segunda-feira, 4 de maio de 2009

E agora, José? II

O autor talvez seja Italo Calvino, na verdade. O que significa que o livro é de múltiplos fins, múltiplas opções e múltiplos destinos. E aí é que está o busílis: leio/escrevo esse capítulo, ou corro de braços abertos para o outro?

Ah, as escolhas.

E agora, José?

Alguém aí já teve a nítida sensação de viver nas páginas de um romance? E, pior, num do Hesse, do Kafka ou do Kundera?

Estou num diálogo que diz assim:

"- E eu bem que gostaria de saber onde é que tudo isso vai dar..."

Fardos e fados

Pensava eu na vida;
Nos dias mais felizes
Na alegria que não tive.
No arrependimento que viceja,
E atira aos ombros o doce fardo
de todos os sentimentos não vividos.

E de tudo que fui
De tudo que vivi
Quisera eu poder
Ser o que não fui
Viver o que não vivi.
E tudo que já não importa mais.

domingo, 3 de maio de 2009

Onde moram os preconceitos

E eu de fato fui ao show do Reginaldo Rossi na Virada Cultural, naquilo que se convencionou chamar de Tenda Brega, no Largo do Arouche. Me surpreendi. Na verdade fui porque era algo diferente, mas não esperava me divertir tanto. Sou alternativo demais para ir ver, sei lá, Vanguart e as demais bandas de rock.

O público num evento desses tende a ser sempre algo diferente. E eu esperava gente mais velha, que curtisse o estilo exacerbadamente romântico, que conhecemos como brega. Nada disso. Esssas pessoas estavam lá, mas havia gente jovem, completamente diferente de um possível estereótipo do fã de brega que podemos ter.

Interessante ver a performance de Reginaldo, interagindo até demais com o público em diversos momentos, dando prelecões acerca da maneira muito particular com que enxerga a vida. Interessante também a profissão de fé de Rossi sobre o preoconceito com o tipo de música que ele e seus confrades fazem.

Ele cantou canções como "I will survive", traduziu a letra e mostrou que é brega também. Cantou trechos de Sinatra e fez o mesmo: "por que o Sinatra pode e o Waldick Soriano não pode?". E ele tem razão. Música por música, talvez, não haja diferenças grandes entre umas e outras. A diferença é o meio em que um Sinatra vicejou, o público para o qual fala, o fato de estar bem vestido sempre também contribui.

De qualquer forma, por mais que tenha exagerado ao colocar algumas composições no mesmo rol do, vá lá, ultra-romântico, como "Something", Reginaldo ganhou um simpatizante. Sua conduta e atenção para com as pessoas parecem realmente sinceras, e para quem conversa com um público mais humilde, isso é garantia de um bom respaldo perante ele.

Além da diversão do show, o público hum, digamos, interessante, da discussão em foro íntimo sobre o preconceito, foi um bom passeio. Se eu pudesse falar com o Reginaldo Rossi lhe diria que é tudo bobagem. O preconceito e a obcessão por rótulos daí proveniente que todos nós temos é uma idiotice. É tudo música. É tudo cultura, e é isso que importa.

sábado, 2 de maio de 2009

Perdas doem

Quando eu paro pra pensar nesse assunto, e confesso que nos últimos tempos ele vem sumindo cada vez mais da minha mente, tenho sempre a sensação de que foi muito cedo. Acabou rápido, de uma forma repentina e impensada, o que significa sempre muita dor. E doeu em mim. Significa também que tudo acaba de uma forma errada, dolorida, surreal. A sensação de que não devia ser assim, de que há algo para consertar. E que tentar valeria à pena.

Lembro que era de manhã. Aliás, era sempre de manhã que compartilhávamos alegrias incríveis. Eu era muito inocente para compreender tudo, mas era feliz e isso que importava. Até que tudo acabou.

E apesar dos precedentes, não era para terminar, afinal, havia ali tanto sentimento, tantas alegrias, tantas histórias, tanta entrega. Olhando em retrospecto o choque foi realmente impressionante, mas de uma maneira geral, já se viu vítimas de traumas maiores saírem andando, sem sequer acusar o golpe. Sem precisar levantar, porque sequer caíram. Mas daquela vez não seria assim, eu estava fadado a sucumbir nas dores das minhas lágrimas.

Lembro que acordei tarde naquele dia. Não conseguira levantar no horário - era fim de semana - e perdi o frescor do acontecimento. Contudo, lembro de tudo que veio depois, a dor, a tristeza, a comoção, a sensação de testemunhar uma história importante, mas amarga demais para ser contada, do fim de tudo e que hoje me parece já tão pueril.

