"Quando Explode a Vingança" talvez seja o menos conhecido dos grandes e retumbantes clássicos de Sérgio Leone, mestre último de uma forma de cinema que vem sumindo. Na mesma medida talvez seja o mais fraco dos filmes em termos de trilha sonora, composta pelo inseparável Ennio Morricone. A trilha desta fita empalidece quando comparada a qualquer acorde das canções marciais que embalam a "Trilogia do Dólar". Mas mesmo assim, é Morricone, e mesmo assim é Sérgio Leone no que fazia de melhor.
Trailer de "Quando Explode a Vingança"
O filme é magistral porque não se preocupa com nada, conquanto se preocupe em mostrar tudo. A história gira em torno da improvável amizade de um renegado e cínico terrorista irlandês, vivido por James Coburn (um ator impecável, sua atuação poucos anos depois de Pat Garrett em "Pat Garrett & Billy the Kid", filme que apresenta Bob Dylan na pele de um monossilábico jagunço, é memorável) e de um bandido mexicano, que sem querer, acaba se tornando um dos grandes comandantes da revolução mexicana. O ladrão mexicano é vivido por Rod Steiger, ator B, outra marca de Leone: dar vez e aproveitar atores desconhecidos em papéis de destaque.
Uma coisa que sempre me impressiona nas peças rodadas pelo italiano é seu firme conceito de coisas abstratas, condensadas na tela, chegando a um peso, uma dimensão, um diâmetro incomensuravelmente enorme. A tal ponto que os filmes de Leone podem servir para ilustrar dicionários. São tão bem construídos que servem de sinônimos a conceitos como amizade, vingança, luta, derrota, amor, redenção. A amizade entre os dois personagens, de Coburn e Steiger, de "Quando Explode a Vingança" é tangível. A relutância no começo da relação incidental entre os dois, os reencontros e o final das duas figuras é algo crível. Leone era mestre em fazer de filmes absurdamente lentos, como "Era Uma Vez no Oeste", proporcionalmente marcantes, firmes, agudos. Fosse outro diretor, provavelmente, a história, até certo ponto comum e nada inovadora, de "Era Uma Vez no Oeste" teria se perdido, o filme teria sido ignorado - como de fato foi à época um espetacular desastre de crítica, só sendo reconhecido anos e anos depois - e seria só mais um grande desperdício de acetato.
"Quando Explode a Vingança" segue mais ou menos essa linha. É um filme ignoto, guardado na mente de gente como eu, não muito festejado, a trilha sonora não é imediatamente reconhecida como a de "Três Homens em Conflito", mas certamente, quem vê a peça e conhece um pouco de amizade, situações extremas, conflito, vida, sociedade e arte consegue guardá-lo em algum recesso mais profundo do coração.
Abaixo, no player, a trilha sonora do personagem de Charles Bronson em "Era Uma Vez no Oeste". A mistura genial, inusitada e inesquecível de gaita e guitarra em "The Man With The Harmonica". E, em seguida, o grande hit de Morricone, "The Good, The Bad and The Ugly":
Amizade. Talvez seja sobre isso que Sérgio Leone tenha falado em boa parte de seus filmes - se não mesmo em todos. A forma como os amigos acabam em "Quando Explode a Vingança", o reencontro dos dois grandes amigos em "Era Uma Vez na América", sendo um deles o traído e o outro o traidor, a dor excruciante do traidor que quer se ver morto, a do traído incapaz de sacramentar a vingança, a amizade entre bandidos rivais em "Era Uma Vez no Oeste". A amizade igualmente florescida de onde menos se espera em "Meu Nome é Ninguém" (cujo cartaz, devidademente avacalhado, é o banner deste blogue), onde Leone fora diretor assistente. Todos mostram facetas das nossas relações no mundo dito real, todas essas amizades são vividas em algum ponto por todos nós. E é simples reconhecer isso, embora seja incrívelmente difícil resumir tudo isso em formas de expressão como palavras e filmes.
Há alguns livros, algumas fotos, alguns poemas que são simples de se fazer. Mas a gente precisa de alguém os fazendo para perceber isso e encontrarmo-nos com a verdade última da arte. Os filmes de Leone são assim. É fácil falar de amizade na tela, construir um pano de fundo, uma história. Colocar Charles Bronson como galã. Abusar no plano longo pelo horizonte desolado e desértico do oeste norte-americano (ainda que as filmagens sejam na Sicília italiana, daí o termo western-spaghetti). Focar as expressões dos momentos capitais da trama denunciadas pelo close fechado diretamente no olhar, mais ainda, pelos olhos dos personagens. É tudo muito fácil, mas a gente precisava de Sérgio Leone pra perceber isso.
*Rapaz, eu devia este post há tempos para Leone, Morricone e Coburn.


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