quarta-feira, 31 de março de 2010

Ego

Eu já não sou mais eu
já virei outro
somos dois, um novo
do antigo que morreu
eu me deposito noutro
que sequer nasceu.

terça-feira, 30 de março de 2010

MSN

Sabe, é engraçada essa história do Rick Martin...

E por quê?

Ora, porque não é só porque ele diz que ele é.

Como assim?

Só porque ele diz não quer dizer que ele seja cantor.

segunda-feira, 29 de março de 2010

A serviço secreto de sua excelência

Esqueçam o que eu disse aqui quanto a ocupação do cidadão que carrega a policial ferida. Na verdade trata-se de um policial à paisana, e não de um professor, como identificou a priori a Agência Estado. Coisa de regimes fascistas, confere?

José Serra é o nosso Putin.

Às canoas

Chove miseravelmente em São Paulo. A cântaros que derramam desumanamente, como se não houvesse amanhã. Covem mais que canivetes, despencam dos céus adagas e cimitarras para lá de agudas e afiadas. Como se subitamente Deus tivesse mexido seu gordo e misericordioso traseiro sagrado e, esbarrando no pinico, deitou na Terra toda a água que acumulava para outro dilúvio e outra sacanagem com essa boa gente daqui.

Olho do alto do sétimo andar o caos da Marginal, o esgoto que alguns ainda têm a audácia de chamar de rio, a água acumulando na rua que já principia a alagar e penso, cá comigo, "porra, como é que eu vou embora?"

domingo, 28 de março de 2010

Rádio: Júpiter Maçã - Talentoso

"Esse filho-da-puta tem talento".

Da Rússia, com amor*

Os cartazes. Adoro os cartazes soviéticos, os art-déco, belle-epoque e o diabo à quatro. E sempre gostei muito dos cartazes dos filmes do James Bond - muito embora recentemente tenham desansado um pouco em comparação com os outros. Mas mesmo essa mudança é absolutamente escusada pelo fato de que, se por um lado perderam o jeito para os cartazes, reencontraram a mão nos filmes, que é o que conta, no fim das contas.

*Não sei muito bem o porquê, mas os filmes de 007, especialmente os mais antigos, tinham o vezo de mudar de nome aqui no Brasil para paralelos muito mais belicosos. É o caso deste, considerado um dos melhores da série que já chega a 22 longas, e que no mundo civilizado chama-se "From Russia With Love", o que em libérrima tradução dá em "Da Rússia Com Amor". Aqui adaptou-se para o muito mais belicoso "Moscou Contra 007".

Poema do tropeço (hai-kai anabolizado)

Vai com calma
vamo que vamo
desentorpece a alma
com sobriedade do sonho
lucidez que escorre,
por onde me esparramo
vai, se mexe, corre 
vamo que vamo.

Já vai acabar,
é só mais um pouco
não dá pra parar
num ritmo bossa
meio velha,
dessa de fossa
coisa de louco
não apaga a centelha
do vamo que vamo.

São todas as coisas
é a nossa hora
de todos os momentos
só mais um pouco
que já vou embora
é o fim dos tormentos
vê se te escora
vamo que vamo.

São todos os tempos
a minha hora dilatada
pelos versos inacabados
do vamo que vamo
da minha vida estabanada.

A musculação do Galvão

Ontem, na classificação do GP da Austrália, Felipe Massa levou uma coça de cronômetro daquelas de criar bicho do seu companheiro de equipe, Fernando Alonso. Foram 7 décimos, o que é muita coisa em carros iguais. Alonso larga em 3º, Massa é o 5º. Oficialmente, Massa culpou a temperatura ambiente, e em decorrência, a dos pneus, pelo desempenho tímido.

Galvão Bueno, constrangido pelo desempenho pífio do amigo, deu vazão ao seu ufanismo pastelão. As explicações para o desempenho raquítico de Massa vieram de tudo. De aquecimento de pneus, regulagem do carro, jogo de pneus, vento, sombra, um pássaro que passava pela reta. Tudo serve para explicar.