Lembro muito bem de como reagi à notícia: chorei. Como todos mais, derramei as lágrimas, senti que perdia muito, que perdia tudo, uma boa parte de mim. Chorei, chorei escondido, lembro bem, no quarto de minha mãe, porque naquele momento me parecia o local mais isolado do mundo, o mais seguro para dar vazão aos meus sentimentos. Como uma redoma isolada, onde a dor que me consumia diria respeito à mim, que me via ali sumariamente solitário, absurdamente abandonado. Só e infeliz.

Ayrton Senna foi durante grande parte de minha vida um heroi. Aprendi com o tempo que ele era humano, que era capaz de atos mesquinhos, que fora em grande parte um produto midiático, que a sua obsessão pelo perfeccionismo não era saudável. Aprendi que não há heroísmo nenhum em vencer corridas de automóveis. Que suas vitórias eram dele, não do país inteiro em busca de redenção das suas misérias, dos seus fracassos, das suas vergonhas.

Mas não importa. Eu lembro com carinho a sensação de ter perdido um irmão, um tio em 1 de maio de 1994. A tristeza, o choque das pessoas. As freiras do meu colégio, as últimas pessoas que eu imaginaria capazes de comoção por conta da morte de um piloto, discursando com a voz embargada e pedindo orações pela alma daquela criatura que parecia tão forte, tão imune às angustias dos mortais, tão heroico que poderia vencer o tempo, a morte e a velocidade pela qual era apaixonado. Ele, naquele tempo, era um pouco meu também.

Organizaram uma exposição com objetos pessoais e até a Lotus amarela com que Senna disputou o campeonato de Fórmula 1 em 1987. Fotografei. Adoro F1 por conta dele e esse foi o segundo carro de F1 que vi de perto. Tirei fotos e prestei um tributo a um cara que, hoje, me diz pouco, talvez não mais do que um exemplo de desportista brilhante, de talento e competência em estado puro, mas que há uns 10 anos era um ideal de conduta, de comportamento, de vida mesmo, que eu seguia.

E talvez aí é que está o heroi Senna, por tantos buscado e por tão poucos encontrado: o sujeito, construído midiaticamente ou não, que é capaz de dar bons exemplos, inspirar pessoas a bons princípios e a boas atitudes. É um legado, sem dúvida, muito maior do que 6 vitórias em Mônaco, 41 vitórias na carreira e os três títulos mundiais. O sujeito que parecia de aço, que era uma força da natureza de dentro de um cockpit e que, ainda, tinha tempo para ser exemplo.

Muita gente naqueles tempos filosofou em público. Buscaram explicações para o inexplicável. Hoje, 15 anos depois do acidente na curva Tamburello, penso que poucos ainda são os que conseguem enxergar a verdadeira lição por trás do episódio: como diria Saramago, "certos estalos que damos, são para nos lembrar que somos caveiras". Senna parecia tão especial, tão imune, que nos esquecemos disso por um momento. O duro, como em qualquer perda, é o momento em que fomos forçados a perceber que nada, material ou sentimental, é para sempre.

Descanse em paz, campeão.

Reginaldo Rossi

Eu vou. Rá.

Só para constar

Apenas nessa semana que passou, encontrei aqui: Gislaine, Carol, Júnior, Aline, Paulo, Mônica, Douglas, Rodolfo e Ítalo. E há mais pessoas que não encontrei. E umas que gostaria muito de achar.

Ponta Grossa invade São Paulo.

Fim de semana agitado

A virada cultural é algo muito legal aqui em São Paulo. Domingo tem show de Reginaldo Rossi, Silvio Brito, Benito di Paula, Odair José e Wando. Tudo gratuito. Estarei lá lamentando profundamente a ausência de Sidney Magal.

Escrevendo do iPod fica difícil entrar em detalhes sobre a programação do final de semana, portanto assim que eu tiver acesso a algo com teclas de verdade, trarei mais detalhes da minha vida subcultural/alternativa/underground pela pauliceia.

Aguardem!

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Radioatividade

Não há poesia;
não há dia, nem paliativo
que alivie a verdade
de que eu vivo na intensidade
dos pulsos tresloucados
desse amor radioativo.

Na minha poesia não há versos.
Corroídos há muito como meu coração,
Ausentes como a percepção de mim.
Corrói procurar e não encontrar,
dói olhar e não te achar,
sequer em mim.

