quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Toda quarta-feira

Tô ouvindo o Hino do Uruguai. Pensando que devia ganhar na mega sena, para ter grana e escrever o livro que me brotou no espírito dias atrás. Grana para comprar meu veleiro, já batizado de Sputnik, e ir para o Uruguai, ter uma casa em Montevidéu perto da Rambla, ou em Punta del Este, de onde vou osbervar da janela o Sputnik sobraçar altaneiro no mar, à espera da minha próxima viagem.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Pulseira quântica, burrice palpável

Via de regra, se você quiser ter uma ideia impactante, que debulhe queixos, esgarce as bocarras dos basbaques, basta complementar qualquer enunciado de ideia mais ou menos revolucionária e dramática com o apelo insuperável de "quântica".

Quântico é um termo de origem na Física. A física do muito pequeno, que estuda a interação das partículas e que busca fundir-se com a física do muito grande. Coisa que caminha maravilhosamente bem nas vibrações das supercordas, e na crença dos universos membrana e que nem de longe era tema deste post.

Quântico é tudo que, enfim, tem relação com as interações bizarras características do universo do muito pequeno. De fato, coisas absurdas acontecem, como a possibilidade não se prever o movimento e o momento de um elétron, o que faz ser possível que ele, simplesmente, esteja em dois lugares ao mesmo tempo. O que é impraticável na física das grandes massas, como todos mais ou menos versados na arte de balizar um automóvel em vaga estreita sabem.

Para além dessa particularidade, por exemplo, surgem ideias maravilhosas à espera de confirmação, como a possibilidade de universos paralelos - se a matéria pode estar em dois lugares ao mesmo tempo, pode estar em outras dimensões também, confere? - a Física Quântuica é seara quase inesgotável para colher ideias encantadoramente absurdas que fazem, no fim das contas, que qualquer enunciado idiota com o apêndice de "quântico" no nome ganhe a adesão, curiosidade e encantamento das pessoas. Eu mesmo fui vítima quando vi um documentário charlatão a não mais poder, chamado "Quem somos nós?" ("What the bleep do we know?"). Uma bobajada sem fim de uma seita, que dizia, entre outras idiotices, que nosso estado de humor era capaz de influenciar o comportamento e disposição de moléculas de água - dentre outras ridicularias. E eu que achava que sabia identificar todas as engrossadas retóricas e discursivas dessa bobajada new-age, empalideci diante desse guia para se rebater a bobajada pseudo-científica do filme.

Nessa esteira de usar um termo vinculado à ciência de vanguarda, praticamente desconhecido no âmago pela boa gente que consome, muito charlatão costuma encher as burras de dinheiro e profanar o bom nome da ciência em prol de objetivos espúrios.

É o caso recente das pulseiras estilo "power-balance", que normalmente trazem consigo alguma celebridade - sim senhor - ou algum esportista, que garante que o efeito equilibrador do acessório lhe enseja melhor desempenho nas pelejas da vida e do esporte. Exercitando o dom da hipocrisia, fundamento dessa nobre arte do jornalismo, segundo vim a saber em anos da distinta companhia de Gafanhoto Jr., sejamos puramente imparciais:

Uma pulseira confeccionada em silicone, dotada de um holograma no centro, capaz de anular interferências magnéticas no corpo humano faz de você uma pessoa mais equilibrada.

Dá para acreditar?

O Ocus Pocus da ciência:


Se você acredita no enunciado, meu amigo, volte para os bancos da escola. Primeiro que ondas e campos eletromagnéticos são fenômenos vinculados a duas coisas: presença de um campo elétrico e de um campo magnético. Coisas que nós, humanos, não temos. Ambos os campos são criados, por exemplo, por qualquer aparelho elétrico funcionando. Nós não somos elétricos, e é bem por isso que não emitimos radiação alguma.

