Há poucos dias, resolvi eleger uma música para despedir 2012. Agora, nada mais justo, escolher uma para saudar 2013. Ennio Morricone, com Titoli:
segunda-feira, 31 de dezembro de 2012
Para começar
às 19:55 0 comentários Marcadores: Memórias, Rádio blogue
quinta-feira, 27 de dezembro de 2012
Fim de conversa
A Terra girou (gira, gira il mondo gira, nella spazio senza fine) por mais trezentos e sessenta e tantos dias e, a dar-se fé na incapacidade humana de marcar datas para apocalipses, nada diz-nos que o planetinha, no fim, não conseguirá terminar mais um abraço em torno do Sol.
A Terra girou mais um ano e me parece bem inútil falar sobre o assunto. Não há nada que possamos fazer para desencorajar o astro de sua elíptica teimosia, de sorte que ela girou, gira e girará milênios à fio.
E o que não encontra remédios já está devidamente resolvido. Por isso, já que 2013 vem aí e nada podemos com isso, só nos resta dar adeus a 2012. Não farei balanços e nem promessas, não medirei meses e dias, só direi a 2012 meu adeus com uma canção:
às 10:42 0 comentários Marcadores: Memórias, Rádio blogue
quarta-feira, 26 de dezembro de 2012
Ahoy, herr Kaleun!
Eu confesso que gostaria de ganhar uma fortuna na loteria só para poder me internar e jogar, sem parar, por uns seis meses, Silent Hunter.
às 12:21 0 comentários Marcadores: Games, Memórias
terça-feira, 25 de dezembro de 2012
Linux ainda é Linux
Eu, quem diria, estou usando Linux. No caso, o Mint 14 Cinnamon. Algumas coisas são legais no sistema, mas preciso dizer que, sinceramente, cinco horas e meia para instalar um driver de vídeo com toda a sorte de linhas de comando, realmente, acabam com qualquer aspiração do pinguim. No Windows 7, e até naquela joça do Windows 8, tudo o que você precisa fazer é dar dois cliques.
às 14:48 0 comentários Marcadores: Atualidades
terça-feira, 18 de dezembro de 2012
Rádio: Astor Piazzolla - Invierno Porteño
Dizem, e se não dizem, não seja por isso, ao menos eu sempre disse comigo mesmo, que a descoberta do amor, depois que se acabam as ilusões e se desdizem as juras, é perigosa, falsa e, via de regra, dá em besteira.
Mas eis que de repente estava eu escrevendo qualquer coisa, quando me assalta a lembrança de um nome: Piazzolla. Ao que consta, seria algo que um diretor sugeriu como referência a um músico para a criação de uma trilha sonora de um filme. Fiquei com o nome na cabeça porque o tom da sugestão tinha elegido os talentos do tal Piazzolla às mais excelsas alturas.
E fui pesquisar quem seria, enfim, o Piazzolla. E aí descobre-se: argentino, Astor Piazzolla radicou-se em Nova Iorque e por lá criou um híbrido de jazz e tango, que marcou a segunda metade do contamos como século XX. Pode ter marcado a ferro e brasa o lombo curtido dos músicos da nobre arte do jazz, mas digo que não fora o suficiente para que eu, antes desses nem sempre tão bem vividos 28 anos de sangue, de sonho e de América do Sul, viesse a dar por sua existência. Ao fundir tango com jazz, Piazzolla criou todo um novo ritmo, o tango nuevo. Que seria violentamente esculhambado por Adorno, se ainda vivesse, ele que odiava com todas as forças o jazz. Todas as forças e retóricas, mas que no fim das contas, errado estava ele, que jazz é música de melhor qualidade, o problema sempre tem sido encontrar o timbre no manancial inesgotável de tons e formas pelas quais o jazz se manifesta.
Eu, por exemplo, não vejo a menor graça em Miles Davis. Mas gosto bastante de Herbie Hancock, coisa que os entendidos execrariam como fariam os sommelies que admirassem, pasmos, o sujeito que, desavisado, engole o melhor dos borgonhas numa única e virulenta tragada.
