segunda-feira, 14 de setembro de 2009

No tempo em que ruim era o jazz

Jazz é legal. Ou, pelo menos, Miles Davis é legal. E Herbie Hancock também. Sempre tive pouco contato com o jazz. As poucas referências do estilo eram Lisa Simpson, Jô Soares falando no assunto nas suas intermináveis auto-entrevistas, uma música esparsa aqui e ali. Nunca fui além disso.

Recentemente, ou nem tanto assim, cursando a faculdade, ouvimos falar de um tal filósofo aí, meio assim, Theodor Adorno. Da galerinha da Escola de Frankfurt, que contava com senhores como Habermas, Horkheimer, Walter Benjamin, Marcuse e outros menos votados. Adorno é, provavelmente, o maior expoente deste movimento do pensamento humano da primeira metade do século passado. O dono da bola. O vocalista da banda ("Adorno e seus Filósofos"?) - ou do grupo de samba ("Filósofos do Samba"?), dado o número de integrantes. No movimento de cunho filosófico, pode-se dizer que ele, Adorno, fazia o papel de anão zangado entre os escolásticos pensadores culturais daquela milenar cidade alemã.

Adornava, e adorna, por assim dizer e para não perder o hábito de trocadalhos do carilho com nomes e obras filosóficas (este blogue se batiza por um trocadilho, é vício que remonta aos ancestrais tempos da internet discada e do blogger.com.br), mas eu dizia que Adorno(a) a memória daqueles sujeitos que muito ponderavam o mundo, a sociedade e suas relações com os bens culturais. A Escola de Frankfurt foi um movimento filosófico que pensava a cultura na era da sua industrialização - fenômeno que começava naqueles doidos, e doídos, anos 1930. Foi quando, resumindo, a cultura passou a ser negócio, vendável e estrondosamente lucrativa. Em linhas gerais, os teóricos de Frankfurt são uma pedra angular na concepção da comunicação. Tertuliano, enfim, também é cultura.

(Vim a perceber isso muito tempo depois, mas o interessante da maioria dos cursos da área de Ciências Humanas é isso: te ensinam nulidades e bagatelas como essa sem as quais você viveria perfeitamente bem e feliz. Talvez, se lesse os livros percebesse e aprendesse por si mesmo. Mas o fato é que você se sente inteligente por saber coisas que não importam muito, não fazem a menor diferença e não resolvem nada).

Nos longínquos idos de 2004, que foi quando tomei meus rudimentos de conhecimento acerca das teorias do pensamento que norteiam as concepções presentes da comunicação e, portanto, também fiz minhas primeiras incursões acerca do filósofo tedesco, luminar destas sobreditas teorias, sempre a adorná-las com sua índole pessimista e carrancuda, pensava eu, sempre, como deveria ser complicado ser aluno do sujeito. Pelo teor, substância e desesperança das coisas que escrevia, devia ser, Adorno, um sujeito muito Teodoro. Sempre invoquei com o nome Teodoro. Nunca confie em alguém chamado Teodoro. Em qualquer idioma. Pessoas que se chamam Teodoro não sorriem.

Imaginava que levar um esporro do professor Adorno seria uma experiência assaz amarga. Afinal, munido de todos os traquejos argumentativos do filósofo, elevados exponencialmente pelas particularidades da língua germânica, tanto em inflexão e fonética, quanto em gramática e complexidade, Adorno devia saber como desmontar argumentos, egos, pessoas e ideias exemplarmente. Levem em consideração que nosso filósofo bávaro, e bravo, além de sobreviver ao nazismo, lecionava na Sorbonne em Paris no Maio de 1968...

(Momento wikitertuliano: Maio de 1968; movimento de rebeldia daquela geração que, muitos achavam, e ainda acham, garantiria liberdade às mulheres, mas o mais que fez foi lhes garantir o direito de se exibir tanto quanto os homens. Não me trucidem, ó leitoras: digo isso sem machismo, com ou sem Maio de 1968 mulheres são oprimidas mundo à fora, o que mudou é que podem fazer top-less no mundo dito livre, andar de mini-saia e frivolidades que tais, e antes não podiam. Para gáudio de nós, homens opressores, frise-se. Hum, você é mulher e discorda? Ora, as mulheres queimaram sutiãs como protesto contra a opressão, ainda que simbólico, mas não maridos ou executivos machistas. Pensen nisso, ou me processem).

... e sempre pensei como ele reagiu à primeira jovem de vergonhas expostas. Se o seu niilismo de quatro costados sobreviveu ao teste. O que terá ele dito pelos corredores da secular universidade francesa? Teria, em algum lapso, sentido falta dos tempos de disciplina do autoritarismo que o perseguia e a seus asseclas? Teria ele suspirado e dito: "ah, a nos tempos da Gestapo..."?

