sábado, 18 de junho de 2011

Liberdade de marcha à ré

Hoje acontece em 40 cidades por todo o país a, dizem, Marcha da Liberdade. Liberdade lá com eles, porque enquanto isso, enquanto endireitam-se as filas pelas ruas e avenidas pela legalização guela abaixo do consumo de drogas, no senado e na câmara abrem-se as pernas do país para a organização da Copa e das Olimpíadas.

Mas, claro, protestar contra isso dá preguiça. Precisa pensar, ter argumentos que não sejam calcados no hedonismo de uma geração descompromissada - que apatia é virtude. E no mais, envolvimento político em causas de real interesse público não dá barato.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Alta quilometragem

Nesta semana eu fiz já uns 950 quilômetros entre idas e vindas para Curitiba. E estou adorando. Eu devia ser caminhoneiro ou piloto de endurance.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

De volta

Há uma frase em um dos meus filmes preferidos, Apocalipse Now, do personagem de Marlon Brando, acho, que diz "eu adoro o cheiro de napalm pela manhã".

Eu não senti napalm na manhã de hoje, a do meu regresso. Mas rasguei a estrada de vidro aberto, e em vigorosos haustos, tomei do ar dos Campos Gerais, que se não cheira a napalm, ao menos, me dá a mesma sensação que teria Marlon no filme.

Rapaz, é bom estar de volta. 

terça-feira, 14 de junho de 2011

São Paulo, 2011

Hora de ir embora. Pra voltar um dia, talvez. O fato é que o futuro pega na mão da gente e leva-nos por caminhos onde nem sempre a nossa escolha e a nossa vontade podem diante das circunstâncias. Eu vim, vi e venci. Nos meus parâmetros, claro, porque se vitória fosse o que realizei por aqui é provável que não fosse embora. Mas, de fato, cheguei desempregado e sai editor de um site enorme. É, digam o que disserem, mas foi um retumbante triunfo.

Mas como eu disse, o futuro vem e pega na mão da gente. Ele tolhe as veredas e quando você vê, caminhou e tudo à sua volta mudou. São Paulo, até segunda ordem, há de ser página virada na minha vida. E agora toca a morar em Curitiba. Em algum momento do passado, lá onde estavam os sonhos e disparates da infância, eu me imaginava morando em Curitiba que, do alto do meu provinciano mundinho, era uma expressão de vida cosmopolita. Hoje, mais que isso, é a realidade do futuro imediato, dos sonhos adiados e da vida preguiçosa que, sem eu perceber, já conta 26 anos.

E o que dói o coração é deixar para trás os amigos, dos bons, que cultivei na Paulicéia. É pena que não caibam todos no bolso ou que simplesmente não tenham o mesmo apreço que eu tenho pela vida pacata na capital paranaense, mas isso é papo para outra lamúria. Adeus, São Paulo. Hasta pronto, camaradas.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Soy Celeste

"O Uruguai teve muitos grandes jogadores em sua história. Muitos craques como Scarone, Rocha e Schiaffino, mas sempre gostei daqueles que mostravam caráter e temperamento. Como Obdulio e tantos outros. Gosto de ser chamado de caudilho. Tem de ser como nos anos 30, quando em dez anos ganhamos 4 finais contra a Argentina, inclusive a primeira Copa. Nós ganhamos 4 finais e eles ganharam 10 amistosos. O que interessa mais? Futebol se joga com caráter. Eu sou assim"(Lugano, Diego - livro Tricolor Celeste)

terça-feira, 31 de maio de 2011

Clint Eastwood e o sinonimo da macheza contemporânea

São tempos melindrosos para um sujeito usar calças e honrar os bagos. Sim. Vivemos numa era desgraçada, de moral fácil e de politicamente correto. E hoje é aniversário de uma bem acabada antítese de tudo isso, um cidadão que é um símbolo, um tipo de último dos moicanos da macheza perdida.

Clint Eastwood. O homem. Clint faz 81 anos hoje e coleciona sucessos em praticamente tudo que se meteu a fazer na carreira de ator e diretor. Filmes intensos, personagens marcantes. O homem sem nome da minha adorada trilogia do dólar, o fugitivo de Alcatraz, o sorumbático de Gran Torino. Quem viu cada um desses filmes sabe porque Clint merece uns goles e um post em homenagem ao seu 81º aniversário.

