Eu tenho inveja declarada de Milan Kundera pela frase "a insustentável leveza do ser", por exemplo. E ele não está sozinho. Posso colocar na sua companhia o romance todo, e não apenas o título, de Ian McEwan - bem como o filme homônimo - "Desejo e Reparação".
Há uma profunda análise da vida, dos erros, dos tropeços, dos desenganos, da arte, tudo numa coisa só esperando a humanidade nas doloridas páginas da obra e nas duas horas do filme. Eu gostaria, muito, de ter tido a ideia e os meios para realizar o livro e vê-lo, dpeois, tão bem traduzido em imagem e som, como foi o caso do grande serviço que Joe Wright prestou ao dirigir a adaptação, que nem é tão adaptação assim.
Mas estou condenado a uma vida de não escritos e de invejas. Saramago gostava de dizer que todos nós somos escritores, a diferença está no fato de que uns escrevem, outros não. Faço parte da segunda metade da humanidade, embora, em tempos passados, tenha conservado a ilusão e ambição de passar para o outro grupo.
"Desejo e Reparação", o filme - que é mais fácil de achar que o livro - é um testemunho de quão bem podem caminhar duas linguagens diferentes, a literatura e o cinema. O filme reproduz com precisão o romance sem esquecer de ser, a sua maneira, outra produção, outra obra, outra coisa. Francamente, acho que só encontrei tamanha simetria entre audiovisual e original literário em Game of Thrones, que venho lendo paulatinamente há um tempo, na expectativa pela terceira temporada do seriado.
Espelhar um romance no cinema não é necessariamente ruim e não é, também, um impeditivo para que o filme alce seu próprio voo em direção à maestria, àquele ponto indistinguível onde os grandes filmes, os grandes livros e as grandes músicas se colocam. Prova do comprometimento com a qualidade na sua linguagem, o cinema, "Desejo e Reparação" tem uma trilha sonora indelével da alma e uma das cenas que, do ponto de vista técnico e estético, está entre as mais impressionantes que vi.
É o plano sequência de mais de cinco minutos, envolvendo mil figurantes, ação cronometrada de cada um deles, uma precisão marcante de movimentos, sons, vozes e ações. Foram necessários apenas cinco takes, cinco tentativas. Joe Wright optou por usar a terceira delas na montagem do filme. Plano sequência, se você não conhece o termo, refere-se a uma cena rodada sem cortes, um longo movimento de câmera, seguindo a ação.
Abaixo, a famosa cena do plano sequência:
http://www.youtube.com/watch?v=lJ--DSeIUZ0
O sujeito que publicou o vídeo não autorizou a incorporação do conteúdo, portanto abra o link você mesmo.
O operador da câmera fez boa parte do percurso com um pequeno carrinho, que roda sobre trilhos. Em certa altura, ele desce do carrinho e caminha para um coreto, sobe as escadas, contorna o coreto em direção a uma rampa de madeira, sobe, circula os soldados que cantam, desce do coreto sobre uma especie de carroça, move a câmera no eixo para encontrar o protagonista, conduz a ação até um píer, onde desce da carroça, sobe no píer, segue o elenco e, por fim, gira a câmera numa bela imagem, que encerra uma soberba realização de aprumo técnico e estético.
"Desejo e Reparação", o filme, prova para o cinéfilo enjoado que filme bom não precisa vir do Irã (pra falar a verdade, não acho que venha nenhum filme bom de lá). O livro me deixou com o amargo sabor na boca de quem desistiu de muita coisa na vida e, em especial os sonhos, para se abraçar longamente na fuga da arte, da imaginação e do remorso que, decantado pela passagem das décadas, curte a alma e, por mais que se esforce, não logra afogar o que de humano há no arrependimento.

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