Fórmula 1 é feita de carros. Não tem jeito. Ao contrário do que muita gente pensa, o piloto e a equipe, a parte humana da coisa, ainda faz uma grande diferença. Por certo que se for a melhor equipe do mundo e o piloto mais capacitado de todos os tempos a bordo de um carro ruim, não tem jeito, a coisa dará errada.
Mas o que conta mesmo é observar os carros. São lindos, ou eram até esse ano com as restrições de desenho que os fizeram horrorosos. Mas o mais interessante no desenho de um Fórmula 1, especialmente a partir do fim dos anos 1980 é observar a união da beleza e da utilidade do desenho. Sim, o que orienta a concepção do design de um bólido é a eficiência aerodinâmica que ele deve ter para atingir o sucesso nas pistas.
Tenho alguns carros que acho bonitos. E uma porção que acho feios. Vou falar deles, mostrá-los até que o assunto me encha o saco. O primeiro, que acho mais bonito de todos, é a McLaren que disputou a temporada de 2006, tendo como pilotos Kimi Raikkonen, Juan-Pablo Montoya e Pedro de La Rosa. O nome do modelo é MP4-21; M de McLaren, P4 é Project Four, a companhia de um dos acionistas principais da equipe, que comprou a McLaren no começo dos anos 1980. E 21 é, não diga, o vigésimo primeiro modelo sob esse controle que o time de Woking produz.
O MP4-21 não venceu uma corrida sequer, foi, no âmbito esportivo, um fracasso. Mas a pintura imitanto metal cromado - os carros são feitos de fibra de carbono - foi revolucionária.
terça-feira, 23 de junho de 2009
A McLaren mais bonita
às 23:45 0 comentários Marcadores: Fórmula 1
Quem lê tanta notícia?
Eu tinha prometido a mim mesmo que não tocaria no assunto. Mas levando em consideração que não tenho absolutamente nenhum que preste no momento, não há muito que se fazer a respeito. Paciência.
Caiu, enfim, a obrigatoriedade do diploma para exercer a profissão de jornalista. Alguns conhecidos e familiares vieram me perguntar, em tom de choro, o que eu pensava. Eu disse, "não faz a menor diferença". Para alguns com quem sou mais informal, "tô cagando e andando".
Sejamos francos: o jornalismo no Brasil está longe, mas muito longe, de ser a profissão de glamour que as pessoas tendem a pensar. Para cada William Bonner por aí existem centenas, talvez milhares, de subempregados da mídia, para usar o termo de um amigo.
Em suma o jornalismo sempre foi uma profissão zoada. A diferença é que agora fica um pouco mais. Qualquer irresponsável pode pegar um microfone e dizer asneiras na TV, nas rádios, na internet que ele estará respaldado pelo fato de que o STF julgou desnecessária a formação acadêmica e humanista para exercer o jornalismo.
Só que parando para pensar, isso já acontece. Sempre aconteceu. Não precisamos ir muito longe, mesmo quem vive em grandes centros deve conhecer algum programa de "informação" que se especializa em distribuir senso comum, preconceitos e ignorância. Se nos embrenharmos no interiorzão desse nosso Brasil sem fim, meus amigos, é absurdo que não tem, também, fim algum. É cada uma que vou te contar...
Ou seja, a rigor, não muda muita coisa. Até porque nós jornalistas sofremos de uma fraqueza crônica no que concerne a organização da profissão - algo que até médicos e advogados sabem fazer - e que não é propriamente um defeito, mas é indício do porquê somos desvalorizados coletivamente como uma massa ignóbil, que ganha mal, mente e desmente conforme orientam os humores dos nem sempre bem intencionados veículos que nos contratam.
O que muda é que a profissão fica um pouco mais desvalorizada. Algo réles, comum, sem efeito, porque qualquer graduado em datilografia agora pode editar um veículo de comunicação que atinja uma grande massa. Mas no fundo, ainda que disparidades como essas aconteçam, não é o tipo de problema que nós, agora falando da sociedade como um todo, devemos nos preocupar tão gravemente.