É um sinal dos tempos que as mulheres hoje suspirem muito mais por Brad Pitt e George Clooney do que por um tipo como Eastwood. O cinema, e nossa sociedade, não produzem mais tipos adoráveis como Steve McQueen, John Wayne e Humphrey Bogart, são o triunvirato da masculinidade. Há momentos na vida em que você precisa parar e considerar o que o faz diferente desses sujeitos e porque você não pode ser como eles. Se fossem quatro, eu escalaria James Coburn nessa trementa patota. Sean Connery também merece a lista.

Alguns dos filmes de Clint são obrigatórios. Mas se não estiver com disposição de ver todos, se atenha à Trilogia do Dólar, que o fez, nos anos 1960 de jovem desconhecido, a galã e grande nome do cinema.

Eastwood é de uma macheza contundente só por ter aceito fazer filmes de faroeste no período de maior decadência do gênero, com um italiano desconhecido (Sérgio Leone) e no meio da Sicília - nada de desertos e poeira texana num filme sobre o oeste distante dos EUA. Os três filmes, "Por um Punhado de Dólares", "Por uns Dólares a Mais" e "Três Homens e Um Conflito" (também conhecido como "O Mau, o Bom e o Feio") lhe dariam a pecha de durão e marcariam muito o gênero no seu ocaso.

Mas foi vivendo o policial Harry Callahan, ou Dirty Callahan em "Perseguidor Implacável" (e na longa série de filmes que seguiram o sucesso do primeiro), que marcaria sua carreira como o sujeito que passa testosterona no pão mofado com a peixeira enferrujada. As sequências são tão boas como o primeiro, mas eu honestamente acho que poderiam ter parado no terceiro título.

Clint também tornou-se um diretor de extrema qualidade. Do alto de sua macheza conseguiu realizar o filme preferido da mulherada, "As Pontes de Madison" - ele deve ter feito isso só para mostrar quão machão é. E vem emplacando uma série bastante sólida de bons filmes e de sucesso de crítica e bilheteria: Sobre Meninos e Lobos, Menina de Ouro, a dobradinha A Conquista da Honra e Cartas de Iwo Jiwa, Invictus, Gran Torino.

Parabéns, Clint. Longa vida ao maior depositário vivo da testosterona, do último bastião da macheza cool do cinema.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Rádio: Wander Wildner - Bocomocamaleão

Um dia eu vou ter um bar e ele vai se chamar Soriano. A não ser que ele fique na vizinhança de um cemitério. Neste caso, o nome será Pé na Cova:

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Projetos

Sem saber exatamente por quê, estou montando meu segundo livro e produzindo um disco. Projetos, acho que é isso que significa: coisas às quais você se mete a fazer porque as acha legais e divertidas.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Rádio: Willard Grant Conspiracy - The River in The Pines

Dei-me conta de que este blogue está muito científico ultimamente. Hora de voltar às subjetividades que um dia derrubaram minhas veredas do mundo cartesiano das engenharias e me deixaram à deriva num oceano de palavras, emoções, compreensão e conceitos mais vagos que a frieza dos cálculos.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Custo/benefício

Se for verdade que um deus, qualquer que seja a divindade antropomórfica a qual você vote fidelidade, tenha criado todo este universo podemos concluir que lhe falta maior noção da escala das coisas e que ele não etende porcaria nenhuma de custo/benefício. Isso sim, senhores, é um ser inteligente:

terça-feira, 10 de maio de 2011

Rádio: Roberto Carlos - Outra Vez

Rapaz, como essa música me derrubava nos meus bons e nem tão saudosos tempos de fossa, daquelas de criar bicho e alimentar todas as minhas velhas prevensões contra relacionamentos:

Táquions

Eu, arbitrariamente, escolhi a estrela de neutrons como a coisa mais bizarra do universo, ou ao menos a que mais me fascina e desperta curiosidade. Mas poderia ter escolhido os táquions. Ou, na verdade, não. Não há indícios de que existam, e nem mesmo de que não existam. Até aqui, ao contrário das estrelas de neutrons, táquions são construções ideológicas que fermentaram na vibração das cordas das teorias mais recentes sobre a natureza do universo e suas origens. É um recurso para explicar coisas que não se entende, mais ou menos na mesma proporção que, um dia, calhou se dizer que o trovão era a expressão da irritação de algum deus.

