sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Rádio: Soulsavers - Some Misunderstanding

Eu não consigo viver um dia sem ouvir Soulsavers. Impressionante o trabalho desses caras.



Jazz pra ninguém botar defeito

Mas alguém sempre acha defeito. Impressionante a sanha humana de desagradar. Enfim, estão aí as anedotas bíblicas e históricas para dizer-nos que, se nem Cristo passou sem que lhe botassem defeitos - a ponto de o pregarem num arranjo de madeira - quem sou eu e o meu recente e juvenil entusiasmo pelo jazz para supor-se capaz da unanimidade. Quem sou eu? Quem sou eu?

Unanimidade que é sempre burra, dizia Nelson Rodrigues que, veja você, estava fadado a jamais agradar a todos. Por mais que você cultue a literatura suja, o senso da realidade, a esquizofrênia do nosso tempo, o jornalista de olho ligado, o frasista de mão cheia, enfim, um dia você acaba descobrindo que o sujeito era favorável à ditadura militar. Fato este que o desmonta considerávelmente no panteão dos meus herois.

Se nem Cristo, nem Nelson Rodrigues, lograram tento na dura peleja de sensibilizar os corações humanos na sua totalidade, quem sou eu, dizia, para supor que o jazz seja capaz de tamanho feito. Aqui mesmo já disse que, a rigor, o jazz já desagradou gente de garbo na arte do pensamento. Adorno, o querido Dodô, se esmerou para desancar substancialmente o gênero musical em questão durante todos os anos de sua vida. E o fez em prosa daquelas. Só não o fez em verso por desconhecerem-se até aqui, mesmo entre os renomados biógrafos do filósofo germânico, que fosse ele capaz de versejar. O que em alemão, desconfio, deve beirar as raias do impossível.

Enfim, o que conta é que o jazz deveria ser disciplina na escola. Neste ano, aliás, neste setembro, comemora-se o 50º aniversário (viu o que eu fiz ali? Coloquei o numeral ordinal na forma de algarismo para dificultar a sua leitura e facilitar minha escrita. E você ainda assim continua lendo). Comemora-se o aniversário, enfim, do disco Kind of Blue, de Milles Davis e seu sexteto, considerado pela gente que entende dessa bossa, que é jazz, como um marco divisor da história do gênero. E só pode ser isso mesmo.

Faz falta no jazz, ao menos nesse clássico e mais sisudo, voz. Vocalidade vende, rapaz. As músicas ficam nas nossas cabeças porque gravamos as letras que nos dizem verdades. Ou mentiras, pouco importa. No jazz, contudo, a sonoridade sem palavra é interessante. Quando você começa a se interessar verdadeiramente pelo som, voa com ele. O jazz tem qualquer coisa de especial que eu só havia vivenciado em concertos de música clássica. Dá até um senso de purismo essa cultura do som, da música, unicamente pela melodia.

Na internet há toneladas de megabytes à guisa de erudição a respeito do jazz e especificamente de Kind of Blue, sobretudo agora na esteira da efeméride. Não vou repercuti-las, provavelmente lerei poucas e menos ainda indicarei aos caros que as leiam. O melhor que faço, num dia tedioso como esse, e que começa bem pouco alvissareiro, é recomendar que ouçam o álbum, se calhar. Se não, não perdemos nós aqui nada, afinal, é impossível agradar a todos. "Mormente a alguém, eu que sei, eu que sei..."

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Highway to hell

Em novembro, no Morumbi, AC/DC. Eu vou. Mais um sonho de pré-adolescente se tornando realidade.

Who knows?

On my way to... São Paulo. Mas bem que poderia ser Cingapura.

Mas... quem sabe?

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Campanha internacional contra o tempo

Era uma vez um homem.
De peito aberto ele contraiu o vírus chamado momento,
socorrido não teve jeito, nada que desse remendo,
restou a ele resignar-se e chorar ao relento,
enquanto as lágrimas iam ao vento,
E ele foi definhando,
morria sorrindo um riso cinzento

até que, enfim, disse toda a gente
o homem morreu,
morreu de tempo
e viveu de desalento.