Um exemplo é o efeito de uma bomba de pulso eletromagnético. É um tipo de armamento de alta-tecnologia que possui a vantagem de não causar danos humanos imediatos. O pulso eletromagnético avacalha com qualquer dispositivo eletrônico, mas é inofensivo às pessoas, justamente porque não interagimos com esse tipo de radiação de maneira tão dramática. Se nós tivessemos qualquer coisa que ver com campos eletromagnéticos, seríamos igualmente fritados por pulsos dessa natureza (que podem ser naturais: o Sol pode nos bombardear com grande ejeção de material, que ao chegar na Terra dá bobagem. Estima-se que a cada 13 anos o Sol vira o humor e dá essas bobagens. Estamos esperando que ele frite nossos satélites, apague nossas cidades, avacalhe nossos iPods. Caos).

Para além disso está o fato de que hologramas, salvo evidência acachapante em contrário, não emitem onda. Nem radiação, sobretudo no caso das pulseiras, que são feitos de materiais praticamente inertes, como silício, magnésio, ferro e alumínio. Dos três, o ferro é um notável condutor de energia elétrica, e, nesse caso, conduzindo energia, sim, ele cria um campo eletromagnético. Como o do computador que você usa agora.

Mas a pulseira, de silicone, não é dotada de alimentação de energia, o que quer dizer, que o ferro, se é que está mesmo na pulseira, tem o comportamento elétrico desprezível. A pulseira power-balance, ou qualquer nome que venha a ter, financiada e produzida por qualquer cidadão que se garanta como físico, professor, doutor e sabidão, não funciona.

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Pseudo-ciência. Pulseiras não equilibram ninguém e não há nada científico e imparcial que possa servir de embasamento para afirmação em contrário.

As pulseiras power-balance são como homeopatia. Não funciona. A homeopatia diz, entre outras coisas, que a água tem memória: os remédios são elaborados com sucessivas diluições até que não sobre nenhuma molécula do princípio ativo. Estas diluições são feitas da seguinte maneira: toma-se uma parte do princípio e mistura-se a 9 ou 99 partes do solvente (água ou álcool). Esta etapa é repetida várias vezes, e é o número de repetições que são indicadas pela “potência” do medicamento. A letra X indica diluições 1 para 10 e a letra C, 1 para 100. Desta forma, um medicamento 6X significa uma diluição de 1 para 1.000.000, por exemplo, um 1ml de princípio para 1000 litros de água/álcool.

Alguns homeopáticos são 30C, ou seja, a substância original sofreu uma diluição de 1 para 10 elevado à 60ª potência (1 seguido de 60 zeros). Em outras palavras, é água pura. Se partíssemos de cerca de 1 gota de substância ativa o recipiente para fazer a diluição teria que ter cerca de 10 bilhões de vezes o tamanho da Terra!. A ideia é que a água tem "memória", e que se diluíssemos 1 gota de fel numa cuba do tamanho de 10 bilhões de Terras e retirássemos, após a diluição, uma gota, esta gota teria a essência do fel. É dose?


Britânicos revoltados com as fortunas que o governo inglês gasta com homeopatia na saúde pública fizeram, no começo de 2010, uma manifestação onde tentaram suicídio coletivo ao ingerir massivas porções de remédios homeopáticos. A overdose não lhes fez nada porque homeopáticos não fazem nada. Como as pílulas não passam de açúcar ou farinha, nada lhes aconteceu.

A homeopatia é uma doutrina nascida na infância da ciência, quando testes e exames eram luxo e não recurso válido para confrontar novas ideias. A homeopatia não resiste a nenhum teste científico porque não tem o menor fundamento científico.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

O que é um buraco negro?

Um buraco negro é uma bizarrice gravitacional. Uma aberração física. A rigor, significa que grandes porções de matéria foram comprimidas num ponto único, gerando, através da alta densidade, um ponto de gravidade extrema. Se você tem na cabeça a imagem do espaço como um tecido entrelaçado, onde estão intimamente fusionados tempo/espaço, imagine que tamanha densidade causa um furo nessa tecetura, e isso explica porque tanta coisa cai lá.

