Houve um tempo em que eu dedicava esse blogue a absorver minhas impressões sobre livros que lia. Parei com isso porque, invariavelmente, passado algum tempo, ao revisitar as minhas opiniões e textos, me deparava com idiotices tão acachapantes que acabava envergonhado. Outra razão é a entropia da vida, que desregula até mesmo gostos e prazeres intensos: pra falar a verdade, eu leio muito menos do que antes e tenho tido muito menos vontade de escrever.
Mas como persistir no erro é um talento tão decisivo nesse que vos redige, vamos voltar a falar de livros.
Eu devo ter passado uns 10 anos atrás de, ou às voltas, com a ideia de ler "Albert Speer - A Sua Luta com a Verdade". Trata-se, o livro, de uma caudalosa biografia sobre o cidadão que lhe dá nome, um talentoso, inseguro, ambicioso, charmoso arquiteto, sujeito inteligente e gestor de enorme capacidade, que teve o desazo de virar "o melhor amigo de Hitler", segundo as palavras do próprio, e ser, de alguma forma, testemunha e cúmplice do Holocausto e demais estripulias bélicas cometidas pelo führer e seus asseclas naqueles loucos anos entre 1930 e 1940.
O fascinante na história de Speer é que trata-se do nazista improvável. Hoje vistos com algum exagero como criaturas irascíveis, valentonas e normalmente burras, os nazistas parecem ser o último refúgio de alguém com as origens aristocráticas do arquiteto que viria a embarcar na megalomania do Reich que queria, entre outras coisas, erguer um colossal estádio de 400 mil lugares em Nuremberg para comícios partidários, derrubar toda Berlim e reconstruí-la em proporções que redefiniriam a qualidade do adjetivo faraônico.
Improvável também porque trata-se do homem, enfim, que atraído pelo carisma de Hitler desenvolveria com esse uma relação que o próprio admitiu ter contornos eróticos, não no sentido homossexual da ideia, mas no sentido de atração que vai além da amizade. É um pouco complicado assimilar a ideia sem todo o contexto da relação dos dois, mas fica difícil tirar do termo as conotações que inevitavelmente adquire. E, no fim das contas, vá você traduzir termos do alemão para ver as complicações...
Depois de arquiteto do Reich, em 1942, Speer tornar-se-ia ministro dos armamentos. O cargo lhe dava enorme controle sobre o esforço de guerra, influência decisiva sobre os planos quadrienais de Göering (por algum motivo, a Alemanha nazista delegava a tarefa de planejar à economia a um corrupto marechal da força-aérea) e sobre a produção de material bélico. Suas capacidades de gestor da empreitada, dizem muitos analistas, deu à Alemanha capacidade de sustentar a guerra por mais dois anos.
O que faz de Speer um sujeito único no contexto da Segunda Guerra é o fato de que ele assumiu uma responsabilidade genérica pelos crimes durante o julgamento de Nuremberg (sendo, aliás, o único réu a tomar essa posição, de forma falsa ou não), efetivamente pediu desculpas pelo e ao povo alemão e sabotou ordens de Hitler que visavam tornar a Alemanha num deserto improdutivo e medieval ao fim da guerra, todos comportamentos que lhe renderiam o título, em tom de deboche, de ser o "bom nazista". Para além de tudo isso, Albert Speer passou a vida (morreria em circunstâncias não muito lisonjeiras em 1981) dizendo que, não, nunca soube do holocausto e da solução final.
Sei.
Embora uma série de indícios esmagadores sempre tenham surgido contra as alegações de Speer sobre não saber dos crimes promovidos contra minorias e, em especial, os judeus, há também indícios de que ele poderia mesmo não ter sabido de nada. Esse, ao menos, é o panorama do livro.
Magistralmente escrito por Gitta Serený, facilmente uma das maiores jornalistas investigativas da história, a biografia devassa a vida de Speer em todas as suas fases para determinar para que lado pende a balança desse confronto, assumido de forma decisiva pelo próprio Speer em sua vida: provar que não sabia a quem sempre desconfiou.
O confronto é sempre estabelecido por Serený, que assume a forma de uma jornalista imparcial e contundente na busca da verdade.