A poesia

Há poesia
na apoesia?

A poesia
é a poesia.

Onde há poesia
não há apoesia.

Ou a apoesia
é onde há poesia?

Quanta idiotice.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Sempre tem uma vez mais

Saudade...
a gente só tem saudade do que se ama.
A gente sente falta, se preocupa.
Dói. Perde todo dia um pouco mais.
Se abraça na culpa.
Não sabe o que faz.

Pensa, repensa, desiste.
Resiste.
Chora o amor que não pode.
O amor que foi pobre,
Ama.
E existe.

O amor não acaba.
O amor é.
O amor está.
Se acaba, não é.
Nem nunca esteve.

Quem ama, ama amar.
tira versos do aperto da garganta.
Sorrisos das lembranças.
Paz das lágrimas.
E amor do coração.

Você sentiu minha falta.
Pensou em mim.
Desejou meu rosto ao seu lado.
Meu carinho gelado.
Meu coração sem fim.

Não acaba.
Você me ama em segredo.
Me odeia. Me ama.
Paixão com ódio.
E eu amo sem medo.

Você sente falta do meu sorriso
Do meu interesse.
Dos meus dias bons.
Do cinema comigo.
Do meu cheiro.

Não acaba.
Você me ama.
Você sabe que estou em você.
E você em mim.
Pra sempre.

Da vida

E no no fim das contas, talvez, a vida não seja um porre de serotonina.
É na verdade uma embriaguez de cicuta,
que a gente vai bebericando de golinho em golinho,
Vive e envenena-se numa eterna labuta;
Experiências, pessoas e sentimentos...
E tudo, no fim, foi um sonho de que se acorda sozinho.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Solidão de guache

Sempre quando fico meio mal, numa béde, caio num bode, tenho vontade de recitar, falar para alguém que possa me ajudar, um versinho que aprendi com duas amigas queridas.

"Meu dia está em branco;
cadê você com meus potinhos de guache?"

O meu conceito de solidão é não ter para quem recitá-lo.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Aforismos - A nova onda

E a febre do momento é a gripe suína.

Rá.

Agnóstico por opção

Eu não sei do que são feitos os sonhos.
Mas isso não quer dizer que eles não existam.

Sou um agnóstico dos sonhos.
Tenho fé só na vida.
Só acredito no dia que vejo.
E não memória que tenho.

Tampouco posso provar que não existam.
E se o tempo é a medida da precariedade de tudo;
É certo que o sonho é o conceito da verdade,
da verdade insolúvel das coisas que não se vive.

Mas não posso ver neles verdades da vida.
Vejo nos sonhos as fantasias,
a realidade arrependida,
da alegria em que tudo poderia.

Os sonhos são feitos no coração.
vivem na alma, desmoronam na mente.
Propagam as diástoles de quem sente,
desfazem-se, doem e morrem de inanição.

Cenas dos próximos capítulos

Foi quando eu olhei pela janela
na última vez em que vi.
Ali matei e morri.

Foi quando eu busquei o sonho
Vi a verdade entre as lágrimas
E adormeci.

Voltei ainda pra dizer adeus.
E nunca mais.
E também algo mais.

Não disse o que devia.
Calei o que sentia.
E pela primeira vez eu mentia.

Voltei a olhar pela janela.
Me vi sonhando.
Me vi amando.

Aí acordei do sonho.
Olhei pela janela.
E não vi ninguém.

domingo, 26 de abril de 2009

Hipersensibilidade

E o pior de tudo
é acordar irresoluto.
Num dia mudo,
sentindo tudo.

Blogger, eu te adoro

Descobri que programar as postagens funciona. Você marca o horário que ela deve subir e tornar-se pública. Um barato. Posso viajar hoje pra São Paulo e ficar tranquilo, porque durante toda a noite, nos horários marcados, meus textos serão postados.

Evidente que seria ainda mais legal se fossem lidos. Mas eu já abri mão de muitas ambições, e a de ser lido tem sido uma delas, ultimamente.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Twitter

Eu torço o nariz com a maior angulação possível permitida pelos músculos da face para o fenômeno do microblogue. Das diversas ridicularias que o progresso da informática nos traz, quero crer, o Twitter há de ser o limite. Não dá pra ir mais fundo nesse poço. E para continuar na anatomia, declaro que ao pensar nesta rede social eu exercito os bíceps do desprezo.

