segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Como ser escritor para dummies

Eu li o novo livro do Gay Talese, lançado há coisa de dois meses aqui no Brasil, chamado nestas plagas de "Vida de Escritor". Ok. Retifiquemos, na verdade ainda estou lendo. Já não sou o mesmo devorador de páginas que antes e não canso de me mortificar por isso. Mal da idade. Mal desses 24 anos de sangue, de sonho e de América do Sul, como nos diz o bom, já não mais sumido, Belchior.

E para gáudio deste que vos escreve o livro em questão, "Vida de Escritor", não é tão bom quanto os demais escritos por Talese. Não. De forma alguma. "Vida de Escritor" não é tão bom como "Fama e Anonimato". É melhor.

Qual o critério usado? Na verdade, um bem subjetivo. Como trata-se de um livro voltado ao próprio Talese, torna-se mais um manual de como ser escritor. O personagem principal na obra não é mais o sujeito anônimo com algo a contar que mereça ser publicado. O personagem principal é o próprio Talese, contando suas manias, sua maneira de escrever, de cavar uma pauta. Nasce aqui um clássico do Jornalismo Literário porque nos ensina a todos que honramos um pouco o gênero como Talese trabalha. E me aborreço ao pensar que, tivessemos uma versão brasileira deste livro há dois anos, e meu TCC ficaria melhor. Bobagem, porque não fez falta.

O livro rende bons momentos. É excelente se sentir de certa forma íntimo de uma pessoa a quem você admira. Conhecer como são as casas e o cotidiano do escritor, ainda que há 10 anos atrás - que é o período do princípio do livro - é algo delicioso.

Assim como conhecer um pouco da história de vida de Gaetano. Saber, por exemplo, que ele veio a se tornar jornalista e escritor por conta de um Sr. Garrett, que fora editor importante do The New York Times, e que o inspirou Talese na juventude. À mim foi um episódio passado quase que completamente despercebido na obra. Não chamou nenhum pouco a minha atenção que o tal Sr. Garrett seja descrito como um sujeito loquaz, de voz forte e que, embora beirando naqueles tempos - 1948 - os setenta anos, não apresentasse nenhum sinal de debilidade física. As passadas eram vigorosas. E que Talese via muitos homens elegantes na loja de seu pai, mas nenhum como Garrett. "Ele personificava em mim o esplendor metropolitano para o qual eu esperava um dia fugir", remata Talese.

Nem me chamou a atenção. Curioso.

domingo, 6 de setembro de 2009

Sonhando na varanda

Da varanda vê-se muita coisa. Se eu fosse recorrer aqui a uma metáfora superlativa para dar tino à vista que se debruça da varanda e tempero ao texto que se desenrola por aqui, diria que se vê ebulição. Não há ponto para o qual você se volte dessa varanda que não exista algo acontecendo. A vida passa aqui incessantemente, 24 horas por dia.

Sentado, eu sorvia porções módicas de vodka. Eu não sou um cara de vodka; gosto de outras bebidas. Sempre quando bebi vodka nas esbórnias de universitário dei margem as passagens mais non-sense de todos esses 24 anos de sonho, de sangue e de América do Sul. E o pior, a vodka tem em mim um efeito amnésico revoltante. Nunca lembro de porra nenhuma depois de um porre de vodka. Por essas e outras, mais outras do que essas, não sou um cara de vodka.

De qualquer forma, o risco, confessemos, não é tão grande. Não vou me embebedar. Eu já passei da fase. Bebo, hoje, porque bebo. Antes, mais ou menos como o Jânio Quadros, porque era líquido. Sólido fosse, come-lo-ia. Jânio Quadros era um frasista sensacional. Na verdade, porre hoje em dia não tem a menor graça. Provavelmente me sinto como o velhinho desdentado que não vê a menor graça num churrasco. Hoje eu bebo porque bebo. Só pela pose. E pela solidão dessa varanda.

Assim como a bebida, várias coisas hoje são relativizadas na minha vida. Eu não ligo. O tempo passa, as prioridades mudam, a maneira como a gente vê a vida também. O ruim, mesmo, é relativizar sonhos. Quando você se força a admitir que o sonho é inatingível, ele deixa de ser projeto. Vira, mesmo, sonho. Vai morar na caverna do Platão. O que, por seu turno, é bastante curioso. Vai morar, o sonho, num mito. É a materialização no campo das racionalizações de um mundo de quimeras esse, onde vão os meus sonhos habitar cavernas que são mitos platônicos.