Tempofobia

O tempo.
passa, ele não faz outra coisa.
O tempo nos leva.
O vento nos afasta.

O tempo vem.
O tempo não se detem.
O tempo não dói,
o tempo corrói.

O tempo é meu amigo.
O tempo leva meu abraço.
O tempo traz o meu cansaço.
É o que consome a minha serenidade.
O tempo multiplica a minha saudade.

O tempo é meu inimigo.
O tempo envelhece o meu coração,
O tempo carrega a minha inocência
e me traz uma sensação
de uma vida de indolência
O tempo torna tudo incoerência.

O tempo passa.
O tempo não faz outra coisa.
O tempo morde.
O tempo assopra.
O tempo sou eu.
O tempo leva tudo que é meu.

O tempo não volta.
O tempo dói.
O tempo nos perde
é como um labirinto.

O tempo é uma dimensão.
O tempo é infinito.
O tempo é uma ilusão.
O tempo, hoje, é tudo que eu sinto.

Auto-ajuda?

Chamaram-me a atenção dia desses para que meu blogue tornou-se um amontoado de bobagens de auto-ajuda. A princípio, me preocupei. Depois, ao pensar no assunto vi que não era o caso. Auto-ajuda são experiências ou bobagens ditas para as pessoas se sentirem melhor e acreditarem que tudo tem conserto, "basta acreditar em si mesmo, mentalizar" e bla, bla, bla.

Eu, Tertuliano, não faço isso. Conto minhas experiências. Não digo que são certas, que dão certo. Não as torno exemplos, apenas escrevo e digo como senti determinadas situações, como tirei delas algo de bom ou de ruim. Eu vivo e escrevo. Ou escrevo e vivo. É por aí.

Seria auto-ajuda se eu dissesse que tudo que faço é o certo e você aí, do outro lado, devia seguir meu exemplo. Quando é justamente o contrário. Pautar-se por exemplos, e conselhos dos outros, é sempre meio caminho andado para a frustração e arrependimento. E aquela incomoda sensação de "e se tivesse feito diferente?". A gente deve viver com as nossas escolhas. E fazê-las é mais legal do que deixar que as façam por nós. Mas se você é feliz do outro jeito, quem sou eu pra dar palpite?

Na verdade acho que quando escrever uma auto-biografia, supondo que um dia eu desperte em alguém tamanho interesse pelo meu passado, vou começar assim:

"Houve um tempo em que tudo era fácil. Eu era feliz, dava tudo certo, tínhamos tudo de bom conosco, o medo do futuro era uma vaga noção de algo nebuloso que ataca quem não era infeliz. Houve um tempo em que tudo era alegria, dava certo. Em outras palavras, tinha que acabar..."

Convenha, isso não é auto-ajuda.

Morte e vida

Hoje morreu um pouquinho de mim.
Um pedacinho que teve fim.

Mas o que conta é que amanhã é outro dia,
e que me apareça ali uma parte mais sadia.

Rádio: Oswaldo Montenegro - A Lista

Ah, Oswaldão.


Do outro lado da vida 2

Mas o que eu quero saber é: alguém já foi entrevistou a Whoopy Goldberg em virtude do passamento de Patrick Swayze ante-ontem?

Rá.

Chega de humor negro.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Do outro lado da vida

Morreu ontem, por conta de um câncer bastante agressivo, o ator Patrick Swayze.

Hum... acho que a Demi Moore não dorme essa semana...

Rá.

"Eu conheço o medo de ir embora...

... não saber o que fazer com a mão..."

 

O original você pode ver aqui.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

No tempo em que ruim era o jazz

Jazz é legal. Ou, pelo menos, Miles Davis é legal. E Herbie Hancock também. Sempre tive pouco contato com o jazz. As poucas referências do estilo eram Lisa Simpson, Jô Soares falando no assunto nas suas intermináveis auto-entrevistas, uma música esparsa aqui e ali. Nunca fui além disso.

Recentemente, ou nem tanto assim, cursando a faculdade, ouvimos falar de um tal filósofo aí, meio assim, Theodor Adorno. Da galerinha da Escola de Frankfurt, que contava com senhores como Habermas, Horkheimer, Walter Benjamin, Marcuse e outros menos votados. Adorno é, provavelmente, o maior expoente deste movimento do pensamento humano da primeira metade do século passado. O dono da bola. O vocalista da banda ("Adorno e seus Filósofos"?) - ou do grupo de samba ("Filósofos do Samba"?), dado o número de integrantes. No movimento de cunho filosófico, pode-se dizer que ele, Adorno, fazia o papel de anão zangado entre os escolásticos pensadores culturais daquela milenar cidade alemã.

Adornava, e adorna, por assim dizer e para não perder o hábito de trocadalhos do carilho com nomes e obras filosóficas (este blogue se batiza por um trocadilho, é vício que remonta aos ancestrais tempos da internet discada e do blogger.com.br), mas eu dizia que Adorno(a) a memória daqueles sujeitos que muito ponderavam o mundo, a sociedade e suas relações com os bens culturais. A Escola de Frankfurt foi um movimento filosófico que pensava a cultura na era da sua industrialização - fenômeno que começava naqueles doidos, e doídos, anos 1930. Foi quando, resumindo, a cultura passou a ser negócio, vendável e estrondosamente lucrativa. Em linhas gerais, os teóricos de Frankfurt são uma pedra angular na concepção da comunicação. Tertuliano, enfim, também é cultura.

(Vim a perceber isso muito tempo depois, mas o interessante da maioria dos cursos da área de Ciências Humanas é isso: te ensinam nulidades e bagatelas como essa sem as quais você viveria perfeitamente bem e feliz. Talvez, se lesse os livros percebesse e aprendesse por si mesmo. Mas o fato é que você se sente inteligente por saber coisas que não importam muito, não fazem a menor diferença e não resolvem nada).

Nos longínquos idos de 2004, que foi quando tomei meus rudimentos de conhecimento acerca das teorias do pensamento que norteiam as concepções presentes da comunicação e, portanto, também fiz minhas primeiras incursões acerca do filósofo tedesco, luminar destas sobreditas teorias, sempre a adorná-las com sua índole pessimista e carrancuda, pensava eu, sempre, como deveria ser complicado ser aluno do sujeito. Pelo teor, substância e desesperança das coisas que escrevia, devia ser, Adorno, um sujeito muito Teodoro. Sempre invoquei com o nome Teodoro. Nunca confie em alguém chamado Teodoro. Em qualquer idioma. Pessoas que se chamam Teodoro não sorriem.

Imaginava que levar um esporro do professor Adorno seria uma experiência assaz amarga. Afinal, munido de todos os traquejos argumentativos do filósofo, elevados exponencialmente pelas particularidades da língua germânica, tanto em inflexão e fonética, quanto em gramática e complexidade, Adorno devia saber como desmontar argumentos, egos, pessoas e ideias exemplarmente. Levem em consideração que nosso filósofo bávaro, e bravo, além de sobreviver ao nazismo, lecionava na Sorbonne em Paris no Maio de 1968...

(Momento wikitertuliano: Maio de 1968; movimento de rebeldia daquela geração que, muitos achavam, e ainda acham, garantiria liberdade às mulheres, mas o mais que fez foi lhes garantir o direito de se exibir tanto quanto os homens. Não me trucidem, ó leitoras: digo isso sem machismo, com ou sem Maio de 1968 mulheres são oprimidas mundo à fora, o que mudou é que podem fazer top-less no mundo dito livre, andar de mini-saia e frivolidades que tais, e antes não podiam. Para gáudio de nós, homens opressores, frise-se. Hum, você é mulher e discorda? Ora, as mulheres queimaram sutiãs como protesto contra a opressão, ainda que simbólico, mas não maridos ou executivos machistas. Pensen nisso, ou me processem).