A particularidade de sua alta densidade concentrada em um ponto ridiculamente pequeno gera a propriedade mais cantada em verso, prosa e livros de física desde que se aventurou ponderar sobre a natureza dessas coisas: o fato de não deixar nada escapar de seu horizonte de eventos, nem mesmo a luz. E é o seu horizonte de eventos o ponto onde ninguém quer estar, porque dali não há mais volta e velocidade de fuga que dê jeito em sumir do puxão gravitacional do buraco. Dali em diante, nem a luz a seus estonteantes 300 mil de km/s consegue lograr escape.

Para entender a natureza dessas coisas, um exemplo: se expremermos o mais que pudermos o Sol que nos toca todas as manhãs, e conseguirmos concentrá-lo numa bola de 2,5 km de diâmetro, dá um buraco negro. Não dos supermassivos, como o que sobraça ameaçador no centro de nossa galáxia e que orça em respeitáveis 7,8 milhões de km do buraco em sim até a ponta. É uma baita porção de matéria e uma atração gravitacional para ninguém botar defeito, tanto que mantem íntegra uma galáxia de 100 mil anos luz de diâmetro rodando. O buraco negro é um ponto de volume zero. Então o que são essas dimensões? É o Raio de Scwarzschild, que é a porção do buraco negro que podemos reconhecer.

Se o exemplo fosse a Terra, expremendo-la até onde desse, aos 0,9 cm de diâmetro teríamos um buraquinho negro. Buracos negros são resultado da morte de estrelas supermassivas. Nascem com a morte dessas estrelas, que esgotam seu combustível. É a pressão das explosões que mantém todas as estrelas coesas e brilhantes. Quando não há mais o que explodir, a gravidade vence a batalha e o colapso poder dar em uma interminável sorte de objetos curiosos. Um deles, é o buraco negro.

Passei metade da vida querendo escrever sobre um buraco-negro com alguma propriedade. Ei-lo. 

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Não é sobre diversão, é sobre a verdade

House, Gregory:

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Rádio: Mark Lanegan & Isobel Campbell - Lately

Marquinhos voltou. Aconteceu hoje o lançamento, pro forma, do seu mais novo álbum, em conluio com a bela Isobell, ex-Belle e Sebastian. Digo lançamento pro forma porque as músicas, vim a saber depois, já estavam disponíveis no YouTube há duzentos e oitenta e três anos. Enfim.


quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Aforismos - Contemporâneo

"Privatizaram sua vida, seu trabalho, sua hora de amar e seu direito de pensar. É da empresa privada o seu passo em frente, seu pão e seu salário. E agora não contente querem privatizar o conhecimento, a sabedoria, o pensamento, que só à humanidade pertence".

Bertold Brecht

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Avanço

Cientistas gays descobrem e isolam o gene do cristianismo. As perspectivas de cura para essa doença são alvissareiras:


segunda-feira, 19 de julho de 2010

Sabedoria popular

Mas e por que raios eu deveria permitir que um Deus que abandonou seu único filho pra morrer dependurado numa cruz venha aqui me dizer como é que eu devo cuidar do meu?

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Sindicato dos sócios de mesma dor

Eu não sou um
Eu sou meio de tudo
uma multidão em luto
Eu sou um sindicato
a massa sem cor
uma parte da sociedade
um clube abstrato
dos sócios da mesma dor

terça-feira, 13 de julho de 2010

Rádio: Nevilton - O Morno

Eles são tudo que o rock nacional poderia e deveria ser, mas não é. E essa música é animal.