Mas, caso existam, táquions são incrívelmente bizarros. Seriam partículas que viajam com velocidade maior que a da luz. Pois é. Diria alguém que, não pode, nada vai mais rápido que a luz. Na verdade, nada acelera para além da luz. De repente, pode ser, uma partícula viaja mais rápido que a luz porque essa é a sua natureza, porque ela já se formou assim e contra isso nem Einstein pode nada.

Os táquions existiriam, então, num tempo próprio imaginário. Dada a particularidade de fluirem mais velozes que a própria luz, se você encarasse um em sua direção, não o veria. Só depois que ele passasse, você veria duas imagens indo em direções opostas: uma delas o rastro da trajetória percorrida pela partícula, algo como o "rastro de luz deixado pelo caminho", e de outro o rastro deixado pelo avanço inexorável de algo que pode viajar na velocidade do instante. É um Efeito Doppler anabolizado.

Caso existissem, fossem mensuráveis e controláveis, eventualmente, táquions poderiam significar avanços avassaladores na atual tecnologia. Computadores que trabalhariam quanticamente à velocidades superiores à da luz romperiam absolutamente todos os paradigmas científicos construídos em séculos, se não mesmo milênios de humanidade, em questão de horas. A rigor, um computador de táquions poderia processar coisas no passado, mais ou menos no sentido de que você poderia usar os táquions para mandar mensagens para trás na linha do tempo: praticamente, conversando com você mesmo no passado.

O tempo, então, não existe nos táquions. Experimentos da física quântica indicam que os táquions existem (e frise-se que indícios não são evidências). Se existem e carregam informações, era de se esperar que cá conosco tivessemos recados do futuro? Talvez já o tenhamos. Ou, mais provavelmente, os táquions viajam com velocidade maior que a luz, mas não a informação. Ou ainda, anda a informação no mesmo compasso, mas quando por aqui chegam, não aparecem, são indefectíveis, informação e táquions. E talvez, ora, que bom que o sejam. Não há muito proveito em se saber demais do próprio futuro, sobretudo nós, quando o melhor que fazemos é esquecer-nos do passado.

Se táquions existem, viajam assim, correm a todo o canto precedendo causas e efeitos. Cofio os bigodes e, cá comigo, pondero que se existem os táquions nestes termos, ora, pra quê Big Bang?

segunda-feira, 9 de maio de 2011

9 de maio, o Dia da Vitória

Em todas as Rússias celebra-se, hoje, o Dia da Vitória na Segunda Guerra Mundial. Os russos, sobretudo pelo ranso ultranacionalista soviético, são extremamente apegados a esta data. De qualquer forma, descontadas as heranças de um tempo de perversão ideológica e ditadura obscura, a URSS foi a nação que mais perdeu vidas no conflito. A estimativa é de 20 milhões de vidas perdidas em campos de batalha por toda a extensão dos Urais, de Stalingrado a Minsk, nos cercos, como em Leningrado e nas ocupações, como em Kiev.

Em honra à História, que rimbombem os acordes triunfantes da marcha "The Red Army is the Strongest", na voz do Red Army Choir, que narra as tragédias do soldado e fala, também, do odioso camarada Stálin:

sexta-feira, 6 de maio de 2011

E Einstein tinha razão

É preciso certo distanciamento histórico para avaliar o diâmetro de alguns eventos. É o caso, por exemplo, do anúncio feito pela Nasa, divulgando os resultados da Sonda Gravitacional B - ou Gravity Probe B. Um tremendo dispêndio de recursos, engenharia, tecnologia, tempo e ciência. A sonda levou duas gerações de cientistas para ficar pronta - é de longe o maior programa espacial em termos de tempo - e tinha o pouco audacioso objetivo de medir e comprovar as teorias gravitacionais de Einstein.

