sexta-feira, 15 de maio de 2009

O amor é importante, porra - II

Hoje eu estava fazendo minha ronda diária nos meus blogues preferidos - a maioria está na coluna ao lado - até que veio a vez do Marcelo Rubens Paiva, autor reconhecido do "Feliz Ano Velho", e que é um especialista, como definiu Marcelo Tas e como eu classifico ali nos links, no assunto da "asfaltização do homem pelas mulheres". Toda vez que penso nisso imagino aquela patrola esmagando tudo pelo caminho. Medo, muito medo.

Mas o fato é que fui ler o blogue do Marcelo Paiva e está lá: "o amor é importante, porra". Eu já tinha dito antes, eu que sequer estou morando em São Paulo, já tinha atinado para o fenômeno das pichações e dos lambe-lambe espalhados pela cidade.

Grandes merda. Ele só escreveu agora, muito tempo depois, mas o fez de maneira magistral. Observações simples e bem interessantes sobre o amor e a sua relativa importância nas nossas vidas. Confere lá, vale à pena.

E mesmo assim acho que poderiam começar a grafitar por aí: "Independência afetiva é importante, porra!".

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Versos calados

Com versos eu desafogo o coração.
Nos poemas adormecidos vivo a imensidão.
De todos os sonhos do mundo,
de todos os sentimentos lá do fundo,
que soçobram diante da infelicidade,
e pulsam com toda a intensidade,
da vida e do futuro desgarrado,
que te abraça e leva-te do meu lado.
Me deixando só, com os versos,
e todo um caminho de passos incertos.

Mark Lanegan, alguém afim?

1° de julho, show do Mark Lanegan em São Paulo. Tenho um ingresso na minha mesa de que posso dispor.

E, viva, dia 4 de julho será a palestra do Gay Talese em Paraty, na Flip. E no dia seguinte tem Zuenir Ventura. Não vou precisar escolher.

O homem que falava com as flores

Ele podia falar com as flores
até que descobriu uma,
que falava com ele.

Essa era só mais uma história
mais um "era uma vez..."
mas ganhou vida
foi uma fábula cheia de cores
que viu vozes brotar nas flores
e o amor perecer nos homens.

Felicidade Interna Bruta

Imagine um reino distante, onde se mede o desenvolvimento da nação através do nível de felicidade que as pessoas, individualmente e coletivamente, conseguem. Parece lenda, conto de fadas, certo?

Mas não é. O lugar existe, fica nas cordilheiras do Himalaia, espremido entre montanhas e duas das nações mais populosas do globo, a Índia e o Paquistão. O nome desse lugar é Butão. Ão.

E foi curioso que eu visse essa notícia logo hoje, um dia tão chuvoso, tão frio, onde me dói miseravelmente um dos molares. Hoje em que me deparei com um senhor que tive que entrevistar, que em virtude dos maus modos que tem, não se deve buscar a menor intimidade com o tal. Hoje que ouvi Lanegan e pensei em tudo, e como sempre, fiquei no nada. Enfim, a verdade é que não havia dia mais propício para saber de alguma novidade no que tange aos assuntos da felicidade.

Definir felicidade é um desafio que muita dor de cabeça tem dado, ao longo da interminável sucessão de séculos, aos poetas, aos filósofos, aos profetas e aos bêbados. E até hoje ninguém alcançou uma definição do conceito amplo de felicidade. Em geral nossa era a compreende como um estado de espírito de abastança, onde nada nos aflige - e dá pra entender muito bem por que, afinal, ela, a felicidade, tem sido tão difícil de encontrar por aí, dando uma volta e sorrindo nos bares da vida - a não ser aquela que mora no fundo das garrafas, mais faceira, mas tão ordinária quanto a outra. A felicidade é uma senhorita muito cortejada e, se aprendi alguma coisa com as mulheres, é que quando mais se corteja uma, mais difícil esta tende a ser.

Embora os conceitos sejam difusos em relação a felicidade, há inúmeras possibilidades de sentir a tal. Há quem, como eu, seja feliz em sorrir para a pessoa amada, há quem encontre felicidade no trabalho, há quem seja feliz meditando. Há quem siga os ensinamentos do filósofo Odair José, que não é cachorro não e nos diz que, afinal, "felicidade não existe, o que existe são momentos felizes". Provavelmente ele está certo, ainda não se sabe de alguém que tenha podido encerrar a vida e, no limiar do primeiro passo para a eternidade, dito: "fui sempre feliz, não tive mágoas nem arrependimentos". Mas nada disso vem ao caso, porque enquanto nós outros estamos nos debatendo às voltas com as noções de felicidade, lá estão os butaneses medindo-a e colocando-a em prática, para a... felicidade da nação butanesa.