Nada melhor e mais justo para saudar o Dia do Rock:

domingo, 11 de julho de 2010

Carl Sagan: Um Universo que não foi feito para nós

Não há evidência nenhuma de que, no fim das contas, o que há, há por nossa causa e em nosso proveito. É a sensibilidade de todo cético, de todo ateu, que custa a ser aceita, porque traz no bojo um golpe nas vãs ambições e vaidades humanas, antropocentricas a não mais poder, que tendem a procurar em tudo que nos cerca sentido, medida, razão e o reflexo de nós mesmos em um universo que teima em não se mostrar convidadito e disposto a encaixar-se nas nossas necessidades. Ou antes, em nossas limitações. Tendemos a acreditar em coincidências inescapáveis como sentido ordenador do caos da vida, o dedo de um regulador cósmico norteando os nossos rumos, superstições são sempre causa e razão de derrotas e glórias. Tudo vão. Porque é mais fácil culpar o inexplicável do que aceitar o imponderável.

Se há, por um lado, muito mais coisas entre o céu e a terra que pode supor nossa vã filosofia, como disse Einstein, por certo, há muito menos entre nós e cosmos do que presumem nossas vãs superstições, medos e anseios.

E essa é, talvez, a mais profunda verdade a se aceitar na vida.

Carl Sagan diz tudo:

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Mitos e Mintos

- Astrologia é besteira...

- Claro que não é.

- Ah tá! Você acredita que estrelas, planetas e formas aleatórias no céu influenciam nossas vidas?

- Não... mas alguma coisa faz sentido nos horóscopos e mapas.

- Não tem meio termo. Ou faz todo sentido, ou é uma tremenda besteira.

- Você é muito radical.

- Você é muito crédula.

- Vai dizer que você nunca se identificou com alguma coisa que o horóscopo dizia?

- Claro que já. Mas isso dependia diretamente da minha necessidade de acreditar e também da minha predisposição. No mais, o horóscopo não prevê nada!

- Como não!?

- Horóscopo não prevê. Nunca diz o que vai acontecer. Diz, na melhor das hipóteses, o que pode acontecer. Além disso, não são previções. São sempre frases vagas e abertas, "você precisa ser mais firme no trabalho", "você precisa dar mais atenção a amigos". Isso não é previsão, é conselho. E se ajustam a mais ou menos a totalidade das pessoas do mundo, que precisam trabalhar e conservar amizades.

- Mas mesmo assim, alguma coisa sempre bate e...

- E os gêmeos?

- Como assim?

- Se nascem dois gêmeos, com diferença de minutos um do outro. Um deles morre na infância, o outro morre com idade avançada. Como que o mapa astral não contemplou os dois?

- Mas é porque são pessoas diferentes!

- Se são pessoas diferentes, porque o horóscopo é igual para todos?

terça-feira, 6 de julho de 2010

Só há beleza na derrota àquele que torce

Foi bonito. A diferença entre torcer para o Brasil - especialmente como os torcedores de ocasião, que a cada Copa do Mundo abraçam tudo que for verde e amarelo, aborrecem quem gosta de futebol e quem se dá o direito de votar simpatias para seleções para as quais não tem vínculo geográfico - e outra seleção, é que quando seu time cumpre com a obrigação e dá aquele algo a mais, mesmo que perca, no final, você fica feliz. Brasileiro quando perde é escândalo nacional. Alguém é culpado e execrado em praça pública e a esfera de debate público vira uma grande vala comum em busca do verdugo que avacalhou e deitou por terra todos os sonhos brasileiros. Quando a Argentina perde, de goleada, para a Alemanha, 15 mil pessoas vão ovacionar os jogadores no aeroporto. Quando o Uruguai perde, olhamos de lado e esperamos. A sabedoria da gente do sul está em ser amiga do tempo.

O Uruguai, hoje, caiu. Mas caiu em pé. Os uruguaios, mais ou menos como é recorrente em tudo que fazem, ficaram enfesados, deram o sangue, correram. O sangue celeste é sangue de gente séria, ferve nas veias e faz com que a seleção dos orientais do Prata façam coisas impossíveis, como, por exemplo, vencer Copas do Mundo. A derrota foi "uruguaya" a não mais poder. Foi com fé até o último lance, com um fio de esperança, com sufoco, apego, entrega.

