sexta-feira, 15 de abril de 2011

Rádio: Steppenwolf - The Pusher

The pusher man...

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Antropocentrismo

Eu sou um amontoado mais ou menos ordenado de carbono, água, cálcio e um mosaico quase interminável de moléculas orgânicas chamado Tertuliano Máximo Afonso (não que a esta altura minha identidade seja um grande segredo para boa parte dos meus oito leitores, mas mantenhamos, o mais que pudermos, as aparências). Você é um conjunto de carbono, água, cálcio, moléculas orgânicas, mas com um rótulo diferente.

Muitos consideram essa compreensão da natureza humana degradante. Entendem que a visão desapegada de alma e subjetividade, em última análise, descaracteriza-nos como centros do universo, como triunfos da criação.  Eu, por outro lado, acho absolutamente fascinante que de um big-bang, de estrelas que explodiram e planetas que se formaram, possa ter saído porções de matéria capazes de se perguntar sobre suas origens, conjecturar sobre o que os forma e contemplar o que os cerca. 

Você não é o centro do universo

O que mais me aborrece, muito mais que ervilhas, cobradores, gente passional e fanáticos religiosos, são os geocentristas. Gente que procura sentido em tudo e crê, piamente, que o universo se dá pela nossa existência e acompanha a história desse pequeno e pálido ponto de luz azul.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Rádio: Ennio Morricone - The Man With the Harmonica

A genial e arrebatadora mistura de guitarra e gaita, harmonia e distorção. De fundo a orquestração e a lembrança do homem sem nome, o "Gaita", personagem que era embalado por este tema. Ennio Morricone é um gênio:

Lei da gravitação universal Einstein-newtoniana

Meu coração mede o tempo
esvai-se por ele a imensidão dos momentos
Meu coração é derivação
é uma abstração
meu coração é sonho quântico
de matéria escura
que pulsa,
que me expulsa
que navega romântico
meu pulso conta segundos
de horas distorcidas
na curvatura do espaço-tempo
minha sístole rasga os momentos
na curvatura do meu destino
e dos nossos tormentos
e me faz aquele velho cântico
de quando tudo era mais simples
quando a gravitação universal
explicava porque caiam as coisas
e não porque subiam
e planavam, pra longe de mim
os momentos e as verdades
desse poema sem fim.

50 anos do homem no espaço

Hoje comemora-se - e sim, há o que comemorar - os 50 anos do primeiro voo espacial tripulado por um ser humano, a partir da base, então soviética, de Baikonur. A epopéia de uns poucos minutos de Gagarin, há cinquenta anos, meio século, expandiu os horizontes do ser-humano, levou nossa imaginação muito além do esteio e da segurança desse planeta que, revelaram as retinas de Gagarin, é azul.

Gagarin com sua pequena viagem ao redor do globo, perto demais para ter a concepção da insignificância desse planeta perante a vastidão cósmica, longe o suficiente para compreender a pequenez das ambições humanas, talvez tenha sido nossa primeira chance de nos entendermos com o universo. Nós somos feitos pelo universo, somos parte dele tanto como uma galáxia, somos feitos de matéria e energia que se manifestam em planetas, estrelas, explosões e buracos negros, e como conlcui Sagan, na poesia que lhe era peculiar e que todos invejamos, no fim das contas, somos uma manifestação da matéria e da energia, uma forma do universo compreender a si mesmo. Se o universo é um oceano, mesmo depois de 50 anos, apenas molhamos os calcanhares na água. E o primeiro passo foi dado por Gagarin.

Mas, com efeito, há muito que a exploração do espaço pela nossa espécie carece de esforços. E investimentos. Os EUA desmobilizam paulatinamente sua frota de ônibus espaciais, admitindo o gargalo tecnológico em que as naves se transformaram e a verdade é que ninguém na Nasa sabe muito bem para que lado caminhar. Os russos usam exatamente o mesmo modelo de foguete e capsula que usaram com Gagarin, a Shoyuz e a Vostok, apenas aprimorados com a tecnologia que expandiu-se a valer nas últimas 5 décadas. A exploração espacial precisa não de uma corrida, mas de impulsos, de um novo Von Braun e de um Korolev. A gravidade, que ironia, é a força fraca das leis universais, mas é mais cruel, porque insiste em segurar os sonhos e devaneios da nossa espécie na Terra. Vencer a gravidade ainda é tarefa para explosões e dispendiosos e enormes aparelhos, cujas concepções datam da própria invenção da pólvora e dos primeiros foguetes balísticos da Segunda Guerra.



