sábado, 13 de outubro de 2007

Celular também não pode mais

Eu lembro, lá pelos já há muito vividos anos de 95, que havia a febre pelos ioiôs da Coca-Cola. Na escola todos tinham alguns e eram mestres nas acrobacias com o pêndulo. Eu inclusive.

E nos horários livres, de antes das aulas e no recreio, havia por toda a extensão do pátio um verdadeiro balé. Múltiplas e mirabolantes evoluções, uns bons, outros medianos e alguns mais, eu incluso, enganadores de platéia.

Aí um dia um menino desentendeu-se com o outro. Provavelmente disse que se o primeiro não lhe reparasse o remoque, embora lhe ultrajasse a idéia, teria de ir arrancar-lhe os olhos em troca da honra ofendida. O menino ofensor não reparou o agravo e ambos foram às vias de fato.

Um deles, já não lembro o qual, fez do brinquedo, o ioiô, arma: deu com o pêndulo, modelo Super da Coca-Cola - ou da Fanta, eram realmente parecidos - na idéia do outro beligerante. Como medida de combate à falta de civilidade das crianças, as freiras que dirigiam a escola não tiveram dúvidas: que se proíba o uso de ioiô nas dependências da escola.

É mais ou menos o que o governador José Serra quer fazer com os celulares. Embora não se tenha sabido de alguém ter levado uma celularzada na idéia, acredita o governador que os índices educacionais do estado só poderão melhorar na medida em que as crianças não tenham celulares para serem encontradas pelos pais num contexto tão perigoso como no que vivem.

Tertuliano mora no Paraná. Tertuliano se preocupa caso a moda pegue, afinal ele pensa:
- Não seria melhor proibir celulares nas cadeias?

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Disse Harold Bloom

Harold Bloom é um dos mais notórios críticos literários do nosso tempo. Há quem o diga um dos homens mais inteligentes do mundo atualmente, o que, eu, naturalmente, relativizo. De qualquer forma, fui conhecer Bloom numa matéria da Superinteressante sobre o sujeito e sua teoria desconstrucionista da literatura. Uma abstração só.

Enfim, lendo sobre Saramago, a quem alcunhei de "mestre", trata-se, da enorme e vasta fauna de escritores que me agradam, meu preferido, descubro que é a mesma opinião deste norte-americano tido como um dos mais bem aquinhoados espíritos do mundo. No livro de Bloom, publicado em 2003, "Genius: A Mosaic of One Hundred Exemplary Creative Minds", "Gênio: Um Mosaico de Cem Mentes Exemplarmente Criativas", disse que Saramago é o "mais talentoso romancista vivo no mundo atual", galardão este que, vindo donde vem, converte-se num panegírico incontestável. Bloom foi ainda além ao chamá-lo, assim como este Tertuliano, de "o Mestre" e "um dos últimos titãs de um gênero literário que está desvanecendo".

Fiquei feliz por Saramago. Fiquei feliz por mim. Penso igual a Harold Bloom, meus caros, morram de inveja. Mas não é só neste ponto em que meus tortuosos pensamentos, deste carcomido cérebro, encontram paralelo aos de Harold. Assim como eu, este vota visceral desprezo pelo que há na literatura infantil no mundo.

O caro Bloom é muito mais radical que este Tertuliano. Eu, embora tenha uma invencível vontade de distribuir pontapés em quem lê Harry Potter, entendo perfeitamente que este, embora fraco exemplar da literatura mundial, pode contribuir no longo prazo para o aliciamenteo de uma nova e vasta gama de amantes da leitura, o que seria ótimo. Enquanto as pedagogas semi-idiotizadas (e por isso idiotizantes) que nossas universidades regurgitam todos os anos esforçam-se para criar campanhas bem intencionadas de incentivo a leitura em alunos bocós e analfabetos com livros como "Dom Casmurro" e similares de densidade e desinteresse natural em qualquer jovem - levando-se em conta que estas pedagogas não lêem e bem por isso jamais farão alguém ler - P
otter e seu texto comercial e fraco conquista hordas e hordas de leitores.

Bloom disse em entrevista à revista Época:
"odeio Harry Potter. É bruxaria barata reduzida a aventura. É prejudicial ao leitor. Não tem densidade. A escrita é horrível. Lancei a polêmica, sabendo que eu atuaria como Hamlet, que defronta com um oceano de aborrecimentos. Continuo me incomodando com os fãs do pequeno feiticeiro".

No que é verdade. Se um dia a humanidade tiver de selecionar cinco volumes da literatura mundial para a eternidade, entre eles, podem ter certeza, não teremos nenhum Harry Potter. Harold extende a crítica à literatura infantil: "é um fenômeno de mercado. A maior parte dos livros para crianças à venda nas livrarias é idiota, não serve para nada, muito menos para suprir a necessidade de leitura de uma criança ou do leitor de qualquer faixa etária. Livros estão sendo confeccionados para vender e se tornar sucessos no cinema e na televisão. Isso nada mais é que uma máscara que oculta o rosto cada vez mais estúpido da era da informação. Os tais livros infantis ajudam a destruir a cultura literária".


O que é perfeitamente tangível não apenas na literatura infantil. Materi
al dito "cultural" feito pra vender é o que não falta. E mais velha ainda é a constatação disso, que remonta a tempos imemoriais do breve século XX, mais precisamente, década de 30, onde os teóricos e filósofos da Escola de Frankfurt, como Theodor Adorno, sujeito ao lado, apontaram a crise da cultura: o que antes tinha valor iminentemente de culto, passa ao valor de troca, mercantiliza-se.

Adorno era, no fundo, um cara legal. Ranzinza, pessimista, provavelmente chato, caxias em relação à juventude de 68 e com sobrenome esquisito, tinha também lá seus defeitos: odiava. Detestava. Cultivava verdadeira aversão ao jazz, e isto, ao contrário de suas notáveis contendas com os estudantes - sobretudo as garotas que deitavam fora os sutiãs - em maio de 68, não se pode perdoar. O jazz é o jazz, afinal.

