Eu acho engraçado. Muito, aliás. Engraçado que Richard Fuld, o ex-presidente do Lehman Brothers (banco todo-poderoso que faliu na bolha financeira em muito patrocinada pelas atitudes gananciosas e inconsequentes de seu ex-presidente, aliadas a de tantos outros) tenha vendido sua mansão que custara, há cinco anos, 13 milhões de dólares, por módicos 10 dólares à sua mulher. O fez não porque tenha perdido o juízo - isso ele e seus pares nunca tiveram, tivessem algum não teriam especulado com um montante de dinheiro que simplesmente não existe - o fez, sim, porque morre de medo de ser processado por gente comum que perdeu dinheiro com suas piruetas financeiras em prováveis processos futuros. Passando a mansão para o nome da esposa ele garante que ela não seja arrolada entre seus bens e, portanto, fica assim na família.
Afinal, foram empenhados ali 13,75 milhões de dólares, resultado, seguramente, de um trabalho duro e de ilibada reputação. Fatos cotidianos como esse só reforçam a minha tese de que o bom senso só se usa depois de esgotadas todas as outras alternativas - e isso tenho visto que vale para todas as situações. Richard Fuld e seus asseclas, que embarcando no neoliberalismo e na globalização tacanha surgida da mente perturbada de gente como Ronald Reagan e Margareth Thatcher, sempre foram os primeiros a dizer que o mercado regular-se-ia sozinho, que era inerente a ele o poder de se policiar, que o Estado era o contrário disso tudo, corrupto, ineficiente e só serviria para atrapalhar o fluxo da economia e do progresso. Hoje, que ironia, estão empregados e recebem gordas remunerações em dia justamente porque quem veio socorrê-los foi o Estado. Ah, a hipocrisia.
Hoje, com a quebradeira, é o Estado quem paga as contas, e por natural conclusão, o dinheiro sai do bolso das pessoas comuns. É o Estado que empresta dinheiro, estatiza empresas e sistemas financeiros globais. É o Estado que paga salários de gente como Richard Fuld no momento. E é você que perde seu emprego se a coisa apertar ainda mais. Ou seja, ainda não esgotamos todas as outras probabilidades para chegar ao bom senso na economia e mesmo no capitalismo e, aliás, não há porque crer que isso vá ocorrer.
Aliás, sobre essa questão de ser o Estado quem controla, hoje, os esqueletos de grandes grupos vale ressaltar uma atitude de Obama: ele limitou os vencimentos dos executivos dessas empresas em módicos, esquálidos, magros 500 mil dólares por ano. Ou seja, eles ganhavam mais que isso. Segundo o The New York Times, pois, Richard Fuld embolsou estonteantes 34,4 milhões de dólares em 2007 - mas não se assustem, num exemplo de extrema racionalidade administrativa, o Lehman Brothers cancelou o bônus de Fuld referente ao ano passado (e por que não fizeram isso antes?). Essa estatização do capital financeiro e economico e o controle exercido pelo governo dos EUA faz deles, arautos da globalização, segundo minhas contas, o país mais comunista do mundo hoje. Lênin deve estar contente e dizendo entre os bigodes embalsamados no Kremlin: "Que fazer?"
Mas eu sou um sujeito solidário e de bom coração, apesar de irônico e cansativo. Chego a ficar preocupado com Fuld e família. Vendendo sua miserável habitação por 10 dólares e tendo, na hipótese de continuar no Lehman, seus vencimentos limitados a curtos 500 mil dólares por ano, será que ele terá verba para mandar as crianças para a escola nesse começo de ano? E o material escolar? Será que sobrará algum para pagar a van? Tomara que sim.
Coitado do Fuld. Não queria estar na sua pele.
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
Hipocrisia de mercado
às 09:52 Marcadores: Atualidades, Mídia, Política

1 comentários:
Lamentável. Com isso o mercado de luxo vai continuar sofrendo uma queda. Quem diria... (!) ¬¬'
rs... eu nem tinha reparado que não tinha um link do Mundo Aparte aqui, kkk... Não se martirize tanto!
¡besitos!
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