Mas além de saltos tecnológicos, precisamos também de uma nova mentalidade. Gasta-se muito, mas muito mais, com orçamentos militares do que com exploração espacial. O progresso tecnológico em nosso sistema aparece onde há recurso humano e massivos investimentos financeiros. Ir ao espaço, à luz da compreensão crescente da nossa verdadeira posição no cosmos, o que somos, significamos e importamos ao universo não é ir embora ou dar vazão a desnecessários instintos nômades e exploratórios. Ao irmos às estrelas não estaremos indo embora, estaremos voltando.

Hora de viajar
desbravar um novo universo
molhar as canelas no oceano cósmico
vibrar nas supercordas um novo verso
É hora de viajar
vislumbrar o que há lá fora
De correr a todo canto
porque ao irmos às estrelas
não estaremos indo embora
estaremos voltando.



Aprender é difícil

Newton comprou, na Feira de Stourbridge, em 1663, aos 20 anos de idade, um livro sobre astrologia. Não conseguia decifrar os mapas porque não sabia trigonometria. Comprou um livro sobre trigonometria, e bebeu na fonte de Pitágoras. Mas tampouco podia entender a geometria aplicada na teoria. Então arranjou um terceiro livro, "Elementos de Geometria", do imortal Euclides, onde aprendeu o que há para se saber de geometria. Dois anos mais tarde, inventava o cálculo diferencial.

E você fica reclamando por não aprender a usar um computador com Linux.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Instantes de estantes

Eu já não carrego em mim, como noutro tempo, tanta saudade assim pelo passado, pelo bom tempo que passou. Mas conservo, ainda, algumas quimeras, alguns frangalhos de sonhos, uns restos de desejos, um pouco de tudo o que me era caro e pereceu conforme o tempo passou. Eu sou fisicamente incapaz de largar mão da nostalgia.

Hoje o que eu mais sinto falta é de ter uma estante de instantes. Livros são momentos encadernados, assim como retratos são recortes instantâneos de uma realidade e de muitas verdades. Admirar o mosaico multicolorido, por vezes ainda lustroso, por vezes envelhecido e gasto de todas as brochuras que acumulei na vida me faz falta. E não são poucas as brochuras, nem poucos os momentos que tenho aprisionados em todos aqueles livros, que transitam de filosofia à poesia, passando por literatura, história, jornalismo. Encarar livros, sabendo que nunca os lerá, por falta de tempo, falta de afinidade ou paciência, é um passatempo que coloca o homem em face às verdadeiras limitações do intelecto, do espírito, dos limites últimos da vontade em contraste com a extensão do próprio tempo e do fato inescapável de que quase nunca fazemos da vida aquilo que queremos. É, conforme disse Saramago, um grande campeão de momentos encarcerados nas brochuras da estante que eu não tenho mais, a maior tragédia nossa, essa coisa de não sabermos o que fazer com a vida.

E nem com livros acumulados.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Aforismos - Da validade da vida

"Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: é o suicídio. Julgar se a vida merece ou não ser vivida, é responder a uma questão fundamental de filosofia”.

Albert Camus.

E à parte disso, dessa questão do até que ponto tudo isso vale, resta a conclusão: o resto, tudo, é armazem de secos e molhados.

Vai dizer o que depois dessa, ô ser-humano?

Eu evito cair no lugar comum, me dar ao trabalho de logar no blogger apenas para repercutir impressões e opiniões, como um outro Tristam Shandy, sobre as mais recentes, maiúsculas e esmagadoras derrotas e monumentais cagadas da espécie humana nesse mundinho que nos carrega em viagens cósmicas sem sentido e, parece, cada vez mais penosas. Eu evito porque não quero ser visto filosofando em público, não quero criar teorias, lançar movimentos, não quero fazer parte de ondas e vanguardas renovadoras. Não boto mais fé na humanidade do que num bilhete de loteria, ambas as instituições me parecem muito incertas para merecerem confiança. Mas a isso tudo de Realengo, ao ler o que este menino sobrevivente e bafejado por uma sorte hipócrita e cruel, uma sorte madrasta, uma sorte que dá a vida com uma mão, e lega um peso e uma tortura insuportável para um garoto, nem mesmo eu resisto.

Também me aborrece falar no assunto porque, lembro, há coisa de uns dois ou três anos, aconteceu outro crime bárbado que me impressionou em igual escala. Uns sujeitos roubaram um automóvel e arrastaram no asfalto por muitos quilômetros uma criança de 7 anos, que em face aos ferimentos não resistiu. Morreu. Lembro, ainda, de como me senti ao imaginar a situação para a família. É inconcebível imaginar que arrastaram um filho seu, um irmão, um sobrinho até a morte simplesmente porque ele estava no carro. E, a rigor, não mudou nada, porque ontem outro maluco assassinou 12 crianças. Amanhã alguém faz pior.