De qualquer forma, o que conta mesmo, é que Saramago é mestre para mais alguém no mundo. Que a minha admiração pelo português, considerado por muitos um mestre no trato da bela e boa língua portuguesa (que querem vilipendiar com a criminosa, de ocasião e imbecil reforma ortográfica - que se reforme a peripatética Acadêmia Brasileira de Letras, que acha que o idioma é dela, só dela, e dos enormes grupos editoriais que se beneficiarão com este absurdo), enfim, mas eu dizia que o que conta mesmo é que o assunto Saramago me rendeu os primeiros ensejos para conversar com minha namorada, que leu algo do português e que, para o bem ou para o mal, ele continuará sendo o "mestre".

Perdeu, Alexandre Dumas. Perdeu...

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Finitude

Nos últimos dias, mais do que em todo o transcorrer do ano, deu-me, caríssimos, uma sensação estranha no espírito. Em pouco mais de um mês estarei, se for da vontade comum dos professores, formado. Formado numa profissão complicada, num mercado de trabalho "salve-se-quem-puder" e sem quaisquer nesgas de perspectivas imediatas. Irei embora. Perderei contato com amigos queridos.

E tudo isso me fez contemplar uma sensação de finitude. Não é como quando eu saí do ensino médio, rapaz imberbe onde nas fuças ainda erravam espinhas esparsas e as primeiras poeiras que lhe prediziam barbas no futuro, onde o sentido era de recomeço, de novo caminho a trilhar. Agora é de fim, de encerramento, de missão cumprida e nada mais a se fazer. E me confrontar com isso, com o fim e não o começo, com a sensação de nada mais a se fazer, agravada pela ausência de perspectivas no curto prazo, não foi bonito.

Tudo vai sumindo por detrás das nossas costas. Nós nos ocupamos, por vezes, demais em olhar adiante tentando divisar o horizonte da vida e saber o que vem lá. Mas ao fazer isso, inutilmente, aliás, perdemos o que nos reluzia no passado próximo. E normalmente sentimos mais falta do passado do que de adivinhar o futuro coisa que a grossa maioria do gênero humano não consegue fazer. Enfim.

"Foram-se os amigos! Foi-se o futuro! Foi-se tudo! As minhas forças estão quebradas, como se quebrou o feixe da nossa passada amizade. Chega a idade e a velhice, fria e inexorável; envolve seu manto fúnebre em tudo o que outrora me reluzia, tudo o que me perfumava a mocidade, depois atira esse doce fardo ao ombro e leva-o com todo o resto para o abismo sem fundo da morte..."

Foto de Henri Cartier-Bresson.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Por que você veio até aqui? (Setembro)

Seguindo minha tradição de um mês, seguem abaixo as buscas mais curiosas que renderam visitas ao blogue em setembro:

  • "dexisto"
Outro usando de licença poética?

  • "disco vuador ovi"
Não estou certo, mas suponho que ele queria dizer "disco voador ovni".

  • "direitos e deveres de locadora de video game"
Achei curioso.

  • "imagem de onça morta"
Mórbido.

  • "jogos de super mario os que tem no computador da escola"
Certamente o sujeito acredita que o Google é onisciente para saber exatamente qual Super Mario tem no computador da escola dele.

  • "video da morte do super mario"
Teoricamente Mario jamais nasceu, que dirá ter ele morrido...

Ao longo do mês de setembro, através de resultados em serviços de busca, o blogue recebeu 130 visitas. O recorde de incidência foi a busca por "assombração", com 21 ocorrências e em segundo "frases de lula", com 7.




quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Sputnik 50 anos

Uma coisa puxa outra. Hoje o Sputnik faz 50 anos, e eu mencionei-o no post anterior, que por sua vez inicia-se falando de outro mais antigo.

Eu não sei muito sobre satélites. Sei que funcionam emitindo e retransmitindo sinais - o que é muito vago e paradoxal, posto que há cinqüenta anos que eles são parte de minha vida. Mas sei que o bip-bip-bip, pueril até, da bola metálica em que consistiu o tal Sputnik revolucionou o nosso modo de vida. Disso daí é que vem a evolução que hoje permite eu publicar este texto e você lê-lo. Caso queira sentir o que sentiram os técnicos da missão soviética que revolucionaria as comunicações em muito menos de duas décadas, ouvindo a transmissão do Sputnik, a primeira transmissão via satélite da história, clique aqui. Eu fico imaginando que o povo da época deve ter pensado: "tamanho barulho por uma bola de metal que faz bip-bip-bip?".

O curioso é que o fato de terem sido os soviéticos, e não os norte-americanos, que enviaram a bola metálica que fazia bip-bip-bip reduz incomensuravelmente a dimensão da epopéia perante os olhos mais incautos. Fosse o Sputnik norte-americano, existiriam dúzias de filmes e documentários acerca do feito. Como aliás existe um filme sobre a Mercury. A missão Mercury foi a resposta de Tio Sam a Gagarin que, aliás, também não foi imortalizado em telas de cinema.

De qualquer forma, depois de Sputnik veio a cadela Laika. A ela seguiram Gagarin e os astronautas da Mercury. O homem foi à Lua. Vieram os ônibus espaciais que começaram a explodir e a interminável MIR. E ninguém jamais quis ir novamente à Lua porque lá não tem porra nenhuma.

Tudo por conta da bola metálica que fazia bip-bip-bip. E saibam meus caros que o tempo é a medida da precariedade de qualquer coisa.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Hermann Hesse ensina:

"'... a maioria dos homens não quer nadar antes que o possa fazer. (...)' Naturalmente não quer nadar. Nasceram para andar na terra e não na água. E, naturalmente não querem pensar; foram criados para viver e não para pensar! Isto mesmo! E quem pensa, quem faz do pensamento sua principal atividade, pode chegar muito longe com isso, mas, sem dúvida, estará trocando a terra pela água e um dia morrerá afogado".

