A notícia ainda não bateu nos grandes conglomerados de mídia, mas é questão de tempo para que aconteça. A banda de discutível qualidade artística foi indicada por um bispo católico do Ceará (ainda procuro o nome do benfeitor de Chimbinha e asseclas)* para concorrer ao Prêmio Nobel da Paz, em função de relevantes serviços humanitários prestados a populações mais carentes do nordeste.
O interessante é as toneladas de críticas preconceituosas que vocês ouvirão e lerão sobre o assunto. A rigor, no nordeste, Calypso é visto como uma celebridade do quilate de um Bono Vox. Joelma, a vocalista, é uma Madonna daquelas áridas paragens onde Deus esqueceu de semear alguma água. Muitos dirão que o factóide, porque é um, é absurdo, coisa de povo atrasado e ignorante. Burrice de quem o disser.
Que Calypso é um ícone popular na cultura nordestina não restam dúvidas, as marcas de vendagem de discos e de pessoas nos shows da banda no nordeste são impressionantes. É lógico que daí a dizer que a banda presta serviços humanitários relevantes é outro ponto. Mas na verdade não importa, porque é uma manifestação popular de massa e se alguém acha interessante que concorram ao Nobel da Paz, ora, que concorram. E quem quiser que reclame com o bispo (sentiram a intertextualidade entre o ditado e o factóide?).
E no fim das contas eles perderão certamente. Mas ainda que ganhem, saibam vocês que o Prêmio Nobel, ao longo dos tempos, cometeu dúzias de injustiças e de absurdos - esse não seria o primeiro e nem o último. Por exemplo, vai parecer que estou obcecado pelo sujeito, mas dane-se, Churchill ganhou o Prêmio de Literatura em 1953, mas tinha sido uma premiação política - embora escritor de vasta produção e de alguma qualidade, Churchill está muito longe do mérito de um Thomas Mann ou de um Hermann Hesse, ambos vencedores do mesmo galardão em outros anos.
O próprio laurel da Paz já sofreu vilipendios das comissões julgadoras. Sujeitos belicosos como Theodore Roosevelt, Yasser Arafat, Shimon Peres venceram o prêmio. De uma forma geral, o Nobel da Paz é atribuído por um ato isolado, e não por toda a tragetória do sujeito - embora esta, hoje em dia, conte bastante. Em literatura, no entanto, existem prêmios por "conjunto da obra".
Em resumo, o prêmio Nobel é muito menos do que realmente parece. Assim como o Oscar - ambos ícones, tem um sentido, uma significação alheia à sua realidade intrinseca, só tem a importância que parecem ter porque nós julgamos que tenha alguma. É um prêmio importante, dá status e 1 milhão de dólares ao consagrado, mas ainda assim, no fim das contas não significa nada. Basta perguntar aos que criticarão Calypso e sua indicação se eles sabem quem ganhou o último Nobel da Paz? E em que ano a Madre Tereza de Calcutá levou o seu? Quantos sulamericanos já venceram esse prêmio?
Claro que não saberão a resposta porque, a rigor, o Nobel é só uma bobagem ocidental. Só isso, Alfred Nobel, aliás, o criou por vaidade, não por altruísmo.
* Descobri. O nome do bispo é João Pedro Nascimento, presidente de uma ONG chamada Comitê da Paz. Viram só como religiosos são vaidosos?
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
Calypso para o Nobel da Paz
às 12:18 Marcadores: Atualidades, Mídia

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