Stálin dizia que a morte de um homem era uma tragédia. A de milhões, uma estatística. Mas Stálin era um canalha debochado, e é o mesmo deboche que ele guardava atrás daqueles bastos bigodes que impera no mundo onde um sujeito desequilibrado tem acesso à armas - e não a tratamento, onde religiões podem morar na cabeça perturbada de pessoas capazes de decidir se você pode abortar, se você pode transplantar órgãos, receber sangue doado, se você pode usar contraceptivos. Se você pode se vestir, descobrir o rosto, amar. Não existe civilização. Existe uma corrida de vida ou morte mais ou menos organizada, mais ou menos funcional, respeitando uns poucos e cada vez mais esquálidos princípios. O futuro é sombrio para estes, porque se nada garante o direiro à vida, assolado por estados, governos, líderes, corporações, seitas, e malucos, não há muito espaço de manobra nestas veredas escuras da contemporaneidade para qualquer nesga de civilização e gentileza entre macacos pelados que, em última instância, somos.

Poderia ter acontecido em qualquer lugar do mundo (como, aliás, já aconteceu) porque, no fim das contas, seres humanos são iguais em tudo. Na genética, na cor da pele, no cabelo, na ignorância, no temor de deuses e amigos imaginários, na crueldade e na loucura galopante de um tempo em que resta pouco a cada jovem criança que não seja se lobotizar no devaneio coletivo de futuro, estudo, sucesso, trabalho, progresso pessoal. E em conceitos cada vez mais abstratos, como paz, crescimento, fraternidade, união.

Wellington, o nome do assassino, da besta-fera que matou a bel-prazer, não era ateu, religioso, partidário, anarquista, escritor, trabalhador, delinquente, traficante, engenheiro, policial. Era um homem. Um ser-humano. E foi capaz de fazer o que fez. Wellington não é um caso de loucura, não é uma tragédia isolada, sequer um assassino em massa, em série ou qualquer outro rótulo em que possam, os especialistas, encaixá-lo. Wellington é o negativo da nossa espécie, ocupada demais em matar-se, em sabotar-se, em odiar-se para perceber o mal que constrói a cada sonho frustrado, a cada derrota humana. Wellington era feito da mesma coisa que cada um de nós somos feitos. Wellington e cada uma de suas vítimas era feito do mesmo que todos nós somos. Era uma improbabilidade, um triunfo da matéria e da energia. Era uma exceção, porque num universo todo não seria encontrado um igual. E, mesmo assim, não teve dúvidas. A distância que nos separa do assassino, hoje, não é a vida, a morte, o ato. É a perplexidade, porque nos reconhecemos nessa derrota; a tragédia das crianças e das famílias é nossa. A derrota de Wellington, é coletiva, não individual. A vergonha é toda nossa. Nós falhamos como sociedade, como espécie, como indivíduos.

Ontem Wellington, era o nome do rapaz, Wellington como o general que venceu Napoleão. O nome deve ter atravessado continentes e se popularizado por conta desse vencedor, que promoveu morte e destruição para parar outro, que por sua conta dedicou a vida a promover morte e destruição em escalas industriais num tempo em que a arma era o bacamarte, a infantaria ia à cavalo e naves à vela ameaçavam a estabilidade dos impérios.

Hoje a arma está ali, na mão do psicopata. O arsenal nuclear na mão de mais ou menos qualquer um, como um dia esteve o zyklon-b. Hoje. Amanhã, não sei.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Aforismos - Pensamento positivo

Se pensamento positivo adiantasse alguma coisa, tirando eu, tava todo mundo muito bem por aí.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Rádio: Tom Waits - Hold On

quinta-feira, 31 de março de 2011

Dia de cão

Dia de cão. Inexplicavelmente você esquece de programar o despertador. Vai dormir e perde o horário. Inexplicavelmente porque você o faz, religiosamente, todas as noites. É a primeira vez que perde a hora no trabalho. Acorda às 10:30, quando você já devia estar na redação, à meia hora. Corre. Toma banho, nem escova os dentes e torce pra que ninguém lhe dirija a palavra até chegar ao trabalho. Lá, no banheiro, escova, dane-se.