Nem alhos, nem bugalhos. Nem água, nem vinho. Nem tão pra lá, nem tão pra cá, e outras disparidades que tais, felicidade é, nos ditos de outro filósofo, Millôr Fernandes, "aquilo que você vai descobrir que era". O mal da felicidade é que é efêmera e só nos diz que se foi quando é já demasiado tarde.

O Butão está, perdão pela baixaria, cagando e andando para os mais diversos, e por vezes redundantes, conceitos de felicidade por aí encontráveis. Os butaneses resolveram também cagar e andar para a noção de Produto Interno Bruto, que orienta as nações dizendo, no cassino econômico, quais são as que ganham e as que perdem. Os butaneses perceberam que o jogo é muito injusto, estariam fadados sempre a perder e, em decorrência, a jamais serem plenamente felizes, o que é uma desgraça se você vive numa cultura impregnada nos valores orientais que pregam meditação e, mais uma vez ela, a felicidade.

Daí os butaneses terem desenvolvido o conceito de Felicidade Interna Bruta. E não são nada bobos, os butaneses, como uma leitura apressada poderia nos induzir a julgar. Nada disso. Arquitetaram por lá as mais diversas fórmulas matemáticas, quantificaram de tudo, encontraram medidas para sentidos humanos, individuais e coletivos, a ponto de poderem traduzir a felicidade em números e, por fim, em indicadores - que são a tara de qualquer economista, conforme se sabe - e que são o que as instituições como a ONU e o FMI precisam para determinar se a vida em determinado país vale a pena ser vivida, se pode ser vivida, ou mesmo se há algum tipo de vida.

Interessante. Os butaneses, talvez, estejam desenvolvendo a semente de uma nova doutrina política e econômica para toda a humanidade, o que seria deveras interessante no período assaz aborrecido de turbulências econômicas que redundam em tanta infelicidade. Mas talvez nada disso. Talvez estejam lá naquelas paragens escarpadas demais encontrando resposta para seus problemas. Só isso.

Mas só isso já vale um sorriso meio tímido por aqui deste que vos escreve. Sim. Eles trilham o seu próprio caminho, não seguem o nosso e parecem... felizes... com isso. Que sejam. E que me ensinem como ser também.

Platonismos

Deixe que ele exista.
Deixe que venha,
que cresça e que sorria.

Sorria pelos versos,
viva pelas rimas,
e chore as ausências da vida.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Símbolos

"... passei alguns anos sondando esses mistérios todos; desci nessas trevas insondáveis de um lado da vida, saí pelo outro, ignorando como e por que vivemos, como e por que morremos, pensando que Deus é um nome que me serve para nomear aquele que estou buscando; essa palavra a morte me dirá qual é, se é que a morte, no final das contas, não é mais silente que a vida..."

E eu, quem diria, um dia fui profundo.

Saudade de Pedra

Hoje estou triste como uma pedra.
Faço água nas minhas porosidades,
Choro os sedimentos do coração
e calcifico todas as minhas saudades.

terça-feira, 12 de maio de 2009

E se a moda pega?

A Universidade do Missouri passará a exigir que seus alunos do curso de jornalismo disponham de, no mínimo, um iPod Touch - que é um barato - ou de um iPhone, aparelinhos da Apple criados para a danação da raça humana, como se sabe.

Os eletrônicos em questão orçam, respectivamente, 230 e 250 dólares, e a universidade diz que, sem problemas, financia e dá uma ajudinha para que seus alunos possam adquirir os, odeio o termo, "gadgets".

Eu tinha, assim que vi a notícia, um repertório impressionante de gracinhas para vir aqui dividir com os caros sete leitores sobre a novidade. Mas perdi completamente a vontade. Sei lá, motivos não faltam para escrever um texto legal e colocar aqui.

