Dia de cão. Inexplicavelmente você esquece de programar o despertador. Vai dormir e perde o horário. Inexplicavelmente porque você o faz, religiosamente, todas as noites. É a primeira vez que perde a hora no trabalho. Acorda às 10:30, quando você já devia estar na redação, à meia hora. Corre. Toma banho, nem escova os dentes e torce pra que ninguém lhe dirija a palavra até chegar ao trabalho. Lá, no banheiro, escova, dane-se.
Na redação, a notícia: "cara, você viu o email?", "que email?", "então, você tá escalado pra cobrir a coletiva do Adriano no Corinthians". Quando? 12:30. Mas não ia ser às 17 horas? Não, cara, o mundo resolveu te foder inapelavelmente hoje, e a bagaça vai rolar às 12:30.
Para chegar no fim do mundo onde o Corinthians resolveu erguer seu CT, sem trânsito, você leva uns 40 minutos. Eu tinha isso. E nenhuma certeza sobre rumos desimpedidos até lá. Desci da redação, requisitei a viatura da firma. Demora, não tinha um puto de um motorista no prédio todo.
O motorista não tinha a menor ideia de onde era o CT. É no Parque Ecológico do Tietê, eu falei. Onde é isso? Porra, não sei, cara. GPS não localiza o lugar. Ligo a cobrar na redação e peço um endereço. Onde diabos é essa porra? Avenida Afif Ribeiro ou Guirá-acarantara. Hã? Como?
E não era nada disso. O raio do CT fica no quilômetro 17 da Rodovia Ayrton Senna. Soube depois e ao custo de muito suor, nervosismo e quase lágrimas.
Chego lá. O pessoal da guarita pede identificação, credencial de imprensa. Não tenho salário e, tecnicamente, não sou sequer funcionário da empresa onde trabalho, sou mais um voluntário remunerado, então não tem carteirinha e crachá nos conformes. São 12:30, horário da coletiva. Alguma insistência e, enfim, falam com a assessoria, liberado. Entro.
A coletiva começa assim que me sento nas nada confortáveis cadeirinhas da sala de imprensa. Perguntas, rasgação de seda. Adriano responde. Aí um cara repercute uma matéria do O Dia do Rio. Adriano sobe nas tamancas. Aí um torcedor dentro da sala de imprensa surta também. "Ô são-paulino!", "É, você mesmo, dando risada...". Barraco. O torcedor se emputece com o que considerou uma agressão. É só jornalismo.
Ele se dirigia à mim. Sou são-paulino. Mas pouco depois percebi que ele se emputecia com o repórter que perguntou sobre a matéria do O Dia, que irritou Adriano. Pensei: "era só o que me faltava, dia de merda".
Termina a coletiva, emendamos o caminho de volta para a redação para subir as duas toneladas de vazio e nulidades que Adriano se dignou a desfiar a um pequeno pelotão de jornalistas. Trabalho feito, hora de ir embora, tirar o time de campo. Aí você sobe no ponto de ônibus. Bingo, acabou o bilhete único e você está sem um puto no bolso.
Anda 20 minutos para encontrar um caixa-eletrônico. Saca no limite, embarca no ônibus lotado e vai embora ruminar o dia e lamentar-se por não ter tido tempo de ler uma página de Cosmos.
Dia de merda.

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