E no fim das contas, algum deputado ou senador apresentará ainda um Projeto de Lei que nos qualifique novamente. Aí a lei tramita, eventualmente é aprovada, entram com recursos, outro coronél no STF julga inconstitucional e segue o cortejo. Insisto, meus caros, relaxem.
E para quem é jornalista, de currículo e outros que tais, e lê isso, ora, relaxa mais. Vá se preocupar com a defesa do São Paulo, com o meio de campo do Guarani, com a relação de causa e efeito no Universo, a finitude, nossa insignificância perante a vida. Os lugares onde sempre valeu à pena trabalhar continuarão exigindo - exigindo é a palavra - o diploma como ítem sine-qua-non na formação do sujeito que almeje o direito de trocar letras por aí.
E no mais, que seja, eu sempre fui partidário da tese de que "Jornalismo é muito legal, mas o que estraga são as aulas" - no tempo de faculdade. E é verdade. O que mais aprendi, e muito, na época de universidade foi numa mesa de bar, conversando com colegas sobre tudo um pouco, com um copo bem provido de cerveja. Eu não tenho vergonha de dizer que me graduei nos botecos, entre uma ou outra ressaca, e que o que aprendi de ética, juízo e equilíbrio, que hoje me têm levado tão bem pela profissão veio daí.
Não fui nenhum aluno notável no quesito notas. Mas lembro com bastante emoção o que foi sentir na pele um problema social ao ouvir de uma criança de rua que um amigo entrevistara: "o que você quer ser quando crescer? Quero ser como as pessoas que me ajudam, como vocês". Ou a tarde que passei numa construção, dividindo marmitas com pedreiros, tudo para uma reportagem da qual me orgulho muito. Ou a noite em que entrevistei um homem que se chamava Katia - mas eu não quero falar sobre isso. Essas coisas a gente carrega pra sempre.
E possuir essas referências é uma vantagem que eu e todos que já passaram pela Universidade cursando jornalismo temos. Ninguém nos tira. Nem o STF.
às 14:06 1 comentários Marcadores: Atualidades, Memórias, Mídia, Política
quarta-feira, 17 de junho de 2009
Projeto de mim
Não faço esportes.
Uso óculos.
Sou grisalho,
provavelmente serei careca.
Sou todo estragado.
Eu sim sou um projeto.
Ou antes um rascunho,
e quem dera eu ser fruto,
dos traços que esboçam seu punho,
e que me dão sentido,
pegando o desenho bruto,
e fazendo dele arte
Um quadro pós moderno
daquele tipo incompreendido.
terça-feira, 16 de junho de 2009
O padre louco
Eu sei. O post anterior foi classificado como "Fórmula 1" e, tirando o fato de que o circuito de Barcelona, onde aconteceu a patuscada de Julián Simón ser usado também pela F1, não há motivo justo para ter classificado ele dessa forma. Mas o blogue é meu e se eu quiser classificar o post em questão como "Campeonato Brasileiro de Pogobol" eu posso e ninguém tem nada com isso.
Mas a título de justiça, para dar uma endireitada nas categorias aleatórias e vagas deste blogue, vai um post sobre Fórmula 1, que neste fim de semana corre em Silverstone, no GP da Inglaterra. Trata-se do mesmo autódromo - que foi aeroporto - em que se realizou, em 1950, a primeira corrida da Fórmula 1 em todos os tempos. Silverstone fica nos arredores de Londres.
Como eu me determinei a apenas falar de curiosidades da F1 pra leigos e gente que não necessariamente goste ou conheça de automobilismo, tive que me coçar bastante para encontrar assunto. Mas achei.
Em 2003 o Grande Prêmio inglês foi vencido por Rubens Barrichello, de Ferrari. Essa corrida é uma das que tenho mais vivas na memória, porque foi uma ótima prova. E a atuação de Rubens foi excepcional, assombrosa mesmo, sendo considerada a melhor atuação de sua carreira.
A curiosidade nisso tudo foi um dos fatores que contribuiram para a vitória de Barrichello: um padre irlandês invadiu a pista, pondo sua vida em risco, e atrapalhando o desenrolar da corrida. A confusão e a entrada do carro de segurança em função do episódio deram o ensejo decisivo para a vitória de Rubens, naquele momento a 6ª de suas 9 em toda a carreira, até aqui.
O padre invasor aparece aos 0:37'' do vídeo:
E lembram do padre? Foi o mesmo que atrapalhou o maratonista brasileiro Vanderlei Cordeiro de Lima em Atenas 2004, custando-lhe, provavelmente, a medalha de ouro. Ainda bem que prenderam esse doido.
às 21:49 0 comentários Marcadores: Fórmula 1
Losers do mundo
Ok, admito. Eu nunca consegui gostar muito de corrida de moto. Das de motovelocidade e daquelas na lama, motocross. Embora reconheça que a sensação de andar de moto é incrível - vai pra 5 anos que não monto em uma, acho que não sei mais como dar a partida. Enfim, com toda essa história mal vivida em relação às motos, não tem jeito, tenho que postar algo sobre o episódio do último GP da Espanha de motovelocidade. Esse vídeo merece ser compartilhado.
Imagine que você está correndo de motocicleta e abre a última volta na ponta. Aí você termina a corrida e comemora, afinal, você venceu. Pois é. O problema é quando você descobre que errou na conta e a volta que julgava ser a última era, na verdade, a penúltima.
Aí você cruza a linha de chegada devagar demais, perde a posição, consequentemente a corrida, e faz papel de idiota para aproximadamente 300 milhões de pessoas em todo mundo, que é a audiência estimada de uma corrida da motovelocidade, segundo pude descobrir.
Com vocês o espanhol Julián Simon:
às 21:43 0 comentários Marcadores: Atualidades, Entretenimento, Fórmula 1
domingo, 14 de junho de 2009
12 de junho
Minha mãe contava hoje sobre o Dia dos Namorados. Lembrava do último que teve com meu pai, antes que ele viesse a falecer. Normalmente não gosto do assunto saudade e falta do meu pai. É complicado, mas ouvi.
Minha mãe disse que até tinha esquecido deste, que aconteceu na última sexta-feira. Dia dos Namorados, não tinha percebido passar a data. Mas como que para recuperar o es-quecido, sonhou com meu pai. Sonhara que ele, veio e perguntava, insistentemente, se ela ainda o amava do jeito que ele era, depois de tanta coisa, depois de tantos anos.
E, o que dizer mais sobre isso?
Nada.
às 14:23 0 comentários Marcadores: Memórias
sexta-feira, 12 de junho de 2009
Nada vezes nada
Leitura.
Li e leio de tudo.
Nada aprendi, muito me diverti.
História da minha vida.
Nada aprendi.
E esqueci de tudo,
o pouco de nada
que nunca soube.
Sou como Sócrates;
só que troquei a irônia,
pelo cinismo.
Fiz da acidez e do sarcasmo, método.
E da falta de vergonha,
virtude.
300
Dia cinza, aborrecido...
o sorriso adormecido,
o olho umidecido,
e o amor esquecido.
Um dia que nada significa.
É uma tarde a mais, nada dela fica.
Um dia repleto de remorsos,
coisas que não se esquecem, a despeito dos esforços.
Hoje é só um dia que não significa nada.
E que anoitece na intimidade dos meus silêncios.
Sindicato
Pare com essa coisa de poesia.
Pare, meu rapaz, porque já é demais.
Para vencer a dor, não adianta:
verso não é anestesia.
Pare principalmente se o motivo for mulher.
Porque já é sabido e por todos dito:
mulher nenhuma sabe nada de amar.
A nós só resta engolir a vida de colher em colher.
A poesia é um sindicado dos sócios da mesma dor.
Todos por aqui riem e sobrevivem,
com a verdade que a ninguém mais espanta:
a vida é um porre de cicuta, um amanhecer sem cor.
quarta-feira, 10 de junho de 2009
É a vocação
Não sei exatamente como surgiu numa conversa hoje entre tios, mãe, primos e que tais. Lembraram o fato de que eu, aos 4 anos, fugia da empregada, a quem odiava com todas as forças sem qualquer razão aparente, enrolado num cobertor de estimação e caminhava pela rua. Um dia um conhecido da família veio até mim para me salvar do risco que é uma criança de 4 anos, carregada de ódio, andar pela rua.
Me perguntou onde eu ia, de onde vinha e por que, afinal, vinha.
Eu disse que não tinha família e que meus pais tinham morrido na guerra.
Como se pode ver, desde muito cedo, tive vocação para o jornalismo. Antes dos 5 anos já era um dos mais notórios mentirosos e cara-de-pau da paróquia.
às 23:04 0 comentários Marcadores: Memórias
Rádio: Mark Lanegan - I'll Take Care of You
Ah, grande Lanegan:
"I loved and lost
Same as you
So you see I know
Just what you've been through
So if you'll let me
Here's what I'll do
I got to take care of you".
às 14:39 0 comentários Marcadores: Rádio blogue
terça-feira, 9 de junho de 2009
Never say never again
Nada mais me surpreende.
Talvez eu fique chocado com a volta de Cristo.
Mas a verdade é que nessa história
tudo volta, tudo tem resposta.
Mas nada se entende.
Por que não estou surpreso?
Porque aprendi com a memória.
Com a lembrança de esperar demais,
de ter coração de criança,
e assim sofrer com a fratura exposta,
de meus sentimentos revelados
e de todo esse sorriso indefeso.
segunda-feira, 8 de junho de 2009
Diz
Diz que meus poemas são bonitinhos?
Diz que me ama, que sente de verdade!
Porque se disser, correremos novos caminhos,
desse nosso amor feito uma saudade.
sábado, 6 de junho de 2009
Poesia
Ouvi de uma criança o que segue abaixo. Não estou bem certo, mas acho que Neruda ficaria com inveja. Quintana daria um daqueles sorrisos que ele sempre mostra em absolutamente todas as fotografias que tirou na vida. Drummond diria "ora!". Fernando Pessoa escreveria uma ode.
Aconteceu que o menino tem 4 anos. E na escola tascou um beijo numa coleguinha. Esta não gostou nenhum pouco. O menino ficou triste e, quando a mãe foi resgatá-lo, disse:
"Mãe, estou tão triste que meu coração morreu. Me sinto como um canguru sem filhos!"
Me considero um privilegiado por estar no momento certo na hora certa para flagrar essa pequena história, desses versos em prosa.
E a pergunta é: por que, afinal, a gente cresce?
Certo estava Peter Pan, o menino que não queria crescer, e Monteiro Lobato, que dizia que gente grande era besta demais e por isso mais valia escrever e prestar atenção nas crianças.
Tinham razão.
às 06:57 1 comentários Marcadores: Memórias
sexta-feira, 5 de junho de 2009
Hoje eu acordei feliz.
E escrevi um poema triste.
Hoje eu amei em segredo.
Quisera eu amar gritando.
A minha felicidade veio e foi embora.
Como todas as memórias em que vivo,
ah, a saudade de pedra dos tempos de outrora.
quarta-feira, 3 de junho de 2009
Muita mulher pelada
Nestas minhas intermitentes, e talvez bastante desprovidas de sentido, braçadas neste outro Atlântico que é a internet, vez ou outra, tropeço, ou antes, dou com a quilha nalgum recife que, se por um lado põe a pique minha embarcação feita de gigabytes, como diria Gilberto Gil, me dá o ensejo de vislumbrar ilhas, paraísos de interesse e de gratificantes descobertas em ilhas desertas e insondáveis, em mares nunca dantes navegados pelos meus gigabytes.
O que é muito saudável. Afinal, sejamos francos, a internet, como um dia definiu Homer Simpson se especializou em tornar-se uma rede internacional de pornografia. Não estranhem. Nada contra. Ou pelo menos não muito. Quem quer sacanagem, acha. Devia ser assim, mas não é. Tem muita mulher nua e muita mulher pelada na internet, e não é sempre que as procuramos, afinal.
Mas isso cansa. Combina com os hormônios em ebulição da adolescência e por mais que ainda hoje seja um prazer vê-las, admirá-las e tudo o mais, a verdade é que há uma certa saturação. É o mal da fartura, faz tudo ficar comum, réles e sem graça. Nos meus tempos, olha a nostalgia, comprar revista adulta escondido dava cadeia. Ou se não dava, parecia que dava. Me sentia um agente soviético contrabandeando informações do ocidente nos bons tempos da guerra fria. Hoje o sujeito tem tudo à mão, não há a menor graça ver pornografia nos doidos, e doídos, tempos que correm.
Daí a ser satisfatório que entre tempestades, bonanças e braçadas no mar internético você possa tropeçar com sites que se prestem a algo mais do que exibir partes escusas da anatômia feminina (até na home do UOL tem mulher em poses libidinosas). É o caso deste blogue aqui. Eleito a partir de hoje e para todo o sempre como o melhor blogue por mim já visitado. Trata-se de um blogue que posta e indexa tudo que vale à pena, e o que não vale, em relação ao cinema. Está tudo lá, ótimos filmes da idade de ouro, de prata, de bronze, de zircônio e de plástico da sétima arte. Um barato. Tem até "Cegos, Surdos e Loucos".
Adoro esse tipo de possibilidade da internet. Me permite incentivar minhas agridoçuras em relação à vida e ao passado. O homem, saibam, é um ser nostálgico. Baixei hoje, por exemplo, "O Incrível Exército de Brancaleone", que é uma excelente comédia rodada no paleozóico - provavelmente é "paleozoico" agora - ano de 1966.
Ao "Incrível Exército de Brancaleone" longa vida! Às mulheres que desfilam suas vergonhas e orgulhos pelo oceano de bobagens da internet vida não tão longa assim. Porque o tempo passa. Ele, aliás, não faz outra coisa. Precisamos, por supuesto, de novas caras e novas bundas, ainda que torçamos o nariz para a enorme oferta atual dos artigos em questão. No mais, se há quem se preste a ser objeto, por que serei eu a dizer algo contra?
às 14:43 1 comentários Marcadores: Cinema, Cultura, Entretenimento, Memórias
terça-feira, 2 de junho de 2009
Sou ou somos?
Eu sou o frio
que te encontra na madrugada.
Eu sou a sombra
que te lembra da paixão mal acabada.
Eu sou a nuvem
que faz o dia cinza, nublado.
Eu sou a saudade
que faz de mim tão mal amado.
Eu sou a sua carência
que te faz tão incerta.
Eu sou a nossa solidão
que faz a vida tão deserta.
Visitando à Luz
Ontem fiz uma viagem até a rua Santa Ifigênia, no centro de São Paulo. Precisava de uma fonte nova para meu notebook - essas coisas acontecem comigo. Fui caminhando, meia hora, jogo rápido, voltei de metrô.
(Ponto, parágrafo. A Santa Ifigênia é uma rua notável pelo comércio de eletrônicos. Fica perto da 25 de março. É uma 25 de março para eletrônicos, basicamente. Divertido).
Mas não é sobre esse episódio que eu quero falar. Na volta fui até a Estação da Luz para pegar o metrô. A Luz é um prédio muito bonito, funciona lá o Museu da Língua Portuguesa - que nunca visitei. Além de ter sido a porta de entrada para multidões de imigrantes - provavelmente o seu bisavô, caro leitor, um dia passou por ali vindo de Santos.
Entrando na estação havia duas senhoras. E um piano. Sem exagero, a que tocava teria a altura da minha cintura, e embora seja bastante difícil precisar a idade de alguém tão mais velho, julgo não estar longe da verdade ao afirmar, caros, que ela devia contar mais de 85 anos. E tocava aquele piano, tocava com suavidade, talvez como o fariam as ninfas que encantam os incautos.
A outra senhora aparentava ser mais jovem porque tinha o cabelo pintado, mas era da altura do piano, que não era aqueles de cauda. Ela cantava. Mas não era um canto vulgar. Cantava a não mais poder com uma voz leve, suave. Os graves timbravam nos meus tímpanos me fazendo esquecer do tempo, me esquecer dos compromissos. Eu não devia ficar ali ouvindo, estou em São Paulo, a cidade que nunca para. Mas fiquei.
Mas algo irresistível me segurava àquela simplicidade. Ela cantava em italiano, como se nada estivesse ali, como se estivessemos há cem anos, onde chegavam ainda aos borbotões toneladas e toneladas de imigrantes italianos fugindo das misérias europeias daquela quadra. Ela cantava óperas que nunca conheci.
Entendo muito pouco de italiano. Acho até uma língua "feia" - acho que combina demais com tia velha histérica, como aquelas de novelas previsíveis e enfadonhas do Benedito Rui Barbosa. Mas ouvindo ali a senhora que cantava ausente do mundo, gostava de pensar que eram canções que falam da vida, da liberdade, da felicidade - embora em tom lúgubre - canções que falam do amor, da alegria, de coisas que dão certo.
Me dei ao direito de me atrasar para ficar ali saboreando a música. Não me preocupei. Apenas fiquei, relaxei, sonhei e vivi nas ondas do som fortuito e hipinotizante daquele saguão de tanta história, que viu tanta gente chegar e tanta gente partir.
E a vida é isso mesmo. Partir. Ir embora, "eu conheço o medo de ir embora", nos diz uma canção. A vida, aliás, é muita coisa, daí a dificuldade de estar consciente de sua grandeza. Para alguns ela é frustrar-se. Para outros ela é acidente biológico. Uma boa porção diz ser milagre divino. Há quem considere que é um estágio, apenas, isso, das coisas complexas e absurdas que são os seres humanos. E tudo isso é verdade. A vida é tudo isso, mas também é um eterno chegar e partir, como o que compõe toda a história da Luz, embutido num eterno retorno pra lá de nietzscheano. Chegar e partir, sempre rumo ao lugar nenhum.
Curioso, não? Todos temos ciência da efemeridade das nossas existências, estamos perfeitamente cientes da intangibilidade dos destinos, dos fatos, das histórias e de que tudo, à luz da magnanimidade do tempo, é tão vago, insuficiente e infantil. Somos grãos de areia num universo em constante e incomensurável expansão. Somos ridículos e, mesmo assim, corremos de braços dados às nossas vagas e insignificantes demandas.
A vida, mais que tudo, é uma corrida. Uma ida e uma volta rumo ao lugar nenhum.
Eu fiquei ali. Ouvi duas ou três músicas, e ficaria mais se realmente pudesse. Eu vivi naquelas canções, assim como vivo em tantas outras que me embalam e que povoam a minha trilha sonora, desse meu filme meio decadente, meio ficção científica, meio comédia romântica mal escrita, meio tragédia, meio filosofia do Bergman, meio experimento do Truffaut.
A vida de todos nós é um filme assim, multifacetado. Uns melhores, outros nem tanto. Se me perguntassem em que filme eu gostaria de viver eu diria que seria no De Volta Para o Futuro, que além de considerar a maior trilogia de todos os tempos, seria para mim, enquanto ser humano imperfeito e descontente, uma excelente novidade dispor de uma máquina do tempo para remendar minhas infelicidades, meus tropeços e fazer do tempo aliado, não ferrenho inimigo.
* A foto é minha. Tirei na minha primeira visita à Luz em outubro do ano passado.
às 13:28 0 comentários Marcadores: Cultura, Memórias
segunda-feira, 1 de junho de 2009
Nuvens
Notem bem as nuvens esparsas.
As luzes difusas das farsas,
em que nossas vidas navegam,
há o futuro em que sempre segam,
enquanto vamos vivendo e perdendo,
deixando de ter e ganhar, todos apenas sendo...
Lutas
Se eu digo que penso,
Não adianta, tudo parece tão fora de lugar.
Você não consegue dizer o quão imenso,
pode ser essa coisa toda de amar.
Se eu digo que sinto,
Não faz sentido, afinal tudo parece difícil.
E o caminho é admitir que minto,
e não dizer o que sei que é fácil.
Se eu digo todas as verdades,
me arrependo, porque elas são minhas.
E me conformo com a infelicidade
de caminhar e tentar nos encontrar nas entrelinhas.
Se eu paro e imagino.
Caio em mim, corro do meu perigo.
Me dou conta do meu dia pequenino,
e enfim enxergo: eu sou meu pior inimigo.