A seleção do Uruguai pode renascer. A lição a tirar é que sempre é possível, que tradição não se compra e que a camisa Celeste reluz bonita nos estádios do mundo quando ocupada por gente de fibra que acredita no que faz e o faz com prazer. Provavelmente a maior lição da Copa do Mundo da África do Sul para uruguaios da gema e uruguaios de adoção como eu é a perda do medo de vencer, que por tantas vezes nos entregou às lágrimas, ao ocaso e a lástima da oportunidade perdida por aquele pouco que faltou.

E, no fim das contas, jogamos bem. Não foi por muito e vendemos caro a vitória para a pragmática equipe holandesa, que pode acabar campeã da Copa do Mundo.

No mais, Uruguai, não chore. O tempo no Uruguai não passa, não volta, não acelera. Por lá o tempo também espera. Como eu disse no texto anterior, por lá o tempo é. E para um tempo que não se move, apenas existe, sempre haverá tempo, porque outras Copas virão e nelas sempre estarão novas batalhas e a gente séria das margens do Prata peitando o mundo e fazendo com que digam que o "Uruguai foi longe demais nessa Copa". O Uruguai nunca irá longe demais, o Uruguai vai ao impossível. Longe é lugar comum para quem vê o futuro infinito e azul do céu.

E ainda há, claro, o terceiro lugar. É uma honra que, se por um lado é comezinha diante de um título, é enorme diante de 23 corações celestes cansados de apanhar. E esperar.

sábado, 3 de julho de 2010

A maior de todas as defesas

Um épico. Copa do Mundo, goste você ou não de futebol, frequentemente apresenta aos olhos do mundo um espetáculo retumbante, uma glória inenarrável, uma vitória acachapante. Batalhas campais e jogos decididos em milímetros, gols de mão, defesas espetaculares e atuações clássicas de gênios de um esporte que apaixona multidões de todas as cores pelos quatro cantos deste mundo redondo.

Dessas partidas históricas todos são capazes de citar uma boa meia-dúzia. A final do "florete contra a clava", entre Itália e Tchecoslováquia em 1934. Os italianos organizavam a segunda Copa do Mundo e apresentavam um jogo raçudo, de imposição física. Os tchecoslovacos adotavam uma cultura mais leve, um futebol mais de passe, velocidade, técnica. Ao menos assim rezam os escritos de uma época que não teve o luxo das para lá de eficientes câmeras atuais.

Outras vieram. O Maracanazzo que terminou a Copa do Brasil em tragédia nacional em 1950. A Batalha de Berna, que eliminou os brasileiros transtornados em campo - em um pastelão muito semelhante ao protagonizado na derrota para a Holanda, com a diferença que à época o rival era a Hungria de Puskas. Em 1954 mesmo, a final que fez a Alemanha precisa como um relógio esmagar o futebol em estado de arte da Hungria (os hungaros abriram 2 x 0 e tomaram a virada. Numa final de Copa). Em 1970, a final do tri. Em 1974, a Laranja Mecânica que encantou o mundo sucumbindo ao pragmatismo germânico. E tantas e tantas outras.



Nesta sexta-feira tivemos outro grande épico das Copas do Mundo. Uruguai x Gana pelas quartas-de-final no nababesco e suntuoso Soccer City deram o tempero de uma Copa do Mundo razoavelmente enfadonha. De um lado, os vestidos da cor do céu, com o sonho infinito como o firmamento de recolocar a Celeste Olímpica no caminho das glórias. Por outro, Gana, um país africano, provavelmente carente de grandes alegrias e representante único de todo um continente nas assim categorizadas oito melhores equipes do planeta.

Os uruguaios sofreram, empataram o jogo no segundo tempo. Jogo disputado, equilibrado, bonito. De lado a lado, chances inacreditáveis foram desperdiçadas e pelo que se viu, mesmo meu coração Celeste, oprimido na redação, tinha que admitir que ia ficando difícil e que o jogo estava mesmo pendendo para o empate como justiça aos feitos de cada equipe em campo. Eu sofri como há muito não sofria por futebol ao ver o Uruguai, da garra e da raça, em dificuldade e agonia para passar às semifinais depois de 40 anos. A vaga veio a fórceps.

Desconte-se o fato de que a arbitragem de um cidadão lusitano chamado Benquerença esqueceu-se de anotar duas penalidades em favor dos representantes da porção oriental do Rio da Prata.

Uruguai e Gana, iguais na curta dimensão das ambições contemporâneas de seus povos no espectro mundial, tinham mesmo que empatar. Os uruguaios são uma espécie de aldeia gaulesa da América do Sul. São poucos, têm pouco espaço, sua capital recebeu nome de anotação cartográfica. O Uruguai é um dos poucos lugares do mundo onde o tempo tem a duração do tempo. Onde a escala que mede a sucessão e registra a passagem dos momentos e de todos os instantes tem velocidade constante, única e própria. O tempo, no Uruguai, não pára, não acelera. No Uruguai, o tempo é.

Em Gana, além dos clichês jornalísticos mais ou menos votados da pobreza, do terceiro-mundismo galopante e inexorável, está um país igualmente pequeno, de um povo acostumado a medir o tempo à sua maneira. É difícil julgar méritos em subjetividades, toda gente o sabe, e por isso é com muita tristeza que se viu Gana esmorecer na Copa do Mundo. Do fundo do coração celeste em festa, provavelmente, houve espaço para algum lamento.

Todas essas cores da crônica de um jogo inesquecível, empolgante e histórico, ficam em muito vagas quando se narra as circunstâncias que deram a esta partida seus números finais. A prorrogação, o tormento dos corações que torcem, se estendia alternando, mais uma vez com equilíbrio assustador: o primeiro tempo, no grito como sempre, uruguaio. O segundo, Gana.

A prorrogação termina com 30 minutos. No último minuto, no último lance da blitz ganesa, em cima da linha do gol, que dividia ali glória e tristeza, esperança e volta pra casa, nasce um heroi, uma bandeira, uma glória de uma camisa azul do céu que já vestiu e embalou para história Obdulio Varela, Gigghia (o autor do gol que calou o Maracanã em 1950) e outros grandes jogadores, marcados pela igual distribuição de atributos técnicos no exercício do jogo de bola e na devoção, garra e apego tão únicos deste lugar onde o tempo tem marcha única: o Uruguai.

Luis Suárez é, além de tudo, um ótimo atacante. Centro-avante de grande mobilidade, que baixinho cabeceia como ninguém - talvez melhore se um dia aprender a soltar mais a bola e não querer resolver tudo sozinho. Mas, eventualmente, sua mania de querer resolver por si é o seu maior mérito. É sinal que poucos carregam, sinal indiscutível daquele que carrega consigo a vocação para protagonista. Suárez, atacante de respeitáveis 35 gols no Ajax da Holanda na última temporada, impediu o gol africano em cima da linha com o joelho.

O sufoco foi além. A bola subiu. Muslera, goleiro muito questionado do time celeste, subiu e, frustrado por não encontrar com as mãos a bola, caiu já olhando resignado para trás o gol que, provavelmente, julgava ou abandonado, ou guardado por jogadores de linha, impotentes para defender.

Muslera viu o desespero tomar forma. O último recurso acontecer. Luis Suárez, ainda sobre a linha depois do lance que salvara com o joelho encontra a história no momento em que a bola desferida pela cabeçada de Addyah é retida por suas mãos. Suárez, o atacante de, até aqui, três tentos na Copa do Mundo, faz a melhor defesa da sua carreira de centro-avante. Suárez impede a derrota, o fim da história e a Celeste, que se por um lado foi longe nesta Copa, voltaria para a sua aldeia gaulesa com a sensação de injusta crueldade que só um gol de último minuto pode dar.

