Dizem os especialistas, sempre eles, que há um risco, e não é pequeno, de que a próxima santidade venha a comungar comigo a honra de ter dado os primeiros berros na querida terra dos pinheirais.
Digo que não sei. Nada contra os senhores que se reúnem para escolher o qual, entre eles, terá a duvidosa distinção de usar uma saia maior que a dos outros todos, mas para cá, penso, seria bem ruim que o Paraná, essa nossa Albânia tropical, venha a emplacar um papa.
terça-feira, 12 de março de 2013
De fé
às 16:12 0 comentários Marcadores: Atualidades
quinta-feira, 7 de março de 2013
Nem por deboche
Causa certa comoção a eleição de um membro do partido social cristão ao comando da comissão de direitos humanos que, dizem, é mantida pela câmara dos deputados como um esforço de monitorar o respeito dos ditos direitos em território nacional. Eu juro que, até agora, não sei qual é o nome do sujeito. Tendo a reservar meu tempo para coisas mais úteis, como explodir russos no videogame.
A comoção dá-se porque o distinto edil tem o mau vezo de ser uma daquelas ratazanas de altar, nascidas nos escurecidos tempos da idade média e que, de lá para cá, vêm empestilando o progresso da humanidade, para quem casamento entre gente nascidada no mesmo sexo, respeito ao direito de escolha da mulher, e tantas outras questiúnculas que os religiosos transformam em cavalos de batalha, são definidas a partir do que diz, não diz, ou contradiz, um enorme livro escrito na idade do bronze por pastores que consideravam que mijar nas feridas era uma boa ideia para curar enfermidades.
Sem questionar o direito do distinto deputado a ser um tremendo idiota, é lamentável, mas ele tem o direito de ser idiota o quanto puder e quiser, e mesmo a lisura do desequilibrado processo democrático que o colocou onde está, só nos resta um pouco de equilíbrio para lembrar que a eleição dessa ratazana de altar em específico é apenas reflexo de quem, pelas alvas calçadas do congresso, anda, e quando dá, frequenta suas dependências interiores, como o plenário. Poderiam, se fossem cidadãos melhores, ter colocado alguém nascido no século XX e com mentalidade formada no cargo, mas a verdade é que num congresso tomado de reaças, indigentes intelectuais, pastores e religiosos de diversos matizes, não acho que dava para correr para algo muito melhor. Nem que fosse por deboche.
às 13:54 0 comentários Marcadores: Atualidades, Política
terça-feira, 5 de março de 2013
Quase
Eu vejo esse quase coração
pulsando para a quase vida
me lembro
da vida de priscas eras
onde tudo seria
e o que não era
podia.
Aí eu resgato
e me lembro
e me digo
e me prometo
e desisto.
Essa coisa de quase viver
ainda vai nos levar
a quase amar, a quase ser
e vai nos matar.
ou quase.
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013
Conselho amigável para muitos jovens
Vá para o Tibet.
Monte em um camelo.
Leia a bíblia.
Pinte seus sapatos de azul.
Deixe a barba crescer.
Dê a volta ao mundo numa canoa de papel.
Assina The Saturday Evening Post.
Mastigue apenas com o lado esquerdo da boca.
Case-se com uma perneta e se barbeie com uma navalha.
E entalhe seu nome no braço dela.
Escove os dentes com gasolina.
Durma o dia inteiro e suba em árvores à noite.
Seja um monge e beba chumbo grosso e cerveja.
Mantenha sua cabeça dentro d’água e toque violino.
Faça uma dança do ventre diante de velas cor-de-rosa.
Mate seu cachorro.
Concorra à prefeitura.
Viva num barril.
Rompa sua cabeça com uma machadinha.
Plante tulipas sob a chuva.
Mas não escreva poesia.
Charles Bukowski
terça-feira, 26 de fevereiro de 2013
É impossível legislar contra idiotas
Vivemos num mundo onde idiotas acendem fogos de artifício dentro de uma boate lotada e onde retardados, que comparecem a jogos de futebol achando que estão descendo na Normandia, disparam sinalizadores navais contra a cabeça de jovens de 14 anos.
É, amigo.
às 18:03 0 comentários Marcadores: Atualidades
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013
Rádio: Oswaldo Montenegro - A Lista
É quase uma sinfônia para o ocaso, uma daquelas letras que nos lembram do que a gente é, do que foi e onde vai parar. "Quantos defeitos sanados com o tempo eram o melhor que havia em você?". No meu caso, uma porção deles.
