segunda-feira, 9 de maio de 2011
9 de maio, o Dia da Vitória
Em honra à História, que rimbombem os acordes triunfantes da marcha "The Red Army is the Strongest", na voz do Red Army Choir, que narra as tragédias do soldado e fala, também, do odioso camarada Stálin:
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sexta-feira, 6 de maio de 2011
E Einstein tinha razão
É preciso tempo porque, embora, sim, tenha-se comprovado que a Terra distorce o espaço-tempo a seu redor a ponto de criar um vórtice nas suas imediações, por outro, esperava-se que a sonda fosse capaz de medições com 0,01% de margem de erro (para se ter uma ideia, a sonda foi capaz de medir desvios de pentelhésimos de arco: a escala foi de milhares de miliarcosegundos (um miliarcosegundo é a largura de um fio de cabelo humano visto de uma distância de 16 km). Na verdade, verificou-se que o número ficou mil vezes acima deste 0,01%. Nada que comprometa o experimento, mas aproxima muito seus resultados de tudo aquilo que já se tinha mensurado através de equipamentos muito mais simples e baratos.
Na coletiva que anunciou os resultados do experimento, Clifford Will declarou que "este é um resultado épico. Um dia isto será escrito nos livros como um dos experimentos clássicos na história da física". O experimento, independente do mérito de seus dados colhidos nestes anos, é um absoluto triunfo de engenharia e de simplicidade: a ideia foi mandar ao espaço giroscopios - a grosso modo, esferas perfeitas que giram livres num recipiente de vácuo com hélio superfluido - e apontá-los para uma estrela. Se Einstein estivesse errado, os giroscópios não oscilariam e manteriam-se eternamente apontados para a estrela de referência. Se, por outro lado, estivesse correto, a distorção espacial causada pela Terra perturbaria o movimento das esferas dos giroscópios.
O problema é escala e margem de erros. As esferas foram anunciadas como as quatro esferas mais perfeitas um dia produzidas pelo homem. E são. Fossem elas ampliadas até o diâmetro da Terra e teriam, no máximo, escarpas de 3 metros de altura. São virtualmente perfeitas. Mas mesmo esse grau de refinamento não foi suficiente.
Pode mesmo ser verdade. A exemplo de Eddington que, inglês, se embrenhou nas matas africanas em plena Primeira Guerra Mundial, para efetuar medições da órbita de Mercúrio e que vieram a comprovar os primeiros grandes saltos de Einstein, que de resto, era alemão, vivia ainda na Alemanha, adversária dos ingleses em campos de batalha. O trabalho de Eddington provou que Newton, inglês, estava errado. Era ruim para a propaganda de guerra que o maior físico de todos os tempos estivesse errado e tivesse que ceder passo, justamente, para um alemão.
O tempo passou, Einstein tinha razão em muitas coisas - são os princípios que descobriu que fazem, por exemplo, o GPS de seu automóvel preciso. Pode ser que este experimento abra veredas novas no avanço para se descobrir o que é a gravidade, o espaço e o tempo nisso tudo, a exemplo de Eddington e Einstein no princípio do século passado. Mas isso só o tempo vai nos dizer.
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sexta-feira, 29 de abril de 2011
O maior casamento de todos os tempos
Pensando a respeito difícilmente consigo encontrar mérito para tanto espaço dedicado na mídia para o evento que, se houver proporcionalidade entre comoção e efeitos, deve mudar os horizontes e perspectivas da civilização. Deve levar toda a humanidade, com o Reino Unido embandeirado pelo Union Jack na vanguarda do processo, a um novo patamar de esclarecimento, onde reis, monarquias e nobres dividem o escopo do gênero humano com outra metade, onde estão todos os outros, meros mortais de sangue vermelho, e pechas que transitam do plebeu ao burguês, todos compulsoriamente obrigados a curvar-se perante reis e os ditos "nobres". Isso sim é progresso.
De resto, meio simbólico, é lembrar da figura de Carlos I, o último rei absolutista do Reino Unido. Reinou de 1625 até a morte em 1640. Foi o sujeito que inaugurou a tradição muito europeia de decapitar seus monarcas quando as estripulias destes transcendiam as alargadas veredas do tolerável de um povo que acostumou-se a ver deus em tudo e a supor que reis eram escolhidos por deus e, portanto, contestar sua autoridade, vontade, poder, favor e tudo o mais implicava, diretamente, em sacrilégio. Fácil de entender porque resta, ainda, um estado absolutista no mundo e que situa-se embrenhado na Europa: o Vaticano.