Piazzolla, muito mais que Hancock, é meu número em se tratando de jazz. E de tango. Estimo muito que, do alto de todo esse castelo de cinismo no qual me embastilho, desafiando filosofias, paixões e realidades, tenha eu, bem depois de velho, me encontrado com o amor na forma de música.
às 19:16 0 comentários Marcadores: Cultura, Rádio blogue
sábado, 8 de dezembro de 2012
Viagem no tempo
Se construirmos um telescópio suficientemente poderoso, aqui, na Terra, e um enorme espelho perfeito, posicionado a 22 anos-luz daqui, poderemos, no ano que vem, assistir ao vivo à chegada do homem na Lua.
às 07:47 0 comentários Marcadores: Cosmo por ele mesmo
sexta-feira, 7 de dezembro de 2012
Exercitando o desapego e paciência
Há duas semanas, quebrei o óculos que, velho, já estava mesmo requisitando a aposentadoria. Fui ao oftalmologista para descobrir que o grau aumentou. Encomendei novo óculos, dessa vez investi pesado, comprei uma armação de boa qualidade, toda em alumínio. Se por um lado não poupei na armação, gastei os tubos no par de lentes. Transitions, daquelas que escurecem sob a luz do sol. Dizem que faz bem para os olhos, ainda mais os meus, que são claros. Bloqueia as radiações ultravioletas e é cômodo para andar debaixo do sol.
Hoje fez 12 dias do novo óculos, que eu acabei de quebrar.
às 22:01 0 comentários Marcadores: Memórias
quarta-feira, 5 de dezembro de 2012
Vai dar tudo errado
Agora me resta ir a São Paulo. Minha primeira final de campeonato no estádio. Tudo muito bonito, tudo muito corrido. Só falta o São Paulo perder e, como em 100% das grandes ocasiões da minha vida, foder inapelavelmente com tudo.
às 15:21 0 comentários Marcadores: Memórias
quinta-feira, 29 de novembro de 2012
Não há mais Joelmir Betting
Entristeceu-me perder os escritos religiosamente publicados de Lessa nas segundas, quartas e sextas via BBC Brasil.
E hoje foi o dia de lamentar-se pelo falecimento de Joelmir Betting. Jornalista maiúsculo, somado ao sóbrio Boechat, eram as razões fundamentais da minha preferência pelo telejornal da Band que, verdade seja dita, há muito que não assisto, dadas as horas roubadas pela vida de gente grande. Essa tão inútil, aliás, vida de gente grande.
Mas vou recordar com carinho de Joelmir Betting que, na TV, me parecia um sujeito dotado de serenidade, equilíbrio, algum senso de justiça e integridade, coleção de predicados tão rara de se verificar em jornalistas. Fará falta a habilidade de traduzir a economia para o cotidiano das pessoas normais, fará, também, enorme falta o jeito de radialista de tecer comentários e aforismos sobre as condições gerais desse nosso louco, doido e doído, tempo.
"No Brasil, fomos dopados pela cultura da abundância, irmã siamesa da cultura da ineficiência, da acomodação e da tolerância; responsável pelo nosso atávico desperdício de terra, de água, de mata, de energia, de sossego e de gente".
às 17:35 0 comentários Marcadores: Atualidades, Memórias
quarta-feira, 7 de novembro de 2012
Aforismos - Livros religiosos
O segredo de interpretação da Bíblia e, na verdade, de qualquer livro religioso, está em considerá-la como verdade literal nos trechos que te interessam, como fábula nos que te atrapalham e ignorar completamente os que te contradizem.
Isso explica, por exemplo, porque cristãos não saem apedrejando mulheres por usarem calças ou a não realização de fogueiras em praça pública para assar os hereges que não guardam o sábado.