... e sempre pensei como ele reagiu à primeira jovem de vergonhas expostas. Se o seu niilismo de quatro costados sobreviveu ao teste. O que terá ele dito pelos corredores da secular universidade francesa? Teria, em algum lapso, sentido falta dos tempos de disciplina do autoritarismo que o perseguia e a seus asseclas? Teria ele suspirado e dito: "ah, a nos tempos da Gestapo..."?

Outra coisa que me ficou na mente sobre Adorno foi seu pavor patológico relacionado ao Jazz, e eis que aqui vou regressando ao que, em princípio, era a ideia desse post: jazz. Gênero que o pensador alemão classificava como exemplo de "música rápida". E, acredite, você não quer ser clássificado de amante de música rápida por Adorno. É evidente que é uma questão de conceitos da época em que Dodô jogava no Andaraí, bairro frankfurtiano. Dodô é curruptela para o Theodor-Teodoro, nos tornamos íntimos de algumas pessoas ou entidades com muita facilidade, brasileiros que somos, e eis meu caso com Dodô. Dizia eu que o horror ao jazz votado por Dodô era da época, em virtude do que ele tinha a sua disposição para balizar seus pensamentos a respeito da cultura reprodutível.

E hoje, como se sabe, o jazz se tornou uma manifestação cultural altamente elitizada. Para horror das caveiras de Dodô que devem chacoalhar virulentamente onde quer que tenha sido sepultado - eu chuto Paris - sempre que o ritmo de origem afro é festejado neste mundo. É cult gostar e apreciar jazz. Sorte de Adorno que fosse ateu, do contrário sua alma vagaria por aí, se lamentando pela inversão de valores que, veja só, começou justamente no Maio de 1968, e que hoje nos faz selvagens embrutecidos escutadores de jazz. O que, claro, não quer dizer que jazz seja bom, necessariamente. Quer dizer, apenas, que o jazz é elitizado e, normalmente, ouvido e promovido por classes mais bem prevalecidas.

Penso que se vivo fosse, Adorno não se ocuparia desancando jazz e seus amantes. Ele gastaria seu fosfato com o sertanejo, o pop, pagode, axé e tantas outras manifestações que a contemporaneidade nos obriga a suportar. Rapaz, ele teria urticárias com música eletrônica, dessa feita em pc. Acho que ele gostaria de jazz se fossemos contemporâneos. Sobretudo se ouvisse Herbie Hancock. Não dá pra não gostar de Hancock. Ou Miles Davis.

Adorno era um sábio. Morreu antes das coisas piorarem muito. Em 1969, na onda de Woodstock e dos tempos loucos que seriam os anos 1970. No tempo dele ruim era o jazz.

domingo, 13 de setembro de 2009

MSN

"Por que você posta, e horas depois corta, emenda, torce, incha e reescreve seus posts?"

Porque eu nunca estou satisfeito. Com meus textos. Nunca.

Então porque não publica só quando estão prontos?

Se fizer isso não os termino nunca.

sábado, 12 de setembro de 2009

O meu 11 de setembro

Eu não tenho uma relação tão especial de testemunha da história com o 11 de setembro como algumas pessoas têm. Na verdade, não me diz muito respeito a data, e se, de fato, ela repaginou nossa história enquanto civilização, eis aí um fenômeno que só poderá ser atestado com o distanciamento histórico (tem acento nisso?). Embora somem já 8 anos não me sinto em distância suficiente para falar do 11 de setembro como história. Pra mim foi ontem.

Não se trata também de relativizar o evento, embarcando nas prolixas, imaginativas e divertidas teorias conspiratórias que atestam tudo como um engodo. Não se pode duvidar da capacidade daquela gente, os republicanos dos EUA, de baixarias. Mas é um pouco demais imaginar que foram eles o dedo que deflagrou a hecatombe, que deitaram as torres abaixo e ainda econtraram tempo para derrubar outra aeronave no Pentágono, o centro nevrálgico - sempre quis usar esse termo, demais! - da estratégia de defesa dos rednecks.