Carlos I foi o monarca que instigou uma guerra civil porque foi estabanado demais para lidar com o poder. Não tinha aquilo que a democracia moderna que, curiosamente, nasceria no seu cadafalso, instituiu no poder: tato. Era, neste sentido, o extremo oposto de seu antecessor, Jaime I, que incapaz de governar - ou não disposto a tal - imbuiu o poder em seu favorito, Duque de Buckingham, que acabaria morto a facadas por um marinheiro protestante, fanático religioso que censurava os hábitos e a vida desregrada de Buckingham (cadê a Record para dizer que isso foi culpa de GTA?) - que de resto era acusado de cobrar tremendos impostos. Jaime teve tato, porque Buckingham era competente em mater o poder e o estado no bojo do tesouro real, na mesma medida em que Richelieu fazia na França daqueles tempos. Com Carlos foi diferente. O homem queria beber todo o poder de uma vez só. Em resumo, aborreceu à farta o Parlamento, que por seu turno, aborreceu-se com o rei. Apareceu um líder entre as bancadas, Oliver Cromwell, que sedimentou a insatisfação de seus pares e uma revolução, onde de um lado estavam os aristocratas fiéis ao regime absolutista de Carlos e, de outro, os burgueses, fabricantes de cervejas, mercadores, banqueiros, artesãos, capitaneados por Cromwell. Carlos perdeu a guerra e acabou decapitado.
Cromwell tornaria-se interventor da Inglaterra por cinco anos. Deu-se a si o título de Lorde Protetor e instaurou um tipo de república puritana na Inglaterra. Um tipo de rei. Com a sua morte, a monarquia, subjulgada pela vontade do Parlamento, como é até hoje, retornaria. Há um livro que narra boa parte desses sucessos com uma ótica mais irreverente e pelo lado a que todos somos tentados a torcer contra: o de Carlos I. É "Vinte Anos Depois", de Alexandre Dumas père, onde Os Três Mosqueteiros, quase salvam Carlos da decapitação.
Antes de toda essa digreção eu dizia que era curioso lembrar a figura de Carlos I. A quem se disse a famosa frase "salve a majestade caída". Carlos, nem de longe, foi o último ser humano a ser decapitado em praça pública na Inglaterra. Hoje, quase 400 anos depois, um descendente seu leva muito mais gente a dar testemunho de sua caminhada rumo à forca. Há muito tempo que naquelas ilhas não havia tanta comoção para se dar testemunho - mórbido - em praça pública de um sujeito caminhando solenemente, engalonado e lustrado, para a forca. Para apoiar a ousada afirmação, resgato ainda Alexandre Dumas, que era frasista de grande calibre, e um dia disse que "a cadeia do casamento é algo tão pesado que é preciso dois para carregá-la - às vezes três".
De resto, não consegui responder o por quê do interesse. Talvez porque seja moderno ser plebeu e prestar reverências aos reis. Ou simplesmente porque somos uma civilização muito dada ao cultivo de personalidades, ao consumo de bobagens e, especialmente, à pura falta de espírito crítico que nos faça ver que, enfim, casamentos acontecem todos os dias. E William e Kate não são diferentes de ninguém.
O interesse inglês nas bodas é compreensível. O inglês encherga tudo isso de um outro ponto de vista, trata-se de um povo extremamente fiel às suas tradições e a família real, lá para eles, é um ícone enorme. Mas o resto do mundo, honestamente, se as coisas fizessem algum sentido, estaria cagando e andando para o casamento real.
Eu sou tão princípe da Inglaterra como William. Eu só não tenho tanta gente que acredite nisso.
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quinta-feira, 21 de abril de 2011
Demócrito
Suas ideias, contudo, morreriam na mão de místicos e supersticiosos. Suas descobertas que levariam a matemática e engenharia a outro nível antes mesmo do nascimento de Cristo foram esquecidas. Não fossem e quem sabe hoje já não estaríamos nos estabelecendo nos mundos outros que, conforme Demócrito adivinhou, eram inabitados e infinitos a nosso redor.
às 21:11 2 comentários Marcadores: Cosmo por ele mesmo, História
quarta-feira, 20 de abril de 2011
Erastótenes
Erastóstenes foi um sábio grego, diretor da Biblioteca de Alexandria, que deduziu a circunferência da Terra. Lera num antigo papiro que, no dia 21 de julho - solstício - um pilar fincado na vertical na cidade de Siena, ao sul de Alexandria, não produzia sombra alguma. Erastóstenes, por seu turno, observou que à mesma hora e data, um pilar produzia sombra em Alexandria. Considerou que isso indicava que a Terra não poderia ser plana, que se o fosse, as sombras seriam iguais em tamanho e ângulo, não importanto o ponto em que fossem medidas. Se, por outro lado, a Terra tivesse qualquer outro formato, as sombras teriam tamanhos diferentes.
Sem preconceitos de ordem teológica e ideias pré-concebidas, Erastótenes intuiu que a Terra devia ser redonda. A associação provavelmente veio de se deparar com o formato circular no cosmos: Sol e Lua, por exemplo - e fora esta a ideia, a associação entre as formas, que passou pela mente de outro sábio, muito mais antigo que Erastótenes: Pitágoras. Ele supora a forma da Terra sendo esférica, sem, contudo, ter-se ocupado de calcular sua circunferência.
A ideia de Erastótenes, a partir da observação da diferença das sombras entre as duas cidades, foi, então, calcular a circunferência da Terra. Ou seja, quantos e quantos quilômetros perfazem uma volta na superfície do planeta. Para isso, ele precisava de dois números: o ângulo desenhado pela sombra da vareta à 21 de junho, meio-dia, em Alexandria e a distância de Alexandria a Siena. Contratou um homem que fizesse o percurso e contasse a distância. O valor da distância era de algo em torno de 800 quilômetros e o ângulo aferido foi de 7 graus.
Erastótenes errou por 72 km. O valor é 40.072 km na altura da linha do equador.
Entretanto, a humanidade preferiu o preconceito bíblico por séculos. Desmistificado apenas por Colombo, que também por intuição, precisou cruzar um oceano para mostrar que a Terra não era plana, que não era sustentada no lombo de algum Deus. E que o curioso e abnegado esforço de Erastótenes, fruto apenas do intelecto e imaginação, estava correto.
Não fossem as religiões e os preconceitos científicos e hoje, talvez, já teríamos colonizado as estrelas.
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segunda-feira, 18 de abril de 2011
Aforismos - Rumo
"Ou eu encontro o caminho, ou o faço".
Philip Sidney, poeta inglês.
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Rádio: Radiohead - Reckoner
Junto com "Bones" e "No Surprises", a minha preferida dos cabeças de rádio lá da Inglaterra:
às 12:27 0 comentários Marcadores: Rádio blogue
Nunca fui bom com títulos
Embora tenha cultivado desde cedo o gosto pela palavra escrita, e tenha até certo ponto me esmerado em escrever, admito, que meu maior defeito é por nome naquilo que escrevo. É o que explica, por exemplo, os nomes ridículos que dei para boa parte dos meus poemas, listados aqui. Ou do conto que por ora escrevo, que batizei de "O Cofre". Nada transcendental.
Se o mérito da pena se revela nos títulos que escreve, então, resta-me conformar-me com a sina de escritor de meia pataca.
De qualquer forma, estou para condensar e imprimir meu segundo livro. Sim, condensar. Meus versos são gotículas que pairam na minha cabeça, há que resfriar o vapor das minhas sinapses para fazer delas versos condensados nas paredes da minha mente - a associação é ridícula, bem o sei, mas é por aí. Nesta toada, chego aos 50 anos com mais de 10 livros condensados, quiçá impressos, e quem sabe um deles preste pra alguma coisa (e faltará tão somente escrever uma árvore e plantar um filho). Enfim, meu segundo livro, o primeiro foi uma reportagem (que batizei com um verso do Fernando Pessoa), será um compêndio das menos lamentáveis poesias que cometi nesta vida. O que me lembra uma frase do Alexandre Dumas, em "Os Três Mosqueteiros". Relatava ele os cantos dos protestantes ingleses naquele tempo de huguenotes, e depois ressalvava que "os versos estão longe de ser excelentes, mas como se sabe, os huguenotes nunca se presumiram de poetas". O que é uma ironia tão sútil que merecia um tratado só sobre ela. Eu que não sou nem inglês, nem huguenote, me presumo poeta e saio por aí condensando meus disparates rimados.