O livro fala do Speer jovem, oprimido por uma família fria e distante. Sobre o começo do relacionamento com Hitler, que se considerava um artista diletante e afastado do ofício em virtude da política, e a forte impressão causada neste pelos seus trabalhos no führer, aborda os anos todos da guerra, o julgamento, os 20 anos de cárcere em Spandau, a relação com a família nesse período e dá um panorama da vida em liberdade, até a morte em 1981.
O mais interessante da linha adotada por Serený para o livro é sua admissão sem remorsos e comprometimento de que acabou se afeiçoando e tornando-se amiga de Speer.
Isso lança às bases para avaliar o livro em um novo patamar, em que confrontos nos quais Serený cerca o biografado com uma série de perguntas, fatos, documentos, testemunhos e indícios históricos sobre a sua postura na guerra e o conhecimento, ou não, dos crimes acabam definindo a ideia de "luta" contra a verdade expressa no título.
São mais de 1000 páginas em que esses duelos se repetem à exaustão. Na maioria dos casos, Speer se sai com uma tática que sempre marcou sua posição sempre que perguntado: sempre a mesma resposta de que "poderia ter sabido, mas não soube e em sabendo deveria fazer algo", além de evasivas gerais.
Em apenas um caso, Speer claramente se perde: quando questionado pelas evidências que sustentam que ele estava presente no discurso de Posen, quando Himmler, numa estratégia para fazer de todas as lideranças partidárias cúmplices do holocausto, abriu o jogo e explicou a solução final a todos os presentes. Speer não soube fugir dessa acusação e só o fez com documentos juramentados por antigos amigos, sustentando que ele esteve na convenção, mas não no discurso.
E mesmo que não tivesse estado, salienta Serený, ninguém dos seus contatos comentaria nada com ele nos dias seguintes? Há relatos que mesmo nazistas de naipe e enormes quantidades de espírito de porco tiveram sérios problemas para ouvir e admitir o conteúdo do discurso de Himmler.
Outros duelos se seguem e, no meio de tudo isso, o livro encaminha-se para uma conclusão fácil, que na verdade dispensa a leitura das 1000 páginas: Speer deve ter sabido de tudo e sua postura de afirmar o contrário pode ser tida sob duas perspectivas: estratégia de sobrevivência e arrependimento legítimo.
Lendo sobre as transformações de Speer fica realmente difícil não acreditar que seu arrependimento não fora sincero. Durante anos, usou parcelas consideráveis das gordas remunerações que obteve com seus livros escritos pós Spandau para financiar uma série de ONGs e grupos de assistência a sobreviventes de campos de concentração. Sua relação com a moralidade, leituras religiosas e posicionamentos suportam a ideia de que, no fim das contas, mesmo criminoso de guerra e cúmplice que, se aplicada a mesma régua que mediu seus 15 colegas de nazismo condenados à morte em Nuremberg, devia ter sofrido o mesmo destino, estava realmente compungido por sua contribuição nesse desastre.
Como já adiantei, a conclusão do livro é óbvia no que tange o conhecimento de Speer sobre as monstruosidades do regime: ele deve ter sabido de tudo. Mas a conclusão sobre até onde ele se arrependeu e mudou em virtude do que viu, da admissão do caráter eminentemente maligno de Hitler e do fim da guerra é algo que fica aberto a debates e ao melhor julgamento do leitor.
Sobretudo por outros traços do seu perfil, tão claramente esboçados no livro: frieza e falta total de empatia. Essa última, aliás, sempre mencionada como ausente na psique de psicopatas, é a marca definitiva que, nas minhas contas, define Speer como um mentiroso de muitos recursos: a quem falta empatia, falta a capacidade de se colocar nas circunstâncias do outro e encontrar o sofrimento sentido por alguém desconhecido. Defeito, aliás, recorrente em qualquer liderança nazista do período.
* Para quem não vai ler sobre Speer nessa biografia espetacular, vale lembrar que muito tempo depois da publicação do livro e da morte do arquiteto, evidências muito comprometedoras surgirão demonstrando seu total conhecimento sobre o holocausto.