Provavelmente o 11 de setembro tem toda a importância que não vejo para quem viveu a coisa de maneira mais direta. Os norte-americanos têm todo o direito de proclamarem a data como marco histórico deles. Pra mim, na verdade, o 11 de setembro e todo aquele período marcou um momento estranho na minha vida. Eu tinha 16 pra 17 anos. E não sabia nada da vida.

Naquele ano, 2001, eu encerrava o ensino médio. Não digo que fazia o "terceirão". Era uma escola pública sem a menor preocupação de uma preparação decente ao vestibular e, portanto, era apenas o terceiro ano, cumprido por mim e meus bons colegas que não vejo há mais de 4 anos, com toda a fleuma, relapsidão e pachorra de alunos pouco obcecados que éramos. No fim do ano acabei prestando vestibular para Engenharia Elétrica na Federal do Paraná - não sei onde estava com a cabeça.

Eu era um porra-loca no ensino médio. Eu aprontava pra cacete. Acho que no fundo eu sabia que a vida não seria mais a mesma depois da inconsequência daqueles anos de adolescente desobrigado, depois do fim da escola. Minha responsabilidade era frequentar as aulas - ou se não as frequentasse, ao menos não reprovar por faltas, capacidade que levei às raias da perfeição anos mais tarde, na universidade - e somar pontos que me dessem o diploma de ensino médio. O resto, bem, era resto. E era divertido.

Em 2001 também eu comecei a trabalhar, impulsionado por meu pai, que era, indisputávelmente, o homem mais sábio de sua geração e provavelmente um dos mais sábios que um dia caminharam por essa terra de misérias. Na verdade não era propriamente um trabalho. Era um estágio administrativo/burocrático que realizava no setor de almoxerifado da Unicentro. Instituição estadual, abria espaço para estudantes do ensino médio realizarem estágio remunerado - muito mal remunerado, é bom que se diga - no período em que não estivessem em aula. Era esse meu caso.

Meu pai lecionava na Universidade. Íamos juntos, voltávamos juntos do expediente. Sempre tinha sido próximo a meu pai. A diferença é que aqueles meses do ano letivo de 2001 nos fizeram algo mais que pai e filho. Não nos fizeram colegas de trabalho. Aqueles meses nos tornaram amigos. Quando voltávamos tarde da noite, conversávamos pelo caminho. Dividíamos, já em casa, o café antes de dormir. Pois é, acostumados desde cedo, ambos, o café já não nos prejudicava o sono. Bebíamos café, assistíamos o Jornal da Globo e, quem sabe, o Jô. Tudo isso regado a comentários, ponderações, amizade, conversas. A pena, e sempre há uma em tudo, eis aí a mais verdadeira das minhas filosofias, é que não versávamos muito em confidências. Fosse esse o caso, talvez, meu pai pudesse ter me ajudado em outra questão marcante daqueles tempos. Paixão, por exemplo.

Eu tinha nessa época a semente daquilo que a gente, anos e anos mais tarde, entende ser o amadurecimento. Em que pese as badernas na escola pela manhã - rapaz, eu aprontei umas que não estão no gibi - havia à tarde e pela noite, que eram os períodos do meu expediente, tempo para ser responsável. Para pensar na vida com seriedade, para trabalhar pensando no amanhã, para encontrar o amor. Para se esconder dele com as mãos suando também.

O nome dela era Fernanda. Tínhamos muito em comum, Fernanda e eu. Ambos estagiários, mesma idade, filhos de professores da universidade. Eu conhecia a sua mãe, professora, de vista. Não sei de que curso, não saberia dizer o nome dela agora e nem há oito anos. Quanto a Fernanda, soube que era esse seu nome pelo crachá que ostentava, ítem de obrigação entre funcionários e estagiários.

Fernanda vinha sempre requisitar material de escritório para o setor onde estagiava comigo que, vale lembrar, ficava no almoxerifado. Vinha, pedia o que queria, mas sua voz tremia, ela ficava nervosa. Sorria, falava ora rápido demais, ora devagar demais. Fernanda, provavelmente, estava apaixonada por mim. O que era novidade. E eu acabei ficando por ela.

Eu a havia conhecido poucos meses antes, em 2000, quando fazia inglês no CCAA. Ela estava lá. Já tinha visto na rua uma vez. O problema é que um de nós, não lembro mais o qual, estava em um módulo mais avançado do curso, o que, portanto, excluía a possibilidade de uma providencial transferência de horários. Cheguei, já naquela época, mal tendo visto Fernanda, sem sequer saber qual era seu nome, a ponderar a possibilidade. Fernanda estava normalmente com uma calça preta de listras vermelhas, o que a classificava como aluna do outro grande colégio da cidade, o que também nos afastava.

Ali, naquele cubículo onde eu cumpria o expediente, nasceu uma paixão de adolescente. Nunca floresceu porque eu sempre fui tímido demais - e tendo 16 anos a gente não sabe como lidar com essas coisas. O mesmo vale para Fernanda, que vinha suar e derrubar coisas na minha presença. Não sei se me lamento, hoje, à luz de tantas outras coisas.

Eu nunca mais vi Fernanda. Em dado momento daquele ano tive que mudar meus horários. E isso cessou nossos encontros, que tornaram-se ainda mais raros. Isso tudo me volta à mente hoje porque, pensando no 11 de setembro, só sou capaz de lembrar das coisas que perdi naquela data.

Ninguém próximo morreu nos atentados. Mas, de certa forma, aquele período foi uma fase de perda de inocência, de descobertas amargas, de umas outras bastante felizes. Foi uma época em que eu me aproximei muito do bastante que já era próximo de meu pai. Eu não sabia, mas ele viria a morrer em pouco mais de um ano. Naquele tempo meu coração bateu acelerado, eu suei nas mãos, tremi a voz e não fiz nada.

Lembrei de Fernanda e nosso flerte casto e singelo quando conversava com uma amiga por MSN. Confessou-me que fora apaixonada por mim e eu ri, porque nunca imaginaria aquilo. Pensando depois, me ocorreu que ela foi cúpido em outro episódio. E até disse que não sabia de alguém que tivesse um dia se apaixonado por mim, que seria a primeira vez. Menti. Antes de todas, houve uma Fernanda.

Hoje, ao redigir esse post, ao pensar em tudo isso, revivi um pouco daquela época nas minhas lembranças. E senti um pouco de tristeza, ao lembrar que nunca mais vi as pessoas que então eu julgava importantes. É a vida. E ao lembrar de Fernanda gosto de pensar que ela suou as mãos e gaguejou por alguém nesses anos. E que, talvez, ainda lembre do seu 11 de setembro e de todo ano de 2001. E que lá no meio disso tudo, exista ainda algum espaço para um dos amantes mais canhestros de todos os tempos, de inconparável timidez e de topete arquitetônicamente desenhado em quilos de gel.

E, se querem saber, no dia 11 eu matei aula. Química. Cristo, como eu odeio química. Fui embora e cheguei no meio da manhã. Na TV, prédios queimando, gente morrendo, desespero. E o resto é história.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Digita rápido, é? Sei...

Eis aí um teste para aqueles que, como eu, digitam alucinadamente rápido - ou pensam assim. Para ter acesso ao teste, clique no meu resultado ali. E que frise-se que é um resultado aleatório, já fui bem melhor. Esse ali foi apenas para gerar o código HTML, afinal. Uma vez no site, basta digitar a palavra, dar enter ou espaço e partir para a outra. Quando o tempo esgotar você terá a resposta e saberá o quão rápido digita:

40 palavras
Speed test

Rádio: Joaquín Sabina - ¿Quién me ha Robado el Mes de Abril?

Conheci o mestre Sabina por indicação, ainda no princípio deste ano de 2009, do meu assessor para assuntos de cultura hispânica. Gosto de algumas canções deste espanhol, e uma delas é esta:

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Não adianta

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

9 do 9 de 09

9 de 9 de 09. 09 horas, 09 minutos e 09 segundos.

E não, o mundo não acabou.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

O dia em que cresci

Fazia algum tempo que eu não a via. Olhei pela janela e ela estava sentada, calma. Faltava, entretanto, alguma coisa. Comia sozinha e distraída, como se estivesse longe. De fora e de longe eu pensava comigo que não estava certo, algo tinha que ser feito. Eu sempre acho que algo tem que ser feito, mas nunca deve. Eu sempre acho que nada deve ser feito, e sempre deve. Eu nunca sei nada.

Mas me incomodava não poder entrar. Nem falar. Nem ser, quiçá abraçar. Me comovia o quanto eu podia fazer, o quanto queria, o quanto devia, talvez, mas o quanto não podia. Crescer nunca é fácil. E embora eu não seja mais criança, sinto que cada dia que passa, eu cresço mais. Crescer é se despedir de muitas coisas, e eu todo dia perco um pouco mais.

Foi aí que eu percebi que encontrar alguém que nos desafie a ser sempre o melhor que pudermos ser, que nos torne pessoas melhores e mais completas é algo raro. Foi aí que percebi que ter alguém assim, ainda que por um instantinho na longa caminhada da vida é ainda um privilégio.

Só que nada disso aplacava o incomodo que eu tinha com aquela imagem. Me parecia que nada estava certo. Que eu estava errado não importasse o que eu fizesse. E pior que errado, sozinho. Abandonado a carregar o fardo das minhas responsabilidades completamente só.

Como de um nada me lembrei de uma noite ao som do mar. Promessas e juras tendo como testemunha as ondas, o som da água que leva tudo de mal e, à nós só resta torcer, traz tudo que for de bom. Lembrei de como aquela noite foi importante, de como me deu força ao longo de tanto tempo. Voltei a pisar aquela areia inúmeras vezes, sempre lembrando da verdade daqueles momentos.

Eu me sufoquei em questão de segundos. Os segundos daquela imagem incidental da janela foram os mais perturbadores de toda a minha vida. E em mim veio, de resto, uma sensação estranha, que eu não sentia há muito tempo, algo apertando a garganta e me impelindo a olhar para o lado. Veio na memória a conclusão daquela noite da praia. A sensação de que os caminhos a serem trilhados seriam ernormes. As veredas eram turvas e o horizonte poderia até mesmo não estar onde deveria estar, mas que, independente de tudo isso, eles não seriam trilhados sozinhos, por difíceis e assustadores que fossem. A sensação de que, enfim, não importava o que acontecesse, eu não poderia deixá-la fora da minha vida.

O contraste dessa sensação maravilhosa foi a memória. Eu finalmente entendi que não poderia fazer nada e que não devia fazer nada quando me senti estranho ao observar sem poder algum, sem direito algum. Eu finalmente entendi que era um passado que queriam esquecer, um passado que não importava mais. Um passado doce, mas não o suficiente para ser presente e futuro. Enfim, agora não havia nada mais a fazer a não ser seguir em frente.

Mas eu não queria ir. Porque ir antes não adiantou, voltar também. Tudo parecia tão errado, tão sem jeito, tão em desespero. Eu não queria ir porque há coisas na vida que são importantes, mesmo no passado. Coisas que você tenta negar, mas não consegue. Eu era parte daquilo, mesmo que não pudesse e que não quisesse. Eu era parte dela, e ela de mim. De um jeito doloroso, estranho e ruim, mas era verdade. Eu percebi que não importava no que nos tornássemos, o que escolhessemos, para onde fossemos. Estaríamos condenados um ao outro, a sermos um parte do outro pra sempre. Nesse momento me senti novamente um garotinho, com medo do escuro, com medo de tantas coisas misteriosas que a gente é incapaz de compreender. Eu me senti um garotinho com medo e sem ninguém para me socorrer.