Mas, como diria meu pai, "tá feroz".

domingo, 10 de maio de 2009

História de família

Diz Talese nas últimas páginas de "Reino e Poder":

"Garrett, que morreu com mais de setenta anos em 1954, era dono de uma casa de fazenda junto a um rio, muito perto do balneário de Ocean City, Nova Jersey, onde nasci e fui criado. Lembro-me, quando menino, de ver Garrett entrar na loja de meu pai: um cavalheiro distinto, usando invariavelmente chapéu azul-escuro e terno escuro, com longos cabelos brancos. Sentava-se às vezes durante horas, falando sobre a situação do mundo ou reminiscências do Times, assunto que fascinava meu pai, uma das três pessoas que liam aquele jornal, recebendo pelo correio, todas as manhãs, a edição de dois dias antes.

Depois que fui trabalhar no Times, meu pai me perguntou mais de uma vez se o nome de Garrett era mencionado por lá. Tive de dizer que não, nunca, e eu me perguntava se em algum outro lugar ele teria a fama de jornalista e contador de histórias que gozava em minha casa. Então, quando comecei meu livro sobre o jornal e não conseguia entender direito o estilo e o caráter de Ochs a partir das entrevistas e das leituras que fizera até então, encontrei um exemplar de "The American Scholar", de Richard C. Cornuelle, um escritor e consultor empresarial de Nova Iorque, que também fora amigo e admirador de Garrett. Foi por meio dele que consegui ler e tirar proveito de todo o diário de Garrett".

Se, de fato, eu conseguir ir nas duas palestras de Gay Talese e tiver a chance de conhecê-lo - vou tentar - me apresentarei como Garrett.

Seremos praticamente amigos, portanto.

sábado, 9 de maio de 2009

Gentileza em falta

Aproveitei hoje o dia livre e fui numa chapelaria com um amigo. Enfiei na cabeça (ahn? ahn?) a ideia de comprar uma boina. E comprei uma bem bacana, acho que ficou legal. Tinha pensado num chapéu à la Gay Talese, mas desisti. Pouca gente conhece Talese e diriam que é coisa de emo, sabe como é. Vamos, neste caso, de boina.

Mas um episódio curioso, que já me aconteceu outras vezes aqui, deu-se na hora de pagar a conta. Entrei na fila do caixa pelo lado errado, inadvertidamente, mas me coloquei, afinal, no lugar certo para esperar. Poucos segundos depois, pelo lado certo, um homem de uns 35 anos entrou e foi direto ao caixa, ou seja, ele tomou minha vez.

Uma das mocinhas do caixa sorriu e vi seus olhos brilharem, pensei "putz, devia ter comprado essa boina há mais tempo". Pentelhésimos de segundo depois de o sujeito me roubar a vez, outro caixa folgou, o da mocinha, no exato instante que ela começava a sorrir. Me aproximei e ela me disse, em referência ao meu comportamento:

"O mundo precisa de mais gente como você!" - porque o paulistano comum provavelmente teria causado um pequeno escândalo por ter sua vez surrupiada. Devolvi dizendo que provavelmente é verdade, mas seria o caso de admitir que, muito mais que o mundo, São Paulo precisa de pessoas gentis - não como eu, tivesse o mundo mais Tertulianos e teríamos aí, meus amigos, um planetinha muitíssimo mais aborrecido e bem digno de pena. Enfim, infelizmente não foi minha boina à escocesa que cativou a mocinha. Mulheres.

Não foi a primeira vez que algo assim me aconteceu. Parece que ser gentil aqui em São Paulo é sinal de um refinamento e de uma índole inatacável. Penso que todos somos assim, na verdade, o problema é quanto tempo você fica testando sua resistência a truculência na megalópole. Parece que, com o tempo, as pessoas acabam criando um instinto meio selvagem, que vem bem a calhar nessa selva de pedra.

Eu continuo pacífico, calmo e misantrópico. Por isso me impressiono com gente mal educada nas ruas, nos ônibus, nas filas, em todo o lugar. Rio deles por dentro. Bobos, afinal "eles passarão, e eu passarinho". A vida é muito mais que pressa, que não leva a lugar nenhum, temos todos o mesmo destino.

E eu vou, provavelmente, perder a corrida da Fórmula 1 amanhã cedo, uma merda.

Tivesse eu

Se eu tivesse vivido
Sido, transformado.
Se eu tivesse abraçado.
Se eu tivesse sido amado.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Minha mente vai melhor de metrô

"São Paulo vai melhor de metrô", é o slogam que a Companhia do Metropolitano de São Paulo usa. Tudo vai melhor de metrô, e a vida iria muito melhor se tivessemos como embarcar em estações, cruzar o caos que ferve na superfície e desembarcar-mos rapidamente nos nossos destinos. A vida seria mais fácil, como São Paulo é porque tem, pouco é verdade, metrô.