Menos especular que, talvez, Alonso seja muito mais rápido porque é muito melhor. Porque tem dois títulos mundiais, e o brasileiro nenhum. Porque tem o dobro de vitórias de Massa e uma carreira muito mais plena de êxitos. De todas as possibilidades que fizeram Felipe ser muito mais lento que Alonso, Galvão foi capaz de lembrar de todas, e mesmo de criar algumas. Mas simplesmente ignorou que, no fim das contas, pode ser que Alonso seja melhor.

A musculação retórica, o esforço discursivo para sustentar o pachequismo e o nacionalismo babaca extrapola as para lá de dilatadas margens do ridículo, quando o assunto é Galvão Bueno e patriotadas.

sábado, 27 de março de 2010

Clássico instantâneo

José Serra: você é o nosso Putin!


Serra recebe professores grevista à bomba. Um deles, carrega o policial ferido. Poesia.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Paulistanização

Nas minhas primeiras experiências na Paulicéia Desvairada - de onde terá, aliás, vindo este termo? - lá em janeiro de 2008 basicamente tudo me chocava. Uma coisa em especial eram as pessoas a dormir apoiadas nas sacolejantes janelas do ônibus, cujos motores gritam gorgolejantes a 4, 5 mil giros, o que é muito pouco em termos de RPM e dada a capacidade de deslocamento das unidades, explica o nível elevado de ruído e a vibração que produzem.

E ainda assim as pessoas dormiam. Mais ou menos como a vida na Terra, que tinha tudo pra dar errado e que, a despeito das tentativas da Natureza, e do homem recentemente, prolifera-se qual praga por toda a crosta. Do mais humilde ao engravatado, do estudante ao aposentado, na manhã, ou tarde da noite, dormiam. Pensava no nível do cansaço necessário para tanto sono acumulado desaguar em lugar tão inusitado, tão contrário à paz de espírito necessária para, façamos uso de um chiste clichê, entregar a alma e o corpo aos cuidados de Morfeu. Pensava em tanto trabalho, tanto empenho e tantas horas gastas para trabalhar e tanto sono atrasado e me perguntava se um dia eu, todo desperto, comungaria do mesmo sono fora de hora, fora de lugar. O sono sem caso, que se agarra a qualquer minuto na escassez deles, em qualque lugar na cidade onde as pessoas vivem em trânsito, onde trabalham dentro do carro com o car-office.

Hoje voltava no ônibus. Menos de vinte minutos de viagem nas mal traçadas linhas paulistanas pelas mal planejadas ruas da cidade. Vinha cismando com bagatelas, recostei a cabeça no banco duro e desconfortável, nem de longe ergonômico para o sono, e me peguei tropeçando na lucidez, fazendo do simples ato de fechar os olhos, abrir as comportas que seguram as vagas inexoráveis do meu sono. Adormeci.

Questão de algumas esquinas e acordei. Solavanco. As ruas de São Paulo, evidentemente, não possuem um pavimento digno.

Preciso melhorar em muitas coisas na minha vida na metrópole. Preciso, por exemplo, xingar qualquer fila, achar que a buzina é uma maneira eficiente de orientar o trânsito e que nordestino vem pra cá roubar emprego. Além disso, preciso melhorar minhas capacidades de dormitador em trânsito, de dorminhoco de metrô.

Do contrário, vou precisar de sesta no trabalho.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Nostalgias

Plantões são coisas engraçadas. Sobretudo no jornalismo. Assim, meio de bobeira, encontrei esse vídeo, que me levou de volta no túnel do tempo. Suponho que Faustão deva ter ataques de vergonha galopante por esse momento antológico do cinema brasileiro. Sérgio Mallandro nem tanto, ele é um sujeito mais debochado:

Jornalismo de resultados e de olho no lance

Por um lado, é de cortar o meu coração carcomido e congelado que não disponha de tempo para o blogue como antanho (é a segunda vez que uso essa palavra na vida. Demais). Por outro é alvissareiro que não o tenha e espero que os caríssimos leitores, sofridamente conquistados pela coleção de bobagens por aqui escritas em tantos anos, tenham a bondade de ainda conservar o mau vezo de ler-me vez ou outra, porque será vez ou outra que disporei de tempo para postar, corridos são os dias de um jornalista, enfim, em prática de suas mal quistas e desimportantes habilidades profissionais.

