terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Twitterando o blogue

Às vezes fica difícil, mesmo, ter alguma fé em Deus.

Aforismos - Carnaval

E vem chegando o carnaval. Bah:

"Vamos pular o carnaval. E ir direto para o fim do mês".

Aforismos - Das companhias

A Bíblia é um excelente depósito de bons corolários e frases impactantes - de tê-la lido de cabo a rabo umas duas vezes, acabei impregnado dessas passagens: "atire a primeira pedra", "dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus", "afasta de mim esse cálice", "olhai os lírios do campo", "cada dia tem o seu mal". Enfim, e há esta, adaptada:

"Me diga com quem andas que direi se vou contigo".

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

A baixaria nunca acaba

Há quem ache a Folha de S. Paulo o suprassumo. Eu sempre achei que ser o suprassumo do jornalismo brasileiro é mais ou menos como ser o suprassumo mundial em tocar guitarras imaginárias. É um nada. Enfim, pãos ou pães, é questão de opiniães, diria o grande Guimarães Rosa.

Mas o que conta é ver a antecipação de 2010. Sim, a sucessão presidencial entra em foco, e olhe aqui a maneira digna, adulta, polida, imparcial ao extremo, decente, irreprochável, com que o comentarista de política, Josias de Souza, trata a sucessão. O que só prova que ser o suprassumo do nosso jornalismo garante ao digno jornal, este baluarte da democracia e do bom exercício da profissão, o direito de fazer, também, jornalismo marrom (clique na imagem para ampliar):


O link do post está logo ali em cima. Pode ser que tirem do ar, então nada mais justo que um print-screen para garantir a posteridade.

Pálido ponto azul

Como somos mediocremente pequenos perante a magnificência do universo todo em constante expansão. Somos insignificantes, pequenos como um átomo pode ser perante o Sol. Não há verdade nova nenhuma nesta constatação, mas é admirável como somos capazes de esquecermos disso. Como somos bons em crer que nossas subatômicas vidas e as demandas imbecis a que damos alguma importância, como se realmente tivessem, são verdadeiras cruzadas. E elas mesmo, as Cruzadas, não são nada perante o tudo. Enfim, somos muito pouco e absolutamente porcaria nenhuma perante a enormidade daquilo tudo que nos cerca e que nós, incapazes de compreender e de vislumbrar os limites desse tudo, nos contentamos em crer que, talvez, seja nada.



É sempre bom colocar tudo em perspectiva às vezes. Ver você e sua vida de fora, sob um outro ponto de vista, é sempre algo que nos ajuda a melhorar. O problema é que fazer isso não é assim tão fácil.

Aforismos - Das inutilidades

Todos nós criamos sentido para a vida na medida em que nos ocupamos com aquilo que julgamos necessário, importante, prazeroso e/ou recompensador em alguma medida. Mas é tudo vão, no fundo a gente sabe.

"O legal de esgrimir contra moinhos de vento é que você nunca ganha. Mas também não perde".

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Acabou a baixaria

Neste post eu falei algo sobre o que viria a ser da imprensa quando a atual crise financeira batesse-lhe finalmente à porta, cortando as suas verbas publicitárias. É lógico que naquele post eu me referi a um asseveramento da crise, bem como a um futuro mais distante decorrende da ausência de verbas para a mídia brasileira se suster e, assim, poder fazer política como se espera de uma mídia livre e sem a menor qualidade.

Mas um fenômeno interessante vem acontecendo agora. Desde que a crise começou, a mídia corporativa se especializou em espalhar o medo, dizendo que a débaclé financeira chegaria aqui, e que seria um Deus que nos acuda, e o diabo que nos esqueça. Ao que, de maneira bem pouco inteligente, o presidente Lula nos disse "se vier, será por aqui uma marolinha".

E de fato, se vermos os indíces de desemprego e número de falências em outros lugares, a crise aqui não foi nada séria - mas do futuro ainda ninguém pode dizer nada. Mas nem por isso o nosso bravo jornalismo deixou de vibrar quando pôde contradizer Lula, ao dizer que a marolinha virou tsunami. As matérias vieram numa orgia de desencorajamento, de medo, de que teríamos sombrios tempos pela frente. Desencorajaram a um só tempo o empresário e o consumidor, deu no que deu.