"Quantas pessoas você amava, hoje acredita que amam você?".
"Faça uma lista dos sonhos que tinha, quantos desistiu de sonhar?".
Em certo sentido, é um pouco do golpe de realidade que Douglas Adams escreveu com fina ironia em seus livros, ou o choque psicológico da leitura da penserosa e caudalosa prosa que nos deixou Hermann Hesse, aquele pequeno canhão germânico, quase uma outra big bertha, o verborrágico e econômico escritor alemão, que nos despia com suas ideias, nos desarmava com suas histórias, e nos pavimentava com as conclusões de suas narrativas, constantemente a nos recordar do desespero de causa em que a vida vai virando a cada dia em que você acorda só para se lembrar da inexorável derrota dos sonhos, das esperanças, do descaminho.
Ponto, parágrafo. Hermann Hesse é um escritor inoxidável. Seus escritos vão continuar a estragar a vida da humanidade mesmo daqui 46 milênios.
Em relação à música, é uma boa música essa do Oswaldinho. O ruim é que ele só é boa porque a vida é ruim.
às 16:06 0 comentários Marcadores: Memórias, Rádio blogue
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013
Rádio: Elvis Presley - Snowbird
Fazia tempo que não me embrenhava entre o vasto repertório de Elvis Presley. Resgatei, dessa feita, uma canção que, antes, não me dizia nada. Snowbird é, agora, uma daquelas que dizem tudo. É sempre um prazer, Elvis.
"And if I could you know, that I would fly away with you".
às 18:03 0 comentários Marcadores: Rádio blogue
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013
Rádio - Fleetwood Mac - The Chain
Sempre que essa canção do histórico álbum Rumours chega aos 2:50 lembro da Fórmula 1. Quem é entendido, vai saber bem por quê:
às 16:28 0 comentários Marcadores: Fórmula 1, Rádio blogue
terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
Gaiola das loucas
Quando, em 2005, a igreja decidiu por Bento 16, quando podiam ter escolhido um negro, um asiático, um latino-americano, mas foram de alemão conservador da Juventude Hitlerista, eu cheguei à conclusão de que a igreja havia descoberto que tinha fiéis demais, e que devia perder, pelo menos, a metade.
Agora, depois de ter readmitido bispos que negam o holocausto, de ter abrigado debaixo das saias padres pedófilos e ter dito uma tonelada de besteiras desde que assumiu o último trono absolutista do mundo, com o espocar constante de escândalos de corrupções que fazem corar as mais sanguinárias ratazanas de altar, Bento entrega os betes e abre espaço para a igreja promover outro reacionário a um posto que poderia muito bem ganhar a divisa de Poder, Corrupção e Mentiras.
A queda de Bento 16 é só mais um sintoma da falência da ideia da religião no mundo. Mais que isso, é sintoma da doença crônica da qual padece a santa sé, milenar burocracia planetária que, incapaz de se reinventar, se descobriu impedida de dirimir suas divergências internas pelas veias democráticas. Afinal de contas, armar a guarda suíça e sair por aí matando adversários, cardeais e arcebispos não é mais um recurso entre o arsenal deles, escondidos nas vastas saias de sua santidade. E, ainda que o fosse, já não sufocam os problemas, antes, os aumentam.
Que as religiões, em geral, estão totalmente em descompasso com a realidade já se sabe. Mas o caso da igreja católica é mais grave: nesta última quadra, se abraçou sem medo num conservadorismo, na ideia da dimensão terrena e estritamente convencional daquilo que sua gente de batina resolveu decidir ser a palavra do tal deus e a orientação política e econômica conveniente para se chegar à terra prometida nos santos evangelhos. A derrocada tem data: a igreja perdeu-se em 2008, no exato momento em que o primeiro banco grande demais para cair se estatelou nos derivativos e na curiosa ideia de emprestar dinheiro que não existe para quem não tem como pagar.