às 16:18 0 comentários Marcadores: Aforismos
quarta-feira, 31 de outubro de 2012
Niilismo do fim
Eu não esboço a menor reação
meu peito calejado não sente
eu só penso
e me ressinto da vida
e me arrependo
e penso: quero que tudo seja diferente
mas nada é
me resguardo
e, cá comigo, fico cismando
que já não há esperança
é no fundo do peito
apago a última lembrança
e lamento mais este dia
escorro pela vida
me culpando pelo jeito
esse jeito meio decepcionado
tão meu
de olhar para dentro de mim mesmo
e me ver acabado.
segunda-feira, 29 de outubro de 2012
Gênio político
Lula caiu muito no meu conceito com o apertar de mãos com Maluf e pela desastrada maneira pela qual geriu egos, pessoas, recursos e fatos envolvidos na organização de Copa do Mundo e Olimpíadas que, por infelicidade dolorida, serão mesmo no Brasil. Com essa, sim, não há quem possa.
Mas há de se reconhecer o gênio político que se imbui no iletrado ex-metalúrgico, que bienalmente, convida à baila todos os idiotas da objetividade nababescamente remunerados pela mídia, reacionários de plantão, a gente que esconde a farda e os estranhos onanistas do tempo do verde oliva, do brasil-il-il, ameooudeixeo.
Armaram, eles, o julgamento do Mensalão, que verdade seja dita, devia, antes de tudo, ter se debruçado sobre a questão: "deveria, ou não, o PT pagar roylaties ao PSDB pela evidente usurpação de seu legado político?" - fosse eu FHC, arquiteto da edificação e destruição do tucanato empoado e plutocrata que desmontou o país, esse monumento do nada ao nada, estaria agora me debatendo em artículos, discursos e entrevistas expondo o que é, na mais pura definição do termo, pirataria.
Outra verdade acerca do tema, firmemente impressa no juízo nacional, solenemente ignorado pela mesma mídia, é a de que, via de regra, o cidadão comum está cagando e andando para o mensalão. Prova disso foi a coça de urna que deu Lula em Alkmin no ano de 2006. A de 2010, quando fez de peã, rainha do tabuleiro político e a de agora, quando, esperamos nós, jogou a pá de cal em cima do cadáver, há muito moribundo, de José Serra, dito democrata social, dono de truculência e de delicadezas que só encontram paralelo na gentileza de um esquilo estuprado por um elefante.
Mas dizia eu que Lula é um gênio político do maior calibre. Marcou-se o carnaval do mensalão para o período pré-eleitoral - que curiosa coincidência o veredito sair justo na semana do segundo turno. Lula, antevendo o passo há meses, adiantou-se e escalou o PT com caras novas, completamente desapegadas de qualquer eventual nódoa, porque manchas ficaram, vinculadas com o mensalão.
Resultado: venceu 16 cidades com mais de 200 mil eleitores, que se somam à retumbante vitória do primeiro turno. E, agora, irá resolver como fará para segurar seu projeto, legado e plano político no poder em 2014, enquanto os idiotas da objetividades se agarram em tímidas vitórias regionais - quem deveria comemorar a eleição de ACM como prefeito de Salvador é o país todo, livre que fica de sua presença no legislativo, e não os solteropolitanos e nossos imaculados colunistas - se fia de tímidas análises, se agarra a preconceitos e lamenta-se por esse povinho tão estranho que, parece, desaprendeu a votar, desapegado que anda dos sociólogos, economistas, poliglotas e plutocratas que ela, a mídia, quer tão bem.
às 18:42 0 comentários Marcadores: Atualidades, Política
sábado, 27 de outubro de 2012
Meu ódio, quando explode a vingança, será a herança do Facínora
Eu acabei desenvolvendo uma afeição inexplicável por westerns depois de velho. Bem velho. Diversas coisas me arrebatam nessas produções que, verdade seja dita, já estão longe da ordem do dia quando o assunto é cinema que preste nos tempos que correm.
