quinta-feira, 5 de março de 2009

Idiotas da objetividade

Eu fui avacalhado por um idiota da objetividade numa banca. Chegou a dizer o distinto colega, hoje o somos por força dos fatos, que "tudo é objetividade" - na vida e no mundo. Não discuti. Como dirá logo a seguir Nelson Rodrigues, o idiota da objetividade é um cretino fundamental. E cretinice, leiam no dicionário, refere-se à ignorância. Com ignorantes não discute-se, concorda-se.

Trecho de entrevista de Nelson Rodrigues à Geneton Moraes Neto - não é dos meus preferidos, mas vem a calhar - onde Nelson, tão bom em simplificar coisas difíceis, nos diz o que é, afinal de contas, um idiota da objetividade, os grifos são meus:

"GMN : O jornalismo brasileiro continua padecendo de objetividade? – que o senhor considera uma “doença grave”?

Nélson :“O idiota da objetividade é o jornalista que tem grande fama, todo mundo, quando fala dele, muda de flexão. Mas eu acho o idiota da objetividade um fracasso. Isso num julgamento absoluto. O idiota da objetividade é também um cretino fundamental”.

GMN : Quais foram as causas da ocorrência desse culto à objetividade que, no conceito do senhor, corresponde à falta de emoção?

Nélson : “Pois é, é esse o negócio (ri de novo). É a falta de complexidade do sujeito que diz só a coisa certa ou aparentemente certa e não vê que todo fato tem uma aura. A verdade é que o fato só, em si mesmo, é uma boa droga. Olhe aí (e mostra a crônica “A Desumanização da Manchete”):

O “Diário Carioca” não pingou uma lágrima sobre o corpo de Getúlio. Era a monstruosa e alienada objetividade. As duas coisas pareciam não ter nenhuma conexão: o fato e a sua cobertura. Estava um povo inteiro a se desgrenhar, a chorar lágrimas de pedra. E a reportagem, sem entranhas, ignorava a pavorosa emoção da população. Outro exemplo seria ainda o assassinato de Kennedy. Na velha imprensa, as manchetes choravam com o leitor. A partir do copy-desk, sumiu a emoção de títulos e subtítulos. E que pobre cadáver foi Kennedy na primeira página, por exemplo, do “Jornal do Brasil”. A manchete humilhava a catástrofe. O mesmo e impessoal tom informativo. Estava lá o cadáver, ainda quente. Uma bala arrancara o seu queixo forte, plástico, vital. Nenhum espanto na manchete. Havia um abismo entre o “Jornal do Brasil” e a cara mutilada. Pode-se falar na desumanização da manchete”.

GMN : A ausência de um ponto de exclamação numa manchete faz falta ao leitor comum?

Nélson : “Faz. Eu digo o seguinte: na minha infância, havia primeiro o “Correio da Manhã”, um jornalaço. E havia “A Noite” – que vendia muito mais. E era um jornal muito mais amado pelo leitor. “A Noite” era um jornal amado (acentua a voz, ergue os braços). O sujeito comprava “A Noite” disposto a ler ou disposto a não ler. Não fazia mal isto. Ler ou não ler era um detalhe insignificante. Mas o povo gostava desse jornal. E esse antigo jornalismo permitia, por exemplo, que você fosse fazer a cobertura de um incêndio e levasse na mão uma casa de pássaro, uma gaiola e metesse a gaiola com um pássaro lá num certo ponto da casa em chamas. E aí o repórter que não era idiota da objetividade dizia que o nosso querido fotógrafo ouviu toda a cantoria do canário. E terminava dizendo: “Morreu cantando” (a essa altura, Nélson Rodrigues concede uma entonação teatral a esta frase). O repórter fora cobrir um incêndio. Mas o fogo não matara ninguém. E a mediocridade do sinistro irritara o repórter. Tratou de inventar um passarinho: enquanto o pardieiro era lambido, o pássaro cantava, cantava. Só parou de cantar para morrer.
A história desse canário fez um sucesso tremendo. Um sujeito queria uma vala especial para o canário, o nosso querido canário cantor. Era lindo. O jornalismo de antigamente era mais ou menos assim. Hoje, a reportagem de polícia está mais árida do que uma paisagem lunar. Lemos jornais dominados pelos idiotas da objetividade. A geração criadora de passarinhos parou em Castelar de Carvalho, o autor dessa reportagem sobre o incêndio. Eis o drama: o passarinho foi substituído pela veracidade que, como se sabe, canta muito menos. Daí porque a maioria foge para a televisão. A novela dá de comer à nossa fome de mentira”.

