Faz algum tempo que não me dou às filosofias, vir aqui escrever longamente sobre qualquer coisa. São vários os motivos. Primeiro, não acho que nada do que tenha a dizer vale à pena. Segundo, eu já fui bom de escrever, quando estava de veia, ia longe. Mas perdi o jeito. Parei de ler bastante, enferrujei. Hoje troco letras, antes eu compunha. Escrever relaxava, era divertido, e não descansava até que minhas construções soassem originais, bonitas, interessantes. Na verdade, talvez, eu só fosse pedante demais.
Terceiro, tudo muda. O tempo passa, ele não faz outra coisa, observação que criei no tempo em que escrevia, e a gente vira outra coisa. O Tertuliano de hoje mal se recorda do porquê escolheu Tertuliano como pseudônimo. Mal se lembra de coisas que considerou importantes antes. Chega ao ponto de referir-se a si mesmo na terceira pessoa.
Quarto, escrever, e sobretudo ir longe sobre a vida da gente no processo, nos obriga a olhar para quem somos, para o que viramos. Eu não gosto de olhar para o que virei, para quem sou. Falta-me muita coisa para a satisfação de ser, falta-me tempo para recuperar o que se perdeu e, pior de tudo, falta coragem, coragem que nunca tive, aliás, para virar a mesa. Eu sempre fui fraco e de viver na sombra.
E é por isso que eu resisto a mudar, é por isso que eu sucumbo a cada dia infrutífero, a cada desperdício de tempo, energia, vida, recursos, mente, alma e juízo em que a minha vida se transformou. Eu vou me afogando no fel diário do emprego que não me satisfaz, das contas, da falta de perspectivas, do erro histórico, do não poder voltar no tempo.
Não se engane pelo tom lamentado do texto, porque eu sempre fui meio tristinho. Sorte ou azar, a minha eterna passividade e fraqueza nunca me levaram a ser mais radical, nunca virei emo, por exemplo. Não cometi suicídio, o que dá para perceber. Eu sempre fui fraco para reagir, e sempre fui fraco para sucumbir. Sem sangue a correr quente pelas veias, virei refém da vida que não construí: virei refém da vida que me coube, que caiu nos meus pés porque, verdade seja dita, eu nunca corri atrás de algo melhor. A vida que me sequestrou sem que eu esboçasse reação, a vida que veio e matou os sonhos que eu tive, as chances que podia almejar, o futuro que dava para construir.
Vivo numa meia-vida indolente. Meu destino está escrito nas guampas afiadas de cada um dos dias que, como hoje, me acertam pelas costas, vergam minha alma, quebram meu espírito, torcem o pouco de bom que há, ainda, em mim. Eu tenho sangue de barata, barata sapiens sapiens, aquela que sabe que sabe que tem sangue de barata para a vida e, mesmo assim, é incapaz de torcer o boi, quebrar-lhe as guampas e montá-lo, tomando controle dessa maledeta vida.
Logo poderei submeter o requerimento para que, nos dicionários, meu nome conste como sinônimo para um complexo verbete, a ser criado, e que significará "jogou a própria vida no lixo".
Mais cedo, mais tarde, pouco importa, a vida vai me engolir. Daqui, vou esperar isso, vou continuar a, no escuro, regar as flores mortas do passado. A reboque, eu vou esperar sentado, cismando comigo mesmo, e remontando cada uma das chances que eu tive de corrigir o rumo e, mesmo assim, esperei, apalermado, tudo ruir na minha frente.

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