Uma das coisas mais interessantes sobre esses filmes são os nomes que acabaram recebendo no Brasil. Como o auge desse tipo de produção definhou nos anos 1970, as versões nacionais eram verdadeiras licenças poéticas, quando não simples e libérrimas traduções do inglês:
Exemplos:
"The Wild Bunch" - No Brasil, o excelente bang-bang de Sam Peckinpah - excelente mesmo, considero um dos melhores de todos os universos e tempos - ficou com o para lá de sangrento título de "Meu Ódio Será a Sua Herança". Nada a ver com o filme e, principalmente, com o título, que dá, numa tradução sem qualquer devaneio, "O Bando Rebelde". Muito menos extravagante, sem dúvida, que o escolhido no Brasil.
"The Good, The Bad and The Ugly" - Um dos retumbantes e esmagadores clássicos de Sérgio Leone, meu diretor preferido, é conhecido no mundo todo com esse nome, até mesmo aqui no Brasil: muita gente se refere ao filme, estrelado por Clint Eastwood, como "O Bom, O Mau e O Feio", o que seria, precisamente, a tradução do nome original em italiano e da versão norte-americana. Contudo, por motivos que me escapam totalmente, no Brasil, o filme foi batizado de "Três Homens em Conflito".
"Duck, You Sucker" - Talvez, talvez, seja meu filme preferido. E, como os demais, foi batizado de modo desastrado por algum compatriota. Aqui, no Brasil, o longa ficou com o exuberante título de "Quando Explode a Vingança". Nome pastelão que desconstrói o título original, uma frase feita que sempre sai da boca do personagem de James Coburn, alertando seu comparsa para se abaixar. Na tradução, "pra baixo, idiota".
"The Magnificent Seven" - Uma exceção. No caso do filme que moldou muito do imaginário masculino na metade final do século 20, o nome brasileiro até que não joga contra: "Sete Homens e Um Destino". Para quem não conhece, vale a recomendação: é a maior concentração de testosterona e macheza por frame já encontrada no cinema. No fim das contas, deu origem há décadas de propagandas para a Marlboro.
"True Gritt" - O filme tem duas versões, a original, dos anos 1960, com John Wayne, e a de 2010, com Jeff Bridges. Ambas usaram os mesmos nomes, tanto lá como cá. No Brasil, o filme ficou batizado como "Bravura Indômita", nome meio incomum para as versões nacionais atualmente, mas que casa perfeitamente com o perfil dos filmes de John Wayne. Nesse caso, simpático o gesto de manter o mesmo nome dos anos 1960.
"The Man Who Shot Liberty Valance" - Em resumo, esse longa dos anos 1950 coloca John Wayne na pele de um mocinho que vai lá e mata o tal Valance, que era um tremendo de um escroto e, de repente, merecia mesmo levar uns tirinhos. No Brasil devem ter achado que traduzir o título para algo sem criatividade, como "O Homem que Matou Liberty Valance", esvaziaria os cinemas inapelavelmente. Daí a terem resolvido florear um pouco o título para "O Homem que Matou o Facínora". Notem bem: O Facínora, não foi qualquer um desses facínoras meia-bomba do oeste, FOI O FACÍNORA.
às 03:32 0 comentários Marcadores: Cinema
segunda-feira, 22 de outubro de 2012
Aforismos - Ciência e religião
Rick Gervais é um comediante inglês. Ateu de quatro costados, lá não é feio ser ateu, disse ele, na última semana, via Twitter:
"Querida religião, nessa semana eu soltei com sucesso um homem da borda do espaço enquanto você deu um tiro na cabeça de uma criança que queria ir para a escola.
Sinceramente, Ciência".
Rick se referia a isso e isso.