Se estiver curioso, pode ler tudo aqui.

Logro

Lendo versões traduzidas de jornais como o Der Spiegel, Financial Times, o El Pais e o Le Monde tenho a nítida sensação de que fui enganado na universidade, que como diria um amigo, "não passa de uma máquina de moer sonhos". E pior, mais do que enganado na universidade, posso um dia ser obrigado a enganar.

Aqui ainda estamos no tempo do lead e da objetividade acima de tudo. Já dizia o Nelson Rodrigues: "ah, os idiotas da objetividade".

quarta-feira, 4 de março de 2009

Pão duro 2

Aliás, muito mais macho do que dizer que quebrei o dente dando mordidas em barras de aço, seria dizer que quebrei-o numa briga. Caso eu ainda estivesse na idade de pôr em dúvida questões como a minha masculinidade e tivesse necessidade de impressionar terceiros, diria isso: quebrei-o numa briga. Mas ainda assim seria difícil, trata-se de um molar, afinal. Para vê-lo só se eu escancarar a boca e a pessoa estiver muito perto. Ou se ela esquadrinhar o espaço com a língua - hummm - aí eu diria: "pois é, gata, meti-me numa briga, foi o que me coube da luta, perder parte de um dente. Mas garanto que o outro sujeito ficou pior. Eu praticamente mastiguei-o".

Rapaz, isso me dá algumas ideias.

Se a dentista for bonitinha, está decidido, direi que foi briga. Levei um murro na bochecha. Dei outro no olho do adversário. Pois é. Não estou mais na idade de questionar e de impressionar, mas que se dane, são velhos hábitos.

Pão duro

Ontem eu, depois de uma abstinência de alimentos de 7 dias - e isso não é um récorde, já fiquei 9 e só comi no décimo dia porque se tratava de um casamento, e não convinha desperdiçar o bifê - resolvi que era hora de exercitar o estômago e dar-lhe chance de executar o peristaltismo antes que venha a esquecê-lo completamente, o que, embora eu tenha esse apetite tão irreverente, me traria os maiores dissabores (ahn? ahn?), posto que gosto de comer e de cozinhar.

(Peristaltismo, qualquer colegial sabe, é o nome dado aos movimentos que o estômago faz na digestão. Deite-se depois da refeição e observe sua barriga dar pulinhos: é o estômago trabalhando).

Enfim, para dar a chance de meu estômago fazer alguma coisa que lhe justifique a existência, preparei um sanduíche com algumas conservas e um forro de mortadela. Nada que um gourmet se orgulhe, mas ainda assim foi um primor para os olhos e para o palato.

Pão preparado e estômago avisado, sentei-me perante o computador para, enquanto assistia Life (muito melhor que Lost, fiquem todos sabendo), mastigava com o maior vagar possível - vim a saber recentemente que ingerimos tão rapidamente que não damos tempo ao organismo para que este nos avise da saciedade, motivo pelo qual comemos demais - dizia, comia com enorme pachorra, mastigando lentamente cada pedaço da conserva de pepino que fiz, da de cebola que fez minha mãe, da de beterrabas que fez meu avô quando, de repente, eis que sinto como se mordesse uma pedra.

Um pequeno pedaço duro, de alguma substância sem sabor algum, entrou na moagem dos meus dentes posteriores. Pensei: "mas que diabos eles andam pondo nesses pães?", "teria eu feito conserva de pedras no lugar de pepinos?", "é a capsula de um veneno que algum dos meus inimigos mortais teria colocado na minha comida para me envenenar?"

Que nada.

Aconteceu que quebrei um dente. Um dos molares. O que não me apavorou, por certo, sou uma pessoa naturalmente calma e paciente. O que me preocupou foi que julguei que um dente quebrado doeria miseravelmente. E não doeu nada. Não dói, aliás. Meu maior estranhamento veio do fato de que desconhecia que isso acontece com alguma frequência e não é nada de outro mundo. Tenho um amigo que bateu o garfo no dente e quebrou um pedacinho que coseguiram colar. Outro que rachou um canino ao morder uma rapadura.