Viva, enfim, o jornalismo de resultados - já que março Abril, que não se feche. E, enfim, até logo (porque nos encontramos por aí) o jornalismo arte, o jornalismo moleque.

terça-feira, 23 de março de 2010

Enfim

E março foi Abril.

domingo, 21 de março de 2010

O papa, o profeta e o suporte religioso para o mal

O texto que segue, é uma coluna do The Independent que me enviaram por email - não tenho a menor ideia da origem da tradução e se alguém tropeçar aqui via Google e souber de onde vem o texto, por favor, não se furte de avisar. Não é meu costume postar textos não meus, porque não tenho intenção de fazer desse blogue uma colcha de retalhos. É preciso manter uma certa coesão mínima. A argumentação sólida do texto me levou a postá-lo aqui, assim como me leva a pedir aos caros leitores que leiam e pensem. De minha parte, digo-vos, que este tipo de texto devia ser matéria disciplinar:

"O que dezenas de milhões de pessoas — que vivem suas vidas diariamente com amor, compaixão e carinho — subitamente quererem desmembrar fisicamente um homem por desenhar uma caricatura, ou dar desculpas por uma organização criminosa internacional que protege estupradores de crianças? Não é a razão. Não é a evidência. Não. Mas pode acontecer quando as pessoas escolhem seu exato oposto — religião. Na última semana nós vimos dois exemplos de como as pessoas podem começar a se comportar de maneira bizarra quando decidem que é uma coisa boa abandonar qualquer compromisso com os fatos para em vez disso agirem baseadas na fé. Ela permitiu que pessoas acusadas de tentar assassinar o cartunista de Maomé fossem tratadas como vítimas, e outras a exigir “respeito” ao Papa, enquanto ele deveria estar numa delegacia sendo questionado sobre seu papel em encobrir, e portanto permitir, o estupro de crianças.

Em 2005, 12 homens de uma pequena democracia secular europeia decidiram desenhar uma figura quasimítica que está morta há 1400 anos. Eles estavam tentando fazer questão de algo. Eles sabiam que em muitas culturas muçulmanas é considerado ofensivo desenhar Maomé. Mas eles tem uma cultura também — uma cultura europeia que acredita ser importante satirizar, provocar e ridicularizar a religião. É graças a essa atitude dos europeus por séculos que hoje nós não somos mais tiranizados ou nos sentimos mal por impulsos perfeitamente naturais, como masturbação, sexo antes do casamento, ou homossexualidade. Quando um padre oferece aqueles velhos argumentos, nós hoje rimos na sua cara — um momento muito libertador. Será brilhante no dia em que os muçulmanos puderem fazer o mesmo.

Algumas caricaturas foram inteligentes. Outras, estúpidas. Uma pareceu sugerir que muçulmanos tem uma violência inerente — uma ideia ofensiva e falsa. Se você discorda dos desenhos, deveria escrever uma carta, ou desenhar uma caricatura melhor, dessa vez satirizando os cartunistas. Mas algumas pessoas não reagiram dessa maneira. Em vez disso, planos islâmicos para caçar e matar os artistas surgiram. Há um tempo atrás, ainda esse ano, um homem com um machado adentrou na casa de um deles, e por muito pouco não matou o cartunista na frente de sua pequena neta.

Essa semana, outro plano de assassinato parece ter sido descoberto, dessa vez estendendo-se da Irlanda até os Estados Unidos, e muitas pessoas que se consideram humanitárias ou liberais se prontificaram para oferecer a condenação — dos cartunistas. Um jornal outrora liberal publicou um artigo dizendo que os cartunistas se engajaram num “ato agressivo” e mostraram “preconceito (…) contra a religião per se”, e portanto, conclui ameaçadoramente, “alguém está por aí esperando uma oportunidade para atacar novamente”.