às 15:38 0 comentários Marcadores: Aforismos
domingo, 7 de outubro de 2012
Porque "Império do Sol" é um filme inesquecível
Eu lembro de, deitado sobre a barriga de meu pai, assistir pela primeira vez à "Império do Sol". Lembro da sala, da luz amarela da lâmpada, lembro que era um sábado à noite, que o filme estava sendo exibido pela Globo e que o televisor que tínhamos era bem antigo, um Telefunken, marca da Alemanha Oriental que não existe mais. Televisor que seria mais ou menos surrupiado por um eletricista de má índole, ou fora abandonado nas mãos dele por falta de dinheiro na hora de pagar o conserto. Nunca logrei decifrar esse mistério de família. A quebra desse aparelho, aliás, fez com que eu e meu pai fossemos para o Paraguai em 1994, comprar uma tv de outra marca obscura, desta vez Eltec, que não fulgurara sob o julgo da foice ou do martelo e, talvez bem por isso, não se sabe nada sobre seu destino. Devia ser apenas uma estripulia asiática que emulava aparelhos de concorrentes de mais nome e apenas colocava no produto um nome qualquer que, nesse caso, calhou de ser Eltec.
Não era sobre o meu histórico com aparelhos televisores que queria escrever. Era, na verdade, sobre "Império do Sol". Esse filme marcou minha vida, é seguramente um dos registros mais antigos de cinema que eu tenho comigo, devo tê-lo assistido aos 6 ou 7 anos de idade. E guardei comigo profundas impressões de diversas cenas do filme, muito embora tenha demorado alguns anos para que pudesse, enfiar, altaneiro, dizer a todos que sim, entendia direitinho toda a história do longa de Spielberg.
No resumo, "Império do Sol" conta a vida de um garoto britânico que reside na China. Filho de aristocráticos ingleses, está acostumado à boa vida, a tudo ter, aos brinquedos caros e aos mimos que, ainda em 1939, soaram para este jovem Tertuliano como impressionantes.
O menino é Jamie, vivido por Christian Bale. Naquela época, o ator que hoje é muito conhecido por dar vida a Batman, já mostrava a veia para o drama, para a carga psicológica. O garoto vivia encantado, vejam vocês, pelos pilotos e aeronaves japonesas, frutos de um império, o japonês, que já naquela altura acenava com as intenções belicosas de conquistar para si todo o Pacífico. O objetivo causaria, como causou, enormes insatisfações a outro império, o britânico, do qual Jamie e seus pais faziam parte. A vibração da criança pelos aeronautas japoneses durante o filme é um toque sútil de ironia, e muito bem calculado: crianças não se preocupam com geopolítica, ao guri aprazia torcer pelos aviões japoneses porque os admirava. Não lhe passava pela cabeça que eventuais vitórias dos nipônicos poderiam significar até mesmo sua morte.
Com o passar do tempo, os japoneses lançam-se sobre a China, num episódio conhecido como guerra da Manchúria. Ao invadir a cidade, Jamie e sua família precisam fugir às pressas do ataque japonês e do risco de acabarem prisioneiros em um campo de concentração. Por diversos desencontros, os pais de Jamie fogem, ele não.
E é nesse momento que o filme, de fato, começa. Jamie, mimado e acostumado à boa vida, vê se num cenário de guerra onde é alvo, abandonado e sem perspectiva, precisa encarar a vida e a luta pela sobrevivência de frente. Com coragem e criatividade.
O diapasão do filme passa a se centrar nesse desenvolvimento. De certa maneira, "Império do Sol" é uma boa fábula para a perda da inocência. Jamie acaba deixando de ser criança quando precisa se virar para comer restos, quando precisa convencer pessoas a não o abandonarem. Quando acaba num campo de concentração e desenvolve um talento especial para esgueirar-se pelas difíceis e comprimidas instituições que florescem como podem dentro de uma sociedade confinada entre grades, arames, armas e inimigos.
"Império do Sol" é um belo filme de Spielberg. Há muita gente que torça o nariz por conta de suas produções, mas é preciso reconhecer onde o diretor acertou. O filme todo constroi uma sensação de absurdo tão sútil, que fica difícil ignorar.
Algumas cenas de "Império do Sol" me acompanharam por mais de 15 anos, até que dia desses eu revisse o filme: Jamie rastejando na sarjeta por uma aposta. A respiração boca a boca em um cadáver. A fuga do campo. A relação de amizade proibida e muda com um cadete da força aérea imperial. O interesse nas aeronaves e a cena do ataque ao campo no arco final da narrativa. Tudo isso, mestre Spielberg, imprimiu em algum recesso da minha mente. Conheço uma meia-dúzia de diretores melhores que Steven, mas, confesso, nenhum desses soube imprimir um filme no meu coração de menino.