* Para quem tem prevenções gerais contra a leitura, que vão além de zelo contra ler qualquer coisa de 1000 páginas, há um documentário essencial sobre concepções artísticas e estéticas do nazismo, tão intimamente ligadas com a figura de Speer: "A Arquitetura da Destruição". Mesmo não versados em história da Segunda Guerra fazem a si mesmos um favor ao verem o doc, que é facilmente encontrável para download e até mesmo no YouTube.
quinta-feira, 21 de janeiro de 2016
Speer, "o bom nazista", e uma queda de braço com uma jornalista inexorável
às 22:15 0 comentários Marcadores: Cultura, História, Política
sexta-feira, 15 de janeiro de 2016
Rádio blogue: Elvis Presley - It's Over
Somehow I have to let you go...
às 14:06 0 comentários Marcadores: Rádio blogue
quinta-feira, 14 de janeiro de 2016
A última
Amar é um troço que sai do controle.
Ela era doce, meiga, fácil de agradar. Ela foi a primeira de todas para quem eu dei adeus. O engraçado é que eu não sei dizer por quê exatamente, mas tinha algo a ver com um ultimato. Eu não sou bom em ultimatos.
O mais triste é que dentre todas elas, essa foi aquela com quem eu estive mesmo disposto a ir até o fim. E talvez esse tenha sido o problema, o maior dos medos, enfim, encontrou como assumir o controle.
Lembro, com remorso, e com carinho, as vezes em que sonhei outro tipo de despedida dela. Um dos dois, velhos e nas últimas, se preparando para a despedida depois de uma longa vida. Me entristece ter engasgado e, na última vez que nos vimos, não ter confessado que a amo.
Vou sentir muita falta dela, vou arder de saudades de fazer cócegas, das mãos delicadas.
De tudo que seria, mas não foi.
às 18:27 0 comentários Marcadores: Memórias
Não houve verso
Eu nunca te escrevi um poema. Entre minhas paixões, amores e fracassos, você foi a única delas que não ganhou versos, ainda que em boa parte das ocasiões eu tenha os escrito para as outras e os deixado ocultos. Assim é a minha índole.
Poderia elencar uma série de motivos para a ausência de poemas. Um ponto importante é a estiagem criativa, já que há muito tempo nada me motiva a escrever por prazer, poesia ou prosa, e esse problema vem de tempos. Acho que me esgotei no ofício e percebi que, no fim das contas, a despeito de muito desejo, não fui talhado para escritor.
Outra razão, talvez, é a perda da inocência. O desencanto com o lirismo e o mundo platônico exposto nos versos. Sob essa perspectiva, poesia parece tão inconsequente, se não até inútil, que a mente parece gritar contra qualquer ameaça de verso e rima despontando entre sinapses.
Mas, no fundo, e independente do enorme mérito das razões anteriores, eu vou confessar que nunca foi o caso de te fazer versos porque, no fim das contas, eu trocaria todos os poemas do mundo por uma vida ao seu lado.
às 12:07 0 comentários Marcadores: Memórias
quinta-feira, 10 de setembro de 2015
Vida? Não me fale sobre vida
Minha vida é como um navio com um furo no casco, a fazer água. Meu trabalho é manter o navio no curso correto.
às 12:09 0 comentários Marcadores: Aforismos
domingo, 16 de agosto de 2015
AssimFaliu Zaratustra
Não foi sem alguma dose de comoção que descobri que o meu primeiro blogue, iniciado em 2004, está fora do ar. O motivo é que a Globo.com, detentora do serviço blogger no Brasil, o tirou do ar, em conjunto com todos os demais que usavam essa plataforma, no último dia 30 de junho. A Globo.com poderia ter feito um esforço um pouco maior para divulgar o encerramento do Blogger brasileiro, talvez eu tivesse feito alguma coisa.
Embora todos nós, caros oito leitores, saibamos que eu não faria rigorosamente nada.
Assim Faliu, no fim das contas, a primeira versão desse blogue.
Eu devia ter ficado mais irritado, mas não fiquei.