Fico envergonhado ao pensar que quebrei meu molar com um pedaço de pão. Amanhecido, é verdade, mas ainda assim a pasta de trigo assada com fermento e ovos. É uma vergonha para a minha virilidade admitir que meus dentes são passíveis de quebrarem-se inapelavelmente com pedaços de pães. Eu poderia negar tudo, vir aqui escrever que mordi, de raiva, uma barra de aço por conta de algumas desgraças que me sucedem. Mas não. Passei da idade de mentir para contar vantagem. Passei, aliás, da idade de ter vergonha e de precisar provar a masculindade, e qualquer outra coisa, pra qualquer um. Portanto, brademos aos quatro ventos: meus dentes quebram ao contato com pão.

Passada essa profissão de fé, vale registrar que recorrendo ao pai Google vim a saber que dentes quebrarem é algo mais ou menos comum. Pode significar em casos graves deficiência de cálcio o que, vim a saber depois, é algo raríssimo na minha idade - embora meus hábitos alimentares possam causar uma desgraça como essa (duvido, minha mãe diria isso. Mas não faz sentido, muito antes de eu ter deficiência de cálcio, eu deveria ficar anêmico se a lógica fosse essa, mas não é).

E comum também é o concerto. Se quebrar uma parte dele, a gente cola com resina. Se você engoliu ou esmigalhou a parte (fiz ambos), não tem problema, a gente constrói outra parte com resina também. Se não chegou no nervo não dói nada. Se chegou, doerá espetacularmente e você terá que fazer canal - é quase como a ponte de safena da boca.

No fim das contas pode-se ver que poderia ser pior. Aliás, sempre pode ser pior. Vai ver que é por isso que me sinto tão feliz com um dente rachado e uma rebarba que roça a bochecha esquerda, sem nada pra fazer, tantas viagens para cumprir neste mês e sem ninguém para me magoar e prender - ou se sentir presa e dizer que me prendia, enfim.

Quer ficar feliz? Quebre um dente!*

(Sintam a ambiguidade)

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

10000!

Não há nada para comemorar. Fiel às tradições pessoais, estraguei tudo. Sem querer fui o 10.000.

Bah.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Quase 10.000

Beirando 10.000 visitas. Tudo é relativo, portanto, parece muito. Mas na verdade é nada.

Twitterando o blogue - II

Estou muito sem tempo, escrevendo isso diretamente do iPod (é meu primeiro post no aparelhinho que vai dominar o mundo), no meio da estrada, e sem muito tempo para nada. Mas logo o blogue voltara a sua programação normal: toneladas de posts ignóbeis para combater a calvície.

Essas idas e vindas me provam que o corpo humano é uma máquina admirável. Até que dê problema.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Twitterando o blogue

Às vezes fica difícil, mesmo, ter alguma fé em Deus.

Aforismos - Carnaval

E vem chegando o carnaval. Bah:

"Vamos pular o carnaval. E ir direto para o fim do mês".

Aforismos - Das companhias

A Bíblia é um excelente depósito de bons corolários e frases impactantes - de tê-la lido de cabo a rabo umas duas vezes, acabei impregnado dessas passagens: "atire a primeira pedra", "dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus", "afasta de mim esse cálice", "olhai os lírios do campo", "cada dia tem o seu mal". Enfim, e há esta, adaptada:

"Me diga com quem andas que direi se vou contigo".

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

A baixaria nunca acaba

Há quem ache a Folha de S. Paulo o suprassumo. Eu sempre achei que ser o suprassumo do jornalismo brasileiro é mais ou menos como ser o suprassumo mundial em tocar guitarras imaginárias. É um nada. Enfim, pãos ou pães, é questão de opiniães, diria o grande Guimarães Rosa.