Andei por três linhas, num horário mais sossegado - qualquer um que não conheça São Paulo ficaria chocado com o número de pessoas - de modo que cheguei rapidamente a rodoviária pra comprar a passagem de volta ao Paraná. Foi uma viagem sem incidentes, não topei com nenhuma pessoa interessante, não puxei conversa com estranhos, só pude, mesmo, ruminar alguns pensamentos.

Não sou de fazer balanços a respeito da minha vida. É um hábito que nunca tive e que, no fundo, julgo inútil: encontrar muito mérito nas nossas realizações passadas é como admitir a incapacidade de fazer melhor lá adiante. Mas me peguei pensando no que, aos 24 anos, posso dizer que realizei.

E é muito pouco. Com 22 anos Alexandre, o Grande, já havia conquistado todo o mundo conhecido daqueles tempos sanguinolentos, o que é muita coisa. Eu não tenho a menor pretensão de conquistar o mundo, é verdade, mas à luz do que tanta gente já fez com a minha idade, sinto, minha vida parece tão incidental, tão insignificante, tão miserável que, desconfio, não mereça nem a dignidade dessas linhas. Sequer o tempo que algum desocupado venha a gastar com esse texto.

E pensando nisso, sobre o acaso das coisas, percebi, e lembro de ter pensado nisso quando descia na estação da Sé pra trocar de linha, que minha vida é uma sucessão de acidentes. Aliás, tudo é uma sucessão de acidentes. O fato de meu bisavô ter escolhido o Brasil, e não os EUA. De minha mãe ter se apaixonado, de meu pai ter correspondido, de eles terem ficado juntos pela vã crença de que se amam e de que isso é o certo. Mesmo antes, o que levou as amebas a se unirem em organismos maiores, o que, enfim, deu origem a primeira célula, esse inesgotável, grande, maciço e incrível "Por quê?" que nos rodeia, que pode ser, pura e simplesmente, obra do mais impressionante acaso, acidente.

A sucessão de acasos incríveis que fizeram com que esse planetinha possa suportar - ainda - a vida. O acaso que fez você que lê me conhecer, e daí ter a questionável necessidade de ler meus escritos. Ou então o incidente binário que fez com que uma inocente busca no Google te encaminhe para esse escrito que inunda a sua tela agora. É tudo tão insuportavelmente casual na nossa vida que não encontro muito sentido em buscar sentido nela - e isso explica minha paz de espírito. Só o fato de algum tropeço evolutivo ter feito com que eu seja capaz de escrever este texto e ser lido já é tema para questionar, e muito, tudo o que nos damos direito de pensar sobre nós mesmos nesse mundo. Somos, não tem jeito, acidentes.

E é provavelmente por ter consciência disso que me ocupo em vivê-la, a vida. Se me expremessem a troco de extrair de mim uma gota de sabedoria, acho, que o que mais próximo disso encontrariam seria a lição de entender que a vida é um fenômeno instrinsicamente incidental, atrozmente esporádico, que o meu hoje é o que importa e que, "cada dia tem o seu mal". Minha maior qualidade não é a calma. É a compreensão da vida como um trânsito, e do fato de que na verdade ela é um porre de cicuta, que a gente vai bebericando aos golinhos, aqui e ali.

E é o contraste que vejo nos vagões e estações do metrô que me fascina tanto e me faz pensar tão profundamente sobre bagatelas. Observo as pessoas que se obcecam com horários, compromissos. O cidadão que xinga se você tiver a desdita de lhe interromper a ascensão na escada, as pessoas que caem no sono no sacolejar barulhento dos vagões porque estão estafadas de um dia pra lá de puxado. Eu me compadeço deles, sem dúvida, mas muito mais os lamento porque não são capazes, a meu ver, de medir a vida pelo que ela é. Parece que as pessoas tomam a vida, medem sua importância, não pela altura real que tem, mas pela sombra que projeta, que é sempre muito difusa, enorme, e que está muito distante da verdade das coisas. É como medir o poste pela sombra que ele marca na terra, você sempre vai superestimar a importância das coisas e sempre conhece-las-á distorcidas.