O que aconteceu é que a classe empresária, devidamente amendrontada, fez o lógico. Para segurar-se em tempos de crise financeira, é preciso ter um estofo. Mais do que coragem, precisa-se de recursos para bancar os tempos negros. Ou seja, as empresas estão cortando gastos. E começaram isso na publicidade...

Em resumo, você começou a ver nessa semana, e isso se intensificará, matérias que falam sobre "lugares onde a crise não chegou" (Jornal Nacional de ontem). A Folha hoje tece panegíricos às franquias e a capacidade do brasileiro de empreender, além de falar da infraestrutura em alta. Eles brincaram, fazendo política, com algo que tem um poder muito maior que todos nós juntos: o mercado. E agora que sentem na pele, vão tentar desarmar a bomba que eles próprios armaram. É um prodígio de inteligência, como se percebe, a conduta do jornalismo brasileiro.

Falar do Brasil que atravessa a crise com admirável galhardia. Esse será o novo diapasão quando o assunto for crise. E será o verdadeiro. Porque de uma maneira geral o Brasil foi sim atingido pela hecatombe financeira, mas estamos longe da situação de crise que se verifica em outros lugares do mundo. E o pouco de "crise" que se instalou aqui é, no fim das contas, culpa da campanha de terror da mídia. Lembra muito aquela movida ano passado, por conta da febre amarela e que até matou gente.

Por essas e outras é que o Brasil não acaba. Por essas e outras, aliás, que defino o jornalismo assim: "arte de falar com pessoas, contar a outras o que elas disseram e mentir quando conveniente". Rapaz, achei mais um aforismo.

Aforismos - Da efemeridade da felicidade

Não existe felicidade, isso é ponto pacífico. O que existe, segundo o filósofo Odair José (ei, não ria, ele é legal), são momentos felizes. Colhi essa frase do Millôr Fernandes, portentoso produtor de aforismos, como se sabe:

"Feliz é o que você vai perceber que era algum tempo depois".

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Sobre os aforismos

Sim, estou tirando a maioria do blog antigo (na verdade, até aqui todos, é só procurar que acha lá). É uma reprise atrás da outra. Surgiu uma polêmica num comentário dizendo que eu os plagio. Se o faço, o faço plagiando a mim mesmo, portanto, estou escusado.

Próxima pergunta?

* Estou deixando este post fixo aqui em cima. Portanto confira abaixo, porque estou sempre atualizando o blogue. Este post ficará mais uns dias aqui esclarecendo aos desavisados.

** Esse aviso tem alguns dias. Portanto há exceções no que tange aos aforismos recentes. No que fala de semiótica, por exemplo, se você virar o blogue antigo de ponta-cabeça não encontrará absolutamente nada lá, porque nasceu ontem à noite.

Aforismos - Outro mundo

Diz o Fórum Social Mundial que outro mundo é possível. Ora, não há dúvidas de que seja, o universo é grande, afinal:

"Um outro mundo é possível. Em Marte".

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Aforismos - Das semióticas

E eis um inédito. Estava eu tentando explicar semiótica - a pouca semiótica que eu nunca soube - para minha mãe e usei o exemplo a seguir que, nada mais é que um aforismo:

"Pense na letra A. Quem disse que ela é um A? Quem disse? Se um dia os homens não tivessem entrado num acordo, dizendo que um triângulo com um risco na horizontal é um A, hoje, ele poderia ser um B. Só Deus sabe se o A não se sente infeliz por não ser um B".

Completamente fora da casinha

É assim que parece estar o Joaquin Phoenix (sim, a criatura barbuda na foto é ele). Ator duas vezes indicado ao Oscar por atuações em "Gladiador" e "Johnny e June", parece, perdeu completamente o juízo. O que tem tudo, desde que verdadeiro - e explicarei isso ao fim do texto - de ser um mal de família.

Eu sou um pocinho de cultura inútil - e por isso, acho, me dou bem na profissão de jornalista. E o meu acervo de cultura inútil lembra: "cara, o Joaquin é irmão do River Phoenix!". River era um ator extremamente promissor, tinha tudo para ser um Brad Pitt, bonito e talentoso.

Mas morreu no meio do caminho, em 1993, aos 23 anos. Morreu, aliás, com uma overdose de cocaína misturada com heroína em frente à boate que pertencia ao seu amigo, Johnny Depp. Pela carreira curta foram poucos filmes, mas dois pelo menos são bastante conhecidos: "Conta Comigo" e "Indiana Jones e a Última Cruzada" (onde ele interpreta o jovem Indiana).

Toda essa digressão para mostrar que parece ser de família esses ataques de porra-loquismo. Joaquin, um ator brilhante, disse que está oficialmente fora do cinema, que o filme "Two Lovers", lançado no exterior essa semana é sua última película e que agora ele é um cantor de rap (!). Eu não ligaria se ele cantasse os countries que cantou em "Johnny e June", mas, porra Joaquin, rap?

A coisa toda é tão bizarra e seu comportamento ao longo dos meses levou a todos a acreditarem realmente na sua disposição de se tornar um cantor. Posição bem digna de ser almejada por ele, dada a sua atuação brilhante no vocal de alguns sucessos de Johnny Cash, quando filmou a cinebiografia do cantor country norte-americano. Na preparação dessa nova figura, desse novo Joaquin Phoenix, que na verdade se chama Leaf, vale, por exemplo, se comportar mal no David Letterman a ponto de grudar um chiclete debaixo da mesa do apresentador:



Aqui você pode ver a entrevista completa.

Mas de onde diabos teria Phoenix tirado a ideia de cantar rap?

Ao que parece tudo pode estar sendo, no fim das contas, uma grande brincadeira. Desde que anunciou sua decisão de virar cantor, Joaquin vem sendo acompanhado por uma equipe de filmagem dirigida pelo também ator Casey Affleck. Eu sinto cherio de um muckdocumentary* por aí. E você?

* Definição dos documentários de ficção - sim, isso existe - a maioria deles é assim: fazendo o mundo pensar que tudo aquilo é real, só que não é. Alguns, acho que todos, são simplesmente geniais, eles brincam com nossas mentes. Daqui um tempo recomendo a todos alguns.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

O Grande Livro do Jornalismo

É assim que se chama uma coletânea com a fina flor da literatura e do jornalismo, que os Correios hoje touxeram-me. Trata-se de um compêndio com nomes como Dickens, John Reed, Norman Mailer e outros. É interessante porque trata-se de uma obra que dispensa nomes como Gay Talese e Tom Wolfe, ícones quando o assunto é fusão de jornalismo e literatura.

Ainda não comecei a ler "O Grande Livro do Jornalismo". Estimo que na semana que vem o faça e, aí sim, poderei vir aqui tecer meus comentários sobre as reportagens contidas na brochura. Aqui há uma resenha, fraquinha, contudo.

Mas isso não me impede de comentar o título do livro. Pretensioso, concordam? "O GRANDE Livro do Jornalismo", dá uma ideia de bíblia da arte de falar com pessoas, contar o que elas disseram para outras e mentir quando conveniente. Evidente que trata-se de uma jogada de marketing porque, no fim das contas, é um livro de uma editora menor, composto por nomes importantes, não há dúvidas, mas ainda que considerados jornalistas em algum momento da vida, alguns deles são muito mais escritores - de ficção, frise-se - que qualquer outra coisa.

Estamos num momento curioso onde, muitas vezes, compra-se o livro pelo título. Muitas vezes, aliás, este pode ser tão fantástico que dispensa a leitura da obra. "O Grande Livro do Jornalismo" é um título tão bom que dá ideia de que não precisa se ler o livro, você já sabe o que tem dentro e, o simples fato de ostentá-lo na estante, já faz de você um catedrático no assunto "jornalismo/literatura". Marketing.