Mas o que conta é ver a antecipação de 2010. Sim, a sucessão presidencial entra em foco, e olhe aqui a maneira digna, adulta, polida, imparcial ao extremo, decente, irreprochável, com que o comentarista de política, Josias de Souza, trata a sucessão. O que só prova que ser o suprassumo do nosso jornalismo garante ao digno jornal, este baluarte da democracia e do bom exercício da profissão, o direito de fazer, também, jornalismo marrom (clique na imagem para ampliar):


O link do post está logo ali em cima. Pode ser que tirem do ar, então nada mais justo que um print-screen para garantir a posteridade.

Pálido ponto azul

Como somos mediocremente pequenos perante a magnificência do universo todo em constante expansão. Somos insignificantes, pequenos como um átomo pode ser perante o Sol. Não há verdade nova nenhuma nesta constatação, mas é admirável como somos capazes de esquecermos disso. Como somos bons em crer que nossas subatômicas vidas e as demandas imbecis a que damos alguma importância, como se realmente tivessem, são verdadeiras cruzadas. E elas mesmo, as Cruzadas, não são nada perante o tudo. Enfim, somos muito pouco e absolutamente porcaria nenhuma perante a enormidade daquilo tudo que nos cerca e que nós, incapazes de compreender e de vislumbrar os limites desse tudo, nos contentamos em crer que, talvez, seja nada.



É sempre bom colocar tudo em perspectiva às vezes. Ver você e sua vida de fora, sob um outro ponto de vista, é sempre algo que nos ajuda a melhorar. O problema é que fazer isso não é assim tão fácil.

Aforismos - Das inutilidades

Todos nós criamos sentido para a vida na medida em que nos ocupamos com aquilo que julgamos necessário, importante, prazeroso e/ou recompensador em alguma medida. Mas é tudo vão, no fundo a gente sabe.

"O legal de esgrimir contra moinhos de vento é que você nunca ganha. Mas também não perde".

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Acabou a baixaria

Neste post eu falei algo sobre o que viria a ser da imprensa quando a atual crise financeira batesse-lhe finalmente à porta, cortando as suas verbas publicitárias. É lógico que naquele post eu me referi a um asseveramento da crise, bem como a um futuro mais distante decorrende da ausência de verbas para a mídia brasileira se suster e, assim, poder fazer política como se espera de uma mídia livre e sem a menor qualidade.

Mas um fenômeno interessante vem acontecendo agora. Desde que a crise começou, a mídia corporativa se especializou em espalhar o medo, dizendo que a débaclé financeira chegaria aqui, e que seria um Deus que nos acuda, e o diabo que nos esqueça. Ao que, de maneira bem pouco inteligente, o presidente Lula nos disse "se vier, será por aqui uma marolinha".

E de fato, se vermos os indíces de desemprego e número de falências em outros lugares, a crise aqui não foi nada séria - mas do futuro ainda ninguém pode dizer nada. Mas nem por isso o nosso bravo jornalismo deixou de vibrar quando pôde contradizer Lula, ao dizer que a marolinha virou tsunami. As matérias vieram numa orgia de desencorajamento, de medo, de que teríamos sombrios tempos pela frente. Desencorajaram a um só tempo o empresário e o consumidor, deu no que deu.

O que aconteceu é que a classe empresária, devidamente amendrontada, fez o lógico. Para segurar-se em tempos de crise financeira, é preciso ter um estofo. Mais do que coragem, precisa-se de recursos para bancar os tempos negros. Ou seja, as empresas estão cortando gastos. E começaram isso na publicidade...

Em resumo, você começou a ver nessa semana, e isso se intensificará, matérias que falam sobre "lugares onde a crise não chegou" (Jornal Nacional de ontem). A Folha hoje tece panegíricos às franquias e a capacidade do brasileiro de empreender, além de falar da infraestrutura em alta. Eles brincaram, fazendo política, com algo que tem um poder muito maior que todos nós juntos: o mercado. E agora que sentem na pele, vão tentar desarmar a bomba que eles próprios armaram. É um prodígio de inteligência, como se percebe, a conduta do jornalismo brasileiro.

Falar do Brasil que atravessa a crise com admirável galhardia. Esse será o novo diapasão quando o assunto for crise. E será o verdadeiro. Porque de uma maneira geral o Brasil foi sim atingido pela hecatombe financeira, mas estamos longe da situação de crise que se verifica em outros lugares do mundo. E o pouco de "crise" que se instalou aqui é, no fim das contas, culpa da campanha de terror da mídia. Lembra muito aquela movida ano passado, por conta da febre amarela e que até matou gente.

