segunda-feira, 11 de abril de 2011

Instantes de estantes

Eu já não carrego em mim, como noutro tempo, tanta saudade assim pelo passado, pelo bom tempo que passou. Mas conservo, ainda, algumas quimeras, alguns frangalhos de sonhos, uns restos de desejos, um pouco de tudo o que me era caro e pereceu conforme o tempo passou. Eu sou fisicamente incapaz de largar mão da nostalgia.

Hoje o que eu mais sinto falta é de ter uma estante de instantes. Livros são momentos encadernados, assim como retratos são recortes instantâneos de uma realidade e de muitas verdades. Admirar o mosaico multicolorido, por vezes ainda lustroso, por vezes envelhecido e gasto de todas as brochuras que acumulei na vida me faz falta. E não são poucas as brochuras, nem poucos os momentos que tenho aprisionados em todos aqueles livros, que transitam de filosofia à poesia, passando por literatura, história, jornalismo. Encarar livros, sabendo que nunca os lerá, por falta de tempo, falta de afinidade ou paciência, é um passatempo que coloca o homem em face às verdadeiras limitações do intelecto, do espírito, dos limites últimos da vontade em contraste com a extensão do próprio tempo e do fato inescapável de que quase nunca fazemos da vida aquilo que queremos. É, conforme disse Saramago, um grande campeão de momentos encarcerados nas brochuras da estante que eu não tenho mais, a maior tragédia nossa, essa coisa de não sabermos o que fazer com a vida.

E nem com livros acumulados.

1 comentários:

Anônimo disse...

Em algum momento destes dias, escrevi mais algumas frases num livrinho que estava lá no canto. O qual a nostalgia e uns goles de cerveja insistiram para eu abrir.