Um pouco aborrecido, sim, porque embora eu morresse de vergonha de boa parte dos textos que mofavam naquele acervo, eles eram parte de mim. O bocó de 20 anos, que sonhava em escrever, achava que trocar engenharia por jornalismo não era má ideia, tinha impressão de entender alguma coisa de Nietszche, e que, no fundo, tinha todos os sonhos do mundo dentro do peito.
É bem provável que seja possível resgatar aqueles mal ajambrados textos de algum desses sites que armazenam vestígios das priscas eras da internet. Desde que eu migrei para o Blogspot, parei de atualizar o Blogger, o que significa que, caso o meu blogue esteja em cache em algum lugar, é bem possível que o conteúdo todo ainda exista em algum servidor qualquer.
Conteúdo é um termo muito digno, muito honrado, muito bonito para qualificar aquelas bobagens.
Era 2006. Terceiro ano de faculdade. E eu era um idiota. E hoje continuo sendo, porque é bem provável que eu nunca me dê ao trabalho de procurar pelo meu velho blogue do blogger até o ponto em que mesmo esses sites de arqueologia digital não terão mais razão alguma para guardá-lo. Aí eu descobrirei isso incidentalmente e, embora me irrite um pouco e provavelmente venha aqui reclamar, ficará por isso mesmo.
"... there is nothing here worth saving", diz a canção que estou ouvindo.
No fundo, há certas coisas que ficam melhores esquecidas, mofando no passado. Tomem nota desse judicioso veredito, porque quem vos fala é um sujeito conhecido por viver, sozinho, feito um bocó, de, no escuro, regar as flores mortas do passado.
E de encher as últimas frases dos seus textos de vírgulas, num claro expediente desesperado de, no fim das contas, tentar, ainda que inutilmente, dar algum peso, algum estilo e, vá lá, profundidade às nulidades idiotas que diz.
sábado, 1 de agosto de 2015
Rádio blogue: Michael Penn - Walter Reed
Mais uma ótima trilha sonora para quem fica aqui, como eu, sobranceiro, cismando, cheio de desconfianças a regar as flores mortas do passado.
às 12:22 0 comentários Marcadores: Rádio blogue
Prestando contas
Meus queridos filhos. É preciso, antes de tudo, se desculpar. Esse mal ajambrado, envelhecido e carcomido blogue teve inspiração na necessidade de deixar algo para que vocês me conheçam melhor.
Mas eu tenho falhado, como tudo na vida, aliás, em deixar aqui um registro das minhas aflições. Das novidades, das derrotas, das alegrias, do que eu fui, estou sendo e no que vou me tornando, inadvertidamente. Eu peço desculpa pela fraqueza, mas é preciso dizer, meus queridos, que entre a larga biblioteca dos grandes defeitos do pai de vocês um dos mais bem descritos, em prosa e verso, e até em registro multimídia, há de ser essa atávica capacidade de se auto-sabotar e de desistir de tudo.
Hoje eu tenho 30 anos de vida e muito pouco para contar.
E dos muitos medos para confessar há o maior de todos, que no fim das contas, meus queridos filhos, vocês nunca cheguem a ser. Nunca existam, nunca passem de mais um projeto idealizado e nunca posto em prática.
às 12:19 0 comentários Marcadores: Memórias
domingo, 5 de abril de 2015
Paternidade
Alberto Ascari foi o segundo campeão mundial de Fórmula 1 (venceu em 1952 e 1953). O italiano era propositalmente malvado com o filho e a história é mais uma reminiscência do tempo em que corridas eram perigosas e o sexo era seguro.
Ele dizia que não queria que o garoto sentisse sua falta quando, inevitavelmente, viesse a morrer nas pistas.
Ascari morreu num teste privado da Ferrari, em Monza, em 1955.
às 02:46 0 comentários Marcadores: Fórmula 1, História
sábado, 4 de abril de 2015
"Go Like Hell" - o primeiro ebook
Pela primeira vez, comprei um livro digital. Nunca imaginei que seria seduzido pela perspectiva de ler qualquer coisa na tela de um aparelho eletrônico. Mas as circunstâncias me forçaram a comprar a versão ebook de "Go Like Hell".
O livro, uma grande reportagem, fala sobre o histórico duelo entre Ford e Ferrari nas 24 Horas de Le Mans dos anos 1960. O tema parece pueril, mas não é. O antagonismo de Henry Ford II e de Enzo Ferrari na globalização que nascia, os saltos tecnológicos promovidos pelo incrível Ford GT40, a personalidade dos pilotos daquele tempo e todo o charme do automobilismo dos anos 1960 são o pano de fundo da obra de AJ Baime, editor da Playboy norte-americana.
É um delicioso resgate do tempo em que, nas palavras de Hans Stuck, "o sexo era seguro e automobilismo era perigoso".
Já a algum tempo eu namorava o livro e já tinha ensaiado a ideia de importá-lo, uma vez que ainda não há versão brasileira para a obra. Contudo, o preço proibitivo da aventura me manteve distante das páginas que exalam gasolina. Talvez eu devesse ser mais paciente, já que há notícias de que o texto será adaptado para o cinema e isso, inevitavelmente, incentivará a produção de uma versão nacional do texto.
A ideia de comprar um livro digital sempre me pareceu boba porque, ao menos nas minhas contas, livros precisam ser objetos de manuseio. Há, evidentemente, um tipo de fetiche em contemplar uma estante sua, recheada de livros que você escolheu diligentemente ao longo da vida. A estante que, para muitos, é apenas ornamento, para mim, é um tipo de retrato, de fac-simile da personalidade de cada um. Prezo muito minha estante e meus livros. Mesmo tipo de culto ao objeto eu mantenho com meus jogos de video-game que, também, em virtude de contenções de gastos e outras pornografias financeiras, cada vez mais, vem se tornando digitais.
Talvez o passo final para entrar nessa modernidade toda de livro digital venha só quando eu decidir adquirir um aparelho específico para ler livros. Acho bem improvável, já que a tela de 5 polegadas do celular se mostra suficientemente boa para ler. Contudo, um dia, eu tive certeza que nunca compraria um e-book...
às 12:50 0 comentários Marcadores: Cultura
quinta-feira, 2 de abril de 2015
Filosofia ostentação
Tenho redescoberto o prazer de ler livros de filosofia. Daqueles mananciais densos de informação, arcabouço intelectual, plenos. Rios caudalosos de caudalosa prosa penserosa que, em outro tempo, eu lia e fingia entender. Depois, evolui para o não ler e dizer ter lido para impressionar gente e hoje, finalmente, eis-me em condições de esgrimir conceitos e ferramental filosófico com quem quer que seja.
No momento, vou navegando sobranceiro pelas águas de "Tratado de Ateologia", de Michel Onfray. Romancista, se deu ao trabalho de traçar as origens e classificar o que é, afinal, ser ateu. O tino de quem escreve ficção parece tê-lo ajudado de maneira sensível a escrever um livro de filosofia absolutamente tragável.
Trabalho de boa qualidade porque nos equipa, a nós, ateus, de instrumentos lógicos e de uma compreensão mais fundamentada sobre o processo histórico que nos traz do Testamento de Jean Meslier, o famoso cura de aldeia que tinha a inestimável qualidade de ser ateu radical, ao nosso estado das coisas, assombrados que vamos pelos demônios inexistentes dos monoteísmos dominantes que armam e elegem aqui e acolá, legislam sobre as nossas cabeças e nos explodem pelas nossas ruas.
É bom se deparar com livros de filosofia que, de fato, iluminam.
às 02:56 0 comentários Marcadores: Cultura
sábado, 28 de março de 2015
Livros, futilidade da teimosia e Saramago
Na vida, montei uma valente brigada de grandes escritores comandada pelo general José Saramago. A alegoria, bem o sei, traduz mal e porcamente a ideia que é a seguinte: na longa e bem povoada lista de escritores que aprendi a gostar, Saramago reina altaneiro.
De todos os seus livros, negligenciei apenas o de poesias, que o próprio tinha em tão baixa conta. Li todos os seus romances, à exceção de um: "Memorial do Convento".
