domingo, 1 de abril de 2012

Se somos feitos de poeira
se de uma estrela que espocou em possibilidades
nasceram todas essas saudades
Eu queria poder registrar
E gritar
para você ouvir
e sentir eternamente
que eu e você
somos apenas
criaturas a esmo
e uma forma
de um universo, indiferente
amar a si mesmo

A ti mesmo

"Na vastidão, do espaço e na imensidão do tempo, é uma alegria eu poder partilhar um planeta e uma época com você, Annie". Esta frase não brotou de algum poeta apaixonado, ou do cancioneiro de gosto duvidoso. É uma breve dedicatória que consta num livro de ciência, redigido por um astrofísico, e que se debruça ao honesto exercício de especular e traduzir o universo de descobertas científicas ao homem comum. Gente como eu e você, curiosa a não mais poder sobre origens, destinos, possibilidades, desencontros e encontros de um lugar que chamamos de universo.

A bela dedicatória é um tapa na cara de quem vincula ciência com objetividade e falta de humanidade. Pelo contrário. Na constelação de luminares que chamamos de ciência, talvez, não por acaso, a que mais condense subjetividade seja a astronomia. Há quem diga que a astronomia é uma experiência constante de humildade e de construção de caráter - não há palco mais substancial que ela para colocar no lugar as vaidades, temores e crenças antropocêntricas do homem.

E há mais poesia na singela homenagem de um cientista que conheceu o amor balizado por limites de espaço e tempo, do que 90% dos mau traçados versos impressos hoje em dia. Há mais sentimento em concluir de que somos uma manifestação do universo e, portanto, uma forma dele conhecer a si mesmo, do que boa parte das músicas que empolgam a gente ligada na "cena". Não que eu vá julgar gostos pessoais.

Preciso sempre render tributos ao pouco que sei, ou julgo que sei, de ciência e à figura de Carl Sagan, que me levou a pensar que nós, feitos de poeira de estrelas, como ele gostava de dizer, somos também uma forma do universo amar a si próprio.

sábado, 31 de março de 2012

Aforismos - Invisível

Eu descobri que tenho um super poder. Descobri que sou invisível. Às mulheres bonitas.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Frio

Vitória é sair do boxe, corpo quente e suado, depois de levar uma surra de criar bicho. Depois de espancar o estresse do dia no saco de areia, depois de pular corda loucamente. Vitória é sair deste mundo de virilidade e testosterona para a rua e receber vigorosas lufadas de vento curitibano, de 7 graus, desses tão densos, que chegam a pesar no lombo. Vitória é engolir, em vigorosos haustos, o frio curitibano e se sentir vivo, ainda que por conta do choque térmico.

Derrota é acordar no dia seguinte gripado, sentindo pena de você mesmo e dor em todas as fibras que definem o seu ser.

sábado, 24 de março de 2012

Pra baixo, idiota!

Eu sempre penso nesse filme. Eu sempre quero que Sean sobreviva à explosão. Que a Revolução triunfe, que não falte ouro para Juan. Que suas crianças cresçam à luz de um mundo melhor. Eu sempre vejo esse filme para encontrar qualquer coisa perdida, lá atrás. Para reviver cá, com meus botões e solidões, a improvável, e eterna, amizade entre um revolucionário irlandês e um bandoleiro indolente mexicano. Eu sempre revejo esse filme para buscar a sensação que tive ao vê-lo, maravilhado, pela primeira vez. Eu sempre revejo esse filme para ouvir Enio Morricone e me imaginar na pele do "firecracker", cruzando os desertos áridos sobre a moto, esquecendo dos meus remorsos, cismas, das minhas derrotas, dos tropeços do passado:

terça-feira, 20 de março de 2012

Pra não dizer que esqueci do blogue 2

Aliás, isso é só um atestado daquela observação certeira de José Saramago. "A maior tragédia nossa é essa coisa de não saber o que fazer com a vida". Eu não sei, em absoluto, o que fazer da minha, daí a não escrever mais como antes, daí a desistir de mais ou menos tudo que tentei, daí a desconfiar das veredas, não atinar com os rumos e viver nessa inércia assassina, que diz não todo dia, acena com talvez no futuro e grita o "sim, você pode" para tudo que já passou.

É a minha maior tragédia essa coisa de não saber o que fazer com o blogue e muito menos com a vida.

Só para dizer que não esqueci do blogue

O último post é de 1º de fevereiro. Vamos já às portas de 21 de março. Nada mais foi dito, pensado e ensaiado. Este blogue definha como o eu do passado.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Rádio: Mark Lanegan - Deep Black Vanishing Train

Mark Lanegan teve o bom senso de lançar um novo disco solo. E, depois de dois anos, voltará ao Brasil com um show em São Paulo, dia 14 de abril. Não tenho outro recurso a não ser ir.


Deep Black Vanishing Train by Mark Lanegan Band on Grooveshark

domingo, 22 de janeiro de 2012

Lógica

Então Deus encheu-se da razão, criou aí um tal de mundo plano apoiado no lombo de uma tartaruga. Não satisfeito, tomou nas mãos uma porção de terra da qual fez um sujeito, o primeiro deles, a quem se deu o nome de Adão. De uma das costelas de Adão, moldou o melhor que pôde uma mulher, também a primeira de todas, que se chamava Eva.

Adão e Eva gararam dois filhos. Os primeiros da história que, em dada altura desta história, deixam a companhia dos pais e firmam residência em vilas separadas. Onde encontram esposas.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Desmotivacional do amor

Nunca subjugue seus impulsos amorosos. Viver com o fardo do arrependimento de uma aventura é ainda mais saboroso que resistir ao peso dos anos amargados pelo remorso da ação não tomada, da palavra não dita, do email não enviado.

Nunca cale o amor no fundo de si. Faça com que frutifique, ainda que em lágrimas suas. O amor é o que nos move, resgata o que há de bom em nós, dignifica nossas existências, torna o humano ainda mais humano. O amor, as lágrimas do amor, sublimam o que há de mais belo no homem. Não se acanhe de chorar por amor de alguém.

Mas se possível, tome providências para que as lágrimas sejam delas, aquelas vadias.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Se e somente se

Anotem aí: quando, e se, eu morrer, gostaria de ser sepultado com a companhia de um osso de elefante, ou qualquer animal realmente grande. Talvez mesmo uma baleia. Minha intenção é confundir toda uma futura geração de arqueólogos.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Bowerick Wowbagger

Wowbagger, o Infinitamente Prolongado, é um alienígena que, por conta de um acidente em uma experiência científica que envolvia dois elastiquinhos de borracha e um acelerador de partículas, acabou condenado ao dom da imortalidade. Aborrecendo-se enormemente com o tédio de uma existência sem fim plausível, ele resolveu dedicar sua existência a insultar todas as criaturas do universo em ordem alfabética.

O que é, sabidamente, um tremendo de um bom uso da imortalidade.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Clube da Luta é um filme bem menos bom do que você imagina

Eu nunca tinha assistido à Clube da Luta. Não por qualquer motivo outro que não fosse falta de tempo, de ocasião ou mesmo interesse. Mas remediei o lapso nesta madrugada e, enfim, vi o cultuado longa de David Fincher, lançado em 1999, estrondoso fracasso de bilheteria, mas um válido sucesso comercial na era do DVD em diante, quando acabou tornando-se um ítem cult para muita gente de minha geração.

De maneira alguma dá para dizer que Clube da Luta seja um filme ruim. Não é. Visualmente agressivo, é difícil encontrar uma composição fotográfica tão ácida ainda em filmes contemporâneos. Brad Pitt e Edward Norton constroem uma relação muito fluída em todo o filme e... é isso.

Não considero, como muitos, que Clube da Luta seja o filme de uma geração. Suas evocações filosóficas, tão cantadas em verso e prosa ao longo dos anos, são de conhecimento mineral. Pedregulhos com algum dissernimento a cada chutadela que levam pelas sarjetas são capazes de relacionar impulsos e niilismo em um mesmo axioma e presumir que grande parte do desastre a que se dá o nome de civilização está nas implicações do modo pela qual as sociedades se organizam.

Modo este que, no filme, se vê reduzido ao consumismo e o círculo de coisas ruins que o orbitam o modus operandi do ato de consumir, como a publicidade, o marketing, a economia, a falsidade da autoridade e a hipocrisia das ideias de posse, governo, de estabilishment. Não há, evidentemente, erro em criticar uma sociedade que se define a partir da data de lançamento do próximo iPhone ou de quais lojas abrirão pelas madrugadas prestando o inefável favor de conceder o mimo tecnológico, por módicos milhares de reais, aos madrugadores.

A questão não é a que se presta a crítica, a questão é o contorno e o discurso que, insisto, estavam bastante desgastados à época do filme. Críticas à sociedade do consumo conviveram em paralelo com o amadurecimento dessa sociedade de consumo a partir do momento que a primeiro pistão à vapor suspirou os estertores da Revolução Industrial. Neste sentido, Clube da Luta é um tremendo mais do mesmo que só encontra eco em mentes onde o repertório de indignação é muito vazio. Em cabeças assim, tem espaço vasto e fértil para se arraigar a ideia de símbolo que o filme acabou granjeando com o tempo.

Para tentar alcançar novidade, o filme exalta a ideia central do livro que lhe deu origem. Os tais clubes de luta que serviriam como válvula de escape e embriões para uma consciência libertária do mundo e do homem na sua relação com a sociedade. A ideia é saborosamente amadurecida no livro de Chuck Palahniuk, mas bem mal e porcamente tecida no filme. Em nenhum momento a relação entre causa e efeito do Clube da Luta dentro da realidade contra a qual o filme discursa fica evidente.

É sensível também a ausência na versão do cinema desta história da tensão sexual que existe entre o narrador sem nome e seu alter-ego. No livro, as duas personagens esgrimem em uma bem marcada dança de atração e fuga. O livro é exemplar (não por acaso Chuck Palahniuk jamais chegou perto de tamanho sucesso em um livro) e qualquer tentativa de transformá-lo em outra mídia teria, e terá sempre, dificuldades enormes.

Clube da Luta não é, portanto, nenhuma novidade em qualquer uma das suas matizes. Nem mesmo o arco final da história, que desfecha a narrativa num confronto final entre narrador e alter-ego revela qualquer ineditismo numa solução para lá de gasta na arte de contar histórias. A surpresa funciona, mas peca pela falta de ineditismo e soa como um tremendo e aborrecido "mais do mesmo".

Com isso tudo digo que Clube da Luta é um filme ruim? De maneira nenhuma. Mas é bem menos bom do que se presume que seja.

Ao meu gosto, se fosse para embandeirar um filme como relicário de minha geração, adotaria sem a menor sombra de dúvida outro título, da mesma época. O Grande Lebowski, dos irmãos Cohen. Não menciono V de Vingança, de 2005, que soa no mesmo diapasão de Clube da Luta por pura honestidade em torno do conceito de geração.

domingo, 25 de dezembro de 2011

Natal

Eu admiro profundamente a obra de Sérgio Leone. Diversos posts neste blog referem-se a estima que tenho pelos seus filmes magistrais.

Gosto muito de "Quando Explode a Vingança". Não chega a ser o mais celebrado filme do italiano. Mas eu gosto. Me apaixono pelo roteiro, que fala tão delicadamente de amizade, da improvável amizade que surge entre um bandoleiro mexicano e um revolucionário irlandês.

Adoro a presença de James Coburn no filme. A postura do personagem lembra demais meu pai. O filme em si é exatamente o tipo que prenderia meu pai por horas.

"Quando Explode a Vingança" pode não ser o clássico último do cinema, mas as cenas finais me fazem chorar, me leva a recuperar o luto adormecido, a saudade imorredoura que tenho de meu pai.

Hoje é natal. Acho que foi no primeiro natal em que meu pai faltou que a data perdeu o sentido. Escrevo isso correndo, sem me ater a detalhes, de lágrimas nos olhos, com a certeza de que o texto está ruim.

Está ruim, ainda que sincero, porque Sérgio Leone cutuca lá no fundo aquilo pouco que temos conosco e que define o que somos.

Ver os filmes de Sérgio Leone me faz, de alguma forma, mais humano.

Discordiano e desmotivacional

Segundo a astronomia, há um relevante lapso de tempo a se considerar quando observamos uma estrela. O que nos chega é a luz que elas emitiram há tantos e tantos anos. São fótons há muito expelidos que nos tocam em nossa retina. O lapso que vale para os astrônomos, vale também para os mais distraídos e sonhadores quando fazem um desejo para uma delas.

Em geral, elas estão a centenas de milhares de anos de distância. Então, é preciso considerar, que ao fazer um desejo a uma estrela ela já pode estar morta.

Assim como todos os seus sonhos.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Idade

Já foi dito que crescer na adolescência é torcer com fervor para que a vida adulta chegue. E que envelhecer é morrer de saudade da indolência da juventude.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Caminhando contra o vento

Caminhava pelas sombras com passos incertos e olhava, aturdido, para o que o cercava. Eram letras, palavras, parágrafos. Correndo entre os escolhos que vinham a si feitos de frases, armou-se de um ponto de exclamação ! Uniu na sua extremidade uma interrogação ? Fez uma conjunção dos sinais gráficos, tornou-os um gancho, e assim armado, defendeu-se das torrentes em forma de orações, verbos, substantivos e o que mais for.

Armado, ia colhendo as palavras que vinham a si, como que carregadas pelo sopro de um vento forte. Colocava-as nos bolsos conforme surgiam, elas não pesavam, não tinham dimensão, mas eram. Ainda assim, as palavras logo lotaram suas burras. Transbordaram por todos os lados e sem o menor esforço.

Passou a derrubá-las pelo caminho, deixou-as caídas ao chão e não se importou. Colhia novas palavras a cada novo passo, a cada novo sopro do vento. Começou a colocá-las na mochila que, só agora, dava-se por si de acompanhá-lo. Encheu todos os compartimentos de verbetes. Quando deu por si, carregava nas costas três volumes de Guerra e Paz, um livro de poesias e um pequeno jornal.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Revisitando o Guia

O Guia do Mochileiro das Galáxias é o alfarrábio que encerra todo o conhecimento disponível no cosmos. Isso significa que há nele tudo que passou, se passa e ainda se passará no universo.

Há no Guia um tópico dedicado ao porre alcoólico. Cito:

"Vá fundo. E boa sorte".

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Princípios

Princípios estão aí para serem derrubados. Não pensei sempre assim. Acreditei, lá atrás, que amarrar crenças a conceitos e valores absolutamente incontroláveis era necessário para encaminhar as duras, desgastantes e aborrecidas escaladas da vida rumo ao amadurecimento.

Hoje, na verdade, muito dado à bobagem, já admiti que princípios são mutáveis. Chega uma altura na vida em que tudo que o cerca lhe questiona sobre suas crenças e valores. Este momento, que pode suceder da adolescência à terceira idade, divide as criaturas em dois tipos: os que entendem que seus princípios estão sendo questionados e, como resposta se abraçam perdidamente a eles, e outros, mais raros, nos quais timbro muito em me incluir, que em situações deste gênero entendem que a vida, os amigos, as circunstâncias não estão questionando os princípios em si, estão questionando se eles realmente são seus.

Foi assim que relativizei muita coisa na vida. A lista é longa, vai de política aos porres, passa por religiões e figuras que me foram insuportáveis, e passa também pelo amor e a capacidade de trair.

Ah sim, esqueci de dizer que a catarse, porque foi uma, estragou inapelavelmente meu interesse por literatura e desmontou violentamente meu futuro promissor enquanto muito bem estabelecido engenheiro naval/mecânico. E a gente aprende a se abraçar naquilo que sobra.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

A criação

É sabido, diversas culturas possuem diversos mitos da criação. O dos católicos, por exemplo, nos diz que um ser cósmico aborreceu-se e criou, de uma tacada, um universo, tendo o descuído de colocar nele antes as plantas e depois a luz. Não se sabe de que maneira sobreviveram as primeiras levas vegetais sem luz para a fotossíntese, mas isso é lá com os teólogos.

O Monstro de Espaguete Voador, divindade a que professo toda a minha fé, criou o mundo a partir de um anão, uma montanha e uma árvore. Os sectários de Shiva defendem que ela engendrou o mundo depois de uma relaxão sexual com outra divindade.

Mas campeões mesmo na alegoria são os pigmeus. À eles a criação se resume a uma corda que desceu dos céus. Por ela, foram descendo os pigmeus. E assim se criou a vida.

Muito perspicazes.