Presumo que um serviço que permite que se diga algo em 140 caracteres, na verdade, permite que não se diga nada. E é comovente o número de pessoas que não tem nada a dizer e o número das interessadas em nada. São as que seguem. "Seguir" é ler o nada que outros tantos dizem por aí, via sites, mensageiros instantâneos, sms e outras modalidades de inundar a internet de nulidades.

O recordista em fiéis no serviço de microblogue é Ashton Kutcher, que vem a ser o distinto senhor de Demi Moore, somando 1,384,263 seguidores até o momento, e contando. Uma celebridade de segundo escalão, portanto, que pode bradar aos quatro ventos, desde que em no máximo 140 toques, a duvidosa, a meus olhos, honra de que "é o primeiro twitter a romper a barreira do 1 milhão de seguidores" - o que nos dá 66 caracteres, descontadas as aspas. É o homem a ser batido no Gorjear até o momento. Gorjear que vem a ser a tradução de "twitter". Gorjear, afiançam os dicionários, é propagar sons agradáveis, sobretudo se você for um pássaro. No caso, permita-se a liberdade poética de se dizer que na internet gorjeia-se a não mais poder escrevendo, e não emitindo ruídos. Ainda.

Mas não são apenas as celebridades de baixo quilate que se entregaram ao, até aqui inédito, sistema de comunicação onde se diz muito pouco, se comunica menos e se difunde muito. Obama tem twitter, man. Aqui no Brasil Marcelo Tas assinou um generosíssimo contrato com a Telefônica para que a empresa patrocine seu microespaço. Até o bispo Macedo dá sua contribuição, em 140 caracteres, sobre os preceitos do bom Deus, que caso tivesse ditado seus Evangelhos nos doidos tempos que correm, provavelmente, teria muito mais fiéis do que tem, sobretudo se fosse capaz de espreme-los nos 140 toques permitidos - mas para Deus nada é impossível, ao menos assim rezam os mesmos Evangelhos.

Dizem que gorjear é apenas mais um passo na revolução da cultura snack da informação, para qual 50 em cada 10 jornalistas estão vergonhosamente despreparados. Me dá calafrios. Não por conta da profissão, mas por conta do mundo.

Para embasar mais esse meu panfleto contra o microblogue, fui eu estudar o que, afinal, Kutcher tem a dizer de tão contundente para que mais de 1 milhão de pessoas façam-lhe a honra de lê-lo em tempo real. A mais sensacional das micropostagens do marido de Demi Moore deu-se em março último, quando este postou uma foto da porção final da espinha da venerada atriz, que como se sabe é uma área excusa da anatomia. No caso de Demi Moore há que se mencionar que há uns bons 12 anos que a referida porção de é de domínio público. Desconhece-se, contudo, em quantos caracteres orçam os glúteos da esposa do maior gorjeador de todos os tempos, até o momento. Meu palpite é de que, caso tenham mantido as proporções e linhas de 12 anos atrás do Striptease, sem dúvida, trata-se aí de nádegas de muito mais do que 140 caracteres, sim senhor.

Mas não é só de nádegas que Kutcher fala o seu nada cotidiano. Mais que isso, Kutcher faz jus ao sucesso. Seu repertório de corolários, aforismos e sentenças abarcam muito da sabedoria humana, como, por exemplo:

"O twitter está fazendo o meu cão Bama muito anti-social"

"Meu milionésimo seguidor foi...Sinneratre100. obrigado!"

"A melhor maneira de se saber se alguém é confiável é confiando. E Hemingway."

"Qual a melhor maneira animal-amistosa de se fazer com que um cão pare de latir?

"Estou de saída para uma festa de níver surpresa para... Uh, melhor não dizer o nome."

"Alguém por aí viu algum filme bom no fim-de-semana que passou?

"Nossos cachorros nos levaram para dar uma voltinha."

"Vírus estomacal, vai-te daqui! Quem poderá dizer que vomitou e teve diarréia na casa de seu rabino?"

Pois é. Vão morrer os jornais, a crise vai acabar com o emprego de todo mundo, a CNN já informa por Twitter (profundidade pra quê?). É o fim dos tempos. Mas não tô nem aí, quero mais que o mundo acabe, que se explodam, a vida num mundo onde tantas pessoas se armam com o Twitter não vale à pena ser vivida.

Sem palavras por quê?