Outra coisa que me ficou na mente sobre Adorno foi seu pavor patológico relacionado ao Jazz, e eis que aqui vou regressando ao que, em princípio, era a ideia desse post: jazz. Gênero que o pensador alemão classificava como exemplo de "música rápida". E, acredite, você não quer ser clássificado de amante de música rápida por Adorno. É evidente que é uma questão de conceitos da época em que Dodô jogava no Andaraí, bairro frankfurtiano. Dodô é curruptela para o Theodor-Teodoro, nos tornamos íntimos de algumas pessoas ou entidades com muita facilidade, brasileiros que somos, e eis meu caso com Dodô. Dizia eu que o horror ao jazz votado por Dodô era da época, em virtude do que ele tinha a sua disposição para balizar seus pensamentos a respeito da cultura reprodutível.

E hoje, como se sabe, o jazz se tornou uma manifestação cultural altamente elitizada. Para horror das caveiras de Dodô que devem chacoalhar virulentamente onde quer que tenha sido sepultado - eu chuto Paris - sempre que o ritmo de origem afro é festejado neste mundo. É cult gostar e apreciar jazz. Sorte de Adorno que fosse ateu, do contrário sua alma vagaria por aí, se lamentando pela inversão de valores que, veja só, começou justamente no Maio de 1968, e que hoje nos faz selvagens embrutecidos escutadores de jazz. O que, claro, não quer dizer que jazz seja bom, necessariamente. Quer dizer, apenas, que o jazz é elitizado e, normalmente, ouvido e promovido por classes mais bem prevalecidas.

Penso que se vivo fosse, Adorno não se ocuparia desancando jazz e seus amantes. Ele gastaria seu fosfato com o sertanejo, o pop, pagode, axé e tantas outras manifestações que a contemporaneidade nos obriga a suportar. Rapaz, ele teria urticárias com música eletrônica, dessa feita em pc. Acho que ele gostaria de jazz se fossemos contemporâneos. Sobretudo se ouvisse Herbie Hancock. Não dá pra não gostar de Hancock. Ou Miles Davis.

Adorno era um sábio. Morreu antes das coisas piorarem muito. Em 1969, na onda de Woodstock e dos tempos loucos que seriam os anos 1970. No tempo dele ruim era o jazz.

domingo, 13 de setembro de 2009

MSN

"Por que você posta, e horas depois corta, emenda, torce, incha e reescreve seus posts?"

Porque eu nunca estou satisfeito. Com meus textos. Nunca.

Então porque não publica só quando estão prontos?

Se fizer isso não os termino nunca.

sábado, 12 de setembro de 2009

O meu 11 de setembro

Eu não tenho uma relação tão especial de testemunha da história com o 11 de setembro como algumas pessoas têm. Na verdade, não me diz muito respeito a data, e se, de fato, ela repaginou nossa história enquanto civilização, eis aí um fenômeno que só poderá ser atestado com o distanciamento histórico (tem acento nisso?). Embora somem já 8 anos não me sinto em distância suficiente para falar do 11 de setembro como história. Pra mim foi ontem.

Não se trata também de relativizar o evento, embarcando nas prolixas, imaginativas e divertidas teorias conspiratórias que atestam tudo como um engodo. Não se pode duvidar da capacidade daquela gente, os republicanos dos EUA, de baixarias. Mas é um pouco demais imaginar que foram eles o dedo que deflagrou a hecatombe, que deitaram as torres abaixo e ainda econtraram tempo para derrubar outra aeronave no Pentágono, o centro nevrálgico - sempre quis usar esse termo, demais! - da estratégia de defesa dos rednecks.

Provavelmente o 11 de setembro tem toda a importância que não vejo para quem viveu a coisa de maneira mais direta. Os norte-americanos têm todo o direito de proclamarem a data como marco histórico deles. Pra mim, na verdade, o 11 de setembro e todo aquele período marcou um momento estranho na minha vida. Eu tinha 16 pra 17 anos. E não sabia nada da vida.

Naquele ano, 2001, eu encerrava o ensino médio. Não digo que fazia o "terceirão". Era uma escola pública sem a menor preocupação de uma preparação decente ao vestibular e, portanto, era apenas o terceiro ano, cumprido por mim e meus bons colegas que não vejo há mais de 4 anos, com toda a fleuma, relapsidão e pachorra de alunos pouco obcecados que éramos. No fim do ano acabei prestando vestibular para Engenharia Elétrica na Federal do Paraná - não sei onde estava com a cabeça.

Eu era um porra-loca no ensino médio. Eu aprontava pra cacete. Acho que no fundo eu sabia que a vida não seria mais a mesma depois da inconsequência daqueles anos de adolescente desobrigado, depois do fim da escola. Minha responsabilidade era frequentar as aulas - ou se não as frequentasse, ao menos não reprovar por faltas, capacidade que levei às raias da perfeição anos mais tarde, na universidade - e somar pontos que me dessem o diploma de ensino médio. O resto, bem, era resto. E era divertido.

Em 2001 também eu comecei a trabalhar, impulsionado por meu pai, que era, indisputávelmente, o homem mais sábio de sua geração e provavelmente um dos mais sábios que um dia caminharam por essa terra de misérias. Na verdade não era propriamente um trabalho. Era um estágio administrativo/burocrático que realizava no setor de almoxerifado da Unicentro. Instituição estadual, abria espaço para estudantes do ensino médio realizarem estágio remunerado - muito mal remunerado, é bom que se diga - no período em que não estivessem em aula. Era esse meu caso.

Meu pai lecionava na Universidade. Íamos juntos, voltávamos juntos do expediente. Sempre tinha sido próximo a meu pai. A diferença é que aqueles meses do ano letivo de 2001 nos fizeram algo mais que pai e filho. Não nos fizeram colegas de trabalho. Aqueles meses nos tornaram amigos. Quando voltávamos tarde da noite, conversávamos pelo caminho. Dividíamos, já em casa, o café antes de dormir. Pois é, acostumados desde cedo, ambos, o café já não nos prejudicava o sono. Bebíamos café, assistíamos o Jornal da Globo e, quem sabe, o Jô. Tudo isso regado a comentários, ponderações, amizade, conversas. A pena, e sempre há uma em tudo, eis aí a mais verdadeira das minhas filosofias, é que não versávamos muito em confidências. Fosse esse o caso, talvez, meu pai pudesse ter me ajudado em outra questão marcante daqueles tempos. Paixão, por exemplo.

Eu tinha nessa época a semente daquilo que a gente, anos e anos mais tarde, entende ser o amadurecimento. Em que pese as badernas na escola pela manhã - rapaz, eu aprontei umas que não estão no gibi - havia à tarde e pela noite, que eram os períodos do meu expediente, tempo para ser responsável. Para pensar na vida com seriedade, para trabalhar pensando no amanhã, para encontrar o amor. Para se esconder dele com as mãos suando também.

O nome dela era Fernanda. Tínhamos muito em comum, Fernanda e eu. Ambos estagiários, mesma idade, filhos de professores da universidade. Eu conhecia a sua mãe, professora, de vista. Não sei de que curso, não saberia dizer o nome dela agora e nem há oito anos. Quanto a Fernanda, soube que era esse seu nome pelo crachá que ostentava, ítem de obrigação entre funcionários e estagiários.

Fernanda vinha sempre requisitar material de escritório para o setor onde estagiava comigo que, vale lembrar, ficava no almoxerifado. Vinha, pedia o que queria, mas sua voz tremia, ela ficava nervosa. Sorria, falava ora rápido demais, ora devagar demais. Fernanda, provavelmente, estava apaixonada por mim. O que era novidade. E eu acabei ficando por ela.

Eu a havia conhecido poucos meses antes, em 2000, quando fazia inglês no CCAA. Ela estava lá. Já tinha visto na rua uma vez. O problema é que um de nós, não lembro mais o qual, estava em um módulo mais avançado do curso, o que, portanto, excluía a possibilidade de uma providencial transferência de horários. Cheguei, já naquela época, mal tendo visto Fernanda, sem sequer saber qual era seu nome, a ponderar a possibilidade. Fernanda estava normalmente com uma calça preta de listras vermelhas, o que a classificava como aluna do outro grande colégio da cidade, o que também nos afastava.

Ali, naquele cubículo onde eu cumpria o expediente, nasceu uma paixão de adolescente. Nunca floresceu porque eu sempre fui tímido demais - e tendo 16 anos a gente não sabe como lidar com essas coisas. O mesmo vale para Fernanda, que vinha suar e derrubar coisas na minha presença. Não sei se me lamento, hoje, à luz de tantas outras coisas.

Eu nunca mais vi Fernanda. Em dado momento daquele ano tive que mudar meus horários. E isso cessou nossos encontros, que tornaram-se ainda mais raros. Isso tudo me volta à mente hoje porque, pensando no 11 de setembro, só sou capaz de lembrar das coisas que perdi naquela data.

Ninguém próximo morreu nos atentados. Mas, de certa forma, aquele período foi uma fase de perda de inocência, de descobertas amargas, de umas outras bastante felizes. Foi uma época em que eu me aproximei muito do bastante que já era próximo de meu pai. Eu não sabia, mas ele viria a morrer em pouco mais de um ano. Naquele tempo meu coração bateu acelerado, eu suei nas mãos, tremi a voz e não fiz nada.

Lembrei de Fernanda e nosso flerte casto e singelo quando conversava com uma amiga por MSN. Confessou-me que fora apaixonada por mim e eu ri, porque nunca imaginaria aquilo. Pensando depois, me ocorreu que ela foi cúpido em outro episódio. E até disse que não sabia de alguém que tivesse um dia se apaixonado por mim, que seria a primeira vez. Menti. Antes de todas, houve uma Fernanda.

Hoje, ao redigir esse post, ao pensar em tudo isso, revivi um pouco daquela época nas minhas lembranças. E senti um pouco de tristeza, ao lembrar que nunca mais vi as pessoas que então eu julgava importantes. É a vida. E ao lembrar de Fernanda gosto de pensar que ela suou as mãos e gaguejou por alguém nesses anos. E que, talvez, ainda lembre do seu 11 de setembro e de todo ano de 2001. E que lá no meio disso tudo, exista ainda algum espaço para um dos amantes mais canhestros de todos os tempos, de inconparável timidez e de topete arquitetônicamente desenhado em quilos de gel.

E, se querem saber, no dia 11 eu matei aula. Química. Cristo, como eu odeio química. Fui embora e cheguei no meio da manhã. Na TV, prédios queimando, gente morrendo, desespero. E o resto é história.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Digita rápido, é? Sei...

Eis aí um teste para aqueles que, como eu, digitam alucinadamente rápido - ou pensam assim. Para ter acesso ao teste, clique no meu resultado ali. E que frise-se que é um resultado aleatório, já fui bem melhor. Esse ali foi apenas para gerar o código HTML, afinal. Uma vez no site, basta digitar a palavra, dar enter ou espaço e partir para a outra. Quando o tempo esgotar você terá a resposta e saberá o quão rápido digita:

40 palavras
Speed test

Rádio: Joaquín Sabina - ¿Quién me ha Robado el Mes de Abril?

Conheci o mestre Sabina por indicação, ainda no princípio deste ano de 2009, do meu assessor para assuntos de cultura hispânica. Gosto de algumas canções deste espanhol, e uma delas é esta:

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Não adianta

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

9 do 9 de 09

9 de 9 de 09. 09 horas, 09 minutos e 09 segundos.

E não, o mundo não acabou.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

O dia em que cresci

Fazia algum tempo que eu não a via. Olhei pela janela e ela estava sentada, calma. Faltava, entretanto, alguma coisa. Comia sozinha e distraída, como se estivesse longe. De fora e de longe eu pensava comigo que não estava certo, algo tinha que ser feito. Eu sempre acho que algo tem que ser feito, mas nunca deve. Eu sempre acho que nada deve ser feito, e sempre deve. Eu nunca sei nada.

Mas me incomodava não poder entrar. Nem falar. Nem ser, quiçá abraçar. Me comovia o quanto eu podia fazer, o quanto queria, o quanto devia, talvez, mas o quanto não podia. Crescer nunca é fácil. E embora eu não seja mais criança, sinto que cada dia que passa, eu cresço mais. Crescer é se despedir de muitas coisas, e eu todo dia perco um pouco mais.

Foi aí que eu percebi que encontrar alguém que nos desafie a ser sempre o melhor que pudermos ser, que nos torne pessoas melhores e mais completas é algo raro. Foi aí que percebi que ter alguém assim, ainda que por um instantinho na longa caminhada da vida é ainda um privilégio.

Só que nada disso aplacava o incomodo que eu tinha com aquela imagem. Me parecia que nada estava certo. Que eu estava errado não importasse o que eu fizesse. E pior que errado, sozinho. Abandonado a carregar o fardo das minhas responsabilidades completamente só.

Como de um nada me lembrei de uma noite ao som do mar. Promessas e juras tendo como testemunha as ondas, o som da água que leva tudo de mal e, à nós só resta torcer, traz tudo que for de bom. Lembrei de como aquela noite foi importante, de como me deu força ao longo de tanto tempo. Voltei a pisar aquela areia inúmeras vezes, sempre lembrando da verdade daqueles momentos.

Eu me sufoquei em questão de segundos. Os segundos daquela imagem incidental da janela foram os mais perturbadores de toda a minha vida. E em mim veio, de resto, uma sensação estranha, que eu não sentia há muito tempo, algo apertando a garganta e me impelindo a olhar para o lado. Veio na memória a conclusão daquela noite da praia. A sensação de que os caminhos a serem trilhados seriam ernormes. As veredas eram turvas e o horizonte poderia até mesmo não estar onde deveria estar, mas que, independente de tudo isso, eles não seriam trilhados sozinhos, por difíceis e assustadores que fossem. A sensação de que, enfim, não importava o que acontecesse, eu não poderia deixá-la fora da minha vida.

O contraste dessa sensação maravilhosa foi a memória. Eu finalmente entendi que não poderia fazer nada e que não devia fazer nada quando me senti estranho ao observar sem poder algum, sem direito algum. Eu finalmente entendi que era um passado que queriam esquecer, um passado que não importava mais. Um passado doce, mas não o suficiente para ser presente e futuro. Enfim, agora não havia nada mais a fazer a não ser seguir em frente.

Mas eu não queria ir. Porque ir antes não adiantou, voltar também. Tudo parecia tão errado, tão sem jeito, tão em desespero. Eu não queria ir porque há coisas na vida que são importantes, mesmo no passado. Coisas que você tenta negar, mas não consegue. Eu era parte daquilo, mesmo que não pudesse e que não quisesse. Eu era parte dela, e ela de mim. De um jeito doloroso, estranho e ruim, mas era verdade. Eu percebi que não importava no que nos tornássemos, o que escolhessemos, para onde fossemos. Estaríamos condenados um ao outro, a sermos um parte do outro pra sempre. Nesse momento me senti novamente um garotinho, com medo do escuro, com medo de tantas coisas misteriosas que a gente é incapaz de compreender. Eu me senti um garotinho com medo e sem ninguém para me socorrer.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Como ser escritor para dummies

Eu li o novo livro do Gay Talese, lançado há coisa de dois meses aqui no Brasil, chamado nestas plagas de "Vida de Escritor". Ok. Retifiquemos, na verdade ainda estou lendo. Já não sou o mesmo devorador de páginas que antes e não canso de me mortificar por isso. Mal da idade. Mal desses 24 anos de sangue, de sonho e de América do Sul, como nos diz o bom, já não mais sumido, Belchior.