E eu que carrego todos os sonhos do mundo no peito, me debato ao matá-los sazonalmente e mandá-los aos diabos que os carreguem pelas cavernas platônicas. Mas eu os mato. É melhor deixar cadáveres pelo caminho do que carregar peso morto, filosofia, essa dos cadáveres pelo caminho, há muito inaugurada pela sanha incompreensível dos assírios que, atestava meu pai, que dentre outras dignidades tinha a de professor de História, "foram os assírios o povo mais espírito de porco de toda a Antiguidade", e só viriam a encontrar rivais nesse quesito com os hunos, já aí na Idade Média, que tinham Átila como seu líder, aquele que se dizia ser o "Flagelo de Deus" e que por onde pisava seu cavalo, a grama não mais nascia. O que abriu ensejo para aquela frase excelente do Millôr: "tudo passa, tudo passa, me dizem. Átila também passava e vocês sabem o que acontecia com a grama".

Enfim. Deixando os sonhos pelo caminho, evito moribundos a drenar minhas sístoles, minhas diástoles. E se no caminho fui desovando tantos, é bom lembrar que, mais leve, andei mais. Fui e vou mais longe, tomando um novo caminho sem medo das subidas. Me lamento por quem não sabe levar a vida assim, dando de ombros e dando risada. Sinto pena, até. Porque eu desisto dos meus sonhos, e sorrio, certo de que de mim não fazem mais parte. E pelo caminho, ora, sempre se tropeça com sonhos novos.

E a quem interessar possa, vou sonhando-os muito bem, obrigado.

Rádio: The Bambi Molesters - Ice and Pinewood Trees

Ah, a minha praia em matéria de música, pode-se dizer. "O homem que mais entende de músicas de fossa hardcore", já me disseram. E, sendo franco, eis aí uma seara onde meus parcos conhecimentos musicais são bastante válidos.

Não sei como esqueci de postar essa banda que é... croata. Croata. Putz. A internet é uma maravilha, mesmo. Os caras são... croatas. Aquele povo simpático, que tem a bandeira com aquele distintivo em xadrez vermelho e branco. E que residem nos balcãs.

O som dos molestadores de Bambis, que é, veja você, a tradução do nome da banda que, torno a ressaltar, é croata - porra, croata! -, é algo que se situa além do pós-rock. O pós-pós-rock. Gênero que dispõe, por certo, de um nome específico, mas que eu esqueci completamente e tenho enorme preguiça de procurar nesse fim de noite de sábado. Contentem-se com o pós-pós-rock.

A canção que escolhi para este post foge completamente do comum dos Bambi Molesters. Chamaram para o vocal, que é um destaque a parte dessa faixa, Chris Eckman, do The Walkabouts, outra excelente banda, só que não croata, que a seu tempo terá aqui um post. Notem o vocal grave e soturno, a melodia bem balanceada da banda da Croácia - porra, eslavos fazendo rock! Há vida nos balcãs, chupa Milosevic! - melodias ótimas são, aliás, uma marca dos caras que raramente colocam voz nas composições.


sábado, 5 de setembro de 2009

Lavagem cerebral

Que beleza. Entrei na onda e assisti ao Anticristo de Lars Von Trier.

Agora preciso lavar meu cérebro.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

O dia em que cresci

Ultimamente venho reparando nos pensamentos que me ocorrem nos instantes antes de dormir. Nos raros instantes antes de dormir, frise-se. Quando era criança, eu pensava sobre o universo. Sobre o conceito de tempo e espaço. É mesmo infinito, o universo? Qual é a dimensão de algo infinito? E o tempo, também não tem fim nem começo, então como pode ser medido? Como pode, aliás, não ter fim nem começo? Um dia viajaremos tão rápidos como a luz, e quem sabe até mais velozes que ela para podermos conhecer outros mundos? Existiram e existirão outros mundos? O que é a morte? As pessoas mortas sentem? Os ruídos lá fora, é algum assaltante rondando a casa ou qualquer coisa acontecendo ao acaso? Se eu viajasse no tempo, para quando iria? Se eu der a volta na Terra à velocidade da luz eu chego ao ponto de partida antes de ter partido? Isso significa viajar no tempo? Se sim, a luz viaja no tempo? Por que dinossauros eram enormes e tinham cérebros pequenos? Por que somos pequenos e temos cérebros grandes?

Ponto, parágrafo: eu lia muito Julio Verne.