Hermann Hesse, O Lobo da Estepe.

Hesse foi o que mais próximo cheguei de ler de um filósofo/escritor. Ele é um escritor sensacional, denso, inteligente, culto e não trata o leitor como acessório dispensável à sua obra. Leia, mas tenha atenção que o conteúdo extremamente denso e filosófico deste alemão, provavelmente, o fará repensar toda a sua vida. Além de lhe trazer aquele indescritível mal estar que os melhores escritores nos trazem quando nos confrontam com o humano, demasiado humano (vide Nietzsche).

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

É Mensalão Tucano!

Fosse esse Tertuliano português, por azar não é, ele perguntaria:

- Mas por que o Mensalão de 2005 virou "Mensalão do PT" e o do tucanato empoado e plutocrata que desmontou o país, que movimentou quase R$ 54 milhões de reais - recorde brasileiro em corrupção, virou "Mensalão Mineiro" e não "Mensalão do PSDB" ou "Mensalão Tucano", que seria muito mais justo e lógico, posto que há precedente?

- Vai ver os mineiros todos foram cúmplices, daí extender a culpa a todo o povo com o gentílico.

- Ah tá.

Calheiros

- Poxa, não vão pegar esse Renan Calheiros, hein...
- Olha, até onde se sabe não há nada provado. E mesmo que houvesse, o Senado não pode julgar o cara, não é seu papel.
- Você é a favor do cara?
- Não disse isso. Disse que é idiota querer julgar alguém por algo que não se sabe se fez, especialmente pelos seus pares que não são juízes, são algo pior: políticos.
- Mas tá na cara que ele é culpado, falam isso nos jornais sempre.
- Acontece que os jornais nem sempre falam a verdade e no mais, a disputa não foi para votar a cassação de um senador que pode ter pisado na bola, virou uma disputa inócua sobre quem votou sim e quem votou não. Não vem ao caso. Ninguém sabe se o cara é culpado. E o Senado não é corte de justiça, não pode julgar, portanto.
- Justiça... como você fala de justiça num caso desse, cara?
- Eu não sei, falo porque dou às coisas os nomes que elas têm. E que normalmente não são culpa minha. Mas o estranho mesmo é o tucanato empoado e plutocrata que desmontou o país ter feito campanha pelo voto secreto no Senado na época do FHC e agora querer mudar o jogo.
- Ah, mas vai dizer que você não acha isso justo?
- Ora, quem sou eu? Pergunte pro Renan Calheiros se é. Ele deve entender do riscado: foi Ministro da Justiça do FHC.


Pois é.

Reinventando Bourne

O gênero policial na cultura ou, vá lá, no mundo do entretenimento, surgiu na literatura romântica inglesa por meio de autores como Edgar Alan Poe, reforçada pelo Sherlock Holmes de Doyle e conquistou de imediato o público: o componente do mistério e da intriga dando as linhas do suspense página após página. No cinema filmagens de obras clássicas deram novo status ao gênero nas telonas e com o surgimento dos conceitos de quarta e quintas colunas, especialmente em função das duas guerras mundiais do século XX, surgiu um novo filão compartilhado entre literatura e cinema: as novelas de espionagem.

Ao longo do século passado não foram poucos os autores que granjearam notoriedade por criarem espiões que conquistaram mentes e corações, além de, evidentemente, cifras respeitáveis. Ian Fleming, britânico fleumático que servira no MI-5 (Military Intelligence 5, serviço de inteligência responsável por trabalhar dentro do Reino Unido) durante a Segunda Guerra Mundial e que em princípios dos anos 50 criaria o famoso James Bond, é um exemplo típico. Usando de ambições e aspirações que todo homem ocidental tem, mulher, carros, armas e glamour, o personagem emplacou facilmente. A Fleming seguiram Frederick Forsyth (do clássico "O Dia do Chacal, filmado na década de 60), outro britânico que assina livros do gênero como “Ícone” e “O Quarto Protocolo”, donos de abordagens socio-políticas riquíssimas e contextos históricos bem trabalhados por quem foi parte deles. Além dos dois britânicos, há que se mencionar os norte-americanos Tom Clancy (“A Caçada ao Outubro Vermelho”, filmado com a participação de Sean Connery, o primeiro James Bond) e Robert Ludlum, autor consagrado da trilogia sobre o espião desmemoriado Jason Bourne. Embora ambos tenham muito ranço anti-qualquercoisa que ameace a “liberdade” que o Tio Sam impõe ao mundo, não deixam de ser obras interessantes e empolgantes do estilo.

Embora o gênero tenha sua cartela fiel de fãs, há muito que carecia de uma reinvenção. O padrão pirotécnico e exagerado de James Bond não contemplava a ânsia de realismo que deve permear produções mais contemporâneas – ninguém mais acredita no carro invisível ou no Bond capaz de suster seus batimentos cardíacos para fingir a morte - insistindo nisso, em exageros como esse, o personagem e a franquia tornar-se-iam paródias caricaturais de si mesmos. Tanto é verdade que as últimas produções de Bond foram classificadas como “ação”, e não “espionagem”. O que mudou no excelente “Cassino Royale”, filme mais recente da franquia.

O que corrigiu os rumos do espião mais conhecido, Bond, e do gênero em si enquanto produção cinematográfica foi, sem dúvida, o advento de “A Identidade Bourne” (Bourne's Identity – 2001), filme que inicia uma trilogia escrita por Robert Ludlum, contando a história de um agente da CIA extremamente treinado e especializado que é enviado para assassinar um “rebelde” africano aos olhos da CIA. Por algum motivo o agente Jason Bourne, vivido por Matt Damon, perde a memória. Como “sabe” muito vira um alvo da agência para queima de arquivo.