O saldo das estripulias dos banqueiros foi uma crise social sem precedentes. Embastilhados na dourada vizinhança romana em que vivem, os burocratas do Vaticano divisam uma Europa contrita, empobrecida, quebrada e pronta para as convulsões sociais. Em meio à tudo isso, a igreja não tem nada a dizer para o seu, antes, enorme rebanho. Talvez tivesse se, em vez de usar Ratzinger como rolo compressor que pavimentou a amistosa ideia de Teologia da Libertação nos anos 1980, a tivesse promovido e entendido que os tais libertários queriam, no fim das contas, apenas falar aos mais pobres. Agora, à igreja, resta trocar de papa e orar. Rezar, como se sabe, é uma forma de tentar ajudar a resolver um problema sem fazer nada.
às 09:49 0 comentários Marcadores: Atualidades, Evangelhos, Política
terça-feira, 5 de fevereiro de 2013
Clássico
Red Dead Redemption, já escrevi sobre neste blog, é uma das experiências de jogo mais completas, complexas, gratificantes e extremas disponíveis na atualidade. O jogo é um clássico instantâneo, é uma enorme, avassaladora, celebração de Ennio Morricone, Sérgio Leone, o pistoleiro sem nome, Clint Eastwood, os clássicos do gênero, a ideia de redenção, tão cara aos bons westerns, e que vai até no nome do jogo.
Abaixo, um vídeo que, acho, deviam ter mostrado para Tarantino antes de ele ir realizar "Django Livre". Tivesse visto ou, oxalá, jogado Red Dead Redemption, Tarantino teria mais recurso para não fazer cagada.
No vídeo, embora a edição seja de qualidade profissional, que você pode atestar nos cortes muito bons, digo que faltou um pouco do humor, do lado humano e carismático de Marston.
Mas isso não é problema. Para redimir a falha, pegue o seu videogame e bote para rodar Red Dead Redemption, clássico esmagador e testemunho daquilo de melhor que os games podem trazer para a sua vida. O game, que foi lançado em 2010 e me convenceu ainda mais da urgência de se adquirir um console, me fez entender melhor a paixão que meu pai tinha pelo gênero faroeste e me colocou, igualmente, interessado pelas obras-primas do estilo que, infelizmente, definha nas telonas há décadas.
Red Dead Redemption não é um jogo, é algo próximo a uma experiência, um tipo de jornada, de busca, de narrativa onipresente da vida de um sujeito, seus remorsos e sua necessidade de fazer acertos com seu passado, emendas com o seu presente e sonhos, que nem sempre se verificam possíveis, para o seu futuro.
Ultimamente, venho jogando muito Battlefield 3 porque, bem, todos os meus amigos e colegas de trabalho têm o jogo e costumam jogar juntos. É bem divertido. Mas não passa perto da adrenalina do duelo, de arrumar confusão no saloon, de assaltar diligências no multiplayer de Red Dead.
às 17:42 0 comentários Marcadores: Games
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013
Vem, Keira
Eu não posso mais ver filmes com a Keira Knightley.
às 01:14 0 comentários Marcadores: Memórias
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013
Rádio: Frank Sinatra - Something
Eu não sou muito de Beatles. Mas gosto bastante do George Harrison, que compôs, entre outras, Something. Há uma versão dessa canção com Elvis Presley, que adoro, e outra, com Sinatra. O velho Frank, o "the voice", gostava de dizer que Something é a mais bela canção de amor já escrita, sem precisar dizer, em nenhum instante, eu te amo.
Gosto especialmente do arranjo por volta de 2:20. Ali a voz de Sinatra irrompe para te lembrar porque ele era simplesmente conhecido como A Voz.
O lado bom de ouvir essas canções antigas, do tempo em que eu era romântico, por exemplo, é recordar o tipo de pateta manipulável que fui, e enxergar o que sobrou. Sobrou que, hoje, eu conservo músicas assim no repertório pela velha tendência de conservar as flores mortas do passado.
O lado ruim é constatar o desastre, o desbunde, a tragédia, a catástrofe em que a vida virou.
às 17:53 0 comentários Marcadores: Rádio blogue
Rádio: Jimmy Durante - As Time Goes By
Devem existir 8 bilhões de versões da canção que ganhou a eternidade nas arengas de Humphrey Bogart em Casablanca. A grande frase da história do cinema foi, aliás, proferida em Casablanca por Bogart. Casablanca e Bogart são passaportes para a eternidade. Não se fazem mais filmes como Casablanca e homens como Bogart.