Aí o sono vinha em alguma das respostas, ou arremedos de respostas que eu desenvolvia antes de cair aniquilado de sono. E, hoje, mais de dez anos depois dessa época, observo que as perguntas que me faço antes de dormir são tão bobas. Fáceis de responder. Normalmente elas são respostas com interrogações, só isso, e mesmo assim me pergunto. Desimportantes perante a complexidade do tempo e espaço, da vida e da morte, da dimensão do nosso universo em expansão, levando-se aqui fé em certas vertentes teóricas.

Hoje eu me preocupo em trabalhar, e a me perguntar sobre o assunto. Meus projetos darão resultado? Porra, eu tinha que iniciar 4 coisas ao mesmo tempo? Não vou dar conta e não vou ter em quem por a culpa? E essa merda de vizinho? Quando é mesmo que House reestreia?. Hoje eu me ocupo em planejar o feriadão com os amigos. Com a defesa do São Paulo, me censuro por não ler tanto quanto lia há algum tempo. Hoje a vida ficou sem graça nas perguntas. E nas respostas também.

Coisas

Eu vou sentindo a intimidade das coisas impossíveis.
Tudo que não é, que não pode.
A intimidade da dúvida,
a existência do medo.
A vivência da saudade.

Eu vivo de impossibilidades.
Eu venço dias e verdades.
Eu me perco nas possibilidades,
eu desisto das saudades.

As perdas são saudades
e a saudade não passa de o lapso de um minuto.
Sequer é a falta do que passou,
do tempo que aconteceu,
a saudade é um minuto,
o tempo que envelheceu.

A saudade é a impossibilidade de viajar
o tempo é dimensão única, dá onde tem que dar.

A saudade se mede em copos numa mesa de bar
Se mede em litros de lágrima a nos queimar,
a saudade ferve em brasa no peito de quem sabe amar.
A saudade nos ensina que é impossível viver sem se machucar.

Do impossível eu vivo.
Dele tiro verso, ele eu respiro.
De impossível eu faço livro.
E melancolia para a minha vida adoçar.

Não temos mais Cadernos

Foi com algum desagrado que recebi a notícia. Verdade que seja aqui dita, os últimos tempos vem sendo constantemente ocupados por algum desagrado, e este, de hoje, só veio a ser mais um na multidão dos que já me abateram e dos que ainda hão de me abater, tendo em vista a minha meta de viver ao menos 85 anos, seria muita inocência supor que a longa caminhada até este mínimo fosse privada de dissabores.

O fato é que me abati ao ler no blog do Mestre José Saramago que aquele caderno, depois de praticamente um ano de vida, findou-se às portas deste mês de setembro. Saramago cansou. É justo. E mais que isso, Saramago aproveitou o ensejo e anunciou que prepara um novo romance, e já teria praticamente concluso outro, de nome "Caim", que versará sobre a história deste personagem bíblico e que, a se levar fé nas escrituras do Antigo Testamento, é um dos instigantes crimes de um Deus suposto um dia conhecido e narrado. Saramago irá se refestelar com a moral duvidosa de um Deus que demandava ofertas na qualidade de novilhos e frutas e que, hoje, impele fanáticos a chamarem de possuídos os praticantes de religiões que ainda requisitam oferendas desse quilate. Além da riqueza do Deus que provocou inveja num irmão que, preterido por Deus, matou a Abel.

O livro terá escopo. Ficará sensacional e será devorado por leitores como eu em todos os cantos do mundo. E, ainda assim, as religiões e a fé individual não serão relativizadas. O que é, sempre, uma pena. Fanatismo mata pessoas, deflagra guerras e ensombrece o coração do homem. Como dizia Schopenhauer, "as religiões são como vagalumes, precisam das trevas para brilhar" - parafraseando o Cristo, "quem tem olhos para ver, que veja" o sentido dessas palavras.

Portanto, de resto, como debaixo do sol não há nada de novo, desde há mais de 2 mil anos, para ficar nas elipses bíblicas, só dá para lamentar mesmo o fim dos Cadernos. O mundo não muda, nem mesmo quando quer.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

No cagar dos pintos...

... e no apagar das luzes. Hoje, enfim, busquei meu diploma. Conclui o curso em 2007 e hoje, apenas hoje, botei as mãos no documento que atesta, para devidos, indevidos e questionáveis fins que, sim, sou eu um jornalista. Faço questão de salientar que, segundo todas as probabilidades, fui o último dos alunos de minha a turma a buscá-lo.