É preciso tempo porque, embora, sim, tenha-se comprovado que a Terra distorce o espaço-tempo a seu redor a ponto de criar um vórtice nas suas imediações, por outro, esperava-se que a sonda fosse capaz de medições com 0,01% de margem de erro (para se ter uma ideia, a sonda foi capaz de medir desvios de pentelhésimos de arco: a escala foi de milhares de miliarcosegundos (um miliarcosegundo é a largura de um fio de cabelo humano visto de uma distância de 16 km). Na verdade, verificou-se que o número ficou mil vezes acima deste 0,01%. Nada que comprometa o experimento, mas aproxima muito seus resultados de tudo aquilo que já se tinha mensurado através de equipamentos muito mais simples e baratos.

Na coletiva que anunciou os resultados do experimento, Clifford Will declarou que "este é um resultado épico. Um dia isto será escrito nos livros como um dos experimentos clássicos na história da física". O experimento, independente do mérito de seus dados colhidos nestes anos, é um absoluto triunfo de engenharia e de simplicidade: a ideia foi mandar ao espaço giroscopios - a grosso modo, esferas perfeitas que giram livres num recipiente de vácuo com hélio superfluido - e apontá-los para uma estrela. Se Einstein estivesse errado, os giroscópios não oscilariam e manteriam-se eternamente apontados para a estrela de referência. Se, por outro lado, estivesse correto, a distorção espacial causada pela Terra perturbaria o movimento das esferas dos giroscópios.

O problema é escala e margem de erros. As esferas foram anunciadas como as quatro esferas mais perfeitas um dia produzidas pelo homem. E são. Fossem elas ampliadas até o diâmetro da Terra e teriam, no máximo, escarpas de 3 metros de altura. São virtualmente perfeitas. Mas mesmo esse grau de refinamento não foi suficiente.

Pode mesmo ser verdade. A exemplo de Eddington que, inglês, se embrenhou nas matas africanas em plena Primeira Guerra Mundial, para efetuar medições da órbita de Mercúrio e que vieram a comprovar os primeiros grandes saltos de Einstein, que de resto, era alemão, vivia ainda na Alemanha, adversária dos ingleses em campos de batalha. O trabalho de Eddington provou que Newton, inglês, estava errado. Era ruim para a propaganda de guerra que o maior físico de todos os tempos estivesse errado e tivesse que ceder passo, justamente, para um alemão.

O tempo passou, Einstein tinha razão em muitas coisas - são os princípios que descobriu que fazem, por exemplo, o GPS de seu automóvel preciso. Pode ser que este experimento abra veredas novas no avanço para se descobrir o que é a gravidade, o espaço e o tempo nisso tudo, a exemplo de Eddington e Einstein no princípio do século passado. Mas isso só o tempo vai nos dizer.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

O maior casamento de todos os tempos

A dar-se fé em tamanha comoção, contrairam-se hoje as maiores bodas da história da humanidade. Uniram-se em laços matrimoniais, que hoje se desatoam-se com a maior facilidade das idiossincracias humanas, um dos herdeiros do trono inglês, não direto, é o segundo em linha de sucessão, e uma plebeia, pelas contas inglesas, e que se comparada a boa parte das mulheres do mundo estaria mais para aspirante a potentado, não sabemos o feminino desse adjetivo, que uma réles campônia. Casaram-se, enfim, Kate e William. Leitura labial dá conta de quem William confidenciou - e indiscretas foram essas câmeras - "você está linda". Ora. Muito mais notícia seria se dissesse "Mas e esse Arsenal, hein?".

Pensando a respeito difícilmente consigo encontrar mérito para tanto espaço dedicado na mídia para o evento que, se houver proporcionalidade entre comoção e efeitos, deve mudar os horizontes e perspectivas da civilização. Deve levar toda a humanidade, com o Reino Unido embandeirado pelo Union Jack na vanguarda do processo, a um novo patamar de esclarecimento, onde reis, monarquias e nobres dividem o escopo do gênero humano com outra metade, onde estão todos os outros, meros mortais de sangue vermelho, e pechas que transitam do plebeu ao burguês, todos compulsoriamente obrigados a curvar-se perante reis e os ditos "nobres". Isso sim é progresso.

De resto, meio simbólico, é lembrar da figura de Carlos I, o último rei absolutista do Reino Unido. Reinou de 1625 até a morte em 1640. Foi o sujeito que inaugurou a tradição muito europeia de decapitar seus monarcas quando as estripulias destes transcendiam as alargadas veredas do tolerável de um povo que acostumou-se a ver deus em tudo e a supor que reis eram escolhidos por deus e, portanto, contestar sua autoridade, vontade, poder, favor e tudo o mais implicava, diretamente, em sacrilégio. Fácil de entender porque resta, ainda, um estado absolutista no mundo e que situa-se embrenhado na Europa: o Vaticano.

Carlos I foi o monarca que instigou uma guerra civil porque foi estabanado demais para lidar com o poder. Não tinha aquilo que a democracia moderna que, curiosamente, nasceria no seu cadafalso, instituiu no poder: tato. Era, neste sentido, o extremo oposto de seu antecessor, Jaime I, que incapaz de governar - ou não disposto a tal - imbuiu o poder em seu favorito, Duque de Buckingham, que acabaria morto a facadas por um marinheiro protestante, fanático religioso que censurava os hábitos e a vida desregrada de Buckingham (cadê a Record para dizer que isso foi culpa de GTA?) - que de resto era acusado de cobrar tremendos impostos. Jaime teve tato, porque Buckingham era competente em mater o poder e o estado no bojo do tesouro real, na mesma medida em que Richelieu fazia na França daqueles tempos. Com Carlos foi diferente. O homem queria beber todo o poder de uma vez só. Em resumo, aborreceu à farta o Parlamento, que por seu turno, aborreceu-se com o rei. Apareceu um líder entre as bancadas, Oliver Cromwell, que sedimentou a insatisfação de seus pares e uma revolução, onde de um lado estavam os aristocratas fiéis ao regime absolutista de Carlos e, de outro, os burgueses, fabricantes de cervejas, mercadores, banqueiros, artesãos, capitaneados por Cromwell. Carlos perdeu a guerra e acabou decapitado.

Cromwell tornaria-se interventor da Inglaterra por cinco anos. Deu-se a si o título de Lorde Protetor e instaurou um tipo de república puritana na Inglaterra. Um tipo de rei. Com a sua morte, a monarquia, subjulgada pela vontade do Parlamento, como é até hoje, retornaria. Há um livro que narra boa parte desses sucessos com uma ótica mais irreverente e pelo lado a que todos somos tentados a torcer contra: o de Carlos I. É "Vinte Anos Depois", de Alexandre Dumas père, onde Os Três Mosqueteiros, quase salvam Carlos da decapitação.

Antes de toda essa digreção eu dizia que era curioso lembrar a figura de Carlos I. A quem se disse a famosa frase "salve a majestade caída". Carlos, nem de longe, foi o último ser humano a ser decapitado em praça pública na Inglaterra. Hoje, quase 400 anos depois, um descendente seu leva muito mais gente a dar testemunho de sua caminhada rumo à forca. Há muito tempo que naquelas ilhas não havia tanta comoção para se dar testemunho - mórbido - em praça pública de um sujeito caminhando solenemente, engalonado e lustrado, para a forca. Para apoiar a ousada afirmação, resgato ainda Alexandre Dumas, que era frasista de grande calibre, e um dia disse que "a cadeia do casamento é algo tão pesado que é preciso dois para carregá-la - às vezes três".

De resto, não consegui responder o por quê do interesse. Talvez porque seja moderno ser plebeu e prestar reverências aos reis. Ou simplesmente porque somos uma civilização muito dada ao cultivo de personalidades, ao consumo de bobagens e, especialmente, à pura falta de espírito crítico que nos faça ver que, enfim, casamentos acontecem todos os dias. E William e Kate não são diferentes de ninguém.

O interesse inglês nas bodas é compreensível. O inglês encherga tudo isso de um outro ponto de vista, trata-se de um povo extremamente fiel às suas tradições e a família real, lá para eles, é um ícone enorme. Mas o resto do mundo, honestamente, se as coisas fizessem algum sentido, estaria cagando e andando para o casamento real.

Eu sou tão princípe da Inglaterra como William. Eu só não tenho tanta gente que acredite nisso.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Demócrito

Demócrito era de Abdera, cidade que em seu tempo era o pano de fundo preferido das anedotas, mais ou menos como hoje nos é Portugal e seu povo para nós. Demócrito viveu em 450 a. C. Demócrito foi o pensador que determinou que tudo que havia no mundo devia ser constituído de partículas últimas e indivisíveis, os átomos (que, hoje, conhecemos de outra maneira, mas a conclusão de sua lavra de que as coisas são feitas de partículas ínfimas que não se pode dividir estava mais ou menos correta). Demócrito dizia também que no espaço deviam abundar outros mundos, uns habitados, outros tantos não. Que tudo que havia era material: ou átomos e vácuo e que nossa inteligência e capacidade de sentir derivava de complexas interações materiais, mas nunca da inspiração divina ou de alguma alma embotada em nós. Que somos frutos da evolução e que em tempos passados, neste mundo, devem ter vivido tantas e tantas outras espécies animais, que em virtude de sua falta de capacidades, acabaram extintas - uma notável antecipação da Seleção Natural de Darwin. Demócrito antecipara, também, a Teoria dos Limites, donde brota o Cálculo Diferencial e Integral, da qual depende toda a engenharia moderna, e por natural extensão, toda a nossa moderna tecnologia. O cálculo integral só seria descoberto mais de 1000 anos depois, no tempo de Newton e Leibniz. Fora até Atenas para apresentar-se à Sócrates, mas, tímido, sentira-se indigno de tamanho favor. Fora amigo de Hipócrates, aquele do juramento prestado por todo médico. Demócrito considerava as religiões de seu tempo más e obtusas, renegava superstição na vida cotidiana e, de resto, vindo de uma terra de anedotas, defendia que a vida era matéria para se usar em busca da alegria, felicidade e satisfação. Com efeito, Demócrito dizia que o riso torna o homem sábio, e seu legado de riso e satisfação influenciou o filósofo mais irreverente daqueles tempos de efervescência de ideias, Epicuro, donde nasce a ideia de epicurismo. E o festejado Platão queria todos os seus escritos queimados e esquecidos. E tanto fez por isso que conseguiu. Dos 73 livros que Demócrito escreveu, sobre os mais diversos aspectos da humanidade e da natureza, não sobrou nenhum. Tudo que se sabe sobre suas ideias são esparsos fragmentos, dos quais a maioria trata sobre a ética humana, que de resto, parece ter faltado ao Platão, artífice da destruição da obra de Demócrito.

Suas ideias, contudo, morreriam na mão de místicos e supersticiosos. Suas descobertas que levariam a matemática e engenharia a outro nível antes mesmo do nascimento de Cristo foram esquecidas. Não fossem e quem sabe hoje já não estaríamos nos estabelecendo nos mundos outros que, conforme Demócrito adivinhou, eram inabitados e infinitos a nosso redor. 

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Erastótenes

Erastóstenes foi um sábio grego, diretor da Biblioteca de Alexandria, que deduziu a circunferência da Terra. Lera num antigo papiro que, no dia 21 de julho - solstício - um pilar fincado na vertical na cidade de Siena, ao sul de Alexandria, não produzia sombra alguma. Erastóstenes, por seu turno, observou que à mesma hora e data, um pilar produzia sombra em Alexandria. Considerou que isso indicava que a Terra não poderia ser plana, que se o fosse, as sombras seriam iguais em tamanho e ângulo, não importanto o ponto em que fossem medidas. Se, por outro lado, a Terra tivesse qualquer outro formato, as sombras teriam tamanhos diferentes.

Sem preconceitos de ordem teológica e ideias pré-concebidas, Erastótenes intuiu que a Terra devia ser redonda. A associação provavelmente veio de se deparar com o formato circular no cosmos: Sol e Lua, por exemplo - e fora esta a ideia, a associação entre as formas, que passou pela mente de outro sábio, muito mais antigo que Erastótenes: Pitágoras. Ele supora a forma da Terra sendo esférica, sem, contudo, ter-se ocupado de calcular sua circunferência.