A história de Bourne é a um tempo fuga e busca. Fuga dos seus verdugos e busca pela sua história, pela sua memória. Bourne reinventa o gênero a partir do momento que vive aventuras fiéis ao possível, sem as mirabolantes e incríveis cenas escapistas de James Bond’s mais antigos. Jason usa o Google para durante o filme para pegar informações, ainda que merchan, é um merchan bem feito e que aproxima o personagem de você. Bourne vive a espionagem de clássicos do cinema como o excelente “O Espião que veio do Frio” (livro de John Le Carré, autor de "O Jardineiro Fiel", filmado sob a direção de Fernando Meirelles recentemente). As cenas são muito bem dirigidas e pensadas, Bourne interage com os ambientes, desde a embaixada do primeiro filme a estação de Waterloo em Londres, na última película.

A busca do espião pelo passado e verdades o leva a denunciar um esquema de assassinatos promovido pela CIA. Além de conseguir de volta seu passado, Bourne é o estopim de um escândalo que leva à prisão seus perseguidores durante toda a história – o que é uma lição à certa noção de onisciência e razão que serviços de inteligência ganharam pelas páginas e telas anos à fora. E tudo aqui é bem dirigido por uma edição primorosa de imagens, onde o diretor Paul Greengrass, acostumado a cenas frenéticas com câmeras de mão, usa o expediente à exaustão: as perseguições e fugas de Bourne ganham ainda mais vida, embora com cenas meio confusas às vezes, aos olhos do espectador.

Jason Bourne e sua história, contudo, souberam buscar o que houve de bom no James Bond ancestral, além do enredo: as locações. Ao assistir a trilogia, praticamente um longo filme de seis horas, vamos de Paris a Moscou. Berlim, Turim, Londres, Langley (Virgínia, EUA. Onde está a sede da CIA), Tângier (Marrocos), Nova Iorque, Madri. Enfim, as viagens e as locações escolhidas a dedo trazem contraste ao filme e um brilho especial ao dinamismo das fugas e cenas vertiginosas da produção.

Contudo, nem tudo são flores, diria o poeta. Identidade Bourne, Supremacia Bourne e Ultimato Bourne foram três livros escritos por Robert Ludlum, falecido em 2001, que viraram os filmes homônimos. Com o estrondoso sucesso de crítica e bilheteria da série, os proprietários da franquia já arregaçam as mangas: querem fazer deste JB, outro James Bond. A idéia é iniciar uma franquia sem vistas de um fim, como é a de 007 que já conta 21 filmes desde 1962. Já está nas bancas, em inglês, duas novas aventuras de Bourne (“The Bourne Legacy” e “The Bourne Betrayal”), escritas por outro sujeito, Eric Van Lustbader, com tenções claras das telas de cinema em breve.

Se mantiver o ritmo e a qualidade, os fãs agradecerão. Mas se a busca for estritamente comercial, virá aí mais um Duro de Matar e de agüentar que não acrescentará nada. De qualquer forma, Matt Damon diz estar fora do personagem porque “cansou dessa coisa do Bourne”. Normal. Qualquer um cansaria.

Os fãs do gênero não cansam. Mas não são facilmente manobráveis, se fossem, James Bond, o JB mais emblemático (os JB's: James Bond, Jason Bourne e Jack Bauer) não teria, se
me permitem o escroto neologismo, “bournizado” e voltado às origens.

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Reforma Ortográfica

Estou plenamente convencido de que o presidente da Academia Brasileira de Letras é um dos maiores mentirosos, hipócritas e imbecis do momento.


Vai criar porco,
Marcos Vinicios Vilaça.

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

(CONTO) E Caiu um Disco Voador

Era um daqueles dias normais, comuns, pessoas esparramavam suas misérias e suas esperanças pelas ruas da cidade, iam pra lá, vinham para cá. Nada de novo no front. Nada nessa tempestade prometia o ensejo de algum acontecimento extraordinário, o que sem dúvida daria muito que fazer, e procurar, aos jornalistas, às fofoqueiras e aos aposentados das praças, que desesperados trocariam olhares de pasmo e diriam uns aos outros, em incrível demonstração de desespero e desalento: O que há?

Nada. E esse era o problema. Tudo normal, incrivelmente normal. Contudo, seja para comprometer o fio que tomava esta história, seja para atrapalhar o autor, eis que no momento inesperado, ruge dos céus um som perturbador, como quinhentos motores v8 a gorgolejarem em plena rotação, detonando os tímpanos presentes a um raio de três quilômetros da praça, faltou dizer que é uma praça que nos serve de cenário, de onde observamos toda a cidade, ensurdecendo esses pobres miseráveis sem que ao menos soubessem como e porquê.

O motivo do ruído era um disco. Não mais voador, porque acaba de rebentar-se contra o chão, esparramando muitos escombros e muita fumaça oriunda da poeira que levantou, caiu, sem, no entanto, explodir, como seria mais plausível, aceitável até numa catástrofe de semelhante dimensão. Mas se há algo que se vê como falho e extremamente maleável na história dos sucessos inauditos dessa nossa humanidade é o lógico. A lógica esqueceu-se, decididamente, de participar dos momentos ímpares da história humana, e isso desde os tempos imemoriais, que precisamente por serem imemoriais, fazemos uso da literatura preguiçosa, e escusamo-nos cá de referi-los.

Fez-se silêncio. Silêncio desolador, agravado pela multidão de surdos, da qual poucos deram pelo objeto, não mais voador, entretanto ainda pertencente à classe dos não-identificados (embora tenhamos já, em parágrafo anterior, a audácia de identificá-lo: disco voador). Dizíamos que o silêncio era aterrador, os surdos erravam pelas ruas às apalpadelas, em pleno desespero, como se em lugar de perder o dom de ouvir, tivessem perdido a faculdade de ver.