Diploma que é uma tremenda nulidade, conforme fez questão de nos dizer a gente togada do Supremo Tribunal de Justiça. Não que eu discorde deles. Não que eu ache que se possa ser jornalista sem diploma. Não que eu pense o contrário. Acontece que, mesmo dando muitas voltas na questão, torcendo até onde der as ideias, não acho argumento pra me defender. E emprestar os dos outros é covardia. E não gosto de ser reconhecido por cagarolas. Portanto, de peito aberto, digo que, por mim, jornalista não precisa de diploma porque, afinal, não tenho argumento para sustentar o contrário.

Mas o fato é que pus as mãos no, que engraçado, diploma. Engraçado porque paguei por ele. Foram 85 dinheiros e hoje não vale um tostão furado, como dizia meu pai para qualquer situação ou objeto desprovido de qualquer valor intrínseco, como é, nos tempos que correm, o diploma de jornalismo. E longe de ser bonito, ele é feio, sem sal. É feito de pele de animal, dizem que não rasga.  Hum. Tenho um amigo que tostou uma das beiradas do diploma, em todo caso, com um cigarro. Não chegarei, por certo, a esse ponto, principalmente por não fumar.

A verdade é que hoje, com o diploma nas mãos, olhando tudo em retrospecto e a ele, não pude deixar de pensar: tudo aquilo pra isso?

Figo - diz:
 busquei hoje o diploma
 ele é tão feinho...
 e é de jornalismo
 e eu paguei 85 dinheiros nele
 é um diploma de burrice, praticamente
Taiana diz:
 hahahahaha
 é verdade

Bitchin'!

Rapaz, esse banner ficou tão legal que, fosse eu um sujeito lido, faria dele uma camiseta deste blogue.

Me sinto tão artístico ao olhá-lo.

O dia em que cresci

Naquela noite pensei em muitas coisas. Em mim, nos que foram, nos que ainda vão. Em tudo, em nada. Na minha família. E também em como todas as coisas passam, ou ficam confusas. Aquela noite marcou porque a partir dali as festas, os aniversários e as celebrações deixaram de significar para mim presentes e enfeites, e passaram a significar recordação. No começo fiquei bastante aborrecido, mas com o tempo entendi que a memória é uma forma de retermos as coisas que amamos, o que somos e tudo o que não queremos perder nunca.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Aforismos - Realizações

"Fazer algo bem feito vale tanto a pena que morrer tentando fazer melhor não pode ser loucura. A vida é medida por realizações, e não por anos".

Bruce McLaren.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Segunda Guerra, 70 anos


"Por esta estrada, num dia de verão de 1944, os soldados vieram. Ninguém vive aqui agora. Eles ficaram apenas por poucas horas, e depois foram embora. A comunidade que vivia aqui por milhares de anos estava morta. Esta é Oradour-sur-glane, na França. No dia em que os soldados vieram, as pessoas foram reunidas. Os homens em garagens e celeiros. As mulheres e as crianças foram trazidas por esta estrada até esta igreja. Aqui ouviram os tiros quando os homens foram alvejados. E em seguida foram mortas também.

Poucas semanas depois, muitos daqueles que mataram foram mortos em batalha. Nunca reconstruíram Oradour-sur-glane, suas ruínas são um memorial. Seu martírio representa milhares de outros na Polônia, Rússia, Birmânia, China... em um Mundo em Guerra".*

*(em libérrima tradução levada a cabo por este Tertuliano que vos digita. O vídeo compõe o primeiro episódio da excelente e magistral série de documentários The World at War")

São 70 anos. O evento histórico mais marcante e definitivo dos últimos dois séculos torna-se, hoje, septuagenário.

Foi numa madrugada que o flagelo começou. A Alemanha nazista moveu as tenazes de sua máquina de guerra para o leste, invadindo a Polônia, o que culminou com as declarações de guerra contra a Alemanha por parte de França e Inglaterra, que vinham em socorro ao estado polonês. Em vão.

Por quase 6 anos o homem se bateu no ar, no chão e no mar. Em todos os continentes houve combate. Aqui na América do Sul, a título de informação, houve a caçada ao encouraçado germânico "Admiral Graff Von Spee", que veio a ser afundado e foi a primeira vitória aliada na guerra, com aquele que se tornaria um dos grandes marcos do conflito à frente deste sucesso: Winston Churchill, naquele momento ainda Primeiro Lord do Almirantado - posto equivalente a um ministro da marinha, e que é, na Inglaterra, o cargo militar mais importante do império. O Von Spee repousa na costa uruguaia deste então.