Para título da coletânea, oscilo ainda entre "Mecânica Universal Aplicada", "Poesias do Geometra" ou "Conjunto de Mandelbrot". Todos nomes de poderosas associações com o conteúdo de um ou outro poema que, altaneiro, guardo comigo, crente de que um dia lerão e encontrarão qualquer um desses significados perdidos nas minhas rimas.
sexta-feira, 15 de abril de 2011
quinta-feira, 14 de abril de 2011
Antropocentrismo
Eu sou um amontoado mais ou menos ordenado de carbono, água, cálcio e um mosaico quase interminável de moléculas orgânicas chamado Tertuliano Máximo Afonso (não que a esta altura minha identidade seja um grande segredo para boa parte dos meus oito leitores, mas mantenhamos, o mais que pudermos, as aparências). Você é um conjunto de carbono, água, cálcio, moléculas orgânicas, mas com um rótulo diferente.
Muitos consideram essa compreensão da natureza humana degradante. Entendem que a visão desapegada de alma e subjetividade, em última análise, descaracteriza-nos como centros do universo, como triunfos da criação. Eu, por outro lado, acho absolutamente fascinante que de um big-bang, de estrelas que explodiram e planetas que se formaram, possa ter saído porções de matéria capazes de se perguntar sobre suas origens, conjecturar sobre o que os forma e contemplar o que os cerca.
às 20:17 0 comentários Marcadores: Cosmo por ele mesmo
Você não é o centro do universo
O que mais me aborrece, muito mais que ervilhas, cobradores, gente passional e fanáticos religiosos, são os geocentristas. Gente que procura sentido em tudo e crê, piamente, que o universo se dá pela nossa existência e acompanha a história desse pequeno e pálido ponto de luz azul.
às 14:57 0 comentários Marcadores: Cosmo por ele mesmo
terça-feira, 12 de abril de 2011
Rádio: Ennio Morricone - The Man With the Harmonica
A genial e arrebatadora mistura de guitarra e gaita, harmonia e distorção. De fundo a orquestração e a lembrança do homem sem nome, o "Gaita", personagem que era embalado por este tema. Ennio Morricone é um gênio:
às 12:15 0 comentários Marcadores: Rádio blogue
Lei da gravitação universal Einstein-newtoniana
Meu coração mede o tempo
esvai-se por ele a imensidão dos momentos
Meu coração é derivação
é uma abstração
meu coração é sonho quântico
de matéria escura
que pulsa,
que me expulsa
que navega romântico
meu pulso conta segundos
de horas distorcidas
na curvatura do espaço-tempo
minha sístole rasga os momentos
na curvatura do meu destino
e dos nossos tormentos
e me faz aquele velho cântico
de quando tudo era mais simples
quando a gravitação universal
explicava porque caiam as coisas
e não porque subiam
e planavam, pra longe de mim
os momentos e as verdades
desse poema sem fim.
50 anos do homem no espaço
Gagarin com sua pequena viagem ao redor do globo, perto demais para ter a concepção da insignificância desse planeta perante a vastidão cósmica, longe o suficiente para compreender a pequenez das ambições humanas, talvez tenha sido nossa primeira chance de nos entendermos com o universo. Nós somos feitos pelo universo, somos parte dele tanto como uma galáxia, somos feitos de matéria e energia que se manifestam em planetas, estrelas, explosões e buracos negros, e como conlcui Sagan, na poesia que lhe era peculiar e que todos invejamos, no fim das contas, somos uma manifestação da matéria e da energia, uma forma do universo compreender a si mesmo. Se o universo é um oceano, mesmo depois de 50 anos, apenas molhamos os calcanhares na água. E o primeiro passo foi dado por Gagarin.
Mas, com efeito, há muito que a exploração do espaço pela nossa espécie carece de esforços. E investimentos. Os EUA desmobilizam paulatinamente sua frota de ônibus espaciais, admitindo o gargalo tecnológico em que as naves se transformaram e a verdade é que ninguém na Nasa sabe muito bem para que lado caminhar. Os russos usam exatamente o mesmo modelo de foguete e capsula que usaram com Gagarin, a Shoyuz e a Vostok, apenas aprimorados com a tecnologia que expandiu-se a valer nas últimas 5 décadas. A exploração espacial precisa não de uma corrida, mas de impulsos, de um novo Von Braun e de um Korolev. A gravidade, que ironia, é a força fraca das leis universais, mas é mais cruel, porque insiste em segurar os sonhos e devaneios da nossa espécie na Terra. Vencer a gravidade ainda é tarefa para explosões e dispendiosos e enormes aparelhos, cujas concepções datam da própria invenção da pólvora e dos primeiros foguetes balísticos da Segunda Guerra.
Mas além de saltos tecnológicos, precisamos também de uma nova mentalidade. Gasta-se muito, mas muito mais, com orçamentos militares do que com exploração espacial. O progresso tecnológico em nosso sistema aparece onde há recurso humano e massivos investimentos financeiros. Ir ao espaço, à luz da compreensão crescente da nossa verdadeira posição no cosmos, o que somos, significamos e importamos ao universo não é ir embora ou dar vazão a desnecessários instintos nômades e exploratórios. Ao irmos às estrelas não estaremos indo embora, estaremos voltando.
Hora de viajar
desbravar um novo universo
molhar as canelas no oceano cósmico
vibrar nas supercordas um novo verso
É hora de viajar
vislumbrar o que há lá fora
De correr a todo canto
porque ao irmos às estrelas
não estaremos indo embora
estaremos voltando.
às 10:33 0 comentários Marcadores: Cosmo por ele mesmo, História, Tecnologia
Aprender é difícil
Newton comprou, na Feira de Stourbridge, em 1663, aos 20 anos de idade, um livro sobre astrologia. Não conseguia decifrar os mapas porque não sabia trigonometria. Comprou um livro sobre trigonometria, e bebeu na fonte de Pitágoras. Mas tampouco podia entender a geometria aplicada na teoria. Então arranjou um terceiro livro, "Elementos de Geometria", do imortal Euclides, onde aprendeu o que há para se saber de geometria. Dois anos mais tarde, inventava o cálculo diferencial.
E você fica reclamando por não aprender a usar um computador com Linux.
às 10:08 0 comentários Marcadores: Memórias
segunda-feira, 11 de abril de 2011
Instantes de estantes
Eu já não carrego em mim, como noutro tempo, tanta saudade assim pelo passado, pelo bom tempo que passou. Mas conservo, ainda, algumas quimeras, alguns frangalhos de sonhos, uns restos de desejos, um pouco de tudo o que me era caro e pereceu conforme o tempo passou. Eu sou fisicamente incapaz de largar mão da nostalgia.
Hoje o que eu mais sinto falta é de ter uma estante de instantes. Livros são momentos encadernados, assim como retratos são recortes instantâneos de uma realidade e de muitas verdades. Admirar o mosaico multicolorido, por vezes ainda lustroso, por vezes envelhecido e gasto de todas as brochuras que acumulei na vida me faz falta. E não são poucas as brochuras, nem poucos os momentos que tenho aprisionados em todos aqueles livros, que transitam de filosofia à poesia, passando por literatura, história, jornalismo. Encarar livros, sabendo que nunca os lerá, por falta de tempo, falta de afinidade ou paciência, é um passatempo que coloca o homem em face às verdadeiras limitações do intelecto, do espírito, dos limites últimos da vontade em contraste com a extensão do próprio tempo e do fato inescapável de que quase nunca fazemos da vida aquilo que queremos. É, conforme disse Saramago, um grande campeão de momentos encarcerados nas brochuras da estante que eu não tenho mais, a maior tragédia nossa, essa coisa de não sabermos o que fazer com a vida.
E nem com livros acumulados.
às 14:17 1 comentários Marcadores: Memórias
sexta-feira, 8 de abril de 2011
Aforismos - Da validade da vida
"Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: é o suicídio. Julgar se a vida merece ou não ser vivida, é responder a uma questão fundamental de filosofia”.
Albert Camus.
E à parte disso, dessa questão do até que ponto tudo isso vale, resta a conclusão: o resto, tudo, é armazem de secos e molhados.
às 17:29 1 comentários Marcadores: Aforismos
Vai dizer o que depois dessa, ô ser-humano?
Eu evito cair no lugar comum, me dar ao trabalho de logar no blogger apenas para repercutir impressões e opiniões, como um outro Tristam Shandy, sobre as mais recentes, maiúsculas e esmagadoras derrotas e monumentais cagadas da espécie humana nesse mundinho que nos carrega em viagens cósmicas sem sentido e, parece, cada vez mais penosas. Eu evito porque não quero ser visto filosofando em público, não quero criar teorias, lançar movimentos, não quero fazer parte de ondas e vanguardas renovadoras. Não boto mais fé na humanidade do que num bilhete de loteria, ambas as instituições me parecem muito incertas para merecerem confiança. Mas a isso tudo de Realengo, ao ler o que este menino sobrevivente e bafejado por uma sorte hipócrita e cruel, uma sorte madrasta, uma sorte que dá a vida com uma mão, e lega um peso e uma tortura insuportável para um garoto, nem mesmo eu resisto.