Começou-se a juntar gentes à roda do aparelho, desconfiamos de livre vontade que seja um, que admiravam o acontecido. Os aposentados, que dadas certas particularidades do modo humano de definhar, já não eram contados entre os maiores e mais capazes ouvintes do gênero, agora que eram surdos de vez, trocavam olhares de felicidade – que era o que lhes restava, os olhos – olhares de júbilo, extremamente eloqüentes, como se a falta da audição houvesse feito desses olhinhos diapasões que reverberavam: viste? Embora, agora, não pudessem mais contar tudo o que verão, surdos que são. Sim, eles têm consigo a ciência de falar, visto que não são surdos de nascimento, mas queremos crer que os locutores de semelhante sucesso só teriam prazer em relatá-lo se tivessem consigo a capacidade de ouvir-se. Diante disso, o máximo que esses basbaques fazem é olharem-se. Nada mais.

Apareceram seitas. Apareceram pessoas que queriam implodir o disco, outras que o queriam como um monumento. Houve quem sugerisse desmontá-lo para estudo e evolução de nosso exército, que é, evidentemente, a prioridade de qualquer sociedade contemporânea. Passaram dias, semanas. Ninguém arredou pé, o disco também manteve-se imóvel. A chusma só fazia crescer. A administração pública, cônscia dos seus sacro-santos deveres de proteção do populacho, considerava criar por lá uma sub-sede da prefeitura, e cônscia de outros deveres, não tão sacros, estudava sob que alegação lograriam cobrar impostos dos acampados da praça, nome pelo qual ficou conhecida aquela sociedade. O juiz daquela vara instalou, em lugar de um antiguíssimo boteco, um tribunal para mediar os pequenos conflitos que jamais faltam num aglomerado de gentes das mais distintas e distantes orientações. Decidia os conflitos em meio às mesas, cadeiras, mesas de bilhar, balcões e engradados. Muitas anedotas se fizeram a respeito, dizendo que o juiz queria mesmo era encher a cara e não pagar.

O exército estava de prontidão. As tevês. Os hippies, os yuppies, os ermitãos que voltaram à casa, conhecedores de que, agora, meu caro, que há semelhante novidade na cidade, não há mais que se fazer no meio do nada, das cavernas e do campo, onde justamente alguns deles, há anos, esperavam pouso de disco voador. Vieram toda a sorte de formas e maneiras de se ver o mundo também, tomando ruas, casas, prédios. Houve enorme procura por janelas com vistas para o sinistro, o que tornou a especulação imobiliária algo de muito proveitoso e feliz naqueles dias no entorno daquela praça convertida em campo de pouso.

Embora a defesa civil desaconselhasse, as árvores do lugar passaram a abrigar grande população de curiosos arborícolas, dos quais já havia os mais engenhosos que, pregando aqui e ali fizeram um confortável poleiro. O ser humano, sempre solícito, dono de espírito extremamente inventivo, já começava a alugar os poleiros para os desafortunados a quem faltou espaço nas árvores, o que semeou muita discórdia, posto que os corretores de imóveis viram-se na infeliz contingência de terem uma concorrência ferrenha com um modelo de habitação mais prático, próximo e barato do foco de atenção. Sentiram-se ultrajados e, pelo que se soube, se não fosse a presença de forças repressoras e o grande número de pessoas aglomeradas no entorno da praça, teriam partido para as vias de fato e tomado para si o novo e promissor empreendimento imobiliário. Entendiam eles que os direitos de exploração sobre qualquer forma de locação de imóveis lhes era garantido pelo bom senso e por qualquer lei, que seguramente havia uma. Como se sabe, fazer justiça é sempre uma maneira de cometer uma injustiça em causa própria.

Entretanto, a longa vigília já fatigava, começavam uns a considerar levantar acampamento. E os militares, que haviam tomado para si as responsabilidades do local, ouviam os apelos para uma resolução mais prática, e sempre respondiam que: não é hora ainda, tenham calma. Sendo que o alto comando mandava para os diabos o desazo que teve essa merda de nave em cair justo no meio de uma cidade. Que caísse esta desgraça em um campo, o dos ermitões, por exemplo, seriam poucos pra silenciar e poderíamos fazer o que bem nos aprouvesse dessa joça. Os militares faziam ouvidos moucos à voz do povo, ainda que seja ela a voz de Deus. Aliás, talvez precisamente por ser ela de quem é, é que lhe eram indiferentes os fardados em verde oliva. Que não se olvide jamais que, de Deus ou não, a voz que botou o Cristo na cruz foi dele, do povo.

Os soldados se aborreciam visivelmente. Começava-se a temer que o populacho exaltado rompesse o cordão de isolamento, mandasse às favas as prevenções militares, bem como seus fuzis, e descobrisse, enfim, o que havia lá dentro daquele disco. Se é que nele havia algo.

Um conselho foi formado, democraticamente, claro está, com representantes de todas as comunidades envolvidas na observação para que decidissem o que se fazer. E decidiu-se.

Decidiu-se tentar comunicar-se com o disco. Poderia ter acontecido de morrerem na queda todos os tripulantes e, pior, poderia ter o disco esmagado alguns infelizes que estavam na praça. E, cabe que se reprove este povo, pois só foram dar pelo fato agora, dias e dias depois. Egoísta e falha é a alma humana. E que se louvem os misantropos, que nesse quesito, sempre estão um passo a frente, a saber: maldizer toda a vida e o que de humano há nela, o egoísmo, principalmente.

Embora a decisão fosse no sentido de se estabelecer contato com a nave, havia ainda que decidir qual seria a forma desse contato, o que deu muita, mas muita, dor de cabeça. Uns eram do parecer que se deviam dar uns canhoaços, afinal, o exército está aí para coisas desse tipo, atirar em naves alienígenas das quais ninguém conhece o poder de reação. A outros figurava imperiosa a necessidade de se tentar contato de maneiras mais cautelosas, só não eram capazes eles de dizerem quais. Um bêbado meteu-se na discussão, sim, porque não lembraram de representar a classe dos bêbados na conferência, e o sabe toda a gente, menos os digníssimos do conselho, que praça em centro de cidade é de propriedade deles, dos ébrios. Ao bêbado figurava que deviam era ir todos para casa, porque aquilo já lhe dava nos ovos, faltava-lhe onde amaldiçoar a vida nas noites frias, desalojado que estava da privacidade necessária para ocupação tão meritória. Aliás, ao dar com o meritíssimo, que obviamente era figura do conselho, lembrou-se que este lhe seqüestrara indefinidamente o boteco, e isso tornou-o, coitado, irascível.

Levaram o bêbado para recompor-se. Enquanto reencetavam as tergiversações, uma criança, que ninguém viu de onde veio, e cumpre que se faça justiça, ninguém viu pra onde foi, rompeu o cordão, o circo de discussões sem que dessem por ela, apropinqüou-se do malfadado disco, tomou na mão de um escombro, pedaço de calçada, provavelmente, fez mira, e tal como o moleque que despedaça uma vidraça, descarregou no disco.

Fez um enorme barulho. Barulho seco, de pedra grande batendo em lata, lata oca. Todos, tudo, aliás, silenciou, como na ensurdecedora aparição da nave. Até o bêbado que ainda discutia com alguém sobre a cor do céu, que lhe parecia vinho e não azul, calou. Correu como podia e abraçou-se a uma árvore, dizendo: ah, querida, enfim te reencontro. Com que, então, morro?

Da nave, lentamente, surgiu um pequeno ruído. Baixo, foi subindo o barulho lentamente. Quando ouviu-se o típico zunido dos filmes de ficção no momento em que a porta de um disco voador se abre. Entretanto, fosse coincidência, fosse para comprometer toda a arte cinematográfica, esse foi o primeiro disco voador que viu a humanidade, ou parte dela, em que ao abrir a porta não prometeu aos olhos de ninguém luz branca ofuscante.

Não. Havia por trás da abertura um breu. Breu pleno. Nessa abertura foi se assomando, lento e cambaleante, um pequeno ser. Seu andar titubeante e as apalpadelas, algo incerto como quem acorda, rendeu comentários do bêbado: rá, olha aí, ali também temos quem aprecie a vida. Riu-se tanto o bigorrilhas que errou da árvore que há pouco era a sua amada que tornava do mundo dos mortos, e num misto de choro e riso, antes de cair aniquilado pelo porre, ainda pôde dizer: marcianos ou não, esses são já dos meus...

A liliputiana criatura chegou enfim à porta. Era baixo, não diga, tinha duas pernas e braços. Não chegou até nós traços mais definitivos e esmiuçados de sua figura, e do muito que se disse até hoje, só se pôde verificar como constante a alusão à presença de duas pernas, tronco, cabeça e braços, e é quanto nos basta. Olhou e, já acostumado com a claridade, viu homens, mulheres, a criança que lhe havia incomodado o sono, os militares, os hippies, os góticos, os pobres, os ricos, as árvores, o bêbado, o general apavorado, os canhões voltados a si, assim como as câmeras e, instintivamente, não logrou descobrir de que deveria ter mais medo. Só pôde dizer:

- Opa.

Brasil e o Voto

A Folha está longe de ser considerada padrão de jornalismo de qualidade por este que vos escreve - sobretudo após terem me negado uma vaga no programa de trainée na edição deste ano. Contudo na coluna Painel, saiu uma nota na edição de quarta (você precisa ser assinante da Folha ou do Uol para poder acessar - a não ser que possa consultar a versão impressa), sobre Clodovil Hernandes, do PTC (Partido Trabalhista Cristão), cujo título é: "Patrulha da Moda":

"A Comissão de Seguridade Social da Câmara discutia recentemente um projeto de mudança na lei que instituiu os medicamentos genéricos no mercado. Dr. Rosinha (PT-PR) defendia a colocação do nome comercial do remédio ao lado do genérico para facilitar o reconhecimento pelo público. Clodovil Hernandes (PTC-SP) interveio. "Sou contra essa coisa de genérico. É coisa de pobre." Perplexos, os demais deputados da comissão pararam para ouvir a justificativa, e Clodovil prosseguiu. "Esta minha bolsa, por exemplo, é Louis Vuitton. Comprei em Paris, por US$ 4.900. No camelô da frente tinha uma genérica, mas sem a mesma qualidade. Voto contra!"

Segundo números colhidos por este Tertuliano Máximo Afonso na Justiça Eleitoral, Clodovil foi eleito deputado federal pela vontade de 493.951 pessoas
.

Aí vem um babaca de cabeça vazia me criticar por votar nulo. É, me critique, mas pode ter certeza que eu não tenho culpa por esse e outros tantos deboches.

Renan e o Voto

Resumindo: com o senado fazendo o que fez, me perdoe, se você ainda tem esperança na política, repense.

E ano que vem, nas eleições, pense mesmo se vale à pena delegar seu poder de escolha a alguém que você sequer conhece.

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Não vai ao ar, não está nas páginas...

Enquanto a grande mídia se ocupa em criar "crises", "apagões" (é engraçado, mas pouca gente lembra o evento original em 2001 e eu defendo que Lula e a grande mídia devia pagar royalties pelo termo ao tucanato empoado e plutocrata que desmontou o país - por que, aliás, FHC que aparece sempre como um urubu agourento não cobra os royalties pela invenção do termo e do colapso da infra-estrutura nacional? Mesmo quando os jornais falam em "matriz energética", fariseus, deixam de remeter às origens do apagão, trata-se de um país sem memória), mas eu dizia, enquanto a grande mídia se ocupa de caos e apagões aéreo e na saúde (não vi nenhum pentelhésimo de segundo na TV sobre a epidemia de dengue em São Paulo), dizer com ar de fatalismo comovente que a bolha imobiliária norte-americana nos consumirá a todas e tenta expandir a lama de Renan Calheiros ao governo, passa incólume no noticiário interessantes notícias oriundas da BBC e do Financial Times (sim, a matéria da BBC-Brasil é um resumo interpretado da original do Financial Times - consideremos abertamente como picaretagem jornalística para conseguir mais acessos e justificar investimento público inglês na sucursal).

Pois é, resumindo, ambas dizem que o Brasil deixará a rabeira dos Bric's. O que dito assim, é pouca coisa. Mas lendo-se o texto com um bom dicionário na outra janela, dá pra entender que o Brasil, quero ver a cara dos cansados e dos bolcheviques do Morumbi, cresce. Há projeções para este trimestre que marcam 6,9%. O que não é apenas para inglês ver: a ANFAVEA (Associação Nacional de Fabricantes de Veículos Automotores) divulgou números sobre o mês de agosto, o melhor da história do país na venda de carros: foram vendidas nada menos que 217.324 unidades, o que dá uma média de 7.010 carros vendidos por dia, ou 292 por hora, se todas as concessionárias funcionassem na base de 24/24 horas. E se o povo tem dinheiro para comprar carro, que é luxo...


Parágrafo parênteses: Bric é um termo criado por algum basbaque do mercado para designar as economias enormes, díspares, bagunçadas, adormecidas e cheias de contrastes de Brasil, Rússia, Índia e China - ahn? ahn?. Os basbaques do mercado são insuperáveis em termos idiotas, a exemplo do pra lá de irritante "comodities", pode haver palavra mais chata? E ainda esperam que o povo entenda e leia cadernos de econômia. O jornalismo, decididamente, não se leva a sério.

Mas se você é leitor da Veja ou acha que a corrupção no país é coisa desse século, se acha que caos aéreo é o maior problema do país, foi na onda e acha realmente que o Cansei foi o maior movimento político brasileiro no século XXI e ficou amargamente decepcionado com esses dados, não se aborreça. Logo a Globo e suas congêneres inventam o "apagão das rodovias (privatizadas pelo tucanato emp... você sabe) e ruas", afinal, com tanto carro assim na mão do povo, só pode dar nisso, apagão, impeachment, corrupção, incompetência, falta de planejamento...

Em tempo: Tertuliano Máximo Afonso está longe de ser partidário dos petistas tresloucados e acovardados que assumiram o governo - eles se borram de medo da grande mídia, o que é prosaico e alimenta 80% do desprezo que o editor deste blogue é capaz de votar nos atuais mandatários. Tertuliano é pessimista como poucos e descrê na política como muito menos ainda. O que, no entanto, Tertuliano tem como poucos é senso de justiça. E gostaria muito de ver os anos de petismo tendo o mesmo tratamento que os de tucanato emp... tiveram, ou seja, solícita e aberta camaradagem da mídia. Tertuliano diz:

Tratamentos iguais entre iguais, putada.

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Alguém saberia me dizer o que vem a ser "à palo seco"?


Agradecido.

Futuro

Está tudo dito: pedirei José Saramago em casamento. Ele não teria por que declinar, teria?


sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Super Mario e frustração de criança

Super Mario Bros 3 foi um jogo que ocupou minha infância como poucos. Eu jogava muito Super Mario 3 porque era o único jogo que eu tinha para rodar no meu Nintendo. O Nintendo era o video-game mais escroto que alguém poderia ter na época em que eu o ganhei. Naquele momento, começavam a chegar aqui no Brasil as primeiras unidades do Super Nintendo. Foi um péssimo negócio, portanto. E vale frisar que esse tipo de equívoco assolou inúmeras crianças: você fica anos sonhando com um específico video-game, quando o ganha, chegam as primeiras unidades importadas com muito atraso da geração seguinte e você vira motivo de piada eterna na escola. É horrível ser criança às vezes.

De qualquer forma, o Nintendo vinha com um cartucho de Super Mario 3. E eu o joguei a exaustão. Jogando todas as fases e todos os mundos, que se compunham de fases, estimo que levar-se-ia coisa de umas 4, ou 5 horas para encerrar o game. Ocorre que eu nunca teria paciência para esse tempo todo, eu era uma criança, não um nerd. Isso eu virei depois, o que é assunto para outro dia.

Além de não ter saco para tamanha intemperança, o Nintendo que tinha não salvava o progresso no cartucho, como se tornou comum nos video-games posteriores. Resumo, embora jogasse e conhecesse como poucos as artes de Super Mario 3, eu jamais logrei encerrar o jogo.

Passou o tempo e se criou uma coisa chamada emulador. Emulador é um programa que lê jogos de video-game no computador (e hoje descobri que se pode jogar em flash aqui - um horror). Ano passado, pleno de toda a razão que me coubesse para encerrar em uma só tacada essa página da minha infância e o jogo que dela fez parte por tanto tempo, arrumei um emulador de Nintendo. E como os programas de computador melhoraram essa questão de salvar o seu progresso no jogo, voi lá, em questão de alguns dias e sazonais jogadas, encerrei Super Mario Bros 3 e me senti, enfim, adulto.

E dia desses tropecei nesse vídeo abaixo. Trata-se de um japonês nerd e sem graça que estabeleceu o recorde mundial de Super Mario 3. O que eu levei dias para conseguir, se você for mais puritano, anos, ele consegue através de manobras e atalhos que jamais sonhei existirem em 11 minutos!

Tive sorte de não ver isso quando criança, ele destruiria minha auto-confiança e meu ego. Eu não sei quem é ele. Mas o odeio com todas as minhas forças.

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Be Yellow!

Simpsonize-se! Be Yellow!!!

Versão simpsonizada do editor deste blogue.

Quer tentar? Clique aqui!



segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Por que você veio até aqui?