Eu poderia traçar parágrafos e mais parágrafo como o anterior regurgitando a erudição que acumulei em anos de leituras sobre o conflito falando de coisas interessantes e do porquê da Segunda Guerra Mundial ser tão relevante para compreendermos o mundo em que vivemos. Mas nada disso importa, os conglomerados de mídia se encarregarão de fazer esse papel por mim. Caso não façam, está aí o Pai Google para dirimir essas e tantas outras, todas as outras, aliás, dúvidas que por ventura ocupem a cabeça e o espírito do digno leitor acerca da estupidez humana, que é o que é uma guerra.

Mais importante que erudição e história é escrever esse texto com algum senso de dignidade e de gratidão. Porque se toda a guerra é estúpida, essa foi mais que as outras. A vitória que veio a custo de "suor, sangue e lágrimas" não fez desse mundo um lugar perfeito. Mas sem dúvida alguma construiu um lugar melhor, lançou bases, tipificou a ignorância e preconceitos como crimes contra a humanidade. E se, afinal, não temos um mundo perfeito, é este, no entanto, o melhor que pudemos construir.

Como é importante também recostar hoje à noite a cabeça no travesseiro e lembrar que, se começasse nessa alvorada de setembro de 2009 uma reedição do conflito, teríamos de suportar morte, devastação, dores e desesperos nunca dantes imaginados até 2015. É absurdo. Nas palavras de Stephen Ambrose, um dos mais conceituados historiadores da guerra, "a Segunda Guerra Mundial não passou de um mostruoso disperdício de vidas, recursos e dinheiro".

Hoje também é um dia para lembrar que 60 milhões de pessoas morreram. É como matar a cidade de Curitiba toda 60 vezes. Ou praticamente extinguir um terço da população do Brasil. Etnias, famílias, histórias, vidas e tanta coisa foram extintas inapelávelmente. Tudo a troco de nada.

Lembro quando criança nos primeiros contatos que tive com a história da Segunda Guerra de meu pai dizendo que, o mais assustador, é que no meio de 60 milhões de vidas, haviam 60 milhões de histórias. Potencialidades. Talvez um menino morto em algum lugar do leste europeu pudesse ter descoberto a cura de uma doença grave, se tivesse sobrevivido. O mesmo vale para tantas outras áreas, quantos gênios, enfim, perdemos ali?. E um crime dessa magnitude multiplicado por 60 milhões foi algo que sempre me impressionou.

E é realmente uma pena que não tenha impressionado a tanta gente ao longo dessas 7 décadas.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

O menino

O menino tinha em si algo de inusitado. Era distinto dos demais meninos que pululam nas ruas, atrás de migalhas, de atenção. Aquele ali tinha olhar de menino. Os outros, normalmente curtidos de sol e da corrosão do ar da cidade, tem olhar de homens.

Era questão de tempo para que seu olhar viesse de encontro ao meu. E eram olhos rasgados na face, cobertos de remela. Sujo de um todo, cabelos encrespados, sebosos de sujeira. Roupas rasgadas, chinelo com a espessura de uma folha de papel. Dedos encardidos, unhas enormes, gastas da maneira que os roedores fazem porque não sabem cortá-las com um unhex, e as desbastam em pedras. Esse menino arranhava as paredes.

Não de pavor declarado. Um pavor surdo, melancólico, um grito sem voz que ecoa nas cidades. Unhas gastas, roupas fedidas. E muita fome no estômago vieram até mim.

Julguei que pediria trocados. E eu sempre dou o que tenho em matéria de moedas. E mesmo assim me sinto mal. Porque me volta aquela parábola bíblica que diz que, afinal, eu dei o que me sobrava. Há quem dê tudo que tem. E eu me sinto mal, porque sei que minha ajuda é uma cosquinha no colosso de maldade, injustiça, crueldade e desgraça que compõe esse caleidoscópio de pedra em que vem se tornando o coração humano.

Enquanto inquietava meu espírito com as injustiças abissais que impedem esse garoto de gozar a vida. De ser um médico, um grande cientista. De descobrir uma nova tecnologia, de revolucionar a vida humana. De ser um grande campeão, que encantará multidões e as fará acreditar que determinação vale à pena. Que o impede de fazer poesia e arrancar lágrimas das pessoas me dei conta de que, mais injusto ainda, é que a dureza da vida que leva não sensibilize a todos como a mim. Não sou dono de coração mais puro que meu próximo, mas certamente tenho direito de me chocar e me acabrunhar por quem passa por esse menino como se fosse ele outro escolho, outra pedra no oceano de pessoas que ondulam por essas terras.

Eu pensava nas minhas burras e temia estar desprevinido. Pior do que o mal estar de ter dado uns mangos é o de não ter dado nenhum, porque o que tenho, não é lá muito, sou jovem afinal, está encarcerado no banco. Acontecia que devia ter ali uma provisão de uns cinco dinheiros e que daria todos, sem remorso por tê-los dado, mas com o inevitável abalo subsequente de não ter dado ainda mais.

O menino ia articular uma palavra. Diria "tio, tem uns trocados?", se estenderia descrevendo a situação da vida que leva. E eu diria, "relaxa, tenho sim". Daria o dinheiro, o menino saíria me abençoando e eu, hipócritamente diria a mim mesmo, na solidão dos travesseiros do fim da noite, que fiz uma boa ação no dia.

Mas não foi o que aconteceu. O menino, olhando-me da calçada, não pediu dinheiro. Do alto dos seus, talvez, oito anos, contemplou o gramado, o jardim, o carro novo da família reluzente na garagem. Pude ler seus pensamentos, julguei. Talvez ele estivesse ali para furtar, estudava o ambiente e eu o surpreendera, daí a ter ficado sem palavras.

Mas a suspeita reacionária do parágrafo anterior se mostrou completamente vazia e própria de um hipócrita como eu. Disse o menino: "tio, você tem um trabalho pra mim? Corto a grama pra você".

Eu engoli a lágrima.

domingo, 30 de agosto de 2009

Raikkonen: I don't care about It

Acho o Raikkonen um cara legal. Porque ele é desencanado, muito longe, por exemplo, do jeitão de um Schumacher obstinado pela perfeição. Ou de um Lewis Hamilton que parece viver apenas em função da F1, como se fosse um robozinho. Ou o Massa, que depois que virou um piloto de ponta, sempre que focalizado por uma câmera, tende a fazer aquela célebre cara de dor de dente, marcante no semblante de Ayrton Senna, mas que não combina muito com o de Felipe. Mas isso é lá com ele.

Comecei a simpatizar com Raikkonen logo que o finlandês, depois de um excelente ano de estreia na Sauber em 2001, assumiu a vaga deixada por Mika Hakkinen na McLaren e, daí em diante, teve um desempenho cada vez mais forte e consistente, chegando a vices campeonatos em 2003 e 2005. Perdeu ambos para Schumacher e Alonso, respectivamente. E foi sentir o gosto do título mundial em 2007, no primeiro ano de Ferrari, numa recuperação sensacional depois que a dupla prateada fazer questão de perder o campeonato mundial de pilotos. O torneio de construtores a McLaren se encarregou de, sozinha, perdê-lo ao espionar a rival Ferrari.

Paralelamente à competência nas pistas o jeitão de Raikkonen "I don't care" foi se tornando uma marca especial do piloto. A ligação, digamos, mais liberal em relação a vodka também faz de Raikkonen uma criatura simpática, mais humana, nesse ambiente tão robotizado da F1 - lembra, em certa medida, clássicos jogadores do futebol brasileiro, que passavam a noite na balada e, noutro dia, tinham gás para entrar em campo e marcar gols e vencer campeonatos. Passível a vícios e a uma personalidade própria, única, assim é Raikkonen. E é por isso que simpatizo com o finlandês campeão mundial de 2007, ali você vê mais que um piloto excelente, você vê um "cara". Em resumo, Kimi é legal porque não é bitolado no politicamente correto. Ele não se considera um exemplo pras criancinhas do mundo, não se acha um heroi. Pelo contrário, é um cara normal que disputa a F1.

Neste sábado perguntaram a Kimi sobre seu futuro. E ele disse que não está muito preocupado com o assunto. Considerando que muito se fala que provavelmente ele será preterido pela Ferrari na temporada 2010 em favor de Fernando Alonso, não é o tipo de resposta que normalmente se ouve de um piloto de ponta preocupado em manter-se em carros competitivos. Kimi provavelmente terá uma vaga, e dificilmente uma ruim, no grid do ano que vem. Seu currículo e recente fase na Ferrari o gabaritam a isso. O interessante é que ele tenha essa consciência, ou ainda que não tenha, ser capaz de passar esse ar "tô nem aí". Fosse outro piloto, diria os bordões do costume nessas ocasiões: "estou focado na Ferrari", "tenho contrato com a Ferrari até o fim do ano que vem", ou "converso com algumas equipes e busco uma vaga competitiva para o próximo ano". Kimi não. Remata tudo num "I don't care about It".

Kimi, what do you thing about your future?

Hmmm... I don't care about It.

Para quem não conhece o estilo relax do finlandês, aqui vai uma amostra em vídeo. Todo ano a Globo prepara papagaiadas incessantes no GP do Brasil. Em 2006, naquela que é, até o momento, a última corrida de Schumacher, chamaram Pelé para homenagear o alemão. Raikkonen não estava muito interessado:




Outro momento marcante de Kimi aconteceu na segunda etapa do campeonato deste ano, na Malásia. Caia, lá fora, o maior dos pés d'águas já vistos, um dilúvio. Enquanto todos se perguntavam sobre a continuidade da corrida, naquele momento com boas possibilidades de recomeçar, Raikkonen já estava de bermuda nos boxes com um picolé e uma coca-cola:

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Aforismos - Grana

Felicidade é descobrir que você pode ganhar dinheiro com o que você já faz de graça.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Nostalgia

O ano era 1999. E eu, um nerd. Antisocial, acho que sem hífen, não sei. O fato é que eu tive uma fase meio decadente da minha adolescência quando, normalmente, as pessoas têm o contrário. Na época eu achava vanguarda de minha parte, a verdade é que hoje já não sei mais.

E naqueles tempos eu me ocupava com computadores, deslumbres de programação nos ditos cujos (uma vez eu criei um editor de textos no Delphi. E fiz um novo Paint, mas por algum motivo meu Paint não salvava as imagens em jpg. E quando o fazia, elas não abriam em nenhum outro lugar no universo. Bizarro). Criei uma plataforma para lançamento de vírus de computadores, que batizei de CRULL99 não lembro por quê, cheguei a criar alguns vírus bem rústicos e inofensivos. Eu me divertia dando risada das pessoas que ficavam sobressaltadas com as mensagens que apareciam na tela, ou a bandeja do cd abrindo e fechando, sem mais, nem menos.

Como tudo daquela fase, excluindo a literatura, um dia encheu o saco. Parei de andar na contra-mão, também, nos rumos da tecnologia e me conformei com a condição de consumidor passivo das diversas estripulias informáticas e tecnológicas que se produz dia a dia. Deixei de tentar entender e me imaginar produzindo essas coisas. É mais divertido viver a vida.

Naqueles idos era eu um feliz proprietário e usuário de um Play Station, o 1, da Sony, que revolucionou o mercado de games e consoles em 1995. Aliás, ainda sou proprietário do aparelho, o mesmo, que já conta 14 anos de serviços prestados à família - quando ganhei de Natal em 1995 era o terceiro da cidade. Eu era um heroi, o fodão, o cara do Play Station. Houve um evento social quando terminei o Resident Evil, muita gente para assistir o final - lembro que fiquei um pouco assustado, entretanto, quando ganhei o video-game. Porra, era com cd! E da Sony, esses caras fazem walk-man, não video-games! Achei que minha mãe comprou um meia-boca, coisa barata e ruim, nunca confessei isso até hoje. Naquela época, marca de video-game eram Sega e Nintendo. Entretanto, embora parte da família há tanto tempo, pelo que lembro, não é ligado há uns três anos. Preciso verificar e ver se ainda funciona...

Não considero meu interesse por jogos eletrônicos um resquício da minha adolescência nerd. Antes de ser adolescente, e nerd, eu já consumia jogos. De todos os tipos e variações. Mas sempre tive uma queda maior por jogos de tiro, preferencialmente ambientados na Segunda Guerra, e de corrida.

E agora há pouco, tropecei num marco da minha relação com jogos, música e automobilismo. Encontrei no YouTube a apresentação do Nascar 99. Nascar, para quem não sabe, é uma categoria de turismo dos EUA, uma coisa meio caipira, muito, mas muito, norte-americana. Turismo? Significa que correm com carros que, ao menos externamente, parecem com os seus pares de rua. Significa que não são "open-wheel" (as rodas não ficam expostas), como são os monopostos da F1, F-Indy e por aí a fora. Parece complexo, mas não é.

Eu conhecia, na época, há 10 anos atrás, apenas o que a TV aberta me permitia de corridas de automóvel, que na época consistiam em F1, CART e a IRL, que corria só em oval com aqueles carros escrotos de feiosos e inseguros. Sempre morria um cara por ano, ou se estropiava a valer em algum muro. Em 1999, aliás, na CART, morreram dois. O canadense Greg Moore nas 500 Milhas de Fontana, última prova do campeonato, tinha contrato assinado com a poderosa Penske no ano seguinte, que seria campeã com Gil de Ferran em 2001, e brigaria já em 2000 seriamente pelo campeonato. E Moore era um cara promissor. O outro que deixou a vida na CART naquele ano foi o uruguaio Gonzalo Rodrigues, provavelmente o único piloto uruguaio de todos os tempos. E o curioso é que, ainda assim, a IRL era umas 100 vezes mais perigosa que a CART que, não obstante, matou dois em 1999.

Mas da Nascar eu conhecia pouco. Um filme chamado "Dias de Trovão" (link para o filme completo, dublado, no YouTube) fora o primeiro contato com a categoria. Filme que, do alto dos meus 10 anos, eu achei o máximo. Ele traz uma temporada da Nascar, e tem Robert Duvall, Nicole Kidman e Tom Cruise. Mas, hoje, com a falta de graça que a gente adquire com o passar do tempo, tenho certeza de que o filme é, realmente, uma grandíssima porcaria.

Foi o jogo, Nascar 99, que me apresentou de maneira mais definitiva à Nascar e a George Thorogood. A Nascar não faz tanto parte de minha vida, mas eu acho simpática. Eu gosto muito de automóvel. E de corridas, então, gosto de Nascar. Meio que por osmose até.

Já Thorogood nunca mais saiu do som - nem os jogos, conforme citei. Depois George não saiu do(s) PC(s) com o mp3 que ainda florescia nas suaves ondulações da internet a 56k daqueles idos - cara, eu usei Napster, e a gente precisava baixar codec pra ouvir música em mp3. Aí vieram o disc-man, o celular que tocava música. O mp3 player. E hoje, o iPod. Um dos poucos caras que nunca saiu da minha vida com a música foi ele, George Thorogood & The Destroyers. E por isso, depois de 10 anos de estrada e de muitas idas e vindas embaladas no som do blues e do rock do George, só posso é agradecê-lo.

Tudo isso porque hoje, ao empacotar a mudança, encontrei, perdido, o cd do Nascar 99 e, me atacou furiosamente uma nostalgia de 10 anos atrás. Um "poxa", quanto tempo, quanta coisa mudou, quem eu achava que era, que seria, quem eu sou hoje, quem eu hoje sei que fui, o que eu era. Tudo que sou, hoje, se construiu também nas intermináveis corridas em Daytona, ou ouvindo "Get a Haircut" do Thorogood nos anos seguintes. Aí fui buscar no YouTube algum vídeo, porque fiquei com preguiça de instalar todo o vide-game para isso, para reviver o jogo. E, de mais a mais, se não procurasse no YouTube, esse post não seria. Porque não há a menor graça em falar tudo isso e não mostrar o jogo e a música, afinal de contas.


 

Eu perdi muitas, mas muitas, horas nesse jogo. E ganhei outras tantas ao ouvir o Thorogood.

Se também bateu aí alguma nostalgia, você pode baixar o jogo aqui e emulá-lo (exise emulá-lo?) no seu PC.

Copyleft, mermão!

O YouTube não sabe brincar. Por questão de direitos autorais, mais uma vez, tiraram do ar o curta citado dois posts abaixo.

Desisto.

Rádio: Elbow - Grounds for Divorce

Elbow foi uma recente descoberta, deveras interessante, que cá vai positivamente recomendada ao distinto leitor. Vem a ser uma banda inglesa, com uma pegada parecida com Coldplay, só que muito melhor - na minha opinião. A canção abaixo chama-se "Grounds for Divorce", e conheci graças ao teaser da próxima temporada de House, que deve estrear em 21 de setembro.



quarta-feira, 26 de agosto de 2009

O assassino terrivelmente lento com a arma extremamente ineficiente II

Coisa de um mês atrás sugeri aos caros leitores um curta-metragem. "O Assassino Terrivelmente Lento com a Arma Extremamente Ineficiente". Acontecia, no entanto, que o YouTube excluíra o vídeo por conta de reclamações de direitos autorais.

Alheio a tudo isso, alguém fez o favor de disponibilizar novamente o material na internet. E assim, eis-me aqui, finalmente, postando o vídeo, que continua, a despeito do tempo passado, altamente recomendado e engraçado:


terça-feira, 25 de agosto de 2009

Rádio: Mark Lanegan - Low (Skeleton Low)

True Blood é uma série de tv. Não conheço nada sobre ela, a não ser o excelente gosto musical da mesma em função de ter tropeçado no vídeo abaixo. Confira no trailer do seriado o bom e rasgado vocal de Mark Lanegan: