A Universidade do Missouri passará a exigir que seus alunos do curso de jornalismo disponham de, no mínimo, um iPod Touch - que é um barato - ou de um iPhone, aparelinhos da Apple criados para a danação da raça humana, como se sabe.
Os eletrônicos em questão orçam, respectivamente, 230 e 250 dólares, e a universidade diz que, sem problemas, financia e dá uma ajudinha para que seus alunos possam adquirir os, odeio o termo, "gadgets".
Eu tinha, assim que vi a notícia, um repertório impressionante de gracinhas para vir aqui dividir com os caros sete leitores sobre a novidade. Mas perdi completamente a vontade. Sei lá, motivos não faltam para escrever um texto legal e colocar aqui.
Mas, como diria meu pai, "tá feroz".
terça-feira, 12 de maio de 2009
E se a moda pega?
às 09:23 1 comentários Marcadores: Atualidades, Tecnologia
domingo, 10 de maio de 2009
História de família
Diz Talese nas últimas páginas de "Reino e Poder":
"Garrett, que morreu com mais de setenta anos em 1954, era dono de uma casa de fazenda junto a um rio, muito perto do balneário de Ocean City, Nova Jersey, onde nasci e fui criado. Lembro-me, quando menino, de ver Garrett entrar na loja de meu pai: um cavalheiro distinto, usando invariavelmente chapéu azul-escuro e terno escuro, com longos cabelos brancos. Sentava-se às vezes durante horas, falando sobre a situação do mundo ou reminiscências do Times, assunto que fascinava meu pai, uma das três pessoas que liam aquele jornal, recebendo pelo correio, todas as manhãs, a edição de dois dias antes.
Depois que fui trabalhar no Times, meu pai me perguntou mais de uma vez se o nome de Garrett era mencionado por lá. Tive de dizer que não, nunca, e eu me perguntava se em algum outro lugar ele teria a fama de jornalista e contador de histórias que gozava em minha casa. Então, quando comecei meu livro sobre o jornal e não conseguia entender direito o estilo e o caráter de Ochs a partir das entrevistas e das leituras que fizera até então, encontrei um exemplar de "The American Scholar", de Richard C. Cornuelle, um escritor e consultor empresarial de Nova Iorque, que também fora amigo e admirador de Garrett. Foi por meio dele que consegui ler e tirar proveito de todo o diário de Garrett".
Se, de fato, eu conseguir ir nas duas palestras de Gay Talese e tiver a chance de conhecê-lo - vou tentar - me apresentarei como Garrett.
Seremos praticamente amigos, portanto.
às 08:27 0 comentários Marcadores: Cultura, Memórias
sábado, 9 de maio de 2009
Gentileza em falta
Aproveitei hoje o dia livre e fui numa chapelaria com um amigo. Enfiei na cabeça (ahn? ahn?) a ideia de comprar uma boina. E comprei uma bem bacana, acho que ficou legal. Tinha pensado num chapéu à la Gay Talese, mas desisti. Pouca gente conhece Talese e diriam que é coisa de emo, sabe como é. Vamos, neste caso, de boina.
Mas um episódio curioso, que já me aconteceu outras vezes aqui, deu-se na hora de pagar a conta. Entrei na fila do caixa pelo lado errado, inadvertidamente, mas me coloquei, afinal, no lugar certo para esperar. Poucos segundos depois, pelo lado certo, um homem de uns 35 anos entrou e foi direto ao caixa, ou seja, ele tomou minha vez.
Uma das mocinhas do caixa sorriu e vi seus olhos brilharem, pensei "putz, devia ter comprado essa boina há mais tempo". Pentelhésimos de segundo depois de o sujeito me roubar a vez, outro caixa folgou, o da mocinha, no exato instante que ela começava a sorrir. Me aproximei e ela me disse, em referência ao meu comportamento:
"O mundo precisa de mais gente como você!" - porque o paulistano comum provavelmente teria causado um pequeno escândalo por ter sua vez surrupiada. Devolvi dizendo que provavelmente é verdade, mas seria o caso de admitir que, muito mais que o mundo, São Paulo precisa de pessoas gentis - não como eu, tivesse o mundo mais Tertulianos e teríamos aí, meus amigos, um planetinha muitíssimo mais aborrecido e bem digno de pena. Enfim, infelizmente não foi minha boina à escocesa que cativou a mocinha. Mulheres.
Não foi a primeira vez que algo assim me aconteceu. Parece que ser gentil aqui em São Paulo é sinal de um refinamento e de uma índole inatacável. Penso que todos somos assim, na verdade, o problema é quanto tempo você fica testando sua resistência a truculência na megalópole. Parece que, com o tempo, as pessoas acabam criando um instinto meio selvagem, que vem bem a calhar nessa selva de pedra.
Eu continuo pacífico, calmo e misantrópico. Por isso me impressiono com gente mal educada nas ruas, nos ônibus, nas filas, em todo o lugar. Rio deles por dentro. Bobos, afinal "eles passarão, e eu passarinho". A vida é muito mais que pressa, que não leva a lugar nenhum, temos todos o mesmo destino.
E eu vou, provavelmente, perder a corrida da Fórmula 1 amanhã cedo, uma merda.
às 16:37 0 comentários Marcadores: Memórias
sexta-feira, 8 de maio de 2009
Minha mente vai melhor de metrô
"São Paulo vai melhor de metrô", é o slogam que a Companhia do Metropolitano de São Paulo usa. Tudo vai melhor de metrô, e a vida iria muito melhor se tivessemos como embarcar em estações, cruzar o caos que ferve na superfície e desembarcar-mos rapidamente nos nossos destinos. A vida seria mais fácil, como São Paulo é porque tem, pouco é verdade, metrô.
Andei por três linhas, num horário mais sossegado - qualquer um que não conheça São Paulo ficaria chocado com o número de pessoas - de modo que cheguei rapidamente a rodoviária pra comprar a passagem de volta ao Paraná. Foi uma viagem sem incidentes, não topei com nenhuma pessoa interessante, não puxei conversa com estranhos, só pude, mesmo, ruminar alguns pensamentos.
Não sou de fazer balanços a respeito da minha vida. É um hábito que nunca tive e que, no fundo, julgo inútil: encontrar muito mérito nas nossas realizações passadas é como admitir a incapacidade de fazer melhor lá adiante. Mas me peguei pensando no que, aos 24 anos, posso dizer que realizei.
E é muito pouco. Com 22 anos Alexandre, o Grande, já havia conquistado todo o mundo conhecido daqueles tempos sanguinolentos, o que é muita coisa. Eu não tenho a menor pretensão de conquistar o mundo, é verdade, mas à luz do que tanta gente já fez com a minha idade, sinto, minha vida parece tão incidental, tão insignificante, tão miserável que, desconfio, não mereça nem a dignidade dessas linhas. Sequer o tempo que algum desocupado venha a gastar com esse texto.
E pensando nisso, sobre o acaso das coisas, percebi, e lembro de ter pensado nisso quando descia na estação da Sé pra trocar de linha, que minha vida é uma sucessão de acidentes. Aliás, tudo é uma sucessão de acidentes. O fato de meu bisavô ter escolhido o Brasil, e não os EUA. De minha mãe ter se apaixonado, de meu pai ter correspondido, de eles terem ficado juntos pela vã crença de que se amam e de que isso é o certo. Mesmo antes, o que levou as amebas a se unirem em organismos maiores, o que, enfim, deu origem a primeira célula, esse inesgotável, grande, maciço e incrível "Por quê?" que nos rodeia, que pode ser, pura e simplesmente, obra do mais impressionante acaso, acidente.
A sucessão de acasos incríveis que fizeram com que esse planetinha possa suportar - ainda - a vida. O acaso que fez você que lê me conhecer, e daí ter a questionável necessidade de ler meus escritos. Ou então o incidente binário que fez com que uma inocente busca no Google te encaminhe para esse escrito que inunda a sua tela agora. É tudo tão insuportavelmente casual na nossa vida que não encontro muito sentido em buscar sentido nela - e isso explica minha paz de espírito. Só o fato de algum tropeço evolutivo ter feito com que eu seja capaz de escrever este texto e ser lido já é tema para questionar, e muito, tudo o que nos damos direito de pensar sobre nós mesmos nesse mundo. Somos, não tem jeito, acidentes.
E é provavelmente por ter consciência disso que me ocupo em vivê-la, a vida. Se me expremessem a troco de extrair de mim uma gota de sabedoria, acho, que o que mais próximo disso encontrariam seria a lição de entender que a vida é um fenômeno instrinsicamente incidental, atrozmente esporádico, que o meu hoje é o que importa e que, "cada dia tem o seu mal". Minha maior qualidade não é a calma. É a compreensão da vida como um trânsito, e do fato de que na verdade ela é um porre de cicuta, que a gente vai bebericando aos golinhos, aqui e ali.
E é o contraste que vejo nos vagões e estações do metrô que me fascina tanto e me faz pensar tão profundamente sobre bagatelas. Observo as pessoas que se obcecam com horários, compromissos. O cidadão que xinga se você tiver a desdita de lhe interromper a ascensão na escada, as pessoas que caem no sono no sacolejar barulhento dos vagões porque estão estafadas de um dia pra lá de puxado. Eu me compadeço deles, sem dúvida, mas muito mais os lamento porque não são capazes, a meu ver, de medir a vida pelo que ela é. Parece que as pessoas tomam a vida, medem sua importância, não pela altura real que tem, mas pela sombra que projeta, que é sempre muito difusa, enorme, e que está muito distante da verdade das coisas. É como medir o poste pela sombra que ele marca na terra, você sempre vai superestimar a importância das coisas e sempre conhece-las-á distorcidas.
E isso talvez tenha a ver com a fuga, o medo, as tensões ridículas que interpomos entre nós e o que sabemos nos fará bem, nos fará felizes. O medo de encarar verdades, seguir a luz das coisas que valem à pena, o medo, enfim, de olhar para vida pelo que ela é, não pelo que queremos que seja. O maior dos males que a herança cultural judaico-cristã nos trouxe foi incutir na mente e no subconsciente das pessoas que há algum tipo de mérito na auto-flagelação, no sofrimento e na privação auto-impingidos.
Sofrer é ruim, ainda que inevitável. E é por isso que escolher o sofrimento é uma grande bobagem.
*Na foto a estação Brigadeiro do metrô. É a velha conhecida dos tempos de Curso A. e ainda bastante usada por mim.
às 05:05 0 comentários Marcadores: Memórias
Estrada nova
Ah, Oswaldo! Acho que o Roberto Carlos devia estar fazendo coisas assim:
"Estrada Nova" e "A Lista" são canções que você não ouve, você vive. Sente.
às 00:25 0 comentários Marcadores: Cultura
quinta-feira, 7 de maio de 2009
Tudo o que precisamos fazer é...
Hugh Laurie é um ator sensacional. E esse vídeo um barato:
às 14:54 0 comentários Marcadores: Cinema, Cultura, Entretenimento
Poetizando
Poeta dos maus versos;
dos bons sentimentos,
dos sorrisos arrependidos;
E dos dias roubados.
Poeta sem vícios.
Nem qualidades.
Poeta das penas,
e das saudades.
Poeta de desventuras,
de versos e aventuras
Lágrimas e sorriso
em mais um verso indeciso.
terça-feira, 5 de maio de 2009
Reinvenção de mim
E eu que navego pelos ares
venho e vejo.
Sinto, um mundo de cores e vidas;
de dias e noites.
De alegrias interrompidas.
Deixo pra depois.
Postergo o sorriso.
Derramo a lágrima.
Levanto a cabeça, me arrependo.
Corro o mundo numa sístole.
Amo o sonho na diástole.
Vivo a vida num sorriso.
Abro os olhos e vejo.
Despedaço o peito...
Inicio o cortejo.
Sepulto o que há de bom.
Expulso o que há de ruim.
Me reinvento.
É na dor das luzes.
é no ocaso da saudade,
no peso das cruzes,
à luz de toda crueldade,
que sorrio e penso:
que vida, que amor!
Que dia mais intenso!
Bigode é hype
Ah, eu me divirto. Às vezes. Mas me divirto.
Cliquem aqui.
* Aos mais chegados, observem os créditos e fotos da matéria.
às 03:28 0 comentários Marcadores: Atualidades, Cultura
Verdades armadas
Poderia te dar todas as verdades
dos dias, das noites.
Mesmo dos sonhos.
Mas eu tenho medo.
Se te desse essas verdades,
você bateria com elas na minha cabeça.
Tetas, muitas tretas
Qual a sensação de acordar numa manhã de sol com o som de marmanjos urrando e fazendo escândalo na mesma proporção que o faria um esquilo se estuprado por um elefante? Horrível. Muito pior se você fizer parte do bando de marmanjos. Muitíssimo pior se você não sabe distinguir se há um esquilo, o que nos daria o direito de supor um elefante de libido desregulada, na mesma cena.
Logo que acordei disse pra mim mesmo que o domingo seria um dia de bizarrias. Começara mal, ou bem, questão de ponto de vista, com o transcendental show do Reginaldo Rossi, para o qual encontrei tempo e lucidez para algumas linhas já compartilhadas por aqui - apareceu até no CQC, o show, não as linhas. Mas não. O domingo não parou por aí, fui muito mais longe no que poderia suportar esse meu velho corpo carcomido, esse meu espírito ressabiado e essa minha índole decadente.
O show deu-se no Largo do Arouche, região conhecida do humorístico Sai de Baixo da Rede Globo, e permissiva a todos os trocadilhos de caráter sexual e de duplo sentido que o ser humano foi capaz de criar na longa história da linguagem - sabe-se que a região é fértil em mulheres liberais e mesmo de mulheres de gênero duvidoso, a tal ponto que é possível se dizer que no "Largo", hum, do Arouche abundam enorme fauna de mulheres de pinto. Pois é.
Ir e voltar incólume de uma região como essas, sobretudo bêbado, é sempre uma vitória. Não vale dizer que bêbado faz coisas que não se lembra e, portanto, é injusto duvidar do que fiz neste episódio. Eu tenho inúmeros lapsos de memória dessa madrugada, mas graças ao Deus dos bêbados, afianço-vos que da excursão ao Largo eu lembro tudo e não fiz qualquer bobagem, tendo de lá retornado com toda a dignidade.
Mas os marmanjos continuam gritando e vomitando desesperadamente. Que se fodam, poderia eu dizer. Mas não consigo dormir com gritos, e morro de medo que vomitem em mim. Sou sensível a essas coisas.
E aí me vem na mente a lembrança meio turva da noite. Os botecos da Rua Augusta. Coisa feia, barra pesada, cara. Eu lembro de alguém dizendo, ou teria eu lido nalguma parede?, que "mais vale uma teta na mão, do que duas no sutiã". Não há dúvidas quanto a isso, a questão é sempre a propriedade das mamas, e os humores da proprietária - parto sempre do princípio de que quem as tem é uma mulher - e disputá-las, as mamas, é sempre complicado.
- Cara, teta quem tem é vaca... - disse alguém. O que me deixou confuso, porque de tetas e de vacas entendo lá eu alguma coisa, de seios, parbleu, nem se fala. Particularmente, sempre gostei de ambos, seios e tetas, sobretudo quando nas minhas mãos. "Mas de que vaca falamos?" disse eu, porque é sabido que há aí uma enorme variedade de vacas, das mais leiteiras e das mais faceiras, o difícil sempre tem sido distingui-las propriamente umas das outras - e no meio de tudo ainda há as mulheres de fato, cada vez mais raras.
Lapso. Não sei em que caminho deu-se a discussão sobre tetas, vacas, seios e suas distinções. Não sei. É possível que tenha exemplificado um exemplar de vaca bípide, que são as de modalidade faceira, e a quem se pode classificar como portadoras orgulhosas e tetas, assim como suas pares ruminantes e quadrúpedes. Lembro de uma em específico, coisa antiga, tempos de faculdade de Engenharia Civil. Lembro de suas portentosas tetas e um dos amigos, que conhecia a parelha, condescendeu, lembrando do espécime em detalhes a ponto de dar o veredito: era, indisputavelmente uma vaca de duas enormes tetas a fulana. O que testifica para todo o sempre que, no fim das contas, não importa a qualidade de vaca, é certo que todas possuem tetas.
- Teta ou seio, é a mesma coisa, os têm as vacas de todas as qualidades e as mulheres também...
Generalizações nunca foram comigo, democrata subdesenvolvido libertário que sou, motivo pelo qual me senti compelido por um zelo ridículo em relação aos matizes femininos para defendê-las ferozmente. Vim a saber na discussão que, na verdade, em certa fase da vida todas as mulheres são portadoras de seios, em geral dispostos na parte superior do tórax e na quantidade de dois. A questão é o tempo, que como eu adoro repetir nos meus poemas ruins e nas minhas filosofias redundantes, é a medida da precariedade de qualquer coisa. Tudo oxida, evapora, esmaece, decai, some, morre. Dá-se o mesmo com os seios e com a índole de boa parte daquelas que os carregam. E é a decrepitude, segundo o parecer da distinta sociedade que discutia o tema, que torna seios em tetas. Não sei. Ainda acho que o que nos foi sempre seio tenderá a continuar assim para o resto dos tempos. É verdade que sou idealista demais, porém.
Mas o caso da índole que converte seios em tetas pode ser entendido no caso da menina que vira uma profissional do sexo, ou uma amadora do sexo, que são aquelas que topam qualquer parada pelo amor ao esporte (as outras topam a preços módicos e anunciam seus predicados por aí). Mas a, hum, digamos, amadora, pode - pode - ser chamada de vaca, o que classifica seus apêndices torácicos como tetas, embora dali saia leite apenas em período de gestação, dificilmente existam pelos, e seja tão bom de apertar como qualquer seio por aí. Características erógenas não encontradas, até aqui, nas versões ruminantes das tetas, salvo se o sujeito possuir uma líbido, a exemplo do elefante tarado do primeiro parágrafo, bastante desregulada.
Saber distinguir tetas de seios, e mulheres de vacas, é uma das marcas do homem bem resolvido, moderno e chorão, desses muitos de nós que se humilham vergonhosamente por mulheres que, na maioria das vezes, querem exatamente o contrário - ou não sabem absolutamente o que querem. Eu fiquei feliz em ver que sempre soube distinguir tetas de seios, embora isso não tenha me levado muito longe. Sempre soube, é verdade, mas mais por instinto de auto-preservação do que por qualquer outra coisa. Não tinha eu o arcabouço teórico no assunto que, doravante, me sobeja e que cá transbordo com todos vocês, meus sete leitores. O instinto de distinção de tetas e seios foi o que me afastou, por exemplo, da carreira de Roberto Carlos de Puteiro, coisa muito comum entre os meus amigos do tempo de ensino médio.
E estava eu feliz por lembrar de tudo isso quando me dei conta de que o escândalo cessara à minha volta. Babacas, me acordaram. Bêbado é foda. Odeio bêbados. Odeio todos os meus amigos bêbados, porque eles são muito idiotas bêbados e isso me irrita profundamente quando estou bêbado/sorumbático. Eu iria embora escondido, como sempre fiz nos anos de faculdade de qualquer festa, mas daqui não tenho pra onde ir. Dado momento, me batia um "ah, quer saber..." e sumia. No começo era divertido, nutria as preocupações de todos, ligavam-me desesperados para conhecer meu destino. Perguntavam se alguém havia me ofendido a tal ponto que eu não via recurso que não fosse pegar meu rumo. Mas com o tempo parou, perdeu o drama. O que só vem a provar que o tempo é o melhor conceito de precariedade já inventado e nos diz que, enfim, eu tenho razão em alguma coisa.
E daqui de São Paulo, nem muito bêbado, dá pra fazer isso, sumir bêbado e voltar pra casa. Não tenho refúgio - ainda - por aqui. Uma merda. Aguentei a zona toda olimpicamente. Vomitaram-se todos, cessou o escarcéu e eu posso agora dizer do que me lembrei ao escrever o parágrafo anterior.
Foi no papo que, depois de muito ponderar, levantei uma importante discussão de caráter científico quanto a viabilidade de uma classificação unilateral dos seios. "E as galinhas?" Que fazemos delas, que sabemos todos - ô! - que são aves, animais que põem ovos e que, sabe-se, em virtude disso, incapazes de amamentar e, em face a essa classificação, absolutamente privados de tetas. "Pois é, o que diremos das galinhas?"
E há muito o que dizer delas, das galinhas, que nos povoam a adolescência e nos tentam durante boa extensão, se não por toda, as nossas vidas. O que me lembra minha adolescência porra-loca, quando meus amigos, dos quais lembro só do nome de um, me chamavam pra ir em algum lugar comer umas galinhas. Eu sempre fui tapado. Nunca sabia precisamente a espécie da bazófia, e olha que gastronomia sempre foi-me um hobby. Freud explica. Há algumas passagens inenarráveis da minha curta e muitas vezes arrependida carreira de cafajeste nessa fase.
Lembro de uma festa de debutante. Era uma daquelas coletivas, reúne-se uma porção de adolescentes no limiar dos 15 anos, esbanjam-se fortunas, chama-se um ator global da Malhação, o que significa que é um babaca bonitinho, e pronto, temos um aniversário de debutante em regra.
A aniversariante era irmã de uma das mais comentadas galinhas de todos os galinheiros por mim frequentados naqueles tempos. Na verdade era uma daquelas festas coletivas. Sempre achei meio bobo o aniversário de debutante porque nunca entendi o que diabos de especial se comemora no evento, mas sempre guardei para mim a pergunta. Na ordem das minhas dúvidas existenciais, a distinção de tetas e seios vinha primeiro. Era uma questão mais profunda. Já resolvida, conforme parágrafos anteriores nos afiançam. No fim das contas era tudo uma questão de procurar nas fontes certas. Neste caso, no fundo das garrafas.
Provavelmente bebi demais naquela noite, não nesta, na da referida festa, porque fiz uma das minhas maiores besteiras. Sou pródigo em protagonizar asneiras monumentais, só que normalmente me orgulho delas - eu sou estranho, diria "um teorema", como definiu uma guria que foi capítulo de uma quase-asneira em janeiro de 2005 ou 2006, não lembro. Aliás, curioso, mas minhas asneiras sempre tem mulheres envolvidas. Isso devia me ensinar alguma coisa. Mas eu dizia, normalmente me orgulho das bobagens que fiz. Dessa particularmente, não. Teve significados e lições muito profundas, que mudaram muita coisa em mim. Pra melhor? Pra pior? Não sei. Já acreditei nas duas possibilidades.
A besteira em questão foi tirar pra dançar a supra mencionada galinha - e antes fosse só dançar com a ave. Ela deve ter voltado nas minhas sinapses alcoolizadas quando da classificação de seios, porque é um exemplo de aberração científica, a dar-se todo crédito à teoria das tetas, afinal tratava-se de uma galinha muito bem provida delas. Pareciam querer pular do decote. Provavelmente caberiam nelas todo o volume de uísque por mim ingerido naquela noite e, pensando no assunto agora, tantos anos depois, seria divertido beber dali... enfim. O que interessa é que a dança foi o evento inicial de uma série de desgraças na minha relação com as mulheres, e com as vacas, que parece não mais ter fim.
Juliana me ensinou a dor. Juliana me levou para a cozinha do clube. A cozinha não estava sendo usada naquela noite, ou pelo menos não aquela porção dela, que estava numa penumbra violenta. Meus instintos me avisavam, daí saíra merda, mas eu não ouvi. Ouvi o chamado das selvas, segui-a com o meu terno amassado, enquanto suas saias roçavam o chão e faziam um ruído que só poderia ser comparado ao andar de um fantasma naquela escuridão toda. Um fantasma que, fosse eu um apaixonado, poderia dizer que flanava sobre o chão, me conduzindo a um encontro romântico, único, apaixonado e inesquecível. Nada disso. Inesquecível foi, mas foi por conta de não ter sido romântico, único e apaixonado.
Chegamos lá. Amassos, nada de novo no front. Excitação, o lugar, o clima. O sentimento... que sentimento? Eramos dois estranhos, continuamos sendo-o para o resto de nossas vidas e duvido que o quadro se altere. Eu não sentia nada por Juliana, como não sinto nada pela gota de orvalho que rola por aí, sempre a esmo, mas sempre pelos mesmos rumos e sempre com as mesmas consequências, embora tenha sentido pela nuvem que a criou.
Enfim, Juliana sumiu numa volta no destino, sorte que parece reservada a todas as mulheres da minha vida, vacas inclusas. Nada demais, é assim com a maioria, sobretudo hoje que relacionamentos afetivos são roletas russas, com a diferença de que nesse jogo de morte você tem 6 chances em 7 de ser baleado, ao contrário do jogo tradicional, onde é 1 pra cada 7 tiros. Hoje em dia, meu amigo, relacionamento que dá certo, que não acaba, é exceção, não regra. Olhem as estatísticas.
E eu não sei porque gasto tanto verbo com Juliana, de quem sequer lembro a cor dos olhos. Poderia escrever sobre tantas outras coisas, igualmente desimportantes, mas com o mérito da sobriedade. Assim como não sei porque comecei a falar de bêbados escandalosos, das disparidades entre seios e tetas, bem como entre suas portadoras. E acabei em Juliana, por certo portadora de dois, mas de quem mal lembrava, de quem tenho a lembrança de uma troca de carícias sem sentido, sem sentimento, casual e tão banal como qualquer outra, porque hoje, à luz dos fatos, parece-me que foram mesmo todas assim.
Eu disse que Juliana me ensinou a dor. Me ensinou, na verdade, vários tipos de dor. A dor do sexo vazio, sem sentimento, banal, a idiotice de usar as pessoas como um instrumento hedonista vago e descompromissado. Com Juliana aprendi que era homem de coração, por mais que as consequências disso sempre tenham sido desagradáveis. Com Juliana aprendi que sexo, de qualquer natureza, é uma experiência eminentemente solitária e que a maior das alegrias é poder ao fim abrir os olhos e encontrar a pessoa amada - e privar-se disso dói. Com Juliana resolvi mudar minha concepção do amor, e isso sempre terminou mal - outra dor que lhe devo. Com ela senti a dor de não dizer "eu te amo" quando tenho vontade pela primeira vez - só que no caso dela eu não sentia nada, eu tinha a necessidade de dizer que amava em função do que acontecera. Juliana me ensinou muito mais coisas, nenhuma delas impublicáveis, fiquem tranquilos, mas que guardo pra outra ocasião, porque bêbado de olhos umedecidos é clichê demais até pra mim.
E, só para não perder o costume, vem a gata branca roçar-me as pernas. E só para não perder o costume do fecho da crônica, por mais que hoje já tão sem sentido, para não perder a chance do belo chiste, posso olhar para ela e dizer que sou uma pessoa profundamente feliz(?).
às 00:07 0 comentários Marcadores: Memórias
segunda-feira, 4 de maio de 2009
E agora, José? II
O autor talvez seja Italo Calvino, na verdade. O que significa que o livro é de múltiplos fins, múltiplas opções e múltiplos destinos. E aí é que está o busílis: leio/escrevo esse capítulo, ou corro de braços abertos para o outro?
Ah, as escolhas.
às 16:54 0 comentários Marcadores: Cultura, Memórias
E agora, José?
Alguém aí já teve a nítida sensação de viver nas páginas de um romance? E, pior, num do Hesse, do Kafka ou do Kundera?
Estou num diálogo que diz assim:
"- E eu bem que gostaria de saber onde é que tudo isso vai dar..."
às 16:37 0 comentários Marcadores: Cultura, Memórias
Fardos e fados
Pensava eu na vida;
Nos dias mais felizes
Na alegria que não tive.
No arrependimento que viceja,
E atira aos ombros o doce fardo
de todos os sentimentos não vividos.
E de tudo que fui
De tudo que vivi
Quisera eu poder
Ser o que não fui
Viver o que não vivi.
E tudo que já não importa mais.
domingo, 3 de maio de 2009
Onde moram os preconceitos
E eu de fato fui ao show do Reginaldo Rossi na Virada Cultural, naquilo que se convencionou chamar de Tenda Brega, no Largo do Arouche. Me surpreendi. Na verdade fui porque era algo diferente, mas não esperava me divertir tanto. Sou alternativo demais para ir ver, sei lá, Vanguart e as demais bandas de rock.
O público num evento desses tende a ser sempre algo diferente. E eu esperava gente mais velha, que curtisse o estilo exacerbadamente romântico, que conhecemos como brega. Nada disso. Esssas pessoas estavam lá, mas havia gente jovem, completamente diferente de um possível estereótipo do fã de brega que podemos ter.
Interessante ver a performance de Reginaldo, interagindo até demais com o público em diversos momentos, dando prelecões acerca da maneira muito particular com que enxerga a vida. Interessante também a profissão de fé de Rossi sobre o preoconceito com o tipo de música que ele e seus confrades fazem.
Ele cantou canções como "I will survive", traduziu a letra e mostrou que é brega também. Cantou trechos de Sinatra e fez o mesmo: "por que o Sinatra pode e o Waldick Soriano não pode?". E ele tem razão. Música por música, talvez, não haja diferenças grandes entre umas e outras. A diferença é o meio em que um Sinatra vicejou, o público para o qual fala, o fato de estar bem vestido sempre também contribui.
De qualquer forma, por mais que tenha exagerado ao colocar algumas composições no mesmo rol do, vá lá, ultra-romântico, como "Something", Reginaldo ganhou um simpatizante. Sua conduta e atenção para com as pessoas parecem realmente sinceras, e para quem conversa com um público mais humilde, isso é garantia de um bom respaldo perante ele.
Além da diversão do show, o público hum, digamos, interessante, da discussão em foro íntimo sobre o preconceito, foi um bom passeio. Se eu pudesse falar com o Reginaldo Rossi lhe diria que é tudo bobagem. O preconceito e a obcessão por rótulos daí proveniente que todos nós temos é uma idiotice. É tudo música. É tudo cultura, e é isso que importa.
às 21:08 0 comentários Marcadores: Cultura
sábado, 2 de maio de 2009
Perdas doem
Quando eu paro pra pensar nesse assunto, e confesso que nos últimos tempos ele vem sumindo cada vez mais da minha mente, tenho sempre a sensação de que foi muito cedo. Acabou rápido, de uma forma repentina e impensada, o que significa sempre muita dor. E doeu em mim. Significa também que tudo acaba de uma forma errada, dolorida, surreal. A sensação de que não devia ser assim, de que há algo para consertar. E que tentar valeria à pena.
Lembro que era de manhã. Aliás, era sempre de manhã que compartilhávamos alegrias incríveis. Eu era muito inocente para compreender tudo, mas era feliz e isso que importava. Até que tudo acabou.
E apesar dos precedentes, não era para terminar, afinal, havia ali tanto sentimento, tantas alegrias, tantas histórias, tanta entrega. Olhando em retrospecto o choque foi realmente impressionante, mas de uma maneira geral, já se viu vítimas de traumas maiores saírem andando, sem sequer acusar o golpe. Sem precisar levantar, porque sequer caíram. Mas daquela vez não seria assim, eu estava fadado a sucumbir nas dores das minhas lágrimas.
Lembro que acordei tarde naquele dia. Não conseguira levantar no horário - era fim de semana - e perdi o frescor do acontecimento. Contudo, lembro de tudo que veio depois, a dor, a tristeza, a comoção, a sensação de testemunhar uma história importante, mas amarga demais para ser contada, do fim de tudo e que hoje me parece já tão pueril.
Lembro muito bem de como reagi à notícia: chorei. Como todos mais, derramei as lágrimas, senti que perdia muito, que perdia tudo, uma boa parte de mim. Chorei, chorei escondido, lembro bem, no quarto de minha mãe, porque naquele momento me parecia o local mais isolado do mundo, o mais seguro para dar vazão aos meus sentimentos. Como uma redoma isolada, onde a dor que me consumia diria respeito à mim, que me via ali sumariamente solitário, absurdamente abandonado. Só e infeliz.
Ayrton Senna foi durante grande parte de minha vida um heroi. Aprendi com o tempo que ele era humano, que era capaz de atos mesquinhos, que fora em grande parte um produto midiático, que a sua obsessão pelo perfeccionismo não era saudável. Aprendi que não há heroísmo nenhum em vencer corridas de automóveis. Que suas vitórias eram dele, não do país inteiro em busca de redenção das suas misérias, dos seus fracassos, das suas vergonhas.
Mas não importa. Eu lembro com carinho a sensação de ter perdido um irmão, um tio em 1 de maio de 1994. A tristeza, o choque das pessoas. As freiras do meu colégio, as últimas pessoas que eu imaginaria capazes de comoção por conta da morte de um piloto, discursando com a voz embargada e pedindo orações pela alma daquela criatura que parecia tão forte, tão imune às angustias dos mortais, tão heroico que poderia vencer o tempo, a morte e a velocidade pela qual era apaixonado. Ele, naquele tempo, era um pouco meu também.
Organizaram uma exposição com objetos pessoais e até a Lotus amarela com que Senna disputou o campeonato de Fórmula 1 em 1987. Fotografei. Adoro F1 por conta dele e esse foi o segundo carro de F1 que vi de perto. Tirei fotos e prestei um tributo a um cara que, hoje, me diz pouco, talvez não mais do que um exemplo de desportista brilhante, de talento e competência em estado puro, mas que há uns 10 anos era um ideal de conduta, de comportamento, de vida mesmo, que eu seguia.
E talvez aí é que está o heroi Senna, por tantos buscado e por tão poucos encontrado: o sujeito, construído midiaticamente ou não, que é capaz de dar bons exemplos, inspirar pessoas a bons princípios e a boas atitudes. É um legado, sem dúvida, muito maior do que 6 vitórias em Mônaco, 41 vitórias na carreira e os três títulos mundiais. O sujeito que parecia de aço, que era uma força da natureza de dentro de um cockpit e que, ainda, tinha tempo para ser exemplo.
Muita gente naqueles tempos filosofou em público. Buscaram explicações para o inexplicável. Hoje, 15 anos depois do acidente na curva Tamburello, penso que poucos ainda são os que conseguem enxergar a verdadeira lição por trás do episódio: como diria Saramago, "certos estalos que damos, são para nos lembrar que somos caveiras". Senna parecia tão especial, tão imune, que nos esquecemos disso por um momento. O duro, como em qualquer perda, é o momento em que fomos forçados a perceber que nada, material ou sentimental, é para sempre.
Descanse em paz, campeão.
Só para constar
Apenas nessa semana que passou, encontrei aqui: Gislaine, Carol, Júnior, Aline, Paulo, Mônica, Douglas, Rodolfo e Ítalo. E há mais pessoas que não encontrei. E umas que gostaria muito de achar.
Ponta Grossa invade São Paulo.
às 03:32 0 comentários Marcadores: Memórias
Fim de semana agitado
A virada cultural é algo muito legal aqui em São Paulo. Domingo tem show de Reginaldo Rossi, Silvio Brito, Benito di Paula, Odair José e Wando. Tudo gratuito. Estarei lá lamentando profundamente a ausência de Sidney Magal.
Escrevendo do iPod fica difícil entrar em detalhes sobre a programação do final de semana, portanto assim que eu tiver acesso a algo com teclas de verdade, trarei mais detalhes da minha vida subcultural/alternativa/underground pela pauliceia.
Aguardem!
às 03:10 0 comentários Marcadores: Cultura, Memórias