Também me aborrece falar no assunto porque, lembro, há coisa de uns dois ou três anos, aconteceu outro crime bárbado que me impressionou em igual escala. Uns sujeitos roubaram um automóvel e arrastaram no asfalto por muitos quilômetros uma criança de 7 anos, que em face aos ferimentos não resistiu. Morreu. Lembro, ainda, de como me senti ao imaginar a situação para a família. É inconcebível imaginar que arrastaram um filho seu, um irmão, um sobrinho até a morte simplesmente porque ele estava no carro. E, a rigor, não mudou nada, porque ontem outro maluco assassinou 12 crianças. Amanhã alguém faz pior.
Stálin dizia que a morte de um homem era uma tragédia. A de milhões, uma estatística. Mas Stálin era um canalha debochado, e é o mesmo deboche que ele guardava atrás daqueles bastos bigodes que impera no mundo onde um sujeito desequilibrado tem acesso à armas - e não a tratamento, onde religiões podem morar na cabeça perturbada de pessoas capazes de decidir se você pode abortar, se você pode transplantar órgãos, receber sangue doado, se você pode usar contraceptivos. Se você pode se vestir, descobrir o rosto, amar. Não existe civilização. Existe uma corrida de vida ou morte mais ou menos organizada, mais ou menos funcional, respeitando uns poucos e cada vez mais esquálidos princípios. O futuro é sombrio para estes, porque se nada garante o direiro à vida, assolado por estados, governos, líderes, corporações, seitas, e malucos, não há muito espaço de manobra nestas veredas escuras da contemporaneidade para qualquer nesga de civilização e gentileza entre macacos pelados que, em última instância, somos.
Poderia ter acontecido em qualquer lugar do mundo (como, aliás, já aconteceu) porque, no fim das contas, seres humanos são iguais em tudo. Na genética, na cor da pele, no cabelo, na ignorância, no temor de deuses e amigos imaginários, na crueldade e na loucura galopante de um tempo em que resta pouco a cada jovem criança que não seja se lobotizar no devaneio coletivo de futuro, estudo, sucesso, trabalho, progresso pessoal. E em conceitos cada vez mais abstratos, como paz, crescimento, fraternidade, união.
Wellington, o nome do assassino, da besta-fera que matou a bel-prazer, não era ateu, religioso, partidário, anarquista, escritor, trabalhador, delinquente, traficante, engenheiro, policial. Era um homem. Um ser-humano. E foi capaz de fazer o que fez. Wellington não é um caso de loucura, não é uma tragédia isolada, sequer um assassino em massa, em série ou qualquer outro rótulo em que possam, os especialistas, encaixá-lo. Wellington é o negativo da nossa espécie, ocupada demais em matar-se, em sabotar-se, em odiar-se para perceber o mal que constrói a cada sonho frustrado, a cada derrota humana. Wellington era feito da mesma coisa que cada um de nós somos feitos. Wellington e cada uma de suas vítimas era feito do mesmo que todos nós somos. Era uma improbabilidade, um triunfo da matéria e da energia. Era uma exceção, porque num universo todo não seria encontrado um igual. E, mesmo assim, não teve dúvidas. A distância que nos separa do assassino, hoje, não é a vida, a morte, o ato. É a perplexidade, porque nos reconhecemos nessa derrota; a tragédia das crianças e das famílias é nossa. A derrota de Wellington, é coletiva, não individual. A vergonha é toda nossa. Nós falhamos como sociedade, como espécie, como indivíduos.
Ontem Wellington, era o nome do rapaz, Wellington como o general que venceu Napoleão. O nome deve ter atravessado continentes e se popularizado por conta desse vencedor, que promoveu morte e destruição para parar outro, que por sua conta dedicou a vida a promover morte e destruição em escalas industriais num tempo em que a arma era o bacamarte, a infantaria ia à cavalo e naves à vela ameaçavam a estabilidade dos impérios.
Hoje a arma está ali, na mão do psicopata. O arsenal nuclear na mão de mais ou menos qualquer um, como um dia esteve o zyklon-b. Hoje. Amanhã, não sei.
às 12:21 0 comentários Marcadores: Atualidades
terça-feira, 5 de abril de 2011
Aforismos - Pensamento positivo
Se pensamento positivo adiantasse alguma coisa, tirando eu, tava todo mundo muito bem por aí.
às 10:57 1 comentários Marcadores: Aforismos