Vamos enunciar alguns princípios que — se a religião não estivesse envolvida — seriam tão óbvios a ponto de ser risível dizê-los em voz alta. Desenhar uma caricatura não é um ato de agressão. Tentar matar alguém com um machado é. Não há equivalente moral entre expressar pacificamente sua discordância com uma ideia — qualquer ideia — e tentar matar alguém por ela. Ainda assim temos de dizer isso pois temos permitido que as pessoas religiosas aleguem que suas ideias pertencem a uma categoria diferente, nobre, e é abusivo ou violento o mero fato de questioná-los verbalmente. Ninguém me diz que devo “respeitar” o conservadorismo ou o comunismo, e manter minha oposição a eles para mim mesmo — mas é exatamente isso que é rotineiramente dito sobre o Islã ou o Cristianismo ou o Budismo. Qual é a diferença?

Esse respeito forçado é uma erva daninha: rapidamente se espalha alem das ideias para as instituições religiosas — mesmo quando estas cometem os piores crimes imagináveis. É agora um fato indisputável que a Igreja Católica sistematicamente encobriu o estupro de crianças pelo mundo, e, sabendo disso, conscientemente colocou pedófilos como responsáveis por mais crianças. Joseph Ratzinger — que alega ser “infalível” — esteve no coração dessa política por décadas.

Aqui está o que temos certeza. Nos idos de 1962, estava se tornando claro para o Vaticano que um número significativo de seus padres estava estuprando crianças. Em vez de extrair o mal pela raiz, eles redigiram uma ordem secreta chamada “Crimen Sollicitationis”, orientando bispos a fazer as vítimas manterem sigilo e a mover o padre infrator para outra paróquia. Isso quer dizer claramente que os padres estupraram mais crianças, uma após a outra, paróquia após paróquia. Sim, eram tempos diferentes, mas o Vaticano sabia à epoca dos fatos que fazia algo terrivelmente errado: por isso era feito no maior dos segredos.

Emergiu essa semana que quando Ratzinger era o Arcebispo de Munique nos anos 80 um de seus padres pedófilos foi “realocado” dessa maneira. Ele alega que não sabia. No entanto poucos anos depois ele foi o encarregado de dar as respostas do Vaticano para esse tipo de abuso, e exigiu que todo caso deveria ser comunicado diretamente a ele, durante 20 anos. O que aconteceu sob sua vigília, com toda acusação indo diretamente à sua mesa? Precisamente o mesmo padrão, nova e novamente. O programa Panorama da BBC estudou um dos muitos casos. O Padre Tarcisio Spricigo foi acusado pela primeira vez de abuso infantil em 1991, no Brasil. Ele foi realocado pelo Vaticano quatro vezes, arruinando a vida de crianças em cada parada. Ele só foi preso pela polícia em 2005, antes de conseguir ser movido mais uma vez. Ele escreveu em seu diário sobre o tipo de vítima que procurava: “Idade: 7, 8, 9, 10. Condição social: Pobre. Condição familiar: de preferência um filho sem pai. Como atraí-los: aulas de violão, coral, coroinha.” Aconteceu por todo o mundo, onde quer que a Igreja Católica tivesse postos.

Muito longe de mudar esse modelo protetor de pedófilos, Ratzinger o reforçou. Em 2001 ele redigiu um documento estritamente confidencial ordenando que as acusações de estupro infantil fossem investigadas pela Igreja “do modo mais secreto (…) restrito por um silêncio perpétuo (…) e todos (…) deveriam manter-se no mais absoluto segredo.” Uma vez vazados, Ratzinger alega — bizarramente — que esses requerimentos não proibiam os bispos de chamar a polícia. Mesmo muitas pessoas empregadas pelo Vaticano à época dizem que isso está errado. O Padre Tom Doyle, que era um advogado do Vaticano trabalhando nesses casos, disse que “é uma política redigida explicitamente para encobrir casos de abuso sexual infantil e punir os que chamarem a atenção para esses crimes. (…) Em nenhum lugar nesses documentos há qualquer menção sobre ajudar as vítimas. A única coisa que ele diz é que os padres podem impor medo, e puni-las, se disserem o que aconteceu.” Doyle foi rapidamente demitido.