às 22:01 0 comentários Marcadores: Cinema, Cultura, Memórias
domingo, 23 de setembro de 2012
Rádio: Belchior - Pequeno Mapa do Tempo
Eu tenho medo, medo, medo, medo...
às 19:39 0 comentários Marcadores: Rádio blogue
quarta-feira, 19 de setembro de 2012
Eu vou sentir falta da Banca Kika
Meu irmão aprendeu a cultivar um hábito que, confesso, nunca tive. O de ler os jornais da terrinha. Não os leio porque são ruins, em virtude das limitações práticas do jornalismo numa cidade de 60 mil almas, e não satisfazem qualquer curiosidade que eu, por ventura, venha a ter sobre a cidade que me viu crescer.
Mas venho revendo o costume. Deve estar me batendo nostalgia e saudades da indolência da infância.
E nessas idas e vindas descobri que a Banca Kica vai fechar. O lugar é um ícone da cidade, fica na principal via do comércio por lá e, ao contrário de diversos pontos que sofrerão mudanças nos últimos 20 anos, ela sempre esteve lá. Sólida, inexorável, a desafiar a passagem dos tempos, o povo inculto que não lê e a chegada de uma época onde o hábito de se comprar revistas e jornais já soa inócuo. Por meio do texto do jornal vim a saber que o estabelecimento desafia o tempo desde o ano de 1970. Minha mãe tinha 16 anos, meu pai sequer conhecia a cidade e eu provavelmente não passava de uma porção de átomos e moléculas dispersas por aí, apenas esperando o destino.
Tenho carinho por essa banca porque ia lá com meu pai aos domingos pela manhã. Era preciso chegar cedo para garantir as cópias do Estadão e da Folha, que ele gostava de ler no fim de semana. Meu pai era um homem sábio e aproveitava minha empolgação no passeio para abastecer meu sortimento de revistas em quadrinho, prática a qual, hoje, sei que devo meu gosto pela leitura. Dos jornais, meu pai comprava sobretudo a Folha, que durante boa parte dos anos 1990, trazia fascículos para a montagem de livros, guias e enciclopédias que me acompanharam durante todo o tempo que morei por lá.
A banca também tem profunda ligação com o meu consumo de leitura. Era lá que eu levava os poucos cobres de que dispunha para trocá-los por gibis, revistas de videogame, de história, de carros, de automobilismo. E de mulher pelada também.
O que, aliás, me recorda da doçura daqueles tempos de infância, de tantos hormônios, tão pouca coisa na cabeça. As artimanhas, a engenharia social, as técnicas, os subterfúgios, as intrigas para comprar exemplares de revistas pudicas, como Playboy, e de sacanagem, como, bem, aquelas. Pobres dos meninos desses nossos doidos tempos, que nunca hão de saber o doce sabor da masturbação inspirada pelas revistas compradas através de verdadeiras operações de quinta coluna.
A Banca Kica vai me deixar saudades, embora eu não more lá há tanto tempo e nem mesmo seja capaz de dizer quando foi a última vez que adquiri algo lá. Aí veio o tempo e acabou com tudo. O tempo é a medida da precariedade de qualquer coisa. E eu vou sentir falta da Banca Kika, mesmo não usando de seus serviços há anos. Era um tipo de porto seguro saber que, não importa o quão avacalhadas possam ficar as coisas, lá na terrinha, onde cresci, na Munhoz da Rocha, ao lado da rádio, estaria a Kica, com o Seu Benedito atrás do balcão, rechaçando modismos, atravessando os anos, enfrentando as gerações e vendendo pornografia adoidado para os taradinhos tímidos como eu.
Tudo morre, tudo definha, tudo se acaba e tudo encontra o ocaso nessa vida que é medida pelo passar do tempo. O tempo passa. Ele, aliás, não faz outra coisa.
às 21:03 0 comentários Marcadores: Memórias
terça-feira, 18 de setembro de 2012
Rádio: The Brian Jonestown Massacre - Straight Up and Down
A canção eu descobri na vinheta de abertura da série Boardwalk Empire. Das grandes produções da HBO, o seriado se passa na Atlantic City de 1920, bem no começo da proibição do alcool, conta o surgimento dos mafiosos e o fortalecimento das redes de abastecimento ilegal de bebida nos EUA.
Gosto muito da série e da canção. E me peguei revirando a internet atrás de informações sobre a banda que a toca, o que me fez descobrir que, agora, também sou fã de The Brian Jonestown Massacre. Um rock psicodélico mais contemporâneo, bom de ouvir, com variações, bom embalo na guitarra e melodias interessantes. De mais a mais, com um nome desses, The Brian Jonestown Massacre, os caras podiam tocar pagode, e mesmo assim acho que seria interessante:
às 01:23 0 comentários Marcadores: Rádio blogue
segunda-feira, 17 de setembro de 2012
Decadência
Decadência é se encontrar acordado às duas e muitos da madrugada tendo que levantar em três horas para um dia muito puxado de trabalho. Gravação, set, filmagem, demora, espera, atraso, complicações. Decadência é não encontrar sono, a despeito do cansaço. Decadência é jogar baixo, apelar para a última long neck da geladeira, virar a beberagem guela abaixo, na esperança que o alcool me coloque no caminho do sono e deposite meu corpo carcomido nos braços do tal Morfeu, que ele deve saber o que faz. Decadência é virar 600 ml de cerveja importada na esperança do sono que, covarde, foge correndo por essas linhas. Decadência vai ser a segunda-feira zumbi que eu vou levar, coisa de louco, vou te contar.
às 02:15 0 comentários Marcadores: Memórias
segunda-feira, 3 de setembro de 2012
Rádio: Roy Hamilton - You Can Have Her
Eu tropecei nessa canção jogando Mafia II. Curioso que, diante do fato de que o jogo se passa nos anos 1950, admiti de primeiro instante que se tratasse de mais alguma vibrante música de Elvis Presley - mesmo calculando aí o fato de que a história (você encontra, facilmente, exemplares melhores de games de degradação social por aí, se está afim de uma boa história), segundo lembro, acaba antes do Rei estourar.
E, ao menos no meu caso, qualquer coisa que lembre Elvis Presley presta. Me peguei diversas vezes percorrendo as estações de rádio de Empire Bay, a cidade fictícia do jogo, atrás de Roy e sua "You Can Have Her". Durante boa parte do tempo estava profundamente convencido de que se tratava de Elvis Presley.
Acontece que, não, nada disso, não é Elvis. Os primeiros versos sugerem fortemente a voz de veludo do Rei. Na verdade, trata-se de Roy Hamilton. Trata-se de um cantor negro de rythm n' blues daqueles doidos tempos, na iminência dos anos 1960, e fica fácil entender a razão do seu tímido sucesso, ao menos quando comparado com tanta gente que cantou mais ou menos o mesmo tipo de som com mais ou menos o mesmo tipo de talento na mesma época.
Roy era negro e, mesmo tendo o timbre do Rei do Rock dos anos 1960, nunca fez o mesmo sucesso. O mundo não estava pronto para Roy Hamilton, mas estava para Elvis que, branco, cantava como um negro e tinha repertório firmemente solidificado no convívio com os corais gospel da igreja, com o blues entristecido e com o country, mais alvo, é verdade, mas nem por isso menos autêntico.
Roy fora boxeador durante boa parte da vida e foi morrer no fim dos anos 1960, jovem ainda, vítima de um ataque cardíaco. Deixou filhos, e foi se imortalizar, ao menos nas minhas contas, na trilha sonora do bem mediano Mafia II.
às 15:21 0 comentários Marcadores: Games, Rádio blogue
