Inúmeras coisas são intangíveis na vida da gente. Nosso primeiro sorriso quando crianças, a primeira dor, a lembrança do primeiro amor e da última decepção. Coisas bonitas e profundas podem e, normalmente, são intangíveis, embora algumas delas tenham mais densidade que o próprio chumbo, o que dá pano para manga para deliciosas e incompreensíveis analogias com a física quântica, posto tamanho contraste como é o caso.
Embora a tentação de embarcar na seara da ciência restritiva ao entendimento da ignorância calada das multidões - eu incluso - resistirei galhardamente, porque não era esse o objetivo do breve texto que por aqui se desenrola, perdido como eu estava ainda há pouco lendo Laurence Sterne: nunca vi tanta palavra e ideia bonita junta, nunca me encontrei tão perdido lendo tanta coisa interessante ao mesmo tempo. Corria pra lá e pra cá entre conceitos, regressões e digressões, perdido, como fazia, aliás, no tempo em que jogava futebol. Corria desesperadamente atrás da bola sendo quase que sempre bastante mal sucedido em reavê-la do adversário ou conduzi-la, quando calhava de ela parar nos meus desastrados pés.
Dizia eu qualquer coisa sobre a porção de sentidos e memórias intangíveis que compõem a nossa vida. E antes da digressão, diria que dentre essas coisas marcadas pela tênue memória eletroquímica distribuídas nas sinapses do cérebro, ainda que densas como o chumbo que reveste coisas impenetráveis às estripulias atômicas, existem belas e más recordações. Bons e maus momentos, porque é da distribuição mais ou menos caótica desses dois inversos que perfazem, no fim das contas, o que definimos como vida.
Uma coisa ruim é, por exemplo, na morosidade do sábado pela tarde resolver ouvir música. Algo calmo, que combine com humores presentes e passados, e aspirações futuras. Algo que sintonize com o sol tímido lá de fora, que caminhe na toada do sábado que se desdobra vagarosamente logo ali fora. Você escolhe o que quer ouvir mediante essas calibragens. Digamos que seja Willard Grant Conspiracy.
Vai tudo bem. Até que - sempre tem um "até que" - seu vizinho, incrívelmente desligado da realidade que o cerca, tanto como de alguns padrões estéticos, resolve que não há trilha sonora melhor para o sábado sobejadamente descrito linhas atrás como sonoros, repetitivos, rasos e lamentáveis grandes e menores sucessos do pagode e do sertanejo universitário. E tudo no mais alto volume que o aparelho de som for capaz de defecar e regurgitar pela vizinhança. São dois dos maiores flagelos contemporâneos da humanidade, pagode e sertanejo, que vicejaram nesse mundo do intercâmbio fácil e comôdo de arquivos e de mídias cada vez mais convenientes, o que só nos prova que até mesmo avanços sensíveis da humanidade, como é o caso dos arquivos intercambiáveis, das mídias mais eficientes, têm em si algo de ruim, nada pode ser perfeito, não há o que dê jeito nesse marco regulador do universo. A vastidão quase que oceânica da internet, no fim das contas, veio trazer no bojo de suas vagas algo de ruim.
O que nos faz encerrar essa croniqueta com o agourento remate de que no meio de tanta coisa intangível e boa que nos faz humanos, há espaço para uma raiva descomunal, intangível e densa, que nos faz um pouco bestas.

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