Livros com títulos apelativos são muito comuns no gênero auto-ajuda. Por exemplo: "Mulheres inteligentes, escolhas insensatas". Ora... além de apelativo é frágil, porque você percebe que o autor classifica que todas as mulheres que fizeram escolhas insensatas - uma boa metade delas - são inteligentes! E além disso o título subentende que elas só fizeram escolhas insensatas porque possuem uma inteligência superior que as impeliu a isso, em resumo: pra quê ler o livro? O título já identificou causa e efeito, ainda que por meio de um panegírico duvidoso. De qualquer forma, para provar que mulheres inteligentes fazem escolhas insensatas, este livro foi um best-seller.

Voltando ao jornalismo e ao seu grande livro, é interessante, e julgo que soe desmerecedor nos bitolados pelo lead e o padrão atual que existam na coletânea tantas reportagens de escritores de ficção - ressalte-se: reportagens, não contos. Só que é discutível também até que ponto o jornalismo e a literatura não são, na verdade, uma coisa só. Peguemos o exemplo de Dickens, escritor do romantismo inglês e que publicava seus romances em folhetins nos jornais londrinos. Uma obra espetacular como "Oliver Twist" é ficção, mas até que ponto ela não servia de denuncia perante as injustiças da sociedade nascida depois do estupro que foi a Revolução Industrial na civilização? Até que ponto o romance não expunha as facetas mais violentas dos subúrbios, assolados por pobreza e crimes? É válido lembrar que falamos no século XIX, as noções de fontes, compromisso público entre autoridades e fiscalização do poder constituído ainda não haviam nascido. E era na literatura que as verdades da vida, observadas pelos escritores, poderiam surgir e serem expostas.

O curioso é que embora esse conceito seja simples de se perceber, muita gente é incapaz de concebê-lo.

Depois de ler o livro todo virei aqui amadurecer mais essas ideias.

Calypso para o Nobel da Paz

A notícia ainda não bateu nos grandes conglomerados de mídia, mas é questão de tempo para que aconteça. A banda de discutível qualidade artística foi indicada por um bispo católico do Ceará (ainda procuro o nome do benfeitor de Chimbinha e asseclas)* para concorrer ao Prêmio Nobel da Paz, em função de relevantes serviços humanitários prestados a populações mais carentes do nordeste.

O interessante é as toneladas de críticas preconceituosas que vocês ouvirão e lerão sobre o assunto. A rigor, no nordeste, Calypso é visto como uma celebridade do quilate de um Bono Vox. Joelma, a vocalista, é uma Madonna daquelas áridas paragens onde Deus esqueceu de semear alguma água. Muitos dirão que o factóide, porque é um, é absurdo, coisa de povo atrasado e ignorante. Burrice de quem o disser.

Que Calypso é um ícone popular na cultura nordestina não restam dúvidas, as marcas de vendagem de discos e de pessoas nos shows da banda no nordeste são impressionantes. É lógico que daí a dizer que a banda presta serviços humanitários relevantes é outro ponto. Mas na verdade não importa, porque é uma manifestação popular de massa e se alguém acha interessante que concorram ao Nobel da Paz, ora, que concorram. E quem quiser que reclame com o bispo (sentiram a intertextualidade entre o ditado e o factóide?).

E no fim das contas eles perderão certamente. Mas ainda que ganhem, saibam vocês que o Prêmio Nobel, ao longo dos tempos, cometeu dúzias de injustiças e de absurdos - esse não seria o primeiro e nem o último. Por exemplo, vai parecer que estou obcecado pelo sujeito, mas dane-se, Churchill ganhou o Prêmio de Literatura em 1953, mas tinha sido uma premiação política - embora escritor de vasta produção e de alguma qualidade, Churchill está muito longe do mérito de um Thomas Mann ou de um Hermann Hesse, ambos vencedores do mesmo galardão em outros anos.

O próprio laurel da Paz já sofreu vilipendios das comissões julgadoras. Sujeitos belicosos como Theodore Roosevelt, Yasser Arafat, Shimon Peres venceram o prêmio. De uma forma geral, o Nobel da Paz é atribuído por um ato isolado, e não por toda a tragetória do sujeito - embora esta, hoje em dia, conte bastante. Em literatura, no entanto, existem prêmios por "conjunto da obra".

Em resumo, o prêmio Nobel é muito menos do que realmente parece. Assim como o Oscar - ambos ícones, tem um sentido, uma significação alheia à sua realidade intrinseca, só tem a importância que parecem ter porque nós julgamos que tenha alguma. É um prêmio importante, dá status e 1 milhão de dólares ao consagrado, mas ainda assim, no fim das contas não significa nada. Basta perguntar aos que criticarão Calypso e sua indicação se eles sabem quem ganhou o último Nobel da Paz? E em que ano a Madre Tereza de Calcutá levou o seu? Quantos sulamericanos já venceram esse prêmio?

Claro que não saberão a resposta porque, a rigor, o Nobel é só uma bobagem ocidental. Só isso, Alfred Nobel, aliás, o criou por vaidade, não por altruísmo.

* Descobri. O nome do bispo é João Pedro Nascimento, presidente de uma ONG chamada Comitê da Paz. Viram só como religiosos são vaidosos?

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Aforismos - Da validade do pessimismo

Este eu escrevi em 2007, por ocasião da morte de Ingmar Bergman. Se você não conhece o genial diretor sueco, vai aí a dica. Ninguém pode considerar-se um pouco culto se não assistiu, pelo menos, "O Sétimo Selo" (clique aqui e veja o jogo de xadrez, uma das cenas imortais do cinema, entre o cavaleiro e a morte). Não se trata de gostar do filme. Não é isso, trata-se de assisti-lo.

"Vivem dizendo pra largar esse negócio de pessimismo. Mas olha o Ingmar Bergman, era um tremendo pessimista, obcecado pela ideia da morte e do nada, e além de ter chegado aos 89 anos, comeu as principais atrizes suecas. E teve tudo o que fez na vida, até flatos, considerados patrimônios culturais da humanidade, eternizou-se, o desgraçado".

Ninguém me entende

Ninguém me leva muito a sério. O que começa por mim, que desdenho de mim mesmo olimpicamente, e que se verifica nas pessoas do meu círculo íntimo. Mesmo na minha família a tendência é verificada: as pessoas desdenham do meu emprego. Não compreendem como eu posso trabalhar em casa, perante o computador e com horários e expedientes sempre mutáveis e, na maioria das vezes, curtíssimos e ainda ganhar pra isso.

E não é falta de vontade ou ausência de explicações de minha parte. De uma maneira geral, todos acham que estou enganando minha mãe, dizendo que estou trabalhando, e na verdade apenas coçando o saco indefinidamente, até o fim dos tempos.

O que me lembra uma canção do George Thorogood: "Get a haircut and get a real job":



As pessoas não entendem meu emprego na internet, tão pós-moderno quanto eu sou, em que não tenho que ver meu chefe, nem meus colegas e onde cabe uma paradinha para ver Sessão da Tarde ou para matar terroristas no Call of Duty 4 (aliás, deem uma olhada nesse link. Call Of Duty 4 não é um jogo assim tão recente e já faz parte do que se diz "fotorealista", é impressionante a qualidade gráfica e a riqueza do enredo, fazendo-o parecer um filme - essa mescla entre diversão e cinema nos jogos atuais, aliás, será assunto para um post futuro, aguardem).

Mas retornando ao assunto, o fato é que as pessoas não entendem meu emprego e não se esforçam para fazê-lo, porque estão bitoladas a um preconceito que diz que emprego sério é aquele em que o sujeito precisa cumprir horários e marcar presença física em algum recinto. Paciência, com o tempo os preconceitos atuais ruirão. Lógico, para o surgimento de novos. As pessoas, em resumo, não entendem nada de internet e de web 2.0 - mesmo as que dizem saber o que é isso, conforme tenho notado.

Aliás, poucas são as pessoas que me entendem.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Ainda um pouco mais sobre religião

Discutir religião é um caminho excelente para controvérsia e, claro, o lugar nenhum. Ninguém converte a ninguém com a discussão. Mas discutir a religião que você pratica entre aqueles que comungam da mesma fé é sempre algo interessante. Aprende-se muito.

Minha relação com a religião é bem distante dos ditames dogmáticos da fé e da Cúria, embora a título de catalogação eu me declare católico e que até vai às missas. Mas não pela Igreja, vou porque disse Cristo: "onde estiverem reunidos um ou mais em meu nome, no meio deles estarei", ou seja, Igreja em si é só o lugar. De uma maneira geral, torço o nariz para a instituição da Igreja porque sempre me pareceu que o homem é falível demais e, portanto, admitir que padres e os demais degraus hierárquicos da Igreja tenham sobre mim algum tipo de precedência moral, qualquer que seja, é uma tolice. É fato que a eles é dado um conhecimento que não tenho e que sua maneira de entender a fé, as doutrinas da Igreja e tudo o mais, provavelmente, é muito mais amadurecida que a minha.

Mas isso não quer dizer que possa e deva sempre prevalecer o que eles creem e julgam certo. O Vaticano ainda prega a infalibilidade papal, princípio sob o qual o papa é infalível e aquilo que diz é a verdade inspirada em linha direta dos céus por Deus. Ora... é mais ou menos como dizer que a Santa Inquisição é fruto da vontade do Senhor, que a perseguição a Galileu e a Torricelli foram inspiradas por Deus, que a Igreja acreditava que a Terra é plana por ordem celeste e que vieram das mais excelsas altitudes a orientação para perseguir aqueles que apontassem o Sol, e não a Terra, como centro do Sistema Solar, que o papa, enfim, não estava errado quando não fez absolutamente nada durante o Holocausto (este foi Pio XII). O papa é humano e erra, conforme se ilustra pelos exemplos acima, com enorme frequência - em resumo, não há nada de "santo padre" no papa - ao menos enquanto ele está em vida.

Não vejo os integrantes da Igreja como demonizados, como ignorantes ou retrógrados. Não. Os vejo como homens, simplesmente, homens. Falíveis, passíveis de tentações, de ambições pessoais, de fraquezas. Assim como vejo sua instituição, a Igreja Apostólica Romana, como um grupo de pessoas e que, dado o seu papel de destaque no mundo, é natural que exerça sua influência nem sempre de maneiras que estariam de acordo com o que diz a fé, afinal na maior parte desses casos trata-se da sobrevivência, de manter o status-quo (exemplo: ir na África dizer para ninguém usar camisinha, porque é contra-aceptivo, sabendo que os níveis de infecção por AIDS lá são assustadores - é bizarro, não faz sentido na lógica cristã, mas "faz" na lógica institucional-dogmática da Igreja). E lastimo quem não consiga despi-los, os párocos e todos os demais, de seu caráter de religiosos e ver neles o que, em última instância, são: homens - e isso explica o choque das pessoas ao saberem que um padre cometeu um crime, como pedofilia, por exemplo. Por que o choque? É um homem, não um semideus. E vale lembrar que Deus nos teria feito à sua imagem e semelhança, portanto, do papa a mim não a distinção nenhuma, somos ambos homens. A não ser que o que ele diz é tido como verdade absoluta e inconteste por multidões, o que eu digo ecoa na minha cabeça tão somente.

Além disso há muito mais que me distingue de quem pratica a religião e nada impõe para questionar o que faz. Eu, por exemplo, conheço muita gente que prega a fé, pratica sua religião com afinco (católicos e evangélicos, na família inclusive), mas nunca leu o livro sagrado que os inspira a todas essas coisas. Acho isso levemente artificial. É como quando você passa a adolescência em plácida aceitação dos princípios e valores que jogam a você. Passam os anos, você cresce e amadurece e entra em crise existencial: você não questiona a validade da vida e dos seus valores, você começa, enfim, o que devia ter feito aos 15, 16, 17 e 18 anos: questiona se aqueles valores são seus. (Isso normalmente acontece aos 40 anos e aparecem os bad-velhos).

E ler a Bíblia oferece esse ponto de vista, questionar a validade e a razão daquilo tudo, encontrar o sentido daquelas coisas e tê-los mais intimamente ligados à você porque você os buscou na fonte, e não cultivou ideias que repetiram à sua volta ao longo dos anos. E é um teste de fogo para aquele que se diz um homem de fé: o Antigo Testamento é repleto de assassinatos, de um Deus que inspira irmãos a se matarem e o homem a sacrifícios morais que, destituídos de suas personagens, se narrados aqui, teriam a conotação de práticas satanistas - muita fé neste mundo não resistiria ao conhecer o Deus do Antigo Testamento, mesquinho e violento (não cabe aqui a discussão de que o livro é uma metáfora e a forma como os hebreus encontraram de explicar o mundo, falamos neste texto de fé e religião, não de História). Já o Novo Testamento é controvertido pelo fato de que o texto não é original, tendo sido modificado diversas vezes na Idade Média e, além disso, é repleto de controvérsias e paradoxos difíceis de entender. Exemplos:

Jesus era filho do Espírito Santo, logo, gerado sem pecado, uma criatura por definição imaculada, sem penas e culpas. Mas então porque ele foi batizado por João que era homem e que exigia de seus batizados o arrependimento? Jesus foi batizado por um homem, sendo filho de Deus, e ainda teve de se arrepender dos pecados que sequer tinha? Qual o sentido disso?

Outra questão interessante diz respeito ao destino de Jesus, que levemente expus aqui, no post sobre o bispo que não crê no Holocausto. Cristo diz que seu destino está traçado, que ele irá morrer na cruz e ponto. Mas então porque Judas tem que ser amaldiçoado? Não parece cruel que alguém, simplesmente por ser o artífice do cumprimento das profecias, padeça como ele padeceu? Se, como de fato Jesus prega, o que tivesse de lhe ocorrer, ocorreria de qualquer forma, não fica a impressão de que não fosse Judas, seria, sei lá, Tiago? Não parece injusto aos olhos de quem deve ter amor ao próximo que um sujeito, simplesmente por ser a ferramenta da profecia, seja amaldiçoado até o entardecer dos tempos?

Alguém poderia dizer: "mas Deus colocou Judas no mundo simplesmente para isso". Então onde foi parar o livre-arbítrio, Judas era um simples autômato divino? E se Judas era mais um enviado do céu, porque a crueldade do seu destino, sobretudo tendo sido enviado de Deus? E se a Jesus repugnasse o destino de morrer na cruz, porque convidara Judas para ser discípulo, sabendo que seria por ele entregue pelas tais 30 moedas de ouro? Por não ter feito nada para escapar da cruz, Jesus, sob certo ponto de vista mais cartesiano, foi um suicida.

E a história de que ele o fez para nos salvar a todos? Sempre que fiz a pergunta a seguir a padres notei um ar constrangido ao responder: mas salvar de quê?

Em outras passagens, Cristo lembra que "não passará essa geração sem que o Filho do Homem tenha voltado". Ora, a geração passou, e fazem já mais de 2000 anos. E cadê o Cristo? De qualquer forma essa controvérsia é mais contornável: no aramaico, a palavra equivalente a "geração", serve também para designar "nação". Ou seja, pode significar que a volta de Cristo esteja vinculada ao fim de... Israel. Duvido, mas é o que os teólogos lidos por mim dizem.

De qualquer forma, excetuando a controvérsia etimológica do último parágrafo, nenhuma das explicações possíveis fazem sentido, desafio, aliás, alguém a prover algum nas questões levantadas - e não vale apelar para a muleta "mistérios da fé". A ausência de respostas não importa nenhum pouco, aliás. Pelo contrário, o fato de eu conservar minha fé e crença na divindade e na existência de algum ser superior, Javé, Deus, Alá, o que quer que seja, movido por íntima bondade, por comunhão e padecimento da vida humana, mesmo depois de me confrontar com tantas controvérsias, da falibilidade da Igreja aos tropeços bíblicos, acho, classifica a minha fé como mais firme que a de muitos que engolem sem questionar.

É fato que Jesus disse "feliz daquele que crê sem precisar ver". Eu sou assim, creio sem precisar das respostas, sem ver. Mas não sem questionar.

Aforismos - Do óbvio e ululante

Dando continuidade aos meus aforismos, mais um de lavra própria e que só me ocorreu depois de anos de intensa meditação e observação dos fenômenos a minha volta. É um aristotélico, praticamente. E tão definitivo que pode ser entendido como uma lei, inclusive.

"Se uma corda tem uma ponta, tem outra".

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Aforismos - Da humanidade

Sou bom com aforismos, definições, redundâncias e frases ignóbeis. Vou criar, portanto, uma nova categoria no blogue: aforismos.

E para começar:

"A humanidade se divide em três tipos de homens:
- Aqueles que tropeçam e caem;
- Aqueles que tropeçam e não caem;
- Os que nunca tropeçam".

Amor ao próximo

Semana passada o Vaticano resolveu aceitar em seu seio um bispo que havia sido excomungado em 1988. O bispo Richard Williamson havia sido expulso porque tinha sido consagrado pelo arcebispo Marcel Lefreve, líder de uma facção ultraconservadora da Igreja, à revelia do Vaticano. Uma expulsão justa e em regra, portanto.

Foi recebido de volta há pouco tempo e na primeira oportunidade que teve de falar, falou que o Holocausto, o morticínio de 6 milhões de judeus - excetuando aqui as outras minorias perseguidas - simplesmente não existiu. O que é uma demonstração de uma tremenda burrice, ou de uma estulta má vontade em relação aos judeus, combustível de atrito que jamais faltou nos conservadores e antissemitas. O conceito é idiota: por conta de Jesus ter sido metido na cruz pela palavra dos judeus, a culpa é deles. Mas não dizia o próprio Cristo que o que estava escrito para acontecer sobre ele, aconteceria de qualquer forma? Que culpa têm os judeus das profecias? Sob certo aspecto, ao saber da sua morte nos termos em que ocorreria, por nada ter feito para evitá-la, Jesus é até um suicida.

Desafia o bom senso e a inteligência a postura do bispo Williamson. Existem estatísticas, testemunhas, fotos, vídeos, depoimentos de sobreviventes, depoimentos de soldados alemães, documentos nazistas, confissões no Julgamento de Nuremberg, ruínas de Auschwitz e outros campos, enfim, toneladas de provas que mostram que, sim, Hitler um dia pensou na Solução Final e, sim, seus verdugos da SS a levaram à cabo.

Mas o bispo Williamson carece, qum diria, de amor ao próximo. A postura ultraconservadora da Igreja, sobretudo da doutrina anterior ao Concílio Vaticano Segundo de 1969 era lotada de ransos anti-semitas, com trechos de sacramentos que pediam para que "Deus ilumine o coração mal dos judeus e tire deles a maldade". Os ultraconservadores, como se sabe, nunca engoliram o Concílio de Paulo VI.

Já o atual papa, Bento XVI, que fora menbro da Juventude Hitlerista na adolescência, declarou que as opiniões de Williamson são inaceitáveis e que ele deve rever suas ideias sobre o assunto (aliás, nunca gostei desse papa. Não votei nele. João Paulo II eterno!). Bobagem. Mais do que isso, uma instituição que se diz pronta a conduzir o homem à salvação, que se arvora de ser o luminar da bondade e da paz entre os homens, do amor ao próximo - idependendo sua orientação religiosa - tinha que fazer mais do que isso. Tinha que excomungar Williamson novamente.

Querendo as ratazanas de altar ou não, o bispo fez apologia de um genocídio - que naquela época foi encarado com uma comovente indiferença pelo Vaticano, ocupado então por Pio XII. Se pelo menos 6 milhões de judeus morreram, em decorrência da guerra em si, foram 60 milhões de seres humanos. Quanta indiferença.

A Igreja é mais do que o mundinho cercado de milenarismos e ritos, além de gordas movimentações financeiras. Ela ainda ocupa um papel político destacado no mundo e ouvir de um de seus representantes - não importa se o mais modesto frade ou o mais importante cardeal - que o genocídio é balela depõe contra tudo o que a fé nos inspira a crer.

Com tropeços como esse eu cada vez mais me convenço de que a Igreja, quando da escolha de Bento XVI, decidiu que tinha fiéis demais e que convinha, no curto prazo, perder pelo menos a metade. Afinal, disse Bento XVI: "uma Igreja menor e mais unida". Diminui-la em tamanho e em deferência perante os homens ele vem conseguindo com admirável capacidade. Uni-la, aí eu já não sei.