Veja como foi a defesa de Suárez:



Suárez pôs a mão na bola e, em decorrência da atitude antidesportiva, não teve jeito, foi expulso por Benquerença. Infração dentro do espaço demarcado da grande área, também não tem jeito, é questão a ser resolvida por dois homens, na crueldade que se dispara a 11 metros de distância da meta. O pênalti é uma correção de curso que às vezes dá errado. É meio gol. Mas às vezes a bola não vaza o goleiro, a bola bate nas traves, às vezes a bola viaja altaneira e displicente, longe de entrar na vasta área do gol, que encolhe sobremaneira nestes momentos.

Gyan, camisa 3 da seleção de Gana foi incumbido de acertar os ponteiros com os uruguaios no último lance de uma partida já histórica. O que a fez épica é o final. Gyan nunca, em toda a carreira, desde sempre, havia perdido um pênalti sequer. Gyan corre, chuta, a bola ganha força, velocidade. A bola sobre cinco centímetros a mais, se tanto, resvala a trave superior e se perde entre o público atônito que vê a história acontecer.

O pênalti encerra a partida, mas não a decide como pareceu que decidiria. O pênalti de Suárez dá esperança e sobrevida aos uruguaios para as cobranças alternadas de penalidades, crueldade que todos adoram testemunhar quando não possuem envolvimentos afetivos com a peleja e as equipes. Neste momento, lembro do abraço de um amigo que torce pela Argentina, esquecendo a rivalidade que aproxima e separa as duas nações que dividem o Prata em pleno reconhecimento da grandeza do ato uruguaio. Foi tudo digno de "Sobrenatural de Almeida", o personagem mítico que entrava em campo no Maracanã de Nelson Rodrigues a decidir as pelejas com gols inexplicáveis, defesas inacreditáveis e bolas teimosas. Tudo, por certo, no tempo do futebol inocente e da crônica criativa.

Não queria me enganar, mas nascia em mim uma certeza que, depois de um lance desses, ora, não teria jeito, o Uruguai venceria nas penalidades. Levantei e fui acompanhar o desfecho da história ao lado de um colega e, já aqui, amigo, uruguaio de nascimento e que nunca, em seus 23 anos, dera testemunho de tanto apego ao futebol em virtude do anacronismo e a passividade que o tempo uruguaio pareceu encerrar o seu futebol nestas não muito felizes e vistosas décadas, onde o brilho antes ameaçador e único da camisa Celeste, ensombrecido por desorganização, esmorecimento econômico e gerações menos produtivas de jogadores, empalidecia e já não ofuscava mais ninguém.

Eu vestia a camisa celeste e ele trouxera a bandeira da República Oriental do Uruguai à redação. Juntos gritamos pelos pênaltis convertidos e nisso tivemos a simpatia de boa parte da redação, ainda não refeita da bovina eliminação da seleção brasileira poucas horas antes. Houve quem declarasse seu entusiasmo por Gana, não o neguemos, que no futebol e em todas coisas, somos todos partes do mesmo, que nessa bossa de jogos, campeonatos e pelejas aguerridas todos temos o inescapável direito de torcer para quem nos der na veneta. De mais a mais, Uruguai, Brasil, Argentina, Holanda, tudo é mundo, o que o faz um ou outro é a vontade dos homens, e a minha, independente, diz que é tudo é mundo, todos somos gente, e teima em não enxergar linha imaginária nenhuma onde dizem que elas estão. A geografia pode muito, mas é certo que, ao menos este que escreve, não lhe dará a prerrogativa de endireitar seus gostos e afinidades. A feliz circunstância de ser brasileiro não me proíbe, de maneira nenhuma, de ser uruguaio. Argentino, escocês. Espanhol, russo. E até ganês.