A ideia de Erastótenes, a partir da observação da diferença das sombras entre as duas cidades, foi, então, calcular a circunferência da Terra. Ou seja, quantos e quantos quilômetros perfazem uma volta na superfície do planeta. Para isso, ele precisava de dois números: o ângulo desenhado pela sombra da vareta à 21 de junho, meio-dia, em Alexandria e a distância de Alexandria a Siena. Contratou um homem que fizesse o percurso e contasse a distância. O valor da distância era de algo em torno de 800 quilômetros e o ângulo aferido foi de 7 graus.

Na imagem, considere as varetas de Alexandria e Siena com prolongamentos que se encontram no centro da Terra. A é o ângulo da sombra e o ângulo entre as duas varetas prolongadas: A = 7º. Considerando que a distância entre as duas cidades é de 800 km, Erastótenes concluiu que cada 7º da Terra valem 800 km. Os tais 7º são aproximadamente 1/50 dos 360º de uma circunferência. Ou seja, a circunferência da Terra devia ser igual a 50 vezes a distância de Alexandria a Siena. Então, 7º x 50 = 360º (aproximadamente). E, portanto, 800 km x 50 = 40.000 km!

Erastótenes errou por 72 km. O valor é 40.072 km na altura da linha do equador.

Entretanto, a humanidade preferiu o preconceito bíblico por séculos. Desmistificado apenas por Colombo, que também por intuição, precisou cruzar um oceano para mostrar que a Terra não era plana, que não era sustentada no lombo de algum Deus. E que o curioso e abnegado esforço de Erastótenes, fruto apenas do intelecto e imaginação, estava correto.

Não fossem as religiões e os preconceitos científicos e hoje, talvez, já teríamos colonizado as estrelas.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Aforismos - Rumo

"Ou eu encontro o caminho, ou o faço".

Philip Sidney, poeta inglês.

Rádio: Radiohead - Reckoner

Junto com "Bones" e "No Surprises", a minha preferida dos cabeças de rádio lá da Inglaterra:

Nunca fui bom com títulos

Embora tenha cultivado desde cedo o gosto pela palavra escrita, e tenha até certo ponto me esmerado em escrever, admito, que meu maior defeito é por nome naquilo que escrevo. É o que explica, por exemplo, os nomes ridículos que dei para boa parte dos meus poemas, listados aqui. Ou do conto que por ora escrevo, que batizei de "O Cofre". Nada transcendental.

Se o mérito da pena se revela nos títulos que escreve, então, resta-me conformar-me com a sina de escritor de meia pataca.

De qualquer forma, estou para condensar e imprimir meu segundo livro. Sim, condensar. Meus versos são gotículas que pairam na minha cabeça, há que resfriar o vapor das minhas sinapses para fazer delas versos condensados nas paredes da minha mente - a associação é ridícula, bem o sei, mas é por aí. Nesta toada, chego aos 50 anos com mais de 10 livros condensados, quiçá impressos, e quem sabe um deles preste pra alguma coisa (e faltará tão somente escrever uma árvore e plantar um filho). Enfim, meu segundo livro, o primeiro foi uma reportagem (que batizei com um verso do Fernando Pessoa), será um compêndio das menos lamentáveis poesias que cometi nesta vida. O que me lembra uma frase do Alexandre Dumas, em "Os Três Mosqueteiros". Relatava ele os cantos dos protestantes ingleses naquele tempo de huguenotes, e depois ressalvava que "os versos estão longe de ser excelentes, mas como se sabe, os huguenotes nunca se presumiram de poetas". O que é uma ironia tão sútil que merecia um tratado só sobre ela. Eu que não sou nem inglês, nem huguenote, me presumo poeta e saio por aí condensando meus disparates rimados.

Para título da coletânea, oscilo ainda entre "Mecânica Universal Aplicada", "Poesias do Geometra" ou "Conjunto de Mandelbrot". Todos nomes de poderosas associações com o conteúdo de um ou outro poema que, altaneiro, guardo comigo, crente de que um dia lerão e encontrarão qualquer um desses significados perdidos nas minhas rimas.