Na redação, a  notícia: "cara, você viu o email?", "que email?", "então, você tá escalado pra cobrir a coletiva do Adriano no Corinthians". Quando? 12:30. Mas não ia ser às 17 horas? Não, cara, o mundo resolveu te foder inapelavelmente hoje, e a bagaça vai rolar às 12:30.

Para chegar no fim do mundo onde o Corinthians resolveu erguer seu CT, sem trânsito, você leva uns 40 minutos. Eu tinha isso. E nenhuma certeza sobre rumos desimpedidos até lá. Desci da redação, requisitei a viatura da firma. Demora, não tinha um puto de um motorista no prédio todo.

O motorista não tinha a menor ideia de onde era o CT. É no Parque Ecológico do Tietê, eu falei. Onde é isso? Porra, não sei, cara. GPS não localiza o lugar. Ligo a cobrar na redação e peço um endereço. Onde diabos é essa porra? Avenida Afif Ribeiro ou Guirá-acarantara. Hã? Como?

E não era nada disso. O raio do CT fica no quilômetro 17 da Rodovia Ayrton Senna. Soube depois e ao custo de muito suor, nervosismo e quase lágrimas.

Chego lá. O pessoal da guarita pede identificação, credencial de imprensa. Não tenho salário e, tecnicamente, não sou sequer funcionário da empresa onde trabalho, sou mais um voluntário remunerado, então não tem carteirinha e crachá nos conformes. São 12:30, horário da coletiva. Alguma insistência e, enfim, falam com a assessoria, liberado. Entro.

A coletiva começa assim que me sento nas nada confortáveis cadeirinhas da sala de imprensa. Perguntas, rasgação de seda. Adriano responde. Aí um cara repercute uma matéria do O Dia do Rio. Adriano sobe nas tamancas. Aí um torcedor dentro da sala de imprensa surta também. "Ô são-paulino!", "É, você mesmo, dando risada...". Barraco. O torcedor se emputece com o que considerou uma agressão. É só jornalismo.

Ele se dirigia à mim. Sou são-paulino. Mas pouco depois percebi que ele se emputecia com o repórter que perguntou sobre a matéria do O Dia, que irritou Adriano. Pensei: "era só o que me faltava, dia de merda".

Termina a coletiva, emendamos o caminho de volta para a redação para subir as duas toneladas de vazio e nulidades que Adriano se dignou a desfiar a um pequeno pelotão de jornalistas. Trabalho feito, hora de ir embora, tirar o time de campo. Aí você sobe no ponto de ônibus. Bingo, acabou o bilhete único e você está sem um puto no bolso.

Anda 20 minutos para encontrar um caixa-eletrônico. Saca no limite, embarca no ônibus lotado e vai embora ruminar o dia e lamentar-se por não ter tido tempo de ler uma página de Cosmos.

Dia de merda.

terça-feira, 29 de março de 2011

Aforismos - Fé 2

Fé é um tipo de falência. Fé é a admissão intrínseca da ausência de mérito numa afirmação. Se você diz ter fé em algum conceito ou ideia, vale de Deus à incorruptibilidade de determinado caráter, você admite que acredita neste conceito por um valor subjetivo sustentado por sua única vontade, e não por seu próprio mérito.

É por esse motivo que você não verá alguém dizendo "a democracia é real, ela existe, vai nos salvar, eu vou ter fé"; ou "a Terra gira em torno do Sol, eu acredito, terei fé".

Rádio: Willard Grant Conspiracy - Another Lonely Night

Que seria de nós sem o grooveshark?

Do que devia

A vida devia ser uma canção do Belchior. Um filme do Sérgio Leone, um romance do Saramago, uma poesia do Leminski, uma trilha sonora do Ennio Morricone...

domingo, 27 de março de 2011

Aforismos - Fé

Fé não é virtude. É ingenuidade.

Berço

Nascia, ainda agora
um poema de última hora...
crescia aqui, levando de mim
um pouco de vida lá fora... 

quinta-feira, 24 de março de 2011

Por um punhado de amigos

"Quando Explode a Vingança". Fistful of Dynamite, Duck, You Sucker. Todos nomes de um dos meus grandes filmes, preferidos da longa lista de filmes preferidos que venho construindo ao custo de horas, lágrimas, sorrisos, suspiros e muita imaginação.

"Quando Explode a Vingança" talvez seja o menos conhecido dos grandes e retumbantes clássicos de Sérgio Leone, mestre último de uma forma de cinema que vem sumindo. Na mesma medida talvez seja o mais fraco dos filmes em termos de trilha sonora, composta pelo inseparável Ennio Morricone. A trilha desta fita empalidece quando comparada a qualquer acorde das canções marciais que embalam a "Trilogia do Dólar". Mas mesmo assim, é Morricone, e mesmo assim é Sérgio Leone no que fazia de melhor.