Por essas e outras é que o Brasil não acaba. Por essas e outras, aliás, que defino o jornalismo assim: "arte de falar com pessoas, contar a outras o que elas disseram e mentir quando conveniente". Rapaz, achei mais um aforismo.

Aforismos - Da efemeridade da felicidade

Não existe felicidade, isso é ponto pacífico. O que existe, segundo o filósofo Odair José (ei, não ria, ele é legal), são momentos felizes. Colhi essa frase do Millôr Fernandes, portentoso produtor de aforismos, como se sabe:

"Feliz é o que você vai perceber que era algum tempo depois".

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Sobre os aforismos

Sim, estou tirando a maioria do blog antigo (na verdade, até aqui todos, é só procurar que acha lá). É uma reprise atrás da outra. Surgiu uma polêmica num comentário dizendo que eu os plagio. Se o faço, o faço plagiando a mim mesmo, portanto, estou escusado.

Próxima pergunta?

* Estou deixando este post fixo aqui em cima. Portanto confira abaixo, porque estou sempre atualizando o blogue. Este post ficará mais uns dias aqui esclarecendo aos desavisados.

** Esse aviso tem alguns dias. Portanto há exceções no que tange aos aforismos recentes. No que fala de semiótica, por exemplo, se você virar o blogue antigo de ponta-cabeça não encontrará absolutamente nada lá, porque nasceu ontem à noite.

Aforismos - Outro mundo

Diz o Fórum Social Mundial que outro mundo é possível. Ora, não há dúvidas de que seja, o universo é grande, afinal:

"Um outro mundo é possível. Em Marte".

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Aforismos - Das semióticas

E eis um inédito. Estava eu tentando explicar semiótica - a pouca semiótica que eu nunca soube - para minha mãe e usei o exemplo a seguir que, nada mais é que um aforismo:

"Pense na letra A. Quem disse que ela é um A? Quem disse? Se um dia os homens não tivessem entrado num acordo, dizendo que um triângulo com um risco na horizontal é um A, hoje, ele poderia ser um B. Só Deus sabe se o A não se sente infeliz por não ser um B".

Completamente fora da casinha

É assim que parece estar o Joaquin Phoenix (sim, a criatura barbuda na foto é ele). Ator duas vezes indicado ao Oscar por atuações em "Gladiador" e "Johnny e June", parece, perdeu completamente o juízo. O que tem tudo, desde que verdadeiro - e explicarei isso ao fim do texto - de ser um mal de família.

Eu sou um pocinho de cultura inútil - e por isso, acho, me dou bem na profissão de jornalista. E o meu acervo de cultura inútil lembra: "cara, o Joaquin é irmão do River Phoenix!". River era um ator extremamente promissor, tinha tudo para ser um Brad Pitt, bonito e talentoso.

Mas morreu no meio do caminho, em 1993, aos 23 anos. Morreu, aliás, com uma overdose de cocaína misturada com heroína em frente à boate que pertencia ao seu amigo, Johnny Depp. Pela carreira curta foram poucos filmes, mas dois pelo menos são bastante conhecidos: "Conta Comigo" e "Indiana Jones e a Última Cruzada" (onde ele interpreta o jovem Indiana).

Toda essa digressão para mostrar que parece ser de família esses ataques de porra-loquismo. Joaquin, um ator brilhante, disse que está oficialmente fora do cinema, que o filme "Two Lovers", lançado no exterior essa semana é sua última película e que agora ele é um cantor de rap (!). Eu não ligaria se ele cantasse os countries que cantou em "Johnny e June", mas, porra Joaquin, rap?

A coisa toda é tão bizarra e seu comportamento ao longo dos meses levou a todos a acreditarem realmente na sua disposição de se tornar um cantor. Posição bem digna de ser almejada por ele, dada a sua atuação brilhante no vocal de alguns sucessos de Johnny Cash, quando filmou a cinebiografia do cantor country norte-americano. Na preparação dessa nova figura, desse novo Joaquin Phoenix, que na verdade se chama Leaf, vale, por exemplo, se comportar mal no David Letterman a ponto de grudar um chiclete debaixo da mesa do apresentador:



Aqui você pode ver a entrevista completa.