Imagine se isso acontecesse no The Independent. Imagine que eu descobrisse que há um círculo de pedófilos atacando nossa creche, e que o Editor emitisse uma severa ordem de investigação interna com o “mais absoluto sigilo”. Imagine se ele meramente embaralhasse os pedófilos por outra creche de outro jornal, e eu concordasse, e fizesse essas crianças jurarem sigilo. Nós dois iríamos — corretamente — para a prisão. No entanto, quando a palavra “religião” é sussurrada, as regras mudam. Subitamente, pessoas outrora bondosas, que não sonhariam em encobrir uma quadrilha de pedófilos em seu local de trabalho, passam a achar que é um insulto aos pedófilos seguí-los por onde quer vão em suas igrejas. Eles achariam esse comportamento impensável sem a barreira irracional da fé interpondo-se entre eles e a realidade. Sim, eu entendo que algumas pessoas se sentem tristes quando elas veem uma figura que foram ensinadas, quando crianças, a reverenciar — seja o Papa ou o Profeta — sendo sujeitas ao exame racional, sátira, ou investigação criminal. Mas todos tem ideias que julgam preciosas. Só você, religioso, demanda proteção do debate ou escrutínio que pode desconfortá-lo. O fato de que você acredita que um ser invisível e sobrenatural aprova — ou mesmo comanda — seu comportamento não quer dizer que ele mereça mais respeito, ou tato. Quer dizer que ele merece menos. Se você baseia seu comportamento numa fantasia tão avessa, você deve esperar ser checado pela crítica e pela sátira. Você precisa disso.

Se você não consegue suportar suas figuras religiosas sendo criticadas — se você acha que Ratzinger está de algum modo acima da lei, ou que Maomé deve ser defendido com um machado — uma sociedade sã só tem uma resposta para você: vá dizer isso ao juiz".

sábado, 20 de março de 2010

Gênesis

Em mim o verso se fez carne
se encontraram pelas diástoles tresloucadas
as minhas sístoles alopradas
a cantarolar e contar aquela minha história
do dia em que me desavim.
Foi em mim que o verbo se fez poema
onde se rimaram as minhas prosas
e nas antologias do meu fim
se fez de estrofes a minha memória
O verso e o verbo, todos num só
que já não posso comigo,
todos habitam em mim.

O bulê de chá voador

"Muitos indivíduos ortodoxos dão a entender que é papel dos céticos refutar os dogmas apresentados – em vez dos dogmáticos terem de prová-los. Essa idéia, obviamente, é um erro. De minha parte, poderia sugerir que entre a Terra e Marte há um bulê de chá de porcelana girando em torno do Sol em uma órbita elíptica, e ninguém seria capaz de refutar minha asserção, tendo em vista que teria o cuidado de acrescentar que o bulê de chá é pequeno demais para ser observado mesmo pelos nossos telescópios mais poderosos.

Mas se afirmasse que, devido à minha asserção não poder ser refutada, seria uma presunção intolerável da razão humana duvidar dela, com razão pensariam que estou falando uma tolice. Entretanto, se a existência de tal pote de chá fosse afirmada em livros antigos, ensinada como a verdade sagrada todo domingo e instilada nas mentes das crianças na escola, a hesitação de crer em sua existência seria sinal de excentricidade e levaria o cético às atenções de um psiquiatra, numa época esclarecida, ou às atenções de um inquisidor, numa época passada".

A reflexão, em tudo e por tudo simples e complexa, é de autoria do filósofo britânico Bertrand Russel, que morreu em 1970 aos 98 anos de idade, e ainda dono de intelecto ágil e capacidade de análise invejável, a dar-se crédito nas biografias resumidas que abundam no oceano sem limites, nesse outro cosmos da internet. Sujeito muito produtivo, dono de alguns conceitos contemporâneos de liberdade aos quais voto muito apreço e que, declaro, merece deste que vos bloga uma visita mais circunstânciada. Até aqui, que conste, só sei que Russel se abraçava num racionalismo à toda prova. Como a proposta do bulê de chá voador, aliás, nos mostra.

Questionai, irmãos, questionai porque é daí que vem a liberdade.

Celeste

Mas vai olhar para o céu de novo?
Vou.
Mas ele não mudou nada.
É, eu sei.
E ainda assim, vai procurar o que por lá?
Nada.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Princípio da Incerteza

Ele se esforçava por dizer coisas que entendia. Que compreendia com admirável facilidade, mas sabia, de alguma forma, que se as escrevesse para impressionar alguém, falharia. A poesia que lhe embalava as sinapses do coração e sístoles e diástoles da mente lhe pertencia, era uma marca que não poderia fazer outros entenderem. Tudo que tentasse expressar soaria num diapasão estranho, inaudível e incompreensível aos ouvidos de todos. Sabia que nas tortuosas formulações verbais que abarcam sofregamente a velocidade e a intangibilidade de nossos pensamentos, perder-se-ia em frases, vírgulas e sintaxes a beleza e poesia das coisas, o impacto desnorteador do oceano de possibilidades.

A incapacidade, contudo, de expressar ideias, conceitos e os deslumbres que lhe embalavam o espírito, embora o aborrecesse, lhe trouxe com o passar do tempo a compreensão de que, se por um lado estava sozinho, por outro, enfim, a certeza de que não havia verbo que chegasse para dar sentido e vazão às suas ideias e convicções lhe fazia mais auto-suficiente, mais pleno. Que embalado pelas convicções das múltiplas possibilidades que mal lograva compreender, era, enfim, mais análogo ao tudo, mais próximo ao nada. Mais absoluto do porém e das infinitas possibilidades que derivam a cada instante.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Aforismos - Profissão

O jornalismo, assim como o crime, não compensa.

A onda agora é protestar

Já falei sobre o assunto neste post, mas não posso deixar de falar umas poucas linhas a mais sobre. Tropecei nesta matéria, que dá conta da indignação das celebridades cariocas por conta da revisão do modelo de partilha dos royalties de petróleo.

Esportistas e artistas radicados na cidade maravilhosa resolveram ir às ruas protestarem porque o estado perderá parte substancial de sua receita, caso a reforma no sistema seja aprovada. Pois é. Dentre as declarações indecentes colhidas pela reportagem, há uma bem emblemática: "Não podemos deixar que o bairrismo de uma pessoa afete o Rio. Nós sambistas temos que colaborar com isto, pois o samba recebe recursos do governo”, diz-nos o chefe de bateria da Unidos da Tijuca, que nem merece seu nome citado aqui - detalhe: bairrismo, para ele, é universalizar os dividendos do petróleo, quando, na verdade bairrismo é o contrário; mantê-los restritos a estados mal administrados e sem projeto de longo prazo. O pessoal das escolas de samba, depois que perdeu os fundos perdidos dos bixeiros, entrou na verba fácil do governo. É a indignação comprada pelas lágrimas de crocodilo do governador Sérgio Cabral.

É esse o problema. Grana. Financiamento público para os eternos bailes da Ilha Fiscal, onde as socialaites e as celebridades de ocasião possam se refestelar com toda a dignidade, abastecendo por sua vez o noticiário de fofoca, tão caro às massas. Ninguém ali está muito preocupado com um projeto de nação, com o desenvolvimento de um país, com a construção de uma sociedade. E é sintomático que a manifestação destes, vazia em propósito e em ideias tenha mais respaldo midiático que a greve dos professores de São Paulo, que foram mordaçados pelo autoritário governador, quase candidato a presidência, José Serra, contra o qual ninguém diz nada.

Vou vomitar.