quinta-feira, 24 de março de 2011

Por um punhado de amigos

"Quando Explode a Vingança". Fistful of Dynamite, Duck, You Sucker. Todos nomes de um dos meus grandes filmes, preferidos da longa lista de filmes preferidos que venho construindo ao custo de horas, lágrimas, sorrisos, suspiros e muita imaginação.

"Quando Explode a Vingança" talvez seja o menos conhecido dos grandes e retumbantes clássicos de Sérgio Leone, mestre último de uma forma de cinema que vem sumindo. Na mesma medida talvez seja o mais fraco dos filmes em termos de trilha sonora, composta pelo inseparável Ennio Morricone. A trilha desta fita empalidece quando comparada a qualquer acorde das canções marciais que embalam a "Trilogia do Dólar". Mas mesmo assim, é Morricone, e mesmo assim é Sérgio Leone no que fazia de melhor.

Trailer de "Quando Explode a Vingança"


O filme é magistral porque não se preocupa com nada, conquanto se preocupe em mostrar tudo. A história gira em torno da improvável amizade de um renegado e cínico terrorista irlandês, vivido por James Coburn (um ator impecável, sua atuação poucos anos depois de Pat Garrett em "Pat Garrett & Billy the Kid", filme que apresenta Bob Dylan na pele de um monossilábico jagunço, é memorável) e de um bandido mexicano, que sem querer, acaba se tornando um dos grandes comandantes da revolução mexicana. O ladrão mexicano é vivido por Rod Steiger, ator B, outra marca de Leone: dar vez e aproveitar atores desconhecidos em papéis de destaque.

Uma coisa que sempre me impressiona nas peças rodadas pelo italiano é seu firme conceito de coisas abstratas, condensadas na tela, chegando a um peso, uma dimensão, um diâmetro incomensuravelmente enorme. A tal ponto que os filmes de Leone podem servir para ilustrar dicionários. São tão bem construídos que servem de sinônimos a conceitos como amizade, vingança, luta, derrota, amor, redenção. A amizade entre os dois personagens, de Coburn e Steiger, de "Quando Explode a Vingança" é tangível. A relutância no começo da relação incidental entre os dois, os reencontros e o final das duas figuras é algo crível. Leone era mestre em fazer de filmes absurdamente lentos, como "Era Uma Vez no Oeste", proporcionalmente marcantes, firmes, agudos. Fosse outro diretor, provavelmente, a história, até certo ponto comum e nada inovadora, de "Era Uma Vez no Oeste" teria se perdido, o filme teria sido ignorado - como de fato foi à época um espetacular desastre de crítica, só sendo reconhecido anos e anos depois - e seria só mais um grande desperdício de acetato.

"Quando Explode a Vingança" segue mais ou menos essa linha. É um filme ignoto, guardado na mente de gente como eu, não muito festejado, a trilha sonora não é imediatamente reconhecida como a de "Três Homens em Conflito", mas certamente, quem vê a peça e conhece um pouco de amizade, situações extremas, conflito, vida, sociedade e arte consegue guardá-lo em algum recesso mais profundo do coração.

Abaixo, no player, a trilha sonora do personagem de Charles Bronson em "Era Uma Vez no Oeste". A mistura genial, inusitada e inesquecível de gaita e guitarra em "The Man With The Harmonica". E, em seguida, o grande hit de Morricone, "The Good, The Bad and The Ugly":


Amizade. Talvez seja sobre isso que Sérgio Leone tenha falado em boa parte de seus filmes - se não mesmo em todos. A forma como os amigos acabam em "Quando Explode a Vingança", o reencontro dos dois grandes amigos em "Era Uma Vez na América", sendo um deles o traído e o outro o traidor, a dor excruciante do traidor que quer se ver morto, a do traído incapaz de sacramentar a vingança, a amizade entre bandidos rivais em "Era Uma Vez no Oeste". A amizade igualmente florescida de onde menos se espera em "Meu Nome é Ninguém" (cujo cartaz, devidademente avacalhado, é o banner deste blogue), onde Leone fora diretor assistente. Todos mostram facetas das nossas relações no mundo dito real, todas essas amizades são vividas em algum ponto por todos nós. E é simples reconhecer isso, embora seja incrívelmente difícil resumir tudo isso em formas de expressão como palavras e filmes.

Há alguns livros, algumas fotos, alguns poemas que são simples de se fazer. Mas a gente precisa de alguém os fazendo para perceber isso e encontrarmo-nos com a verdade última da arte. Os filmes de Leone são assim. É fácil falar de amizade na tela, construir um pano de fundo, uma história. Colocar Charles Bronson como galã. Abusar no plano longo pelo horizonte desolado e desértico do oeste norte-americano (ainda que as filmagens sejam na Sicília italiana, daí o termo western-spaghetti). Focar as expressões dos momentos capitais da trama denunciadas pelo close fechado diretamente no olhar, mais ainda, pelos olhos dos personagens. É tudo muito fácil, mas a gente precisava de Sérgio Leone pra perceber isso.

*Rapaz, eu devia este post há tempos para Leone, Morricone e Coburn.

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