coisas: presença de um campo elétrico e de um campo magnético. Coisas que nós, humanos, não temos. Ambos os campos são criados, por exemplo, por qualquer aparelho elétrico funcionando. Nós não somos elétricos, e é bem por isso que não emitimos radiação alguma.
Um exemplo é o efeito de uma bomba de pulso eletromagnético. É um tipo de armamento de alta-tecnologia que possui a vantagem de não causar danos humanos imediatos. O pulso eletromagnético avacalha com qualquer dispositivo eletrônico, mas é inofensivo às pessoas, justamente porque não interagimos com esse tipo de radiação de maneira tão dramática. Se nós tivessemos qualquer coisa que ver com campos eletromagnéticos, seríamos igualmente fritados por pulsos dessa natureza (que podem ser naturais: o Sol pode nos bombardear com grande ejeção de material, que ao chegar na Terra dá bobagem. Estima-se que a cada 13 anos o Sol vira o humor e dá essas bobagens. Estamos esperando que ele frite nossos satélites, apague nossas cidades, avacalhe nossos iPods. Caos).
Para além disso está o fato de que hologramas, salvo evidência acachapante em contrário, não emitem onda. Nem radiação, sobretudo no caso das pulseiras, que são feitos de materiais praticamente inertes, como silício, magnésio, ferro e alumínio. Dos três, o ferro é um notável condutor de energia elétrica, e, nesse caso, conduzindo energia, sim, ele cria um campo eletromagnético. Como o do computador que você usa agora.
Mas a pulseira, de silicone, não é dotada de alimentação de energia, o que quer dizer, que o ferro, se é que está mesmo na pulseira, tem o comportamento elétrico desprezível. A pulseira power-balance, ou qualquer nome que venha a ter, financiada e produzida por qualquer cidadão que se garanta como físico, professor, doutor e sabidão, não funciona.
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Pseudo-ciência. Pulseiras não equilibram ninguém e não há nada científico e imparcial que possa servir de embasamento para afirmação em contrário.
Alguns homeopáticos são 30C, ou seja, a substância original sofreu uma diluição de 1 para 10 elevado à 60ª potência (1 seguido de 60 zeros). Em outras palavras, é água pura. Se partíssemos de cerca de 1 gota de substância ativa o recipiente para fazer a diluição teria que ter cerca de 10 bilhões de vezes o tamanho da Terra!. A ideia é que a água tem "memória", e que se diluíssemos 1 gota de fel numa cuba do tamanho de 10 bilhões de Terras e retirássemos, após a diluição, uma gota, esta gota teria a essência do fel. É dose?
Britânicos revoltados com as fortunas que o governo inglês gasta com homeopatia na saúde pública fizeram, no começo de 2010, uma manifestação onde tentaram suicídio coletivo ao ingerir massivas porções de remédios homeopáticos. A overdose não lhes fez nada porque homeopáticos não fazem nada. Como as pílulas não passam de açúcar ou farinha, nada lhes aconteceu.
A homeopatia é uma doutrina nascida na infância da ciência, quando testes e exames eram luxo e não recurso válido para confrontar novas ideias. A homeopatia não resiste a nenhum teste científico porque não tem o menor fundamento científico.