Mas de onde diabos teria Phoenix tirado a ideia de cantar rap?

Ao que parece tudo pode estar sendo, no fim das contas, uma grande brincadeira. Desde que anunciou sua decisão de virar cantor, Joaquin vem sendo acompanhado por uma equipe de filmagem dirigida pelo também ator Casey Affleck. Eu sinto cherio de um muckdocumentary* por aí. E você?

* Definição dos documentários de ficção - sim, isso existe - a maioria deles é assim: fazendo o mundo pensar que tudo aquilo é real, só que não é. Alguns, acho que todos, são simplesmente geniais, eles brincam com nossas mentes. Daqui um tempo recomendo a todos alguns.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

O Grande Livro do Jornalismo

É assim que se chama uma coletânea com a fina flor da literatura e do jornalismo, que os Correios hoje touxeram-me. Trata-se de um compêndio com nomes como Dickens, John Reed, Norman Mailer e outros. É interessante porque trata-se de uma obra que dispensa nomes como Gay Talese e Tom Wolfe, ícones quando o assunto é fusão de jornalismo e literatura.

Ainda não comecei a ler "O Grande Livro do Jornalismo". Estimo que na semana que vem o faça e, aí sim, poderei vir aqui tecer meus comentários sobre as reportagens contidas na brochura. Aqui há uma resenha, fraquinha, contudo.

Mas isso não me impede de comentar o título do livro. Pretensioso, concordam? "O GRANDE Livro do Jornalismo", dá uma ideia de bíblia da arte de falar com pessoas, contar o que elas disseram para outras e mentir quando conveniente. Evidente que trata-se de uma jogada de marketing porque, no fim das contas, é um livro de uma editora menor, composto por nomes importantes, não há dúvidas, mas ainda que considerados jornalistas em algum momento da vida, alguns deles são muito mais escritores - de ficção, frise-se - que qualquer outra coisa.

Estamos num momento curioso onde, muitas vezes, compra-se o livro pelo título. Muitas vezes, aliás, este pode ser tão fantástico que dispensa a leitura da obra. "O Grande Livro do Jornalismo" é um título tão bom que dá ideia de que não precisa se ler o livro, você já sabe o que tem dentro e, o simples fato de ostentá-lo na estante, já faz de você um catedrático no assunto "jornalismo/literatura". Marketing.

Livros com títulos apelativos são muito comuns no gênero auto-ajuda. Por exemplo: "Mulheres inteligentes, escolhas insensatas". Ora... além de apelativo é frágil, porque você percebe que o autor classifica que todas as mulheres que fizeram escolhas insensatas - uma boa metade delas - são inteligentes! E além disso o título subentende que elas só fizeram escolhas insensatas porque possuem uma inteligência superior que as impeliu a isso, em resumo: pra quê ler o livro? O título já identificou causa e efeito, ainda que por meio de um panegírico duvidoso. De qualquer forma, para provar que mulheres inteligentes fazem escolhas insensatas, este livro foi um best-seller.

Voltando ao jornalismo e ao seu grande livro, é interessante, e julgo que soe desmerecedor nos bitolados pelo lead e o padrão atual que existam na coletânea tantas reportagens de escritores de ficção - ressalte-se: reportagens, não contos. Só que é discutível também até que ponto o jornalismo e a literatura não são, na verdade, uma coisa só. Peguemos o exemplo de Dickens, escritor do romantismo inglês e que publicava seus romances em folhetins nos jornais londrinos. Uma obra espetacular como "Oliver Twist" é ficção, mas até que ponto ela não servia de denuncia perante as injustiças da sociedade nascida depois do estupro que foi a Revolução Industrial na civilização? Até que ponto o romance não expunha as facetas mais violentas dos subúrbios, assolados por pobreza e crimes? É válido lembrar que falamos no século XIX, as noções de fontes, compromisso público entre autoridades e fiscalização do poder constituído ainda não haviam nascido. E era na literatura que as verdades da vida, observadas pelos escritores, poderiam surgir e serem expostas.

O curioso é que embora esse conceito seja simples de se perceber, muita gente é incapaz de concebê-lo.

Depois de ler o livro todo virei aqui amadurecer mais essas ideias.