E nem canções como As Time Goes By. Meu futuro é, sombrio, cantarolar no juízo minha versão preferida, essa abaixo, enquanto sorvo meu último cálice de uísque na espera do último suspiro de uma vida dedicada a sei lá quantos anos de solidão:
às 16:40 0 comentários Marcadores: Rádio blogue
segunda-feira, 28 de janeiro de 2013
Aforismos - Tarantino
Quentin Tarantino é um tipo de Steve Jobs do cinema. Ele cria um campo de distorção da realidade em tudo que faz, ao ponto que seu filme seja considerado relevante na discussão da situação racial no mundo.
às 16:21 0 comentários Marcadores: Aforismos
domingo, 27 de janeiro de 2013
Desejo e reparação
Eu tenho inveja declarada de Milan Kundera pela frase "a insustentável leveza do ser", por exemplo. E ele não está sozinho. Posso colocar na sua companhia o romance todo, e não apenas o título, de Ian McEwan - bem como o filme homônimo - "Desejo e Reparação".
Há uma profunda análise da vida, dos erros, dos tropeços, dos desenganos, da arte, tudo numa coisa só esperando a humanidade nas doloridas páginas da obra e nas duas horas do filme. Eu gostaria, muito, de ter tido a ideia e os meios para realizar o livro e vê-lo, dpeois, tão bem traduzido em imagem e som, como foi o caso do grande serviço que Joe Wright prestou ao dirigir a adaptação, que nem é tão adaptação assim.
Mas estou condenado a uma vida de não escritos e de invejas. Saramago gostava de dizer que todos nós somos escritores, a diferença está no fato de que uns escrevem, outros não. Faço parte da segunda metade da humanidade, embora, em tempos passados, tenha conservado a ilusão e ambição de passar para o outro grupo.
"Desejo e Reparação", o filme - que é mais fácil de achar que o livro - é um testemunho de quão bem podem caminhar duas linguagens diferentes, a literatura e o cinema. O filme reproduz com precisão o romance sem esquecer de ser, a sua maneira, outra produção, outra obra, outra coisa. Francamente, acho que só encontrei tamanha simetria entre audiovisual e original literário em Game of Thrones, que venho lendo paulatinamente há um tempo, na expectativa pela terceira temporada do seriado.
Espelhar um romance no cinema não é necessariamente ruim e não é, também, um impeditivo para que o filme alce seu próprio voo em direção à maestria, àquele ponto indistinguível onde os grandes filmes, os grandes livros e as grandes músicas se colocam. Prova do comprometimento com a qualidade na sua linguagem, o cinema, "Desejo e Reparação" tem uma trilha sonora indelével da alma e uma das cenas que, do ponto de vista técnico e estético, está entre as mais impressionantes que vi.
É o plano sequência de mais de cinco minutos, envolvendo mil figurantes, ação cronometrada de cada um deles, uma precisão marcante de movimentos, sons, vozes e ações. Foram necessários apenas cinco takes, cinco tentativas. Joe Wright optou por usar a terceira delas na montagem do filme. Plano sequência, se você não conhece o termo, refere-se a uma cena rodada sem cortes, um longo movimento de câmera, seguindo a ação.
Abaixo, a famosa cena do plano sequência:
http://www.youtube.com/watch?v=lJ--DSeIUZ0
O sujeito que publicou o vídeo não autorizou a incorporação do conteúdo, portanto abra o link você mesmo.
O operador da câmera fez boa parte do percurso com um pequeno carrinho, que roda sobre trilhos. Em certa altura, ele desce do carrinho e caminha para um coreto, sobe as escadas, contorna o coreto em direção a uma rampa de madeira, sobe, circula os soldados que cantam, desce do coreto sobre uma especie de carroça, move a câmera no eixo para encontrar o protagonista, conduz a ação até um píer, onde desce da carroça, sobe no píer, segue o elenco e, por fim, gira a câmera numa bela imagem, que encerra uma soberba realização de aprumo técnico e estético.
"Desejo e Reparação", o filme, prova para o cinéfilo enjoado que filme bom não precisa vir do Irã (pra falar a verdade, não acho que venha nenhum filme bom de lá). O livro me deixou com o amargo sabor na boca de quem desistiu de muita coisa na vida e, em especial os sonhos, para se abraçar longamente na fuga da arte, da imaginação e do remorso que, decantado pela passagem das décadas, curte a alma e, por mais que se esforce, não logra afogar o que de humano há no arrependimento.
às 05:47 0 comentários Marcadores: Cinema, Cultura, Memórias
quinta-feira, 24 de janeiro de 2013
Aforismo - Godarismos sobre Tarantino
As pessoas não gostam de coisas como Tarantino por amor ao cinema, interesse pela arte, cultivo da linguagem audiovisual. É por preguiça.
às 17:14 0 comentários Marcadores: Aforismos, Cinema
segunda-feira, 21 de janeiro de 2013
Goddard em Tarantino
Perguntaram para o velho Goddard sobre a homenagem que Tarantino fez a ele, batizando sua produtora como “Band A Part”, nome de um de seus primeiros filmes. O cáustico Goddard respondeu: “Eu acho o trabalho dele nulo. Ele escolheu o título de um dos meus piores filmes para dar nome a sua produtora. Isso não me surpreende em nada.”
às 20:23 0 comentários Marcadores: Atualidades, Cinema, Memórias
Tarantino é ruim de doer, é o Lenny Kravitz do cinema
Quando, há mais de um ano e meio atrás, li que Quentin Tarantino preparava um western-spaghetti imaginei bem no que ia dar. O resultado, presente em "Django Livre", é um dos filmes mais aborrecidos, modorrentos, repetitivos e desnecessariamente longos que tive a chance de ver na vida. Mas é assinado por Quentin Tarantino, então vira clássico pós-moderno instantâneo.
Ponto, parágrafo. Em primeiro lugar, Quentin Tarantino é uma tremenda mala. Tarantino é um diretor de cinema muito, mas muito, sobrestimado. Seus filmes, há muito, limitam-se a reproduzir-se, apenas mudando o título, e as vagas inspirações que o diretor e roteirista usa para fazer valer o seu clichê preferido: o exagero. Tarantino é visto por muita gente como gênio do cinema. Não é. Arte não é reprodução, é exploração dos sentidos, fuga da realidade, inovação. Tarantino limita-se a copiar o mesmo filme a cada dois anos. Nesse sentido, seu trabalho não difere muito das novelas, iguais entre si ao longo de décadas. A única diferença é que sai o triângulo amororso/romance proíbido e entra o dueto vingança/cenas com muito sangue.
A Rede Globo devia investir no Quentin para suas novelas instantâneas.
"Django Livre" tem seus bons pontos. A atuação de Christopher Waltz não chega a qualidade do gentil e cordato oficial nazista de "Bastardos Inglórios", mas certamente coloca o ator a milhas de distância de muita gente por aí. DiCaprio rouba a cena com as explosões de seu personagem e o controle em cena. Sobre o elenco, paramos por aí.
Disse Tarantino sobre sua estupidez na forma de filme: "agora você tem a chance de inverter a história e pegar um personagem
escravo e dar a ele uma jornada de herói, fazer com que ele se vingue, e
mostrar esse épico da maneira que ele merece – o tipo de ópera
grandiosa que ele merece". Menos, Tarantino, bem menos.
Ainda
no paralelo com "Bastardos Inglórios", e seguindo a infeliz declaração
do parágrafo anterior, Tarantino disse que queria dar uma vingança aos
escravos norte-americanos com o filme, como fizera para os judeus com o
filme anterior. Sério? Ele vingou alguém? As comunidades judiacas e
africanas, igualmente vítimas de holocaustos, sentem-se com as almas
lavadas? Esse tipo de noção mostra o quão absurdo Tarantino vem se
tornando, o quão em desuso suas mal pensadas e exploradas referências
estão. Ele se leva a sério demais, se qualifica como o vingador de duas
etnias por meio de dois filmes inconsequentes e profundamente
irrelevantes na grande escala das coisas: o crime humanitário da
escravidão, os holocaustos, a morte de 20 milhões de judeus numa guerra.
No parágrafo anterior citei Waltz e "Bastardos Inglórios". Quem viu o filme de 2009 sabe que se trata de uma peça de humor tragicômico, onde uma porção de soldados aliados dedica-se a aterrorizar, na base da violência e do maior espírito de porco possível, todo o efetivo nazista estacionado na França. Agora, para quem não viu "Django Livre", basta tirar nazistas e colocar fazendeiros. França por velho oeste. Aliados por escravos. Pronto, resumido "Django Livre", novo velho filme de Tarantino que, eles, os neófitos já incensam às excelsas alturas de um panteão a que a longa, aborrecida e modorrenta peça de Tarantino não tem direito.
O panteão é aquele dos magistrais westerns-spaghettis. Dos quais, o próprio "Django", de 1966, faz parte. Com Franco Nero, o filme original é bem superior ao de 2012, que de resto, só lhe conspurca o nome. Para dar diapasão da diferença de um e outro, o filme de 1966 coloca Franco Nero na pele de Django, um pistoleiro que circula pelo empoeirado oeste carregando um caixão nas costas. Pois é. "Django Livre" coloca um escravo na pele improvável de um verdugo, vestido de azul, no meio de verdejantes campinas. Curioso observar que "Bastardos Inglórios" também rouba o nome de um filme dos anos 1970, que tratava sobre a Segunda Guerra.
Muito criativo, Quentin Tarantino.
Aos neófitos, Tarantino parece ser um tipo de ícone, de mestre de um cinema cheio de técnicas e detalhes que ele, Tarantino, tornou em clichê ao repeti-los à exaustão. Bons diretores têm estilo. Você reconhece traços, enquadramentos, detalhes de edição, por exemplo, no trabalho bem feito de quem procura contar histórias por meio do aprumo técnico e das especificidades de cada situação. Tarantino, não. É um borrão ensanguentado desde o primeiro filme, uma extensa e muito sobrestimada repetição de exageros, cortes de câmera repetitios e cenas de tiroteio e combate que são, a rigor, sempre uma reedição das anteriores.
Como é meio comum em suas realizações, Tarantino procura provocar o riso. "Bastardos Inglórios" tinha momentos engraçados, normalmente protagonizados pelo interessante e, admito, rico contraste entre o personagem gentil e civilizado de Waltz com o sanguinário e violento de Brad Pitt. Em "Django Livre", não há uma situação cômica de fato. Uma delas, que provocou riso na plateia do cinema, se dá quando Django adquire o direito de se vestir conforme lhe agrade, direito impossível para um escravo. A piada se revela pueril, gasta - você já viu no seu sitcom preferido um milhão de vezes - mas tem seu efeito para quem exige pouco de um filme, ao usar o recurso do corte e do absurdo visual.
Outra ponta de humor está no diálogo meio Monty Python dos membros da Ku Klux Klan. É engraçado, mas não faz parte do filme. É só mais um dos muitos momentos que, claramente, poderiam ter sido excluídos do produto final. Só devem ter sido mantidos porque Quentin Tarantino, incensado pelos neófitos, se leva a sério demais.
Savvy-die-hard-fucking-cinéfilos verão diversas referências no filme, como a ponta de Franco Nero, o Django sessentista, o nome do saloon aludindo ao diretor dos Djangos originais. Nada demais. Esse tipo de referência não agrega nada no filme e serve só para você cutucar a namorada, dizer de onde vem a referência, e soar muito fodão. Sai dessa, Tarantino, com ou sem essas alusões, seu filme é uma bomba.
A trilha sonora de "Django Livre" me pareceu excelente. E, de fato, deve ser: assinada por Ennio Morricone, não poderia ser nada menos do que perfeita. O que não é mérito de Tarantino, que se esforçou o mais que pode para avacalhar um gênero histórico do cinema e conspurcar o bom nome de Django, filme de excelentes proporções para sua época e aspirações. Não vou entrar no mérito da cagada de colocar um rap no meio de um western.
"Django Livre" segue a toada do clichê ensanguentado e violento, que marca uma trilha pela jornada de Quentin Tarantino no cinema. Violência não é problema. Há filmes deliciosos, que são muito violentos. O problema é a falta de propósito e o fato de que, ensimesmado demais, convencido demais, elogiado demais, Tarantino acha-se no direito de viver no clichê. Um repórter perguntou sobre a violência nos seus filmes, Tarantino respondeu: "não vou responder o que você quer, não sou seu escravo".
Relaxa, cara. É só um filme. Bem ruizinho, e só.
Daqui dois anos, Tarantino escolhe outro filme antigo, rouba-lhe o nome, e refaz "Django Livre". E você ouvirá elogios por todos os lados, assim como ouve para as novelas. E vai continuar sendo incensado pela minha geração, que acha descolado gostar dos filmes ruins de Tarantino.
A melhor definição sobre Quentin Tarantino ainda é aquela que, em 1980, deram a outro grandessíssimo plagiador, Brian de Palma: "ele apenas faz filmes sobre outros filmes".
às 16:14 0 comentários Marcadores: Atualidades, Cinema, Cultura
sexta-feira, 18 de janeiro de 2013
Rádio: Sigur Rós - Ará Batur
Amarguemos mais um fim de semana escroto para mais uma semana escrota de uma vida escrota ensombrecendo a alma, turvando a vista de lágrima, o coração de decepções, a mente de arrependimentos e o corpo de remorsos.
Deixo-vos com a trilha sonora de um velório.
às 19:59 0 comentários Marcadores: Memórias, Rádio blogue
quinta-feira, 17 de janeiro de 2013
Verbete para "jogou a própria vida no lixo"
Faz algum tempo que não me dou às filosofias, vir aqui escrever longamente sobre qualquer coisa. São vários os motivos. Primeiro, não acho que nada do que tenha a dizer vale à pena. Segundo, eu já fui bom de escrever, quando estava de veia, ia longe. Mas perdi o jeito. Parei de ler bastante, enferrujei. Hoje troco letras, antes eu compunha. Escrever relaxava, era divertido, e não descansava até que minhas construções soassem originais, bonitas, interessantes. Na verdade, talvez, eu só fosse pedante demais.
Terceiro, tudo muda. O tempo passa, ele não faz outra coisa, observação que criei no tempo em que escrevia, e a gente vira outra coisa. O Tertuliano de hoje mal se recorda do porquê escolheu Tertuliano como pseudônimo. Mal se lembra de coisas que considerou importantes antes. Chega ao ponto de referir-se a si mesmo na terceira pessoa.
Quarto, escrever, e sobretudo ir longe sobre a vida da gente no processo, nos obriga a olhar para quem somos, para o que viramos. Eu não gosto de olhar para o que virei, para quem sou. Falta-me muita coisa para a satisfação de ser, falta-me tempo para recuperar o que se perdeu e, pior de tudo, falta coragem, coragem que nunca tive, aliás, para virar a mesa. Eu sempre fui fraco e de viver na sombra.
E é por isso que eu resisto a mudar, é por isso que eu sucumbo a cada dia infrutífero, a cada desperdício de tempo, energia, vida, recursos, mente, alma e juízo em que a minha vida se transformou. Eu vou me afogando no fel diário do emprego que não me satisfaz, das contas, da falta de perspectivas, do erro histórico, do não poder voltar no tempo.
Não se engane pelo tom lamentado do texto, porque eu sempre fui meio tristinho. Sorte ou azar, a minha eterna passividade e fraqueza nunca me levaram a ser mais radical, nunca virei emo, por exemplo. Não cometi suicídio, o que dá para perceber. Eu sempre fui fraco para reagir, e sempre fui fraco para sucumbir. Sem sangue a correr quente pelas veias, virei refém da vida que não construí: virei refém da vida que me coube, que caiu nos meus pés porque, verdade seja dita, eu nunca corri atrás de algo melhor. A vida que me sequestrou sem que eu esboçasse reação, a vida que veio e matou os sonhos que eu tive, as chances que podia almejar, o futuro que dava para construir.
Vivo numa meia-vida indolente. Meu destino está escrito nas guampas afiadas de cada um dos dias que, como hoje, me acertam pelas costas, vergam minha alma, quebram meu espírito, torcem o pouco de bom que há, ainda, em mim. Eu tenho sangue de barata, barata sapiens sapiens, aquela que sabe que sabe que tem sangue de barata para a vida e, mesmo assim, é incapaz de torcer o boi, quebrar-lhe as guampas e montá-lo, tomando controle dessa maledeta vida.
Logo poderei submeter o requerimento para que, nos dicionários, meu nome conste como sinônimo para um complexo verbete, a ser criado, e que significará "jogou a própria vida no lixo".
Mais cedo, mais tarde, pouco importa, a vida vai me engolir. Daqui, vou esperar isso, vou continuar a, no escuro, regar as flores mortas do passado. A reboque, eu vou esperar sentado, cismando comigo mesmo, e remontando cada uma das chances que eu tive de corrigir o rumo e, mesmo assim, esperei, apalermado, tudo ruir na minha frente.
às 18:15 0 comentários Marcadores: Memórias
