A dar-se fé em tamanha comoção, contrairam-se hoje as maiores bodas da história da humanidade. Uniram-se em laços matrimoniais, que hoje se desatoam-se com a maior facilidade das idiossincracias humanas, um dos herdeiros do trono inglês, não direto, é o segundo em linha de sucessão, e uma plebeia, pelas contas inglesas, e que se comparada a boa parte das mulheres do mundo estaria mais para aspirante a potentado, não sabemos o feminino desse adjetivo, que uma réles campônia. Casaram-se, enfim, Kate e William. Leitura labial dá conta de quem William confidenciou - e indiscretas foram essas câmeras - "você está linda". Ora. Muito mais notícia seria se dissesse "Mas e esse Arsenal, hein?".
Pensando a respeito difícilmente consigo encontrar mérito para tanto espaço dedicado na mídia para o evento que, se houver proporcionalidade entre comoção e efeitos, deve mudar os horizontes e perspectivas da civilização. Deve levar toda a humanidade, com o Reino Unido embandeirado pelo Union Jack na vanguarda do processo, a um novo patamar de esclarecimento, onde reis, monarquias e nobres dividem o escopo do gênero humano com outra metade, onde estão todos os outros, meros mortais de sangue vermelho, e pechas que transitam do plebeu ao burguês, todos compulsoriamente obrigados a curvar-se perante reis e os ditos "nobres". Isso sim é progresso.
De resto, meio simbólico, é lembrar da figura de Carlos I, o último rei absolutista do Reino Unido. Reinou de 1625 até a morte em 1640. Foi o sujeito que inaugurou a tradição muito europeia de decapitar seus monarcas quando as estripulias destes transcendiam as alargadas veredas do tolerável de um povo que acostumou-se a ver deus em tudo e a supor que reis eram escolhidos por deus e, portanto, contestar sua autoridade, vontade, poder, favor e tudo o mais implicava, diretamente, em sacrilégio. Fácil de entender porque resta, ainda, um estado absolutista no mundo e que situa-se embrenhado na Europa: o Vaticano.
Carlos I foi o monarca que instigou uma guerra civil porque foi estabanado demais para lidar com o poder. Não tinha aquilo que a democracia moderna que, curiosamente, nasceria no seu cadafalso, instituiu no poder: tato. Era, neste sentido, o extremo oposto de seu antecessor, Jaime I, que incapaz de governar - ou não disposto a tal - imbuiu o poder em seu favorito, Duque de Buckingham, que acabaria morto a facadas por um marinheiro protestante, fanático religioso que censurava os hábitos e a vida desregrada de Buckingham (cadê a Record para dizer que isso foi culpa de GTA?) - que de resto era acusado de cobrar tremendos impostos. Jaime teve tato, porque Buckingham era competente em mater o poder e o estado no bojo do tesouro real, na mesma medida em que Richelieu fazia na França daqueles tempos. Com Carlos foi diferente. O homem queria beber todo o poder de uma vez só. Em resumo, aborreceu à farta o Parlamento, que por seu turno, aborreceu-se com o rei. Apareceu um líder entre as bancadas, Oliver Cromwell, que sedimentou a insatisfação de seus pares e uma revolução, onde de um lado estavam os aristocratas fiéis ao regime absolutista de Carlos e, de outro, os burgueses, fabricantes de cervejas, mercadores, banqueiros, artesãos, capitaneados por Cromwell. Carlos perdeu a guerra e acabou decapitado.
Cromwell tornaria-se interventor da Inglaterra por cinco anos. Deu-se a si o título de Lorde Protetor e instaurou um tipo de república puritana na Inglaterra. Um tipo de rei. Com a sua morte, a monarquia, subjulgada pela vontade do Parlamento, como é até hoje, retornaria. Há um livro que narra boa parte desses sucessos com uma ótica mais irreverente e pelo lado a que todos somos tentados a torcer contra: o de Carlos I. É "Vinte Anos Depois", de Alexandre Dumas père, onde Os Três Mosqueteiros, quase salvam Carlos da decapitação.
Antes de toda essa digreção eu dizia que era curioso lembrar a figura de Carlos I. A quem se disse a famosa frase "salve a majestade caída". Carlos, nem de longe, foi o último ser humano a ser decapitado em praça pública na Inglaterra. Hoje, quase 400 anos depois, um descendente seu leva muito mais gente a dar testemunho de sua caminhada rumo à forca. Há muito tempo que naquelas ilhas não havia tanta comoção para se dar testemunho - mórbido - em praça pública de um sujeito caminhando solenemente, engalonado e lustrado, para a forca. Para apoiar a ousada afirmação, resgato ainda Alexandre Dumas, que era frasista de grande calibre, e um dia disse que "a cadeia do casamento é algo tão pesado que é preciso dois para carregá-la - às vezes três".
De resto, não consegui responder o por quê do interesse. Talvez porque seja moderno ser plebeu e prestar reverências aos reis. Ou simplesmente porque somos uma civilização muito dada ao cultivo de personalidades, ao consumo de bobagens e, especialmente, à pura falta de espírito crítico que nos faça ver que, enfim, casamentos acontecem todos os dias. E William e Kate não são diferentes de ninguém.
O interesse inglês nas bodas é compreensível. O inglês encherga tudo isso de um outro ponto de vista, trata-se de um povo extremamente fiel às suas tradições e a família real, lá para eles, é um ícone enorme. Mas o resto do mundo, honestamente, se as coisas fizessem algum sentido, estaria cagando e andando para o casamento real.
Eu sou tão princípe da Inglaterra como William. Eu só não tenho tanta gente que acredite nisso.


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