Muslera é outro sol a rebentar na seleção uruguaia. Um garoto, contestado e às vezes estabanado quando sai do gol, vestido de verde-limão, empalideceu o escândalo da cor de sua camisa ao pegar duas cobranças. Dos celestes, Maxi Pereira mandou para o alto. Gyan, que errara o pênalti do desespero durante o jogo, como que para se redimir, colocou a sua segunda chance nas redes. Pena, para ele, que não bastou.


Na camisa uruguaia despontam altaneiros sóis em marca-d'água, se é que aí, reformados, agora colocamos hífens. E no time uruguaio, nascem outros sóis. Muslera, como foi dito, é um deles. Outro é Lugano. O líder, o capitão, o redentor, a garra que nasceu em forma humana. Forlán, o talento a serviço do time, o camisa 10, o craque. Maxi Pereira, o volante que desarma o adversário, se multiplica ao brilhar pelo campo todo, sem ceder faltas em excesso. Tabárez, o homem do banco de reservas, dono de uma tímida e discretíssima carreira de jogador, que tem a sensibilidade de transformar Forlán, atacante, em meia. "Loco" Abreu, o desengonçado e enorme atacante que é jornalista e joga no Botafogo, dono de sangue-frio legitimamente "uruguayo", essa gente que rouba bancos à cavalo, e que bate o pênalti em displicente e, não neguemos, acintosa e aviltante cavadinha. Ah, o coração Celeste quase que rebenta de apreensão. Outro sol é o homem que, ao lado de Lugano e outros sóis dessa geração, foram capazes de mostrar que camisa e tradição são muito importantes, mas em si, não ganham jogos sozinhas. Precisamos que sóis vistam as camisas que, não por acaso, têm cor de céu.

O Uruguai, hoje, já é campeão. Venceu o medo de vencer, constantemente demonstrado ao longo dos últimos anos e, no que me concerne, é a seleção mais vitoriosa da Copa do Mundo de 2010 independente de resultados. Tenho a honra de ser uruguaio de adoção no que tange ao futebol, cultura e tanta coisa boa que os amistosos vizinhos do sul dão ao mundo. Viva el Uruguay!

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Rádio: Tim Maia - Rational Culture

"We're gonna rule the world, don't you know, don't you know"...



Tim Maia!

É clima de Copa do Mundo, amigo!

É corrido, tenso, puxado e em alguns momentos cruel. Mas trabalhar numa Copa do Mundo é muito legal.

Só é ruim quando meu Uruguai está em campo e eu trabalhando.

domingo, 27 de junho de 2010

Rumo ao tri!

Eu teria centenas de linhas, um livro, uma enciclopédia, uma nova literatura para escrever só para explicar porque torço para o Uruguai e porque meu coração pulsa um sangue celeste. Mas não vem ao caso. Porque há imagens que desobrigam as palavras.


quarta-feira, 23 de junho de 2010

Pero que los hay, hay

Hay veces que... bom, deixa pra lá.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

De butuca

Enquanto o Brasil se debruça a gorjear e repetir à exaustão "cala a boca galvão", descendo aos tropeções a escada da linguagem rumo ao grunhido, o senado decide em favor próprio nababesco aumento de 18% nos já para lá de poupudos vencimentos que lhe granjearam a falta de descência que remonta às mais antigas legislaturas, no mesmo tempo em que morre Saramago deixando a Literatura de luto, em que ninguém sabe muito bem o que fazer com toneladas de petróleo ondulando nas águas do mar e, só para acentuar o luto na Literatura, Geysi Arruda comete um atentado encadernado que torna, na infeliz data de hoje, público, e que uns tem a audácia desmedida de, sem escusas, chamar de livro.

Não há mais 4

Com Saramago aprendi;

- que vivo num mundo de cegos
- num mundo de pessoas sem lucidez
- que pessoas não tem nome
- que algumas conhecem todos os nomes
- que a morte não gosta de ser morte
- que a história não tem tempo
- o mundo não tem fronteiras
- ilhas flutuam
- cegos enxergam
- amores acontecem
- e pessoas morrem