Trailer de "Quando Explode a Vingança"


O filme é magistral porque não se preocupa com nada, conquanto se preocupe em mostrar tudo. A história gira em torno da improvável amizade de um renegado e cínico terrorista irlandês, vivido por James Coburn (um ator impecável, sua atuação poucos anos depois de Pat Garrett em "Pat Garrett & Billy the Kid", filme que apresenta Bob Dylan na pele de um monossilábico jagunço, é memorável) e de um bandido mexicano, que sem querer, acaba se tornando um dos grandes comandantes da revolução mexicana. O ladrão mexicano é vivido por Rod Steiger, ator B, outra marca de Leone: dar vez e aproveitar atores desconhecidos em papéis de destaque.

Uma coisa que sempre me impressiona nas peças rodadas pelo italiano é seu firme conceito de coisas abstratas, condensadas na tela, chegando a um peso, uma dimensão, um diâmetro incomensuravelmente enorme. A tal ponto que os filmes de Leone podem servir para ilustrar dicionários. São tão bem construídos que servem de sinônimos a conceitos como amizade, vingança, luta, derrota, amor, redenção. A amizade entre os dois personagens, de Coburn e Steiger, de "Quando Explode a Vingança" é tangível. A relutância no começo da relação incidental entre os dois, os reencontros e o final das duas figuras é algo crível. Leone era mestre em fazer de filmes absurdamente lentos, como "Era Uma Vez no Oeste", proporcionalmente marcantes, firmes, agudos. Fosse outro diretor, provavelmente, a história, até certo ponto comum e nada inovadora, de "Era Uma Vez no Oeste" teria se perdido, o filme teria sido ignorado - como de fato foi à época um espetacular desastre de crítica, só sendo reconhecido anos e anos depois - e seria só mais um grande desperdício de acetato.

"Quando Explode a Vingança" segue mais ou menos essa linha. É um filme ignoto, guardado na mente de gente como eu, não muito festejado, a trilha sonora não é imediatamente reconhecida como a de "Três Homens em Conflito", mas certamente, quem vê a peça e conhece um pouco de amizade, situações extremas, conflito, vida, sociedade e arte consegue guardá-lo em algum recesso mais profundo do coração.

Abaixo, no player, a trilha sonora do personagem de Charles Bronson em "Era Uma Vez no Oeste". A mistura genial, inusitada e inesquecível de gaita e guitarra em "The Man With The Harmonica". E, em seguida, o grande hit de Morricone, "The Good, The Bad and The Ugly":


Amizade. Talvez seja sobre isso que Sérgio Leone tenha falado em boa parte de seus filmes - se não mesmo em todos. A forma como os amigos acabam em "Quando Explode a Vingança", o reencontro dos dois grandes amigos em "Era Uma Vez na América", sendo um deles o traído e o outro o traidor, a dor excruciante do traidor que quer se ver morto, a do traído incapaz de sacramentar a vingança, a amizade entre bandidos rivais em "Era Uma Vez no Oeste". A amizade igualmente florescida de onde menos se espera em "Meu Nome é Ninguém" (cujo cartaz, devidademente avacalhado, é o banner deste blogue), onde Leone fora diretor assistente. Todos mostram facetas das nossas relações no mundo dito real, todas essas amizades são vividas em algum ponto por todos nós. E é simples reconhecer isso, embora seja incrívelmente difícil resumir tudo isso em formas de expressão como palavras e filmes.

Há alguns livros, algumas fotos, alguns poemas que são simples de se fazer. Mas a gente precisa de alguém os fazendo para perceber isso e encontrarmo-nos com a verdade última da arte. Os filmes de Leone são assim. É fácil falar de amizade na tela, construir um pano de fundo, uma história. Colocar Charles Bronson como galã. Abusar no plano longo pelo horizonte desolado e desértico do oeste norte-americano (ainda que as filmagens sejam na Sicília italiana, daí o termo western-spaghetti). Focar as expressões dos momentos capitais da trama denunciadas pelo close fechado diretamente no olhar, mais ainda, pelos olhos dos personagens. É tudo muito fácil, mas a gente precisava de Sérgio Leone pra perceber isso.

*Rapaz, eu devia este post há tempos para Leone, Morricone e Coburn.

terça-feira, 22 de março de 2011

Rádio: André Abujamra - Imaginação

A música é tão boa que a letra é um detalhe: