quarta-feira, 29 de julho de 2009

Pois é

E hoje o dia foi tão ruinzinho, mas tão desagradável, que não há verso que chegue pra dar jeito nessas jornada. Que sequer acabou, ainda. Pode piorar, portanto. Oremos.

E quem puder me mandar um abraço por comentários, que seja, fico eternamente agradecido.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Quando as coisas ficam sérias e saem do controle

Felipe Massa sofreu um grave acidente nos treinos para o Grande Prêmio da Hungria de F1 no sábado. Grave acidente porque a coisa de uns 280 km/h ele chocou-se com uma mola, que pesa umas 800 gramas, e que vinha na mesma direção, mas em sentido contrário - ou seria o inverso? - a uns 200 km/h. A referida mola acertou-o na altura do supercílio esquerdo e não precisa ser um gênio da física para calcular que o impacto não foi bonito.

Se você acompanhou ao vivo ao acidente deve ter testemunhado o clima de velório que tomou a transmissão. Sabe-se que o narrador, Galvão Bueno, é chegado às luzes da ribalta. Ele gosta de ser amigo de todo mundo. Direito dele, ninguém tem nada com isso. O problema é que a compulsão de Galvão - e isso vale como regra para basicamente todo o jornalismo esportivo da Globo, que é um grande oba-oba e não tem nada que se assemelhe com um jornalismo que cobra, fiscaliza e investiga - acaba prejudicando a informação em situações extremas, que fogem do comum do cotidiano esportivo. É o caso desse episódio. No momento do acidente saiu de cena o locutor e entrou o amigo pessoal. Saiu a informação e entrou o senso comum, o clichê.

O esporte é tratado na Globo de maneira infantil, rasa e descompromissada. De maneira pueril. Ninguém ali questiona o poder instituido, no caso, CBF, CBA, organização ridícula da Stock Car, federações de outros esportes, o Nuzman, o Ministério dos Esportes, o COB e por aí à fora. O jornalismo da Globo se contenta em chamar todo mundo de bobo, chutar pra baixo o nível da cobertura e se contentar com placares, ufanismos e bobagens do gênero.

É por isso que a cobertura do estado de saúde de Massa foi, em última análise, uma vergonha. Uma aula de como não ser profissional e, pior, competente. Nas primeiras 48 horas de internamento do piloto as notícias de outras fontes e de veículos internacionais davam conta da gravidade do quadro. Médicos da equipe do hospital hungaro falavam em risco de morte. A Globo preferiu entrevistar o Dr. Dino Altman, que foi do Brasil a Budapeste como consultor da família Massa, para arrancar dele que "acredito que, no momento, não há risco de morte eminente", para evitar o que se dizia àquele momento. A Globo fez de tudo pra ocultar a gravidade da coisa toda, o que é ridículo.

Ridículo porque não é um jogo onde você apela para o emocional das pessoas para que torçam e liguem a TV. O vício profissional de só cuidar do esporte em sua dimensão lúdica parece ter afetado a coordenação do departamento da emissora, porque o enfoque deixou de ser no fato de que o quadro era grave, falava-se em morte, possibilidade de sequelas, para estar centrado na "torcida", ou nas orações do Brasil, na família do piloto e no que um médico externo, o Dr. Altman, tinha a dizer. Ridículo, amador.

O interessante é que a Globo assumiu no caso uma postura de emissária de notícias unicamente alvissareiras, de querer "tranquilizar o torcedor brasileiro". Não tem que tranquilizar. Tem que veicular a verdade, doa a quem doer, seja ela qual for. Se o cara dá com a ideia numa mola em alta velocidade, tem o impacto presumido de 150 kg na cabeça em pentelhésimos de segundo, sofre afundamento craniano, precisa de cirurgia para remover fragmentos ósseos, é colocado em coma e, por fim, tem risco de morte presumido pela equipe que o atende, então a coisa é grave e não há como escapar disso.

O bom nisso tudo é que Massa vai melhorando, distante da palhaçada que se tornou a cobertura da sua convalescença em termos de incompetência de uma parte e sensacionalismo de outras da imprensa. E o jornalismo esportivo no Brasil, está tudo dito, realmente inexiste. É antes de tudo muito bom para todos e também muita sorte, mesmo, tendo em vista a gravidade do acidente, que a equipe médica tenha afastado o risco de morte hoje. Mas fico pensando: e se as coisas dessem realmente mal? Como que a Globo iria se justificar?

Diriam o quê? Ontem ele estava bem e, de uma hora pra outra, piorou?

Quer saber? Diriam. E todo mundo aceitaria.

domingo, 26 de julho de 2009

Rumo ao grunhido

Eu desdenho do Twitter porque acho uma bobagem desnecessária demais. E a vida é feita de bobagens, por isso tendo a dedicar o meu tempo àquelas que, ao menos, primam por não serem desnecessárias.

E José Saramago deu uma entrevista ao jornal O Globo. Sobre internet, blogues e outras bossas. Perguntaram ao lusitano, que tal é, essa coisa aí, meio assim, de Twitter. Se lhe apeteceria ter uma conta no serviço de microbobagem, digo... microblog. Disse Saramago:

"Nem sequer é para mim uma tentação de neófito. Os tais 140 caracteres reflectem algo que já conhecíamos: a tendência para o monossílabo como forma de comunicação. De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido".

O "grunhido" foi grifo meu. É impressionante. Eu me debato escrevendo, escrevendo, escrevendo e pensando no assunto. O português vai lá e, numa frase, diz o que eu queria.

Impressionante.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Poesia negativa de -2

Olhe lá pra fora...
contemple o ar gelado,
o solo orvalhado...
e pense que, aqui, logo ao lado
está de tudo um pouco.
De nada, um tudo,
de frio um luto,
e tudo mais que o gelo faz eterno.
E na agressão gelada que conforta
em um inverso, pelo ar condensação,
deixando na mente uma compensação
que no fim, tudo que mais importa,
é que vamos, todos juntos,
uns mais, outros menos,
aquecer o inverno.

Mecânica quântica aplicada

É a graça do mover-se
o flanar dos teus cabelos...
o vento que acaricia seus olhos,

e me bate na face
lembrando-me de esquecer-te.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

23

Hoje eu precisava escrever...
compor, construir e dizer,
que criar pressionado por datas
é uma forma de esquecer
o que elas significam.

Por isso o que vale é lembrar
do motivo da data, da razão do poema,
dividindo verso por verso, até acabar,
e encontrar aqui, nas entre-linhas, perdido, o verdadeiro tema.

Mentiras

Estava eu hoje assistindo um episódio de House e o próprio diz em dado momento:

"Mentiras são como crianças: inconvenientes, mas o futuro depende delas..."

e

"Se você fala com Deus, você é religioso. Se Deus fala com você, você é psicótico".


terça-feira, 21 de julho de 2009

Espaços

Eu queria desenhar com estrelas...
queria fazer poemas com constelações,
e dizer pelas grandes veredas,
que lá no céu estão todas as minhas paixões.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Quarenta anos de Lua

Não serviu pra muita coisa. É essa a conclusão do aniversário do pouso do homem na Lua. Fazem, hoje, 40 anos. Eu, como todo garoto, fui obcecado por astronômia durante um bom tempo, lia muito sobre naves, voos, aventuras. Lembro de quando lançaram o filme Apollo 13, assistindo em casa com meu pai, intrigado com as dúvidas que tinha sobre um voo até à Lua que minha curiosidade natural ainda não tinha sido capaz de resolver.

Em 2007 tivemos outro aniversário simbólico e de jaez semelhante: tratava-se aí do cinquentenário do lançamento do Sputnik. A bola de metal que fazia bip-bip-bip e o fato de esse bip-bip-bip poder ser escutado aqui na Terra deu o ensejo para que se desenvolvessem as mais variadas artes no sentido de comunicação, massiva ou não, do ser humano, rompendo distâncias, as infindáveis vagas dos oceanos, os ares, enfim. Tudo pra descobrir, que no fim das contas, o verdadeiro problema de comunicação ainda é o face a face, téte-a-téte.

O Sputnik, na pior das hipóteses, abriu o espaço (ahn? Ahn?) para a onda de inovações que hoje permite que você leia este texto num computador em qualquer lugar do mundo. A chegada do homem à Lua não. Foram lá, trouxeram pedregulhos, fincaram bandeiras e a Lua continua branca, inóspita, desabitada, praticamente imóvel, a bastar apenas para inspirar poetas e bêbados de ocasião. Alguém poderia citar os intermináveis avanços advindos da era espacial. Pois é, mas eles viriam com ou sem viagem para a Lua. Então, são mais culpa do Sputnik.

Mas o aniversário é da Apollo 11, não do Sputnik. Embora eu ache que não dá pra falar num sem falar noutro. O Sputnik foi o princípio (ou os V-2 do Wernher Von Braun?), depois dele o homem orbitou à Lua, o homem pisou lá, criaram os ônibus espaciais, eles explodiram e ninguém mais voltou pra Lua porque lá, irremediavelmente, não tem porra nenhuma.

A conquista da Lua não nos fez mais pacíficos, mais evoluídos, não nos ensinou muita coisa, infelizmente. Porque a história é bonita. É uma epopeia paralela àquela de Colombo, que disse que a Terra era redonda, e quem pensava o contrário não estava com nada. O que há de grande nessa história é, como sempre, o lado humano. A história de vida de Edwin Buzz Aldrin, o segundo homem a pisar na Lua, que entrou em depressão por ter sido o segundo. O medo, enfim, o desconhecido.

Quarenta anos. Eu lembro de 1999, quando foram 30 anos, das publicações especiais. Superinteressante e Veja tinham reportagens anotando a efeméride. E eu, não mais criança, ainda colecionando dados na mente sobre aquilo que considerei naquele tempo, a maior aventura humana entre todas.

Cresci e parei com bobagens. E com definições unilaterais.

A gente cresce, fica um pouco mais esperto em umas coisas. Noutras, fica mais bobo. Mas de uma maneira geral, perde completamente a inocência.

Nota: bacana este site. Nele reconstroem em tempo real toda a missão. Você pode acompanhar passo a passo, com vídeos, fotos e gravações originais toda a viagem. Aliás, o site é excelente, merece uma olhada.

domingo, 19 de julho de 2009

Não há mais Henry Surtees

Motoracing is Dangerous. Você encontra essa frase em qualquer ingresso e credencial para uma competição de automobilismo razoavelmente séria. Porque é verdade, corridas podem matar. E matam, eventualmente.

Hoje, numa etapa da F2 na Inglaterra, morreu um garoto. Henry Surtees, 18 anos, filho do campeão mundial de F1 de 1964, John Surtees, não resistiu ao impacto de um pneu. Um acidente bobo, uma morte estúpida, que nos faz pensar até que ponto a bobagem tão humana de dirigir feito loucos pra ver quem é o mais rápido mundo à fora não é, no fim das contas, mais idiota do que parece à primeira vista:



Alguém dirá: mas ele morreu assim? É, o acidente é bem menos espetacular do que sugere a palavra "morte", so tipo de incidente corriqueiro mesmo em corridas. Ele deu um tremendo azar de encontrar o pneu que quicava naquele instante. E como base de comparação, nesse outro acidente, dessa vez na F1, no GP do Canadá de 2007, o piloto, Robert Kubica, saiu apenas com lesões leves na perna:



A comparação entre esses dois acidentes dá uma ideia da palavra fatalidade, do azar. É estranho perceber, e mesmo admitir, que a morte tem um timing próprio.

Como dá para ver no vídeo do acidente fatal de Surtees, um pneu acertou-o na cabeça. Uma tremenda infelicidade, sem dúvidas. Mas é bem verdade que um pneu, àquela velocidade, não poderia sair do carro. Em categorias de mais destaque, como F1 e F-Indy, existem cabos que prendem as rodas aos carros para que não saiam voando e não acabem, assim, arriscando a vida de pilotos, públicos e fiscais de pista (já aconteceram mortes entre público e fiscais por pneusadas na F1 e na Indy). Na F2 não sei se é assim, se há ou não cabo. Se não há, como parece, acontecerão processos, laudos e estudos
- sobretudo se forem reais as informações de que ao longo desse ano não é o primeiro pneu que se solta de um F2 - que dirão: foi uma fatalidade. Mas que poderia ser evitada, que são culpados os promotores da categoria por não ter estudado essa possibilidade e os que projetaram e produziram o chassis, no caso a equipe Williams de Fórmula 1.

O que, hoje, à luz da verdade dura e fria do garoto que interrompeu seu sonho de ser mais rápido que todos os outros, chegar na F1, a coisa toda, não importa nenhum pouco. Não há mais Henry Surtees.

sábado, 18 de julho de 2009

Jacques Villeneuve

O ano era 1997. Já toquei no assunto aqui outras vezes, esse período da minha adolescência. Enfim, carne de vaca, vamos pular os pormenores e apenas à título de por a par eventuais leitores de ocasião, o que há para se dizer é que minha adolescência foi muito, mas muito, anti-social.

Eu tinha gostos muito meus, que não tinham paralelo nos de minha idade. Na verdade, ainda não têm - ou têm pouco, enfim, sou um original, um excêntrico.

E enquanto todo mundo estava às voltas com outras figuras, naquele espírito de copiar os que admiramos, eu curtia o Jacques Villeneuve.

Trata-se, no rigor dos idiotas da objetividade, do campeão mundial de Fórmula 1 em 1997. Canadense, filho de uma lenda do automobilismo, Gilles Villeneuve, que morreu numa Ferrari nos treinos do GP da Bélgica de F1 de 1982. Mórbidos: eis o acidente aqui no YouTube.

Jacques chegou "chegando" em 1996. Venceu corridas e se impôs. Ele era bacana, tinha um capacete cor-de-rosa, pintava cabelos a crepom (ei, eu fiz isso e quase fui expulso e deserdado de casa). Jacques, em suma, era legal porque tinha, o que ele diz faltar na F1 hoje, personalidade. E eu me identificava com ele, achava o cara um heroi porque estava nem aí com o main-stream da F1, e ele vencia o Schumacher, que era, na época, meu anti-heroi.

Enfim, Jacques teve duas grande temporadas, 1996 e 1997. E daí em diante, desandou e nunca mais repetiu grandes performances. Acabou defenestrado melancolicamente da F1 no meio da temporada de 2006 por, diziam os seus patrões da BMW, falta de desempenho.

E hoje Jacques vem dizendo que gostaria de voltar à F1. Muitos torcem o nariz, ele tem já 38 anos, deixou uma última imagem muito infeliz.

Diante disso, perguntaram: "você precisa provar mais alguma coisa ainda na F1?"

Poderia arrotar arrogâncias e as convicções que movem os grandes nomes do esporte, sempre em frases feitas, tocando sempre em "continuo me rápido, me mantenho motivado, sou capaz de vencer, acho que minha história na F1 ainda não acabou..." enfim. Ele respondeu:

"Quero que meus filhos me vejam correr".

Pode parecer piegas. E até meio sem sentido para quem não conhece muito bem o universo da F1. Mas é uma mentalidade, uma declaração, das mais humanas num mundinho feito de dinheiro, vaidades, corrupção e mentiras.

Villeneuve é o cara.

Aprendendo a ser Gay

Impensável. Ao menos sempre foi assim que vi a possibilidade de, um dia, ter a chance de conhecer, ouvir, respirar do mesmo ar, conviver no mesmo espaço no mesmo tempo com Gay, de Gaetano, Talese - e isso aconteceu! Ontem, no MASP. O maior jornalista vivo, segundo minhas contas. Provavelmente o maior repórter de todos os tempos. Mas é uma generalização meio perigosa, porque parando para pensar, ao longo dos tempos, muita gente boa já se meteu a fazer jornalismo. E o fez bem. Talese entre esses.

Ponto, parentêsis. É, o homem é bom. Leiam. Fecha parentêsis.

Antes que metade dos meus 8 leitores que, desconfio via de regra, não são jornalistas - muito embora, hoje, segundo as equilibradas ponderações do
s homens togados, qualquer um possa se classificar como jornalista, tendo a crer que não estão por aí fazendo isso a torto e a direito - e resolvam abortar a leitura deste post por conta do caráter vocacionado do tema, saibam que o que faz de Gay Talese o mestre que é a sua capacidade de transformar o texto jornalístico interessante na medida que escreve-o como sendo ficção, só que de fatos reais. Há quem chame de literatura de não-ficção, de romance de realidade. Chamam também de jornalismo literário, doutrina defendida e amada por este que vos escreve. É, em suma, a junção de literatura e jornalismo. De um lado entram os recursos e aprumos estéticos próprios da arte e dos grandes ficcionistas, de outro o foco na verdade e naquilo que importa e pode fazer diferença que, em teoria, é perseguido pelo jornalista.

E quando tudo isso encontra uma mente como a de Talese o resultado é sucesso de crítica e de vendas. Talese é perfeito, um dos grandes escritores contemporâneos.

Iniciei este post para dizer que nunca tinha cogitado a oportunidade de vê-lo ao vivo. Pois eu vi. Ontem, numa palestra gratuita no MASP (cabem aqui mais parênteses remissivos, comecei esse post há mais de uma semana nas minhas peregrinações e por uma série de circunstâncias, só fui terminá-lo hoje). A distribuição dos ingressos
começava às 18:30, e às 15:30 já havia fila sob o vão livre do museu. Nas palavras de Talese sobre o Brasil, disse que ficou encantado com a FLIP (Festival de Literatura de Paraty, onde esteve), porque nunca tinha visto, nem mesmo em Nova Iorque onde reside, "tanta gente atrás de livros e autores. Falei para 700 pessoas, e fora outras acompanhavam tudo pelo telão".

Gay Talese tem uma especial atração pela pesso
a comum. Pelo ordinário, mas sua elegância no trato com a palavra escrita, sua facilidade para entender a dimensão da vida humana, do ser humano e seus caminhos, ideias e teimosias faz de cada personagem, e embora reais, os são de todo direito, uma aula sobre observação. Sobre humanidade mesmo, porque cada uma das centenas, milhares de pessoas talvez, que Talese entrevistou e esmiuçou em seus geniais trabalhos nos ensinam sempre um pouco mais sobre o humano, demasiado humano.

A primeira

Talese contou como foi sua primeira matéria para o The New York Times, em 1953, quando estreou como jornalista. Ele era então uma espécie de office-boy, do jornal. Mas, como ele mesmo mostra no seu "O Reino e o Poder", uma grande reportagem sobre a história do NYT, esse foi o primeiro passo na carreira de muitos grandes jornalistas norte-americanos do século passado.

Ele conta: "um dia na hora do meu almoço, andando vi um letreiro composto de milhares de lâmpadas. Era ali, na Times Square, onde o letreiro ficava mostrando as manchetes do dia. Aquilo me fascinou, fui até o prédio e entrei. Subi, e no final de uma escapa, no terceiro andar, vi um homem solitário com um controle na mão, manejando-o com os dedos. Fui até ele e perguntei o que fazia".

O homem compunha, com os dedos e anônimo - o anonimato é tudo na obra de Talese - as manchetes que fascinaram-o no exterior do prédio. "Perguntei a quanto tempo ele fazia aquilo, ele me disse que há 25 anos. Sua primeira manchete tinha sido sobre as eleições daquele ano, a vitória de Hoover, eleito então presidente. Pensei 'esse é um grande trabalho!', e perguntei se poderia escrever sobre ele. O homem disse que sim, ainda que não visse nada demais no que fazia e nem a possibilidade de alguém se interessar pelo seu trabalho. Tomei minhas notas".

Talese voltou ao trabalho. Depois do expediente emprestou uma máquina de escrever e compôs o texto, que foi mostrado a um repórter e a um editor. Gostaram. Publicaram, e o resto é hitória. Uma história recheada de talento, brilho, simplicidade e elegância.

"Temos como jornalistas que procurar a verdade. E defendo que o jornal deve trazer algo mais do que o relato objetivo. O texto, a palavra escrita, precisa de uma dimensão estética". Foi um sentimento de catarse ouvir isso, tenho uma história com professores recalcados que vomitavam precisamente o contrário na minha época de graduação.

"A internet é o fast-food da informação".

A lamentar: não pude tirar uma foto com ele. Ninguém poderia, evidentemente. E não consegui um autógrafo. Abonados que foram a Paraty, sim.

Inveja.

Leia mais aqui!

* Curiosidade: o bigorrilhas que assina este blogue aparece na segunda foto. De costas, mas está ali. Fotos retiradas deste álbum aqui do Flickr. As minhas ficaram horríveis.

Dodecafonia

O bom poeta
não é aquele que é bom de verso,
nem aquele das boas rimas.
É o homem das grandes agonias.
O bom poeta é o do sentimento adverso,
da noção de que a vida precisa de menos barulho...
e mais dodecafonia...

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Rádio: The Gutter Twins - Down the Line

Nova categoria no blogue. E começamos com o meu toque no celular, a melhor música de todos os tempos da última semana, Down the Line, cover do Gutter Twins em cima do original de José Gonzalez:


terça-feira, 14 de julho de 2009

Meu primeiro bootleg

Conforme já lhes contei, estive no primeiro dia deste mês de julho no show de Mark Lanegan em São Paulo. Eu e, muita gente por lá, gravamos o show. Como a experiência de ouvir o sujeito numa apresentação de caráter tão intimista e acústica foi simplesmente incrível, resolvi me aventurar e produzir um bootleg do show.

Ponto, parágrafo. Bootleg é o nome que se dá a gravações extra-oficiais, de shows, apresentações, passagem de som e até de entrevistas - que fãs lançam, com ou sem interesses comerciais. Eu não os tenho, fiz o bootleg e está disponível para downloads aqui.

E ficou bacana. Extrai os audios de vídeos do show disponíveis no YouTube, além de alguns que gravei com meus camaradas, e editei os mp3 em um programa que lembra muito o Garage Band da Apple, o Acustica Mixcraft (é bizarramente fácil criar músicas nesse coisinho, vicia).

A imagem acima é a capa, que também fiz, do bootleg, primeiro e até aqui único, de "An Evening With Mark Lanegan & Greg Dulli", com músicas do Afghan Whigs, Screaming Trees, Twilight Singers e The Gutter Twins, além da carreira solo de Lanegan.

E esse é meu primeiro passo na carreira de produtor musical.

Ouça uma das faixas:


segunda-feira, 13 de julho de 2009

Poema alado

Eu quis hoje te escrevere um poema lindo.
Como diz o Quintana.

Eu queria hoje ter te acordado,
com o carinho de um verso,
com a surpresa de uma rima.
Eu queria, hoje, ser um poema alado.

Eu poderia voar até Bonito,
te encontrar e te declamar,
pelo ruído de uma cachoeira,
os versos calados, o poema alado,
e te dar um pouco mais dessa emoção.
Dessa comoção tão certeira,
desse desassossego infinito.

E continuo querendo te escrever um poema lindo.

domingo, 12 de julho de 2009

O assassino terrivelmente lento com a arma extremamente ineficiente

Uma desligada do blogue meio atípica nos últimos dias. Estranho. Me desligo disso, que é lazer, nos tempos em que não tenho muita coisa produtiva pra fazer. Freud explica.

O bacana é que tenho vários posts no forno, começados e esperando publicação. Com o tempo tiro o atraso. Putz, escrevendo assim até parece que sou lido.

Enfim, para mostrar que voltamos, metendo o pé na porta e falando grosso, vai aí um curta metragem altamente recomendado:

Hum... ou ia, o YouTube me sacaneou e removeu o vídeo, alegando infração de direitos autorais.

Ora, o que estão olhando? A culpa é deles, não minha. Digitem na busca do YouTube "O assassino terrívelmente lento com a arma extremamente ineficiente". Vai aparecer, mas não tem como assistir.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

É só a minha imaginação

Acordo sozinho
olho pro lado,
rumino um versinho,
e lembro que estou sozinho.

Adormeço.
Sonho, penso e sinto.
E aí eu me lembro.
Estou sozinho.

Construo um poema,
sem rimas, nem sentido.
assim como você,
que nunca existiu.

E estou sozinho.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Não precisa, mesmo, de diploma pra fazer isso

Eu voto um desprezo carnal extremamente violento e inconsolável, a ponto de dar com a cabeça nas paredes quando me deparo com o pássaro azul a gorjear. É asco ao twitter, tuíter, ou gorjar, conforme já tive o ensejo de demonstrar. E, por inconsolável, evidentemente, continuo eu muito feliz, sozinho é verdade, mas feliz em não fazer parte dessa grande bobagem.

E dia desses, em uma das minhas correrias, tive um tempinho para ler a home do UOL e estava lá: Marcelo Tas e Luciano Huck discutem pelo twitter, tuíter, ou gorjear. Finalmente! A revolução da comunicação, em 140 caracteres, a agilidade do admirável mundo novo, enfim, chegou de fato: dois egos se chocam, e não falta quem queira testemunhar o episódio. Seguir, dizem os neófitos.

Aí fica difícil aceitar a justificativa dos aceclas, esses também seguidores, do microblogue. Dizem eles que o serviço traz uma inaudita agilidade - pra quê? - à difusão de informação. Neste caso "A informação", digna de espaço no portal mais visitado da internet brasileira, é o ego, o confronto de vaidades, que vemos todos os dias na internet. No orkut, em blogues, no MSN. As pessoas gritam "olhem pra mim!", vejam como sou legal. Mas como é no tuíter, a nova onda, aí vale primeira página.

Marcelo Tas e Huck se degladiaram, sempre em 140 caracteres, descaracterizando levemente o até então tido como imortal ditado que nos dizia que, cronológicamente, a pena, a caneta, ou vá lá, a palavra, fere mais que a espada. Tenho pra mim que dependendo do tamanho da lâmina, 140 caracteres já não chegam para ferir, como faz o aço frio quando bem manejado. Bateram-se os dois num duelo de palavras, um dizendo que o outro forjava seus estratosféricos números e estatíticas de seguidores, que onde é que já se viu, fazer uma coisa dessas, querer vender aos demais que se têm mais popularidade do que realmente possui.

O mundo está cheio de gente besta. E isso não é propriamente uma novidade. A história da burrice humana inunda capítulos e capítulos da história da civilização e é um processo, um eterno retorno, sempre em constante evolução. A peleja de Tas e Huck é só mais uma pequena vírgula.

O problema, o busílis, é que o mundo sempre esteve cheio de gente besta, mas normalmente inofensiva. E o twitter, tuíter, gorjear, veio a armar os bestas de 140 caracteres, reputações ignóbeis, audiência vasta e passiva, vazio e uma falsa sensação de informação. O muito é pouco, diz o poeta. E o eterno retorno, enfim, é religião.

E não para - para de parar, estragaram o idioma, como se sabe, o que somado com tantos sinais, só pode ser sinal do apocalipse que nos bate à porta - por aí. A crise entre as duas celebridades vira notícia, manchete. É o suprassumo da fofoca. Vai para a primeira página do site mais lido da internet no Brasil, nos informar que, sim, somos todos vaidosos, implicitamente, evidentemente. O foco é sempre o factual, não o absurdo: Marcelo Tas e Huck brigam via tuíter porque... porque... porque um diz ter mais seguidores que o outro, maduros que são.

Dois pavões se exibindo, enfim, é notícia. E ainda me perguntam por que eu, jornalista de canudo nas mãos, sou contra o diploma. Por falta de argumentos. E se for buscar, vou acabar tropeçando nessas situações, que me dão argumentos para ser totalmente contra. Como defender o diploma de jornalista para fazer uma bobagem dessas? Se o critério de notícia é esse, ora, qualquer um faz. Jornalista não precisa, mesmo, de diploma. Precisa de juízo, mas é um artigo em falta e que rareia mais a cata "tuítada" da internet.

A vida num mundo onde tanta gente se arma de tuíters não vale à pena ser vivida.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Keep in mind

Me sinto tão identificado com o Filipe, e não só com ele: