domingo, 15 de fevereiro de 2009

Acabou a baixaria

Neste post eu falei algo sobre o que viria a ser da imprensa quando a atual crise financeira batesse-lhe finalmente à porta, cortando as suas verbas publicitárias. É lógico que naquele post eu me referi a um asseveramento da crise, bem como a um futuro mais distante decorrende da ausência de verbas para a mídia brasileira se suster e, assim, poder fazer política como se espera de uma mídia livre e sem a menor qualidade.

Mas um fenômeno interessante vem acontecendo agora. Desde que a crise começou, a mídia corporativa se especializou em espalhar o medo, dizendo que a débaclé financeira chegaria aqui, e que seria um Deus que nos acuda, e o diabo que nos esqueça. Ao que, de maneira bem pouco inteligente, o presidente Lula nos disse "se vier, será por aqui uma marolinha".

E de fato, se vermos os indíces de desemprego e número de falências em outros lugares, a crise aqui não foi nada séria - mas do futuro ainda ninguém pode dizer nada. Mas nem por isso o nosso bravo jornalismo deixou de vibrar quando pôde contradizer Lula, ao dizer que a marolinha virou tsunami. As matérias vieram numa orgia de desencorajamento, de medo, de que teríamos sombrios tempos pela frente. Desencorajaram a um só tempo o empresário e o consumidor, deu no que deu.

O que aconteceu é que a classe empresária, devidamente amendrontada, fez o lógico. Para segurar-se em tempos de crise financeira, é preciso ter um estofo. Mais do que coragem, precisa-se de recursos para bancar os tempos negros. Ou seja, as empresas estão cortando gastos. E começaram isso na publicidade...

Em resumo, você começou a ver nessa semana, e isso se intensificará, matérias que falam sobre "lugares onde a crise não chegou" (Jornal Nacional de ontem). A Folha hoje tece panegíricos às franquias e a capacidade do brasileiro de empreender, além de falar da infraestrutura em alta. Eles brincaram, fazendo política, com algo que tem um poder muito maior que todos nós juntos: o mercado. E agora que sentem na pele, vão tentar desarmar a bomba que eles próprios armaram. É um prodígio de inteligência, como se percebe, a conduta do jornalismo brasileiro.

Falar do Brasil que atravessa a crise com admirável galhardia. Esse será o novo diapasão quando o assunto for crise. E será o verdadeiro. Porque de uma maneira geral o Brasil foi sim atingido pela hecatombe financeira, mas estamos longe da situação de crise que se verifica em outros lugares do mundo. E o pouco de "crise" que se instalou aqui é, no fim das contas, culpa da campanha de terror da mídia. Lembra muito aquela movida ano passado, por conta da febre amarela e que até matou gente.

Por essas e outras é que o Brasil não acaba. Por essas e outras, aliás, que defino o jornalismo assim: "arte de falar com pessoas, contar a outras o que elas disseram e mentir quando conveniente". Rapaz, achei mais um aforismo.

1 comentários:

Pina disse...

meu professor de filosofia costuma me sacanear dizendo que o jornalismo "é a fofoca institucionalizada"... eu complementaria com um "é a fofoca institucionalizada e levada a sério".