É assim que se chama uma coletânea com a fina flor da literatura e do jornalismo, que os Correios hoje touxeram-me. Trata-se de um compêndio com nomes como Dickens, John Reed, Norman Mailer e outros. É interessante porque trata-se de uma obra que dispensa nomes como Gay Talese e Tom Wolfe, ícones quando o assunto é fusão de jornalismo e literatura.
Ainda não comecei a ler "O Grande Livro do Jornalismo". Estimo que na semana que vem o faça e, aí sim, poderei vir aqui tecer meus comentários sobre as reportagens contidas na brochura. Aqui há uma resenha, fraquinha, contudo.
Mas isso não me impede de comentar o título do livro. Pretensioso, concordam? "O GRANDE Livro do Jornalismo", dá uma ideia de bíblia da arte de falar com pessoas, contar o que elas disseram para outras e mentir quando conveniente. Evidente que trata-se de uma jogada de marketing porque, no fim das contas, é um livro de uma editora menor, composto por nomes importantes, não há dúvidas, mas ainda que considerados jornalistas em algum momento da vida, alguns deles são muito mais escritores - de ficção, frise-se - que qualquer outra coisa.
Estamos num momento curioso onde, muitas vezes, compra-se o livro pelo título. Muitas vezes, aliás, este pode ser tão fantástico que dispensa a leitura da obra. "O Grande Livro do Jornalismo" é um título tão bom que dá ideia de que não precisa se ler o livro, você já sabe o que tem dentro e, o simples fato de ostentá-lo na estante, já faz de você um catedrático no assunto "jornalismo/literatura". Marketing.
Livros com títulos apelativos são muito comuns no gênero auto-ajuda. Por exemplo: "Mulheres inteligentes, escolhas insensatas". Ora... além de apelativo é frágil, porque você percebe que o autor classifica que todas as mulheres que fizeram escolhas insensatas - uma boa metade delas - são inteligentes! E além disso o título subentende que elas só fizeram escolhas insensatas porque possuem uma inteligência superior que as impeliu a isso, em resumo: pra quê ler o livro? O título já identificou causa e efeito, ainda que por meio de um panegírico duvidoso. De qualquer forma, para provar que mulheres inteligentes fazem escolhas insensatas, este livro foi um best-seller.
Voltando ao jornalismo e ao seu grande livro, é interessante, e julgo que soe desmerecedor nos bitolados pelo lead e o padrão atual que existam na coletânea tantas reportagens de escritores de ficção - ressalte-se: reportagens, não contos. Só que é discutível também até que ponto o jornalismo e a literatura não são, na verdade, uma coisa só. Peguemos o exemplo de Dickens, escritor do romantismo inglês e que publicava seus romances em folhetins nos jornais londrinos. Uma obra espetacular como "Oliver Twist" é ficção, mas até que ponto ela não servia de denuncia perante as injustiças da sociedade nascida depois do estupro que foi a Revolução Industrial na civilização? Até que ponto o romance não expunha as facetas mais violentas dos subúrbios, assolados por pobreza e crimes? É válido lembrar que falamos no século XIX, as noções de fontes, compromisso público entre autoridades e fiscalização do poder constituído ainda não haviam nascido. E era na literatura que as verdades da vida, observadas pelos escritores, poderiam surgir e serem expostas.
O curioso é que embora esse conceito seja simples de se perceber, muita gente é incapaz de concebê-lo.
Depois de ler o livro todo virei aqui amadurecer mais essas ideias.

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