Recentemente, ou nem tanto assim, cursando a faculdade, ouvimos falar de um tal filósofo aí, meio assim, Theodor Adorno. Da galerinha da Escola de Frankfurt, que contava com senhores como Habermas, Horkheimer, Walter Benjamin, Marcuse e outros menos votados. Adorno é, provavelmente, o maior expoente deste movimento do pensamento humano da primeira metade do século passado. O dono da bola. O vocalista da banda ("Adorno e seus Filósofos"?) - ou do grupo de samba ("Filósofos do Samba"?), dado o número de integrantes. No movimento de cunho filosófico, pode-se dizer que ele, Adorno, fazia o papel de anão zangado entre os escolásticos pensadores culturais daquela milenar cidade alemã.
Adornava, e adorna, por assim dizer e para não perder o hábito de trocadalhos do carilho com nomes e obras filosóficas (este blogue se batiza por um trocadilho, é vício que remonta aos ancestrais tempos da internet discada e do blogger.com.br), mas eu dizia que Adorno(a) a memória daqueles sujeitos que muito ponderavam o mundo, a sociedade e suas relações com os bens culturais. A Escola de Frankfurt foi um movimento filosófico que pensava a cultura na era da sua industrialização - fenômeno que começava naqueles doidos, e doídos, anos 1930. Foi quando, resumindo, a cultura passou a ser negócio, vendável e estrondosamente lucrativa. Em linhas gerais, os teóricos de Frankfurt são uma pedra angular na concepção da comunicação. Tertuliano, enfim, também é cultura.
(Vim a perceber isso muito tempo depois, mas o interessante da maioria dos cursos da área de Ciências Humanas é isso: te ensinam nulidades e bagatelas como essa sem as quais você viveria perfeitamente bem e feliz. Talvez, se lesse os livros percebesse e aprendesse por si mesmo. Mas o fato é que você se sente inteligente por saber coisas que não importam muito, não fazem a menor diferença e não resolvem nada).Nos longínquos idos de 2004, que foi quando tomei meus rudimentos de conhecimento acerca das teorias do pensamento que norteiam as concepções presentes da comunicação e, portanto, também fiz minhas primeiras incursões acerca do filósofo tedesco, luminar destas sobreditas teorias, sempre a adorná-las com sua índole pessimista e carrancuda, pensava eu, sempre, como deveria ser complicado ser aluno do sujeito. Pelo teor, substância e desesperança das coisas que escrevia, devia ser, Adorno, um sujeito muito Teodoro. Sempre invoquei com o nome Teodoro. Nunca confie em alguém chamado Teodoro. Em qualquer idioma. Pessoas que se chamam Teodoro não sorriem.
Imaginava que levar um esporro do professor Adorno seria uma experiência assaz amarga. Afinal, munido de todos os traquejos argumentativos do filósofo, elevados exponencialmente pelas particularidades da língua germânica, tanto em inflexão e fonética, quanto em gramática e complexidade, Adorno devia saber como desmontar argumentos, egos, pessoas e ideias exemplarmente. Levem em consideração que nosso filósofo bávaro, e bravo, além de sobreviver ao nazismo, lecionava na Sorbonne em Paris no Maio de 1968...
(Momento wikitertuliano: Maio de 1968; movimento de rebeldia daquela geração que, muitos achavam, e ainda acham, garantiria liberdade às mulheres, mas o mais que fez foi lhes garantir o direito de se exibir tanto quanto os homens. Não me trucidem, ó leitoras: digo isso sem machismo, com ou sem Maio de 1968 mulheres são oprimidas mundo à fora, o que mudou é que podem fazer top-less no mundo dito livre, andar de mini-saia e frivolidades que tais, e antes não podiam. Para gáudio de nós, homens opressores, frise-se. Hum, você é mulher e discorda? Ora, as mulheres queimaram sutiãs como protesto contra a opressão, ainda que simbólico, mas não maridos ou executivos machistas. Pensen nisso, ou me processem).
... e sempre pensei como ele reagiu à primeira jovem de vergonhas expostas. Se o seu niilismo de quatro costados sobreviveu ao teste. O que terá ele dito pelos corredores da secular universidade francesa? Teria, em algum lapso, sentido falta dos tempos de disciplina do autoritarismo que o perseguia e a seus asseclas? Teria ele suspirado e dito: "ah, a nos tempos da Gestapo..."?
E hoje, como se sabe, o jazz se tornou uma manifestação cultural altamente elitizada. Para horror das caveiras de Dodô que devem chacoalhar virulentamente onde quer que tenha sido sepultado - eu chuto Paris - sempre que o ritmo de origem afro é festejado neste mundo. É cult gostar e apreciar jazz. Sorte de Adorno que fosse ateu, do contrário sua alma vagaria por aí, se lamentando pela inversão de valores que, veja só, começou justamente no Maio de 1968, e que hoje nos faz selvagens embrutecidos escutadores de jazz. O que, claro, não quer dizer que jazz seja bom, necessariamente. Quer dizer, apenas, que o jazz é elitizado e, normalmente, ouvido e promovido por classes mais bem prevalecidas.
Penso que se vivo fosse, Adorno não se ocuparia desancando jazz e seus amantes. Ele gastaria seu fosfato com o sertanejo, o pop, pagode, axé e tantas outras manifestações que a contemporaneidade nos obriga a suportar. Rapaz, ele teria urticárias com música eletrônica, dessa feita em pc. Acho que ele gostaria de jazz se fossemos contemporâneos. Sobretudo se ouvisse Herbie Hancock. Não dá pra não gostar de Hancock. Ou Miles Davis.
Adorno era um sábio. Morreu antes das coisas piorarem muito. Em 1969, na onda de Woodstock e dos tempos loucos que seriam os anos 1970. No tempo dele ruim era o jazz.