Atualmente há serviços gratuitos e muito eficientes de monitoramento de tráfego para sites e blogues. Eu uso um, o ShinyStat. E dentre as ferramentas que o usuário do serviço gratuito tem acesso, há uma bem interessante: ela mostra as palavras-chave que os internautas que acessaram o blogue digitaram em sites de pesquisa como o Google. Veja alguns exemplos curiosos que renderam visitas em agosto:


- "
para quê serve uma onça homem cara"

- "paul potts"

- "carne de onça"

- "
oab e a ditadura"

- "visivelmente"

- "filmes nas madrugadas da globo"

- "midiatrix"

Eu achei muito curioso o "
para quê serve uma onça homem cara" e resolvi testar, conforme você confere na imagem acima. Clique nela para ampliar.

domingo, 2 de setembro de 2007

Pan e Globobagens

O Pan do Rio passou e deixou seu rastro de obras super-faturadas, investimentos mal explicados (o orçamento estourou em 600% o previsto em 2002, quando o Rio foi escolhido como sede do evento) e um vazio inexplicável pela falta de vontade da grande mídia em explicá-lo. Porque fazê-lo seria admitir a própria tacanhice e falta de escrúpulos e honestidade para com o público. O Pan expôs ransos de falta de civilidade no povo brasileiro pelas suas medievais demonstrações de "torcer" ao vaiar com falta de educação e respeito delegações estrangeiras e criar uma idiota, inócua e ridícula rivalidade com Cuba e Canadá - como se tivéssemos nós algo de melhor que o evoluído, culto e tranqüilo Canadá.

E agora, mais de um mês após um evento de baixíssimo nível técnico que te venderam como Olimpíada, vamos ao balanço real das coisas feito pelo sempre excelente Juca Kfouri:


"Brasil potência

O basquete masculino brasileiro foi tricampeão pan-americano no Rio de Janeiro, em julho.

Houve, e não foram poucos, os que se esgoelaram com a medalha de ouro.

O atletismo brasileiro ganhou nove medalhas de ouro, cinco de prata e nove de bronze no Pan-2007.

Uma façanha, um feito admirável, olhe do que somos capazes, tantos se orgulharam.

O basquete masculino brasileiro não conseguiu vaga para Pequim no Pré-Olímpico das Américas, em Las Vegas, no primeiro dia de setembro.

E no Mundial de atletismo, no Japão, que acaba de acabar, o esporte nacional conseguiu apenas uma medalha, de prata, com Jadel Gregório.

Mas, não se esqueça: o Brasil é uma potência esportiva."


Mas não há porque desconfiar. A Globo diz que são nossos atletas. Nosso esporte. É Brasil-sil-sil, macacada! Ou ame-o ou deixe-o!!!

Um país que sequer consegue alimentar seu povo não pode arvorar-se de ser potência olímpica - salvo exceções como Cuba e algumas ex-repúblicas soviéticas herdeiras de política de incentivo de esportes e cultura suficientes para conseguir estes ou aqueles sucessos esportivos. O que não é nosso caso. Super-faturamos e construímos elefantes brancos modernosos sem o menor planejamento de manejo pós-evento, mas não discutimos um pouquinho que seja políticas de incentivo aos esportes.

Sobretudo no caso dos idiotas da seleção de basquete me dói o seguinte: no dia da final pan-americana, ao vencer a poderosíssima, a estonteante seleção de Porto Rico, ao final, às lágrimas vinham aos borbotões dar suas declarações para a Globo, a Globo que patrocina toda essa palhaçada sem transmitir uma partida de basquete o ano todo - incluindo o pré-olímpico em que a atual campeã panamericana de basquete, a seleção brasileira, fracassou espetacularmente. A Globo embalada pelo nefasto "Brasil-sil-sil", o ufanismo desmedido e idiota de Galvão Bueno, a truculência do Oscar falando em falta de apoio ao esporte, ao basquete, à desorganização, ao diabo à quatro.

Além de tudo muito bobos os jogadores de basquete. A Globo os vende, não os patrocina, está literalmente cagando e andando para o esporte. Sequer transmite uma partida por ano, e os trouxas, ao vencerem, fazem questão de demonstrar sua alienação e dizer "tô na Globo". O interesse da emissora no basquete somente surgirá se aparecer uma geração tão espetacular como a do vôlei masculino, o que parece não ser o caso por mais uns 4 anos, nas mais otimistas previsões. Enquanto isso ela ocupa a programação matinal do domingo com desafios internacionais, jogos mundiais de verão que sequer existem, são competições amistosas, de modalidades infantis e boçais apenas para vender a idéia de que "apoiamos o esporte".

Talvez a lavagem cerebral tenha tido um efeito especial em você. Neste caso, vamos aos números estatísticos:


Em suma, o Brasil é um estrondoso fracasso olímpico. Vai muito bem no Pan porque, a rigor, seus maiores adversários são Cuba, Canadá e delegações semi-profissionais dos Estados Unidos - o Comitê Olímpico deles só manda atletas profissionais em caso de haver disputa por vaga nas Olimpíadas, do contrário são enviados atletas de ligas estudantis. Em Olimpíadas o Brasil ganha medalhas de ouro em esportes pouco difundidos e que são praticados por meia dúzia de abonados como o iatismo e o hipismo.

Em lugar desse patriotismo imbecil e canalha que nos socaram goela abaixo, porque não se ocuparam de cobrar políticas públicas pelo esporte como ferramenta de equilíbrio social? Porque não começar a questionar a caixa preta do esporte brasileiro do COB à CBF?

É mais interessante enganar o público. Eu sinceramente acho que pega-se uma espécie de gosto mórbido pela coisa. Talvez Freud explique porquê. Depois que se conquista o poder de enganar a população e exercita-se essa capacidade a exaustão, suponho que fica difícil de abandonar o vício. Numa só tacada você ilude a população, "testa hipóteses" jogando na conta do governo 200 mortes da Tam e de lambuja ganha as lágrimas burras e comoventes dos jogadores da nossa incrível seleção de basquete. O poder é poda, diria o poeta.


Está virando um bordão, mas:

Estamos cercados de débeis mentais.


* Legenda que não coube na foto: trata-se de um jogador da seleção uruguaia de handebol durante o Pan. Nicolas Orlando com 1,68 de altura pesando 109 quilos é considerado obeso. E isso ilustra bem o nível técnico bizarro dos Jogos do Rio. Lembro que conheci o adorável gordinho em uma matéria do Globo Esporte que enfocava o lado inusitado de um "atleta" em um evento "sério" ser obeso.

Foto: Flavio Florido/UOL