A frase é uma adaptação da original do escritor norte-americano Guy Endore, autor de alguns romances/biografias, se é que o termo existe, sobre grandes mentes da história humana. Entre estas obras, “O Rei de Paris”, que com fatos fictícios, outros verdadeiros e alguns, segundo o autor, revisitados, busca contar a vida cheia de graça, glória, alegria, cultura, história, inteligência e peculiaridade de Alexandre Dumas père, o dito Rei de Paris, na época em que esta descobria os boulevards, a cultura, a efervescência política que só foi sossegar depois da Segunda Guerra Mundial.
Dumas foi o sujeito que inventou alguns modos de produção – e de reprodução até – da cultura. Foi com ele que os folhetins se popularizaram, tornando-se “hits culturais”, numa época em que a desprezada reprodutividade técnica de Adorno ainda era quimera da mente criativa de um Julio Verne – por sinal contemporâneo e amigo de Dumas. Tanto é assim que ao escrever e verificar o sucesso de Os Três Mosqueteiros, teria dito: “descobri minha mina de ouro”. A constatação explica o surgimento de continuações com as personagens envelhecidas (Vinte Anos Depois e O Visconde de Bragelone - obra raríssima no Brasil, onde consta, num capítulo, a histório do Homem da Máscara de Ferro), a exemplo do que o cinema faz hoje para encher as burras.
Cinema, aliás, que bebeu muito da sabedoria deste Dumas, pai. Suas obras serviram de embasamento para mais de 200 filmes em toda a história, o que aponta no quão certeiro foi este francês descendente de nobres e de negros haitianos ao compor suas histórias. É verdade que elas não vão no âmago das questões humanas como as agudas obras de Victor Hugo e Balzac, conterrâneos e contemporâneos de Alexandre pai, mas também é verdadeiro que Dumas escreveu para entreter. Seja em suas peças, seja em seus folhetins, a idéia era distrair, agradar, fazer rir. Em suma, contar histórias.
Victor Hugo se declarou uma vez invejoso de Dumas. A popularidade e o carisma que queria alcançar pelo seu incontestável talento era concedida em generosas doses pela gente do mundo inteiro a Alexandre. Victor Hugo aconselhou Dumas a escrever para eternizar-se. Dumas ouviu, mas preferiu escrever para ganhar dinheiro. A escolha não fez de Dumas père o mais célebre dos escritores franceses, mas certamente o fez o mais lido.
Os folhetins que Dumas inundou com suas aventuras e romances históricos provocaram vendas estratosféricas nos jornais em que iam publicados e trouxeram ao autor rendas igualmente astronômicas que este gastou impiedosamente, terminando a vida em 1871, em casa de seu filho, Alexandre Dumas, cognominado para afastar confusões desnecessárias, fils, com apenas um punhado de francos que, ao contar, verificou que constituíam a mesma quantia com a qual ele se aventurara em Paris mais de meio século antes. Dumas diz ao filho, “ora, ninguém pode me acusar de esbanjar dinheiro, eis que ao limiar da morte me vejo com precisamente a mesma quantia de 50 anos atrás, não lucrei, é verdade, mas também não dei prejuízo”.
Além da admirável capacidade de contrair dívidas, Dumas pai tinha a de fermentar sonhos e de, em resumo, viver 10 vezes o que sofremos para viver uma. Sua vasta obra, 600 composições, entre artigos, peças e romances, somou 37 mil personagens. Números que sempre trouxeram à tona a questão de que: seria humanamente possível, em 50 anos, escrever tanto?
Há quem diga que sim, entre eles Guy Endore, o biógrafo do primeiro parágrafo. E há quem diga, não. E há outros, que apoiando-se no meio termo, sustentam que o que Dumas fazia era racionalizar o tempo e seus recursos. Ele apenas se cercava de autores de menor expressão aos quais remunerava por pesquisas acerca das idéias que tinha. A estes, Dumas sempre chamou de colaboradores. É verdade que Dumas foi também acusado de plagio algumas vezes. E admitiu-as.
Reconhecimento
Dumas sempre sofreu um pouco por ser negro e escrever o que hoje diríamos literatura barata. Seria como comparar um Nobel como Saramago e um réles autor de novelas globais. Entretanto, estas questões não o impediram de ser um entusiasta da democracia num período onde a França não se decidia sobre monarquia, república, Bourbons e Bonapartes, duas classes de imbecis despóticos muito semelhantes.
De qualquer forma, Dumas encontrou tempo para escrever um grande almanaque de cozinha, amar as mulheres mais cobiçadas do seu tempo, criar lendas, viver algumas, lutar pela unificação da Itália e trazer a “industrialização” para a cultura e, mais diretamente, para as letras. Dumas jamais foi parte da Academia Francesa de Letras, injustiça que seria reparada com a aceitação de seu filho anos mais tarde, também escritor.
Em 2002, numa cerimônia, o corpo de Dumas, então sepultado no local de nascimento, Villers-Cotterêts, foi exumado e conduzido por quatro mosqueteiros ao Panteão em Paris, onde estão sepultados os heróis franceses. Dumas teve desta forma o reconhecimento, tardio talvez, de sua importância na forja da identidade francesa.