E isso talvez tenha a ver com a fuga, o medo, as tensões ridículas que interpomos entre nós e o que sabemos nos fará bem, nos fará felizes. O medo de encarar verdades, seguir a luz das coisas que valem à pena, o medo, enfim, de olhar para vida pelo que ela é, não pelo que queremos que seja. O maior dos males que a herança cultural judaico-cristã nos trouxe foi incutir na mente e no subconsciente das pessoas que há algum tipo de mérito na auto-flagelação, no sofrimento e na privação auto-impingidos.

Sofrer é ruim, ainda que inevitável. E é por isso que escolher o sofrimento é uma grande bobagem.

*Na foto a estação Brigadeiro do metrô. É a velha conhecida dos tempos de Curso A. e ainda bastante usada por mim.

Estrada nova

Ah, Oswaldo! Acho que o Roberto Carlos devia estar fazendo coisas assim:



"Estrada Nova" e "A Lista" são canções que você não ouve, você vive. Sente.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Tudo o que precisamos fazer é...

Hugh Laurie é um ator sensacional. E esse vídeo um barato:


Poetizando

Poeta dos maus versos;
dos bons sentimentos,
dos sorrisos arrependidos;
E dos dias roubados.

Poeta sem vícios.
Nem qualidades.
Poeta das penas,
e das saudades.

Poeta de desventuras,
de versos e aventuras
Lágrimas e sorriso
em mais um verso indeciso.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Reinvenção de mim

E eu que navego pelos ares
venho e vejo.
Sinto, um mundo de cores e vidas;
de dias e noites.
De alegrias interrompidas.

Deixo pra depois.
Postergo o sorriso.
Derramo a lágrima.
Levanto a cabeça, me arrependo.
Corro o mundo numa sístole.
Amo o sonho na diástole.
Vivo a vida num sorriso.

Abro os olhos e vejo.
Despedaço o peito...
Inicio o cortejo.
Sepulto o que há de bom.
Expulso o que há de ruim.
Me reinvento.

É na dor das luzes.
é no ocaso da saudade,
no peso das cruzes,
à luz de toda crueldade,
que sorrio e penso:
que vida, que amor!
Que dia mais intenso!

Bigode é hype

Ah, eu me divirto. Às vezes. Mas me divirto.

Cliquem aqui.

* Aos mais chegados, observem os créditos e fotos da matéria.

Verdades armadas

Poderia te dar todas as verdades
dos dias, das noites.
Mesmo dos sonhos.

Mas eu tenho medo.
Se te desse essas verdades,
você bateria com elas na minha cabeça.

Tetas, muitas tretas

Qual a sensação de acordar numa manhã de sol com o som de marmanjos urrando e fazendo escândalo na mesma proporção que o faria um esquilo se estuprado por um elefante? Horrível. Muito pior se você fizer parte do bando de marmanjos. Muitíssimo pior se você não sabe distinguir se há um esquilo, o que nos daria o direito de supor um elefante de libido desregulada, na mesma cena.

Logo que acordei disse pra mim mesmo que o domingo seria um dia de bizarrias. Começara mal, ou bem, questão de ponto de vista, com o transcendental show do Reginaldo Rossi, para o qual encontrei tempo e lucidez para algumas linhas já compartilhadas por aqui - apareceu até no CQC, o show, não as linhas. Mas não. O domingo não parou por aí, fui muito mais longe no que poderia suportar esse meu velho corpo carcomido, esse meu espírito ressabiado e essa minha índole decadente.

O show deu-se no Largo do Arouche, região conhecida do humorístico Sai de Baixo da Rede Globo, e permissiva a todos os trocadilhos de caráter sexual e de duplo sentido
que o ser humano foi capaz de criar na longa história da linguagem - sabe-se que a região é fértil em mulheres liberais e mesmo de mulheres de gênero duvidoso, a tal ponto que é possível se dizer que no "Largo", hum, do Arouche abundam enorme fauna de mulheres de pinto. Pois é.

Ir e voltar incólume de uma região como essas, sobretudo bêbado, é sempre uma vitória. Não vale dizer que bêbado faz coisas que não se lembra e, portanto, é injusto duvidar do que fiz neste episódio. Eu tenho inúmeros lapsos de memória dessa madrugada, mas graças ao Deus dos bêbados, afianço-vos que da excursão ao Largo eu lembro tudo e não fiz qualquer bobagem, tendo de lá retornado com toda a dignidade.

Mas os marmanjos continuam gritando e vomitando desesperadamente. Que se fodam, poderia eu dizer. Mas não consigo dormir com gritos, e morro de medo que vomitem em mim. Sou sensível a essas coisas.

E aí me vem na mente a lembrança meio turva da noite. Os botecos da Rua Augusta. Coisa feia, barra pesada, cara. Eu lembro de alguém dizendo, ou teria eu lido nalguma parede?, que "mais vale uma teta na mão, do que duas no sutiã". Não há dúvidas quanto a isso, a questão é sempre a propriedade das mamas, e os humores da proprietária - parto sempre do princípio de que quem as tem é uma mulher - e disputá-las, as mamas, é sempre complicado.

- Cara, teta quem tem é vaca... - disse alguém. O que me deixou confuso, porque de tetas e de vacas entendo lá eu alguma coisa, de seios, parbleu, nem se fala. Particularmente, sempre gostei de ambos, seios e tetas, sobretudo quando nas minhas mãos. "Mas de que vaca falamos?" disse eu, porque é sabido que há aí uma enorme variedade de vacas, das mais leiteiras e das mais faceiras, o difícil sempre tem sido distingui-las propriamente umas das outras - e no meio de tudo ainda há as mulheres de fato, cada vez mais raras.

Lapso. Não sei em que caminho deu-se a discussão sobre tetas, vacas, seios e suas distinções. Não sei. É possível que tenha exemplificado um exemplar de vaca bípide, que são as de modalidade faceira, e a quem se pode classificar como portadoras orgulhosas e tetas, assim como suas pares ruminantes e quadrúpedes. Lembro de uma em específico, coisa antiga, tempos de faculdade de Engenharia Civil. Lembro de suas portentosas tetas e um dos amigos, que conhecia a parelha, condescendeu, lembrando do espécime em detalhes a ponto de dar o veredito: era, indisputavelmente  uma vaca de duas enormes tetas a fulana. O que testifica para todo o sempre que, no fim das contas, não importa a qualidade de vaca, é certo que todas possuem tetas.

- Teta ou seio, é a mesma coisa, os têm as vacas de todas as qualidades e as mulheres também...

Generalizações nunca foram comigo, democrata subdesenvolvido libertário que sou, motivo pelo qual me senti compelido por um zelo ridículo em relação aos matizes femininos para defendê-las ferozmente. Vim a saber na discussão que, na verdade, em certa fase da vida todas as mulheres são portadoras de seios, em geral dispostos na parte superior do tórax e na quantidade de dois. A questão é o tempo, que como eu adoro repetir nos meus poemas ruins e nas minhas filosofias redundantes, é a medida da precariedade de qualquer coisa. Tudo oxida, evapora, esmaece, decai, some, morre. Dá-se o mesmo com os seios e com a índole de boa parte daquelas que os carregam. E é a decrepitude, segundo o parecer da distinta sociedade que discutia o tema, que torna seios em tetas. Não sei. Ainda acho que o que nos foi sempre seio tenderá a continuar assim para o resto dos tempos. É verdade que sou idealista demais, porém.

Mas o caso da índole que converte seios em tetas pode ser entendido no caso da menina que vira uma profissional do sexo, ou uma amadora do sexo, que são aquelas que topam qualquer parada pelo amor ao esporte (as outras topam a preços módicos e anunciam seus predicados por aí). Mas a, hum, digamos, amadora, pode - pode - ser chamada de vaca, o que classifica seus apêndices torácicos como tetas, embora dali saia leite apenas em período de gestação, dificilmente existam pelos, e seja tão bom de apertar como qualquer seio por aí. Características erógenas não encontradas, até aqui, nas versões ruminantes das tetas, salvo se o sujeito possuir uma líbido, a exemplo do elefante tarado do primeiro parágrafo, bastante desregulada.

Saber distinguir tetas de seios, e mulheres de vacas, é uma das marcas do homem bem resolvido, moderno e chorão, desses muitos de nós que se humilham vergonhosamente por mulheres que, na maioria das vezes, querem exatamente o contrário - ou não sabem absolutamente o que querem. Eu fiquei feliz em ver que sempre soube distinguir tetas de seios, embora isso não tenha me levado muito longe. Sempre soube, é verdade, mas mais por instinto de auto-preservação do que por qualquer outra coisa. Não tinha eu o arcabouço teórico no assunto que, doravante, me sobeja e que cá transbordo com todos vocês, meus sete leitores. O instinto de distinção de tetas e seios foi o que me afastou, por exemplo, da carreira de Roberto Carlos de Puteiro, coisa muito comum entre os meus amigos do tempo de ensino médio.

E estava eu feliz por lembrar de tudo isso quando me dei conta de que o escândalo cessara à minha volta. Babacas, me acordaram. Bêbado é foda. Odeio bêbados. Odeio todos os meus amigos bêbados, porque eles são muito idiotas bêbados e isso me irrita profundamente quando estou bêbado/sorumbático. Eu iria embora escondido, como sempre fiz nos anos de faculdade de qualquer festa, mas daqui não tenho pra onde ir. Dado momento, me batia um "ah, quer saber..." e sumia. No começo era divertido, nutria as preocupações de todos, ligavam-me desesperados para conhecer meu destino. Perguntavam se alguém havia me ofendido a tal ponto que eu não via recurso que não fosse pegar meu rumo. Mas com o tempo parou, perdeu o drama. O que só vem a provar que o tempo é o melhor conceito de precariedade já inventado e nos diz que, enfim, eu tenho razão em alguma coisa.

E daqui de São Paulo, nem muito bêbado, dá pra fazer isso, sumir bêbado e voltar pra casa. Não tenho refúgio - ainda - por aqui. Uma merda. Aguentei a zona toda olimpicamente. Vomitaram-se todos, cessou o escarcéu e eu posso agora dizer do que me lembrei ao escrever o parágrafo anterior.

Foi no papo que, depois de muito ponderar, levantei uma importante discussão de caráter científico quanto a viabilidade de uma classificação unilateral dos seios. "E as galinhas?" Que fazemos delas, que sabemos todos - ô! - que são aves, animais que põem ovos e que, sabe-se, em virtude disso, incapazes de amamentar e, em face a essa classificação, absolutamente privados de tetas. "Pois é, o que diremos das galinhas?"

E há muito o que dizer delas, das galinhas, que nos povoam a adolescência e nos tentam durante boa extensão, se não por toda, as nossas vidas. O que me lembra minha adolescência porra-loca, quando meus amigos, dos quais lembro só do nome de um, me chamavam pra ir em algum lugar comer umas galinhas. Eu sempre fui tapado. Nunca sabia precisamente a espécie da bazófia, e olha que gastronomia sempre foi-me um hobby. Freud explica. Há algumas passagens inenarráveis da minha curta e muitas vezes arrependida carreira de cafajeste nessa fase.

Lembro de uma festa de debutante. Era uma daquelas coletivas, reúne-se uma porção de adolescentes no limiar dos 15 anos, esbanjam-se fortunas, chama-se um ator global da Malhação, o que significa que é um babaca bonitinho, e pronto, temos um aniversário de debutante em regra.

A aniversariante era irmã de uma das mais comentadas galinhas de todos os galinheiros por mim frequentados naqueles tempos. Na verdade era uma daquelas festas coletivas. Sempre achei meio bobo o aniversário de debutante porque nunca entendi o que diabos de especial se comemora no evento, mas sempre guardei para mim a pergunta. Na ordem das minhas dúvidas existenciais, a distinção de tetas e seios vinha primeiro. Era uma questão mais profunda. Já resolvida, conforme parágrafos anteriores nos afiançam. No fim das contas era tudo uma questão de procurar nas fontes certas. Neste caso, no fundo das garrafas.

Provavelmente bebi demais naquela noite, não nesta, na da referida festa, porque fiz uma das minhas maiores besteiras. Sou pródigo em protagonizar asneiras monumentais, só que normalmente me orgulho delas - eu sou estranho, diria "um teorema", como definiu uma guria que foi capítulo de uma quase-asneira em janeiro de 2005 ou 2006, não lembro. Aliás, curioso, mas minhas asneiras sempre tem mulheres envolvidas. Isso devia me ensinar alguma coisa. Mas eu dizia, normalmente me orgulho das bobagens que fiz. Dessa particularmente, não. Teve significados e lições muito profundas, que mudaram muita coisa em mim. Pra melhor? Pra pior? Não sei. Já acreditei nas duas possibilidades.

A besteira em questão foi tirar pra dançar a supra mencionada galinha - e antes fosse só dançar com a ave. Ela deve ter voltado nas minhas sinapses alcoolizadas quando da classificação de seios, porque é um exemplo de aberração científica, a dar-se todo crédito à teoria das tetas, afinal tratava-se de uma galinha muito bem provida delas. Pareciam querer pular do decote. Provavelmente caberiam nelas todo o volume de uísque por mim ingerido naquela noite e, pensando no assunto agora, tantos anos depois, seria divertido beber dali... enfim. O que interessa é que a dança foi o evento inicial de uma série de desgraças na minha relação com as mulheres, e com as vacas, que parece não mais ter fim.

Juliana me ensinou a dor. Juliana me levou para a cozinha do clube. A cozinha não estava sendo usada naquela noite, ou pelo menos não aquela porção dela, que estava numa penumbra violenta. Meus instintos me avisavam, daí saíra merda, mas eu não ouvi. Ouvi o chamado das selvas, segui-a com o meu terno amassado, enquanto suas saias roçavam o chão e faziam um ruído que só poderia ser comparado ao andar de um fantasma naquela escuridão toda. Um fantasma que, fosse eu um apaixonado, poderia dizer que flanava sobre o chão, me conduzindo a um encontro romântico, único, apaixonado e inesquecível. Nada disso. Inesquecível foi, mas foi por conta de não ter sido romântico, único e apaixonado.

Chegamos lá. Amassos, nada de novo no front. Excitação, o lugar, o clima. O sentimento... que sentimento? Eramos dois estranhos, continuamos sendo-o para o resto de nossas vidas e duvido que o quadro se altere. Eu não sentia nada por Juliana, como não sinto nada pela gota de orvalho que rola por aí, sempre a esmo, mas sempre pelos mesmos rumos e sempre com as mesmas consequências, embora tenha sentido pela nuvem que a criou.

Enfim, Juliana sumiu numa volta no destino, sorte que parece reservada a todas as mulheres da minha vida, vacas inclusas. Nada demais, é assim com a maioria, sobretudo hoje que relacionamentos afetivos são roletas russas, com a diferença de que nesse jogo de morte você tem 6 chances em 7 de ser baleado, ao contrário do jogo tradicional, onde é 1 pra cada 7 tiros. Hoje em dia, meu amigo, relacionamento que dá certo, que não acaba, é exceção, não regra. Olhem as estatísticas.

E eu não sei porque gasto tanto verbo com Juliana, de quem sequer lembro a cor dos olhos. Poderia escrever sobre tantas outras coisas, igualmente desimportantes, mas com o mérito da sobriedade. Assim como não sei porque comecei a falar de bêbados escandalosos, das disparidades entre seios e tetas, bem como entre suas portadoras. E acabei em Juliana, por certo portadora de dois, mas de quem mal lembrava, de quem tenho a lembrança de uma troca de carícias sem sentido, sem sentimento, casual e tão banal como qualquer outra, porque hoje, à luz dos fatos, parece-me que foram mesmo todas assim.

Eu disse que Juliana me ensinou a dor. Me ensinou, na verdade, vários tipos de dor. A dor do sexo vazio, sem sentimento, banal, a idiotice de usar as pessoas como um instrumento hedonista vago e descompromissado. Com Juliana aprendi que era homem de coração, por mais que as consequências disso sempre tenham sido desagradáveis. Com Juliana aprendi que sexo, de qualquer natureza, é uma experiência eminentemente solitária e que a maior das alegrias é poder ao fim abrir os olhos e encontrar a pessoa amada - e privar-se disso dói. Com Juliana resolvi mudar minha concepção do amor, e isso sempre terminou mal - outra dor que lhe devo. Com ela senti a dor de não dizer "eu te amo" quando tenho vontade pela primeira vez - só que no caso dela eu não sentia nada, eu tinha a necessidade de dizer que amava em função do que acontecera. Juliana me ensinou muito mais coisas, nenhuma delas impublicáveis, fiquem tranquilos, mas que guardo pra outra ocasião, porque bêbado de olhos umedecidos é clichê demais até pra mim.

E, só para não perder o costume, vem a gata branca roçar-me as pernas. E só para não perder o costume do fecho da crônica, por mais que hoje já tão sem sentido, para não perder a chance do belo chiste, posso olhar para ela e dizer que sou uma pessoa profundamente feliz(?).