segunda-feira, 21 de março de 2011

O dia em que a vaca quase foi pro brejo pra nunca mais voltar

O USS Beale, o navio que quase estourou a Terceira
Guerra Mundial

A Crise dos Mísseis nos anos 1960 foi um evento que colocarou o mundo muito próximo de um confronto bélico entre os dois blocos que disputavam o poder na Guerra Fria. Qualquer colegial sabe disso (arrã).

Só que até aí eram só tensões. Provocações. Os soviéticos queriam esparramar uns mísseis em Cuba, os norte-americanos não os queriam tão perto de seu território. Impasse diplomático em outras circunstâncias, mas que virou o bicho que virou porque Kruschev era muito cabeçudo (desconheço se ele era ruteno, mas sendo, isso explicaria muita coisa) e porque, ora bolas, era a Guerra Fria.

Um episódio, entretanto, esteve muito próximo de deflagrar uma escaramuça de proporções globais de fato. 

Um destróier norte-americano - no Brasil chamam essa configuração de casco de contra-torpedeiro, mas é um destróier - da classe Fletcher, o USS Beale identificou um submarino russo ao largo da ilha de Fidel. O submarino fazia o seu míster, e navegava submerso na esperança de se manter anônimo, em que consiste toda a ideia de um submersível. O Beale deve tê-lo ouvido pelo sonar.

Numa atitude bastante discutível em tempo de paz. Aliás, totalmente discutível, porque é um ataque, o Beale minou as águas com cargas de profundidade - dispositivos que afundam e são programados para explodir pela pressão da água - para provocar o submarino a emergir. Ainda assim, há controvérsias dizendo que era tudo um exercício e não um ataque pro-forma.

Um Foxtrot que virou museu
No submarino soviético, um exemplar da classe Foxtrot, o B-59, o capitão Valentin Savitsky, ao se ver atacado, concluiu o inevitável: estourara a guerra e sua embarcação estava sendo alvo. Quando manifestou sua intenção de revidar, lançando torpedos nucleares (que tem a curiosa propriedade de vaporizar tudo, alvo e lançador, se não forem corretamente disparados) na embarcação hostil, o segundo oficial no comando o convenceu a não fazê-lo.

Era necessário que os três oficiais mais graduados no submarino: o comandante Savitsky, o oficial ponderado e Ivan Maslennikov oficial político - bizarria do regime da URSS, que aboletava em tudo, de fábrica a escola, de time de futebol a força militar, um oficial partidário para monitorar o comportamento e respeito ao comunismo das pessoas comuns - concordassem com o disparo de um armamento nuclear. O segundo oficial o dissuadira a, pelo contrário, emergir e esperar ordens de Moscou. Savitsky subiu nas tamancas, rodou a baiana, discutiu, e considerando que não tinha autoridade suficiente sobre o oficial político, também parte importante no processo de tomada de decisões, acabou cedendo e desistindo do ataque.

O nome do sujeito que salvou o mundo é Vasily Arkhipov, que morreu em 1999. Outra curiosidade sobre o intrépido homem que segurou um torpedo nuclear na base da retórica é a de que ele fazia parte da tripulação do K-19, primeiro submarino de propulsão nuclear da URSS e que cujo primeiro cruzeiro foi um retumbante e clamoroso desastre (retratado no filme "K-19 The Widowmaker", com Liam Neeson e Harrison Ford numa das atuações mais vagabundas da carreira de Indiana Jones). A intervenção de Arkhipov, aliás, serviria de inspiração num outro filme, "Maré Vermelha", com Denzel Washington e Gene Hackman.

Enfim, o episódio, como boa parte das trincheiras secretas da Guerra Fria, ficou anônimo por 40 anos. Quem trouxe a anedota à tona (hum...) foi Robert McNamara, na conferência de 40 anos da crise realizada em Havana, em 13 de outubro de 2002.

No fim das contas, caros, no próximo gole de vodka que tomarem, dediquem um à memória de Vasily, marujos. Você está aqui hoje, provavelmente, graças a ele.

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