E para gáudio deste que vos escreve o livro em questão, "Vida de Escritor", não é tão bom quanto os demais escritos por Talese. Não. De forma alguma. "Vida de Escritor" não é tão bom como "Fama e Anonimato". É melhor.

Qual o critério usado? Na verdade, um bem subjetivo. Como trata-se de um livro voltado ao próprio Talese, torna-se mais um manual de como ser escritor. O personagem principal na obra não é mais o sujeito anônimo com algo a contar que mereça ser publicado. O personagem principal é o próprio Talese, contando suas manias, sua maneira de escrever, de cavar uma pauta. Nasce aqui um clássico do Jornalismo Literário porque nos ensina a todos que honramos um pouco o gênero como Talese trabalha. E me aborreço ao pensar que, tivessemos uma versão brasileira deste livro há dois anos, e meu TCC ficaria melhor. Bobagem, porque não fez falta.

O livro rende bons momentos. É excelente se sentir de certa forma íntimo de uma pessoa a quem você admira. Conhecer como são as casas e o cotidiano do escritor, ainda que há 10 anos atrás - que é o período do princípio do livro - é algo delicioso.

Assim como conhecer um pouco da história de vida de Gaetano. Saber, por exemplo, que ele veio a se tornar jornalista e escritor por conta de um Sr. Garrett, que fora editor importante do The New York Times, e que o inspirou Talese na juventude. À mim foi um episódio passado quase que completamente despercebido na obra. Não chamou nenhum pouco a minha atenção que o tal Sr. Garrett seja descrito como um sujeito loquaz, de voz forte e que, embora beirando naqueles tempos - 1948 - os setenta anos, não apresentasse nenhum sinal de debilidade física. As passadas eram vigorosas. E que Talese via muitos homens elegantes na loja de seu pai, mas nenhum como Garrett. "Ele personificava em mim o esplendor metropolitano para o qual eu esperava um dia fugir", remata Talese.

Nem me chamou a atenção. Curioso.

domingo, 6 de setembro de 2009

Sonhando na varanda

Da varanda vê-se muita coisa. Se eu fosse recorrer aqui a uma metáfora superlativa para dar tino à vista que se debruça da varanda e tempero ao texto que se desenrola por aqui, diria que se vê ebulição. Não há ponto para o qual você se volte dessa varanda que não exista algo acontecendo. A vida passa aqui incessantemente, 24 horas por dia.

Sentado, eu sorvia porções módicas de vodka. Eu não sou um cara de vodka; gosto de outras bebidas. Sempre quando bebi vodka nas esbórnias de universitário dei margem as passagens mais non-sense de todos esses 24 anos de sonho, de sangue e de América do Sul. E o pior, a vodka tem em mim um efeito amnésico revoltante. Nunca lembro de porra nenhuma depois de um porre de vodka. Por essas e outras, mais outras do que essas, não sou um cara de vodka.

De qualquer forma, o risco, confessemos, não é tão grande. Não vou me embebedar. Eu já passei da fase. Bebo, hoje, porque bebo. Antes, mais ou menos como o Jânio Quadros, porque era líquido. Sólido fosse, come-lo-ia. Jânio Quadros era um frasista sensacional. Na verdade, porre hoje em dia não tem a menor graça. Provavelmente me sinto como o velhinho desdentado que não vê a menor graça num churrasco. Hoje eu bebo porque bebo. Só pela pose. E pela solidão dessa varanda.

Assim como a bebida, várias coisas hoje são relativizadas na minha vida. Eu não ligo. O tempo passa, as prioridades mudam, a maneira como a gente vê a vida também. O ruim, mesmo, é relativizar sonhos. Quando você se força a admitir que o sonho é inatingível, ele deixa de ser projeto. Vira, mesmo, sonho. Vai morar na caverna do Platão. O que, por seu turno, é bastante curioso. Vai morar, o sonho, num mito. É a materialização no campo das racionalizações de um mundo de quimeras esse, onde vão os meus sonhos habitar cavernas que são mitos platônicos.

E eu que carrego todos os sonhos do mundo no peito, me debato ao matá-los sazonalmente e mandá-los aos diabos que os carreguem pelas cavernas platônicas. Mas eu os mato. É melhor deixar cadáveres pelo caminho do que carregar peso morto, filosofia, essa dos cadáveres pelo caminho, há muito inaugurada pela sanha incompreensível dos assírios que, atestava meu pai, que dentre outras dignidades tinha a de professor de História, "foram os assírios o povo mais espírito de porco de toda a Antiguidade", e só viriam a encontrar rivais nesse quesito com os hunos, já aí na Idade Média, que tinham Átila como seu líder, aquele que se dizia ser o "Flagelo de Deus" e que por onde pisava seu cavalo, a grama não mais nascia. O que abriu ensejo para aquela frase excelente do Millôr: "tudo passa, tudo passa, me dizem. Átila também passava e vocês sabem o que acontecia com a grama".

Enfim. Deixando os sonhos pelo caminho, evito moribundos a drenar minhas sístoles, minhas diástoles. E se no caminho fui desovando tantos, é bom lembrar que, mais leve, andei mais. Fui e vou mais longe, tomando um novo caminho sem medo das subidas. Me lamento por quem não sabe levar a vida assim, dando de ombros e dando risada. Sinto pena, até. Porque eu desisto dos meus sonhos, e sorrio, certo de que de mim não fazem mais parte. E pelo caminho, ora, sempre se tropeça com sonhos novos.

E a quem interessar possa, vou sonhando-os muito bem, obrigado.

Rádio: The Bambi Molesters - Ice and Pinewood Trees

Ah, a minha praia em matéria de música, pode-se dizer. "O homem que mais entende de músicas de fossa hardcore", já me disseram. E, sendo franco, eis aí uma seara onde meus parcos conhecimentos musicais são bastante válidos.

Não sei como esqueci de postar essa banda que é... croata. Croata. Putz. A internet é uma maravilha, mesmo. Os caras são... croatas. Aquele povo simpático, que tem a bandeira com aquele distintivo em xadrez vermelho e branco. E que residem nos balcãs.

O som dos molestadores de Bambis, que é, veja você, a tradução do nome da banda que, torno a ressaltar, é croata - porra, croata! -, é algo que se situa além do pós-rock. O pós-pós-rock. Gênero que dispõe, por certo, de um nome específico, mas que eu esqueci completamente e tenho enorme preguiça de procurar nesse fim de noite de sábado. Contentem-se com o pós-pós-rock.

A canção que escolhi para este post foge completamente do comum dos Bambi Molesters. Chamaram para o vocal, que é um destaque a parte dessa faixa, Chris Eckman, do The Walkabouts, outra excelente banda, só que não croata, que a seu tempo terá aqui um post. Notem o vocal grave e soturno, a melodia bem balanceada da banda da Croácia - porra, eslavos fazendo rock! Há vida nos balcãs, chupa Milosevic! - melodias ótimas são, aliás, uma marca dos caras que raramente colocam voz nas composições.


sábado, 5 de setembro de 2009

Lavagem cerebral

Que beleza. Entrei na onda e assisti ao Anticristo de Lars Von Trier.

Agora preciso lavar meu cérebro.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

O dia em que cresci

Ultimamente venho reparando nos pensamentos que me ocorrem nos instantes antes de dormir. Nos raros instantes antes de dormir, frise-se. Quando era criança, eu pensava sobre o universo. Sobre o conceito de tempo e espaço. É mesmo infinito, o universo? Qual é a dimensão de algo infinito? E o tempo, também não tem fim nem começo, então como pode ser medido? Como pode, aliás, não ter fim nem começo? Um dia viajaremos tão rápidos como a luz, e quem sabe até mais velozes que ela para podermos conhecer outros mundos? Existiram e existirão outros mundos? O que é a morte? As pessoas mortas sentem? Os ruídos lá fora, é algum assaltante rondando a casa ou qualquer coisa acontecendo ao acaso? Se eu viajasse no tempo, para quando iria? Se eu der a volta na Terra à velocidade da luz eu chego ao ponto de partida antes de ter partido? Isso significa viajar no tempo? Se sim, a luz viaja no tempo? Por que dinossauros eram enormes e tinham cérebros pequenos? Por que somos pequenos e temos cérebros grandes?

Ponto, parágrafo: eu lia muito Julio Verne.

Aí o sono vinha em alguma das respostas, ou arremedos de respostas que eu desenvolvia antes de cair aniquilado de sono. E, hoje, mais de dez anos depois dessa época, observo que as perguntas que me faço antes de dormir são tão bobas. Fáceis de responder. Normalmente elas são respostas com interrogações, só isso, e mesmo assim me pergunto. Desimportantes perante a complexidade do tempo e espaço, da vida e da morte, da dimensão do nosso universo em expansão, levando-se aqui fé em certas vertentes teóricas.

Hoje eu me preocupo em trabalhar, e a me perguntar sobre o assunto. Meus projetos darão resultado? Porra, eu tinha que iniciar 4 coisas ao mesmo tempo? Não vou dar conta e não vou ter em quem por a culpa? E essa merda de vizinho? Quando é mesmo que House reestreia?. Hoje eu me ocupo em planejar o feriadão com os amigos. Com a defesa do São Paulo, me censuro por não ler tanto quanto lia há algum tempo. Hoje a vida ficou sem graça nas perguntas. E nas respostas também.

Coisas

Eu vou sentindo a intimidade das coisas impossíveis.
Tudo que não é, que não pode.
A intimidade da dúvida,
a existência do medo.
A vivência da saudade.

Eu vivo de impossibilidades.
Eu venço dias e verdades.
Eu me perco nas possibilidades,
eu desisto das saudades.

As perdas são saudades
e a saudade não passa de o lapso de um minuto.
Sequer é a falta do que passou,
do tempo que aconteceu,
a saudade é um minuto,
o tempo que envelheceu.

A saudade é a impossibilidade de viajar
o tempo é dimensão única, dá onde tem que dar.

A saudade se mede em copos numa mesa de bar
Se mede em litros de lágrima a nos queimar,
a saudade ferve em brasa no peito de quem sabe amar.
A saudade nos ensina que é impossível viver sem se machucar.

Do impossível eu vivo.
Dele tiro verso, ele eu respiro.
De impossível eu faço livro.
E melancolia para a minha vida adoçar.

Não temos mais Cadernos

Foi com algum desagrado que recebi a notícia. Verdade que seja aqui dita, os últimos tempos vem sendo constantemente ocupados por algum desagrado, e este, de hoje, só veio a ser mais um na multidão dos que já me abateram e dos que ainda hão de me abater, tendo em vista a minha meta de viver ao menos 85 anos, seria muita inocência supor que a longa caminhada até este mínimo fosse privada de dissabores.

O fato é que me abati ao ler no blog do Mestre José Saramago que aquele caderno, depois de praticamente um ano de vida, findou-se às portas deste mês de setembro. Saramago cansou. É justo. E mais que isso, Saramago aproveitou o ensejo e anunciou que prepara um novo romance, e já teria praticamente concluso outro, de nome "Caim", que versará sobre a história deste personagem bíblico e que, a se levar fé nas escrituras do Antigo Testamento, é um dos instigantes crimes de um Deus suposto um dia conhecido e narrado. Saramago irá se refestelar com a moral duvidosa de um Deus que demandava ofertas na qualidade de novilhos e frutas e que, hoje, impele fanáticos a chamarem de possuídos os praticantes de religiões que ainda requisitam oferendas desse quilate. Além da riqueza do Deus que provocou inveja num irmão que, preterido por Deus, matou a Abel.

O livro terá escopo. Ficará sensacional e será devorado por leitores como eu em todos os cantos do mundo. E, ainda assim, as religiões e a fé individual não serão relativizadas. O que é, sempre, uma pena. Fanatismo mata pessoas, deflagra guerras e ensombrece o coração do homem. Como dizia Schopenhauer, "as religiões são como vagalumes, precisam das trevas para brilhar" - parafraseando o Cristo, "quem tem olhos para ver, que veja" o sentido dessas palavras.

Portanto, de resto, como debaixo do sol não há nada de novo, desde há mais de 2 mil anos, para ficar nas elipses bíblicas, só dá para lamentar mesmo o fim dos Cadernos. O mundo não muda, nem mesmo quando quer.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

No cagar dos pintos...

... e no apagar das luzes. Hoje, enfim, busquei meu diploma. Conclui o curso em 2007 e hoje, apenas hoje, botei as mãos no documento que atesta, para devidos, indevidos e questionáveis fins que, sim, sou eu um jornalista. Faço questão de salientar que, segundo todas as probabilidades, fui o último dos alunos de minha a turma a buscá-lo.

Diploma que é uma tremenda nulidade, conforme fez questão de nos dizer a gente togada do Supremo Tribunal de Justiça. Não que eu discorde deles. Não que eu ache que se possa ser jornalista sem diploma. Não que eu pense o contrário. Acontece que, mesmo dando muitas voltas na questão, torcendo até onde der as ideias, não acho argumento pra me defender. E emprestar os dos outros é covardia. E não gosto de ser reconhecido por cagarolas. Portanto, de peito aberto, digo que, por mim, jornalista não precisa de diploma porque, afinal, não tenho argumento para sustentar o contrário.

Mas o fato é que pus as mãos no, que engraçado, diploma. Engraçado porque paguei por ele. Foram 85 dinheiros e hoje não vale um tostão furado, como dizia meu pai para qualquer situação ou objeto desprovido de qualquer valor intrínseco, como é, nos tempos que correm, o diploma de jornalismo. E longe de ser bonito, ele é feio, sem sal. É feito de pele de animal, dizem que não rasga.  Hum. Tenho um amigo que tostou uma das beiradas do diploma, em todo caso, com um cigarro. Não chegarei, por certo, a esse ponto, principalmente por não fumar.

A verdade é que hoje, com o diploma nas mãos, olhando tudo em retrospecto e a ele, não pude deixar de pensar: tudo aquilo pra isso?

Figo - diz:
 busquei hoje o diploma
 ele é tão feinho...
 e é de jornalismo
 e eu paguei 85 dinheiros nele
 é um diploma de burrice, praticamente
Taiana diz:
 hahahahaha
 é verdade

Bitchin'!

Rapaz, esse banner ficou tão legal que, fosse eu um sujeito lido, faria dele uma camiseta deste blogue.

Me sinto tão artístico ao olhá-lo.

O dia em que cresci

Naquela noite pensei em muitas coisas. Em mim, nos que foram, nos que ainda vão. Em tudo, em nada. Na minha família. E também em como todas as coisas passam, ou ficam confusas. Aquela noite marcou porque a partir dali as festas, os aniversários e as celebrações deixaram de significar para mim presentes e enfeites, e passaram a significar recordação. No começo fiquei bastante aborrecido, mas com o tempo entendi que a memória é uma forma de retermos as coisas que amamos, o que somos e tudo o que não queremos perder nunca.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Aforismos - Realizações

"Fazer algo bem feito vale tanto a pena que morrer tentando fazer melhor não pode ser loucura. A vida é medida por realizações, e não por anos".

Bruce McLaren.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Segunda Guerra, 70 anos


"Por esta estrada, num dia de verão de 1944, os soldados vieram. Ninguém vive aqui agora. Eles ficaram apenas por poucas horas, e depois foram embora. A comunidade que vivia aqui por milhares de anos estava morta. Esta é Oradour-sur-glane, na França. No dia em que os soldados vieram, as pessoas foram reunidas. Os homens em garagens e celeiros. As mulheres e as crianças foram trazidas por esta estrada até esta igreja. Aqui ouviram os tiros quando os homens foram alvejados. E em seguida foram mortas também.

Poucas semanas depois, muitos daqueles que mataram foram mortos em batalha. Nunca reconstruíram Oradour-sur-glane, suas ruínas são um memorial. Seu martírio representa milhares de outros na Polônia, Rússia, Birmânia, China... em um Mundo em Guerra".*

*(em libérrima tradução levada a cabo por este Tertuliano que vos digita. O vídeo compõe o primeiro episódio da excelente e magistral série de documentários The World at War")

São 70 anos. O evento histórico mais marcante e definitivo dos últimos dois séculos torna-se, hoje, septuagenário.

Foi numa madrugada que o flagelo começou. A Alemanha nazista moveu as tenazes de sua máquina de guerra para o leste, invadindo a Polônia, o que culminou com as declarações de guerra contra a Alemanha por parte de França e Inglaterra, que vinham em socorro ao estado polonês. Em vão.

Por quase 6 anos o homem se bateu no ar, no chão e no mar. Em todos os continentes houve combate. Aqui na América do Sul, a título de informação, houve a caçada ao encouraçado germânico "Admiral Graff Von Spee", que veio a ser afundado e foi a primeira vitória aliada na guerra, com aquele que se tornaria um dos grandes marcos do conflito à frente deste sucesso: Winston Churchill, naquele momento ainda Primeiro Lord do Almirantado - posto equivalente a um ministro da marinha, e que é, na Inglaterra, o cargo militar mais importante do império. O Von Spee repousa na costa uruguaia deste então.

Eu poderia traçar parágrafos e mais parágrafo como o anterior regurgitando a erudição que acumulei em anos de leituras sobre o conflito falando de coisas interessantes e do porquê da Segunda Guerra Mundial ser tão relevante para compreendermos o mundo em que vivemos. Mas nada disso importa, os conglomerados de mídia se encarregarão de fazer esse papel por mim. Caso não façam, está aí o Pai Google para dirimir essas e tantas outras, todas as outras, aliás, dúvidas que por ventura ocupem a cabeça e o espírito do digno leitor acerca da estupidez humana, que é o que é uma guerra.

Mais importante que erudição e história é escrever esse texto com algum senso de dignidade e de gratidão. Porque se toda a guerra é estúpida, essa foi mais que as outras. A vitória que veio a custo de "suor, sangue e lágrimas" não fez desse mundo um lugar perfeito. Mas sem dúvida alguma construiu um lugar melhor, lançou bases, tipificou a ignorância e preconceitos como crimes contra a humanidade. E se, afinal, não temos um mundo perfeito, é este, no entanto, o melhor que pudemos construir.

Como é importante também recostar hoje à noite a cabeça no travesseiro e lembrar que, se começasse nessa alvorada de setembro de 2009 uma reedição do conflito, teríamos de suportar morte, devastação, dores e desesperos nunca dantes imaginados até 2015. É absurdo. Nas palavras de Stephen Ambrose, um dos mais conceituados historiadores da guerra, "a Segunda Guerra Mundial não passou de um mostruoso disperdício de vidas, recursos e dinheiro".

Hoje também é um dia para lembrar que 60 milhões de pessoas morreram. É como matar a cidade de Curitiba toda 60 vezes. Ou praticamente extinguir um terço da população do Brasil. Etnias, famílias, histórias, vidas e tanta coisa foram extintas inapelávelmente. Tudo a troco de nada.

Lembro quando criança nos primeiros contatos que tive com a história da Segunda Guerra de meu pai dizendo que, o mais assustador, é que no meio de 60 milhões de vidas, haviam 60 milhões de histórias. Potencialidades. Talvez um menino morto em algum lugar do leste europeu pudesse ter descoberto a cura de uma doença grave, se tivesse sobrevivido. O mesmo vale para tantas outras áreas, quantos gênios, enfim, perdemos ali?. E um crime dessa magnitude multiplicado por 60 milhões foi algo que sempre me impressionou.

E é realmente uma pena que não tenha impressionado a tanta gente ao longo dessas 7 décadas.