Bakhtin não era poeta, e pode ser que isso o faça incompreensível para muita gente. É mais ou menos pra mim, que tenho luzes que cheguem para iluminar alguns dos rudimentos do teórico russo, mas não o entendo em absoluto. Pode ser, portanto, que eu seja uma besta. Por outro lado, veja aí o caso do Schopenhauer, que desancava o Hegel, chamava-o de enganador, de besta e coisa muito pior, porque escrevia Hegel de uma forma tortuosa que poucos compreendiam. Ou compreendem, como é o meu caso que não entendo absolutamente nada do que me diz Hegel, o que pode indicar que ambos, Bakhtin e Hegel, é que são as bestas e não eu, novidade extremamente positiva para animar este meu combalido ego.

E Mário Quintana, que era poeta, o que significa que era um filósofo da alma humana, e na simplicidade explica tudo que Bakhtin se debateu por dizer numa existência inteira:

"A gente pensa uma coisa, acaba escrevendo outra e o leitor entende uma terceira e, enquanto se passa tudo isso, a coisa propriamente dita começa a desconfiar que não foi propriamente dita.

Quando alguém pergunta a um autor o que este quis dizer, é porque um dos dois é burro".

Tudo isso para dizer que, no fim das contas, ser limitado pelas palavras é uma desgraça. Não digo metade das coisas que preciso, posso e devo escrevendo ou falando. É ruim. Não sou só eu, inclusive. Todos nós. Eu só sou um pouco mais obcecado pelo assunto do que as outras pessoas. E não estou sozinho, além de Bakhtin e Quintana, com enorme orgulho cito José Saramago, que dúzias de vezes em seus escritos volta-se a discutir o sentido de uma frase, de uma palavra pelo que é, pode ser, poderia ser ou deveria ser.

O que é, no fundo, uma tremenda burrice, porque inútil. O assunto é insolúvel, não só para meus modestos predicados intelectuais, mas também para os Bakhtin(s) do mundo. Só seria resolvido na medida em que desenvolvêssemos uma forma de comunicação que trata-se das coisas pela sua essência, e essa seria a telepatia - comunicando nossos pensamentos pelo seu sentido exato, que é por definição inexprimível na língua falada e escrita.

O que por conclusão nos diz que o cerne do problema está em que não há quem leia e ouça que possa entendê-las, as palavras, pelo que são. Pelo que falam, pelo que dizem, pelo que deixam de dizer, pelo que se completam nas lacunas de um pensamento errático, claustrofóbico e ansioso - como o meu, por exemplo. É uma sensação de solidão estranha descobrir que falando, ninguém se entende.

Numa língua telepática os pensamentos falariam. Você não sentiria mais a cadeia de "não ter palavras" para designar um estado de espírito, ou uma sensação, provavelmente nos entenderíamos todos muito melhor, além do que os idiomas seriam dispensáveis. Hoje ao sermos confrontados com uma situação extrema, de qualquer tipo, caímos no "não tenho palavras". O que nos leva a pensar, ou leva à mim a pensar, sintam-se à vontade em discordar, que o mal do mundo é que os sentimentos não falam. E falar por eles, conforme a larga história humana nos tem mostrado, é o princípio dos inauditos fracassos humanos.

Não há Bakhtin que resolva isso no mundo. Mas há muito Quintana para dizer que, no fim das contas, todos passarão, e eu passarinho. Há muito(s) Quintana(s) no mundo para dizer o que é a vida, as escolhas, as dúvidas e o que somos. Queria eu ser um deles. Porque se minha capacidade de entendimento do mundo é limitada a tal ponto que minha capacidade de extravasá-lo, descrevê-lo e transcendê-lo torna-se vã e sensivelmente falha, mais vale deixar de lado qualquer pretensão de sentido pleno, de clareza, de objetividade e ser poeta. E o mundo sempre precisará de poetas, por mais que muitos pareçam dizer nada com nada e falem coisas das maneiras mais distantes, abrindo toda a sorte de possibilidades de interpretação, o que amplia o problema do limite da linguagem. O mundo precisa de mais Quintana(s), Drummond(s), Neruda(s), Parra(s) (etc), porque poetas dessa dimensão são capazes de dizer muito com pouco.

E é curioso perceber que se um número dramaticamente maior de pessoas lessem Quintana, cada uma delas entenderiam de uma forma, ou seja, não contornamos o problema da linguagem, apenas agravaríamos. Mas ainda assim seria um mundo mais bonito. Múltiplo, confuso como é hoje, mas muito mais bonito.

Eu queria, mais do que ser como Quintana ou Saramago, que minhas palavras, ditas, escritas e pensadas, fossem tidas pelo que dizem, e até pelo que omitem. Mas jamais pelo que os outros querem ler delas.