Foi o acaso que o deixou por último. Mas não pode ser simples acaso o fato de que, nos últimos cinco anos, comecei a lê-lo em várias ocasiões, com diferentes taxas de sucesso e engajamento. Mas em nenhuma delas logrei encerrar a história que conta algo sobre a construção de um convento na cidade de Mafra (a portuguesa, não a catarinense) e alegorias sobre a figura de Bartolomeu de Gusmão, padre brasileiro que voava com balões e inaugurou uma tradição que, uns anos atrás, levou um confrade seu a sumir no oceano, tragado por arrogância, falta de discernimento e uma série de decisões equivocadas.
O fato é que o livro me agrada. Tem o estilo rico e único de Saramago em cada uma de suas páginas (ao menos naquelas que pude ler). Há até uma passagem, em que ele conta o roubo de uma igreja, que me marcou pela alegoria que descreve o balançar de uma lamparina e o som que ela faz quando, em polvorosa, os padres chegam ao altar e o veem completamente desfigurado pela ação do larápio: era como se a lamparina dissesse "em linguagem de arame, foi por pouco, foi por pouco". Saramago é genial.
A realidade de nunca ter conseguido ler "Memorial do Convento" até o fim me perseguia até a epifania que tive hoje. Pode ser que, no fundo, eu mesmo me detenha na leitura para não ter o desgosto de terminar a obra de Saramago. Pode ser um recurso engenhoso do meu subconsciente para impedir essa segunda morte do bom português.
Há forças contra as quais a gente não deve opor muita resistência. O desgaste de ler o primeiro terço do livro, hoje, é tão grande que, acho, me dou por vencido: desisto de ler o "Memorial do Convento" e abro mão de toda e qualquer iniciativa futura de abri-lo novamente com o propósito de navegar até o fim da história.
Assim, ainda que em mim, ainda que confinado aos limites da minha estante, José Saramago ainda vive. José Saramago ainda tem o que dizer. José Saramago ainda há.
às 23:52 0 comentários Marcadores: Cultura, Memórias
sexta-feira, 13 de março de 2015
Udo Kraft
Estava lendo um romance eslavo, ambientado na Primeira Guerra Mundial, que menciona um certo Udo Kraft. Alemão, era professor antes da deflagração do conflito e de tal maneira devotado à ideia de sacrificar o couro ao Kaiser, que publicou o livro "Guia Prático de Como Morrer pelo Imperador". Dito e feito: pouco tempo depois, ainda nas primeiras escaramuças da Grande Guerra, ainda longe da escala industrial que marcaria a máquina de moer gente que foi a guerra de trincheiras, Udo tombou em combate e deu testemunho definitivo do seu livro.
No livro que leio, o tom da anedota é jocoso. Do pouco que li sobre Kraft na internet, tirando a poeira do pouco alemão que eu nunca soube, entendi que, pelo contrário, Udo entendia seu destino de sangrar pelo Kaiser como uma devoção sagrada, como profissão de fé pela lealdade ao trono e a coroa.
Não por acaso, tal comportamento se repete na segunda metade dessa guerra, aquela que começa em 1939. Naquela época, soldados da Wehrmacht juravam não à constituição, ao Reich, à pátria. O juramento era, literal, estrito, ao Füehrer. Para o soldado alemão, o juramento é uma entidade física, um laço que não poderia ser rompido. Não é algo que justifique, obviamente, mas dá margem para compreender o comportamento sanguinário e fanático das hostes nazistas.
às 21:37 0 comentários Marcadores: História
quarta-feira, 28 de janeiro de 2015
Paternidade
A paternidade, sonho antigo, me parece cada vez mais distante. Eu não consigo ser otimista quanto a previsão do tempo, a defesa do São Paulo, a democracia e as minhas perspectivas profissionais no curto, médio e longo prazo, de modo que me arriscar a trazer ao mundo alguém a quem fatalmente decepcionarei não me parece uma boa ideia. Venho cotejando a ideia, com o deboche e pessimismos costumeiros, porque, recentemente, uma amiga querida conta os dias para ver nascer a primeira filha.
Mas o futuro dispõe de nós e é por isso que eu, do alto desse velho e carcomido corpo, tenho cá comigo meus planos, que agora vão parar numa das gavetas dos sonhos, talentos e desistências de três décadas de vida. Caso os ponha em prática em algum momento, espero, por exemplo, munido do conhecimento de enciclopédia e de largas proporções de cultura inútil, ser um excelente pai na fase dos porquês. Já carrego comigo, por exemplo, resposta para a pergunta fundamental sobre de onde veio tudo, colhida no Guia:
"No início, o universo foi criado. Isso irritou profundamente muitas pessoas, e no geral, foi encarado como uma péssima ideia".
Douglas Adams.
às 21:36 0 comentários Marcadores: Aforismos, Memórias
sábado, 4 de outubro de 2014
Notas
Eu adoro política.
- Fico muito feliz em ver que o povo não é mais tão ingênuo. Conseguiu enxergar a profundidade de um calcanhar da Marina. O programa de governo de cristal, que não resiste às sacodidelas de campanha, que dirá aquelas dos Brasis e do mundo real.
- Muito contente que o discurso reacionário, embora repleto de representantes, unidos, não soma aí 2% nas pesquisas.
- Extremamente contente com o PSOL, finalmente, apresentar um nome viável.
- Muito feliz em ver que o tucanato empoado e plutocrata, que desmontou o país, caminha a passos céleres para a irrelevância do purgatório que já dá abrigo ao PFL.
- Contente em ver que as ideias neoliberais, o desmonte do estado, o entreguismo financista, ainda que ecoem em tanta cabeça de vento, não têm o respaldo da maioria. Oito anos de FHC foram, de fato, mais do que suficientes.
às 19:03 0 comentários Marcadores: Política
sexta-feira, 3 de outubro de 2014
Alergias
A vida
que vai e volta
traz um sorriso
que é de alegria
e vem sem escolta
é mais do que preciso
me dá agonia
e me revolta.
sexta-feira, 12 de setembro de 2014
Rádio: The Walkabouts - Buffalo Ballet
Eu não sei exatamente por quê, mas um dia eu detestei The Walkabouts. Não mais. Nunca mais:
às 14:39 0 comentários Marcadores: Rádio blogue
terça-feira, 9 de setembro de 2014
Tentativa
Não vivi amores
me vi feito de dores
doí a vida
doei o sangue
e fiz do coração
as tuas cores.
terça-feira, 19 de agosto de 2014
Ela 1
Provavelmente, não há nada mais clichê do que começar postagens num blog com "estava eu revendo emails antigos, quando...". Mas era exatamente o que fazia.
Me deparei com uma longa missiva, desejo de feliz ano novo ao qual jamais respondi. Não lembro direito porque não respondi, mas acho que esse blogue não cumpriria jamais o seu papel de depositário da minha vida insignificante se eu não falasse sobre tudo (ainda que, há tempos, ande sonegando um pouco de tudo. Eu sou bosta). Em todo caso, vamos fazer de conta que porei tudo em dia e tomarei jeito e vamos falar hoje sobre ela.
Não vou dizer que ela É ela. É mais uma delas, das que passaram pela minha vida. Nunca trocamos um beijo. Esta personagem, em especial, alimentou sentimentos que eu ignorei a vida toda, me confessou anos depois o que sentia e me deixou confundido com os sinais desconexos que recebi por anos, as críticas, provocações e constrangimentos e com o fato, não muito confortável de se encarar, de que eu não tinha nada para dizer para aplacar a verdade, que é bem infeliz: fazê-la entender que ela não era correspondida.
Eu não sei administrar a minha vida em termos equilibrados. Daí se pode perceber as enormes dificuldades que eu teria de ter uma conversa adulta e direta sobre sentimentos de outra pessoa por mim e, em especial alguém com quem eu não estou emocionalmente investido. Tudo fica pior porque, aparentemente, os sentimentos não correspondidos dela são aparentemente enormes.
Aí veio o tal e-mail, com mais uma tonelada de confissões do gênero, temperadas pela passagem do tempo e pela carga emocional que se coloca quando se tenta, num gesto desesperado, estabelecer algum contato com um objeto de suas predileções. Sim. Objeto. Eu sou frio.
Antes, escrevi que não lembrava direito porque não tinha respondido o e-mail. Mas a verdade é que eu lembro sim. Alguém me avisou que ela tinha minhas senhas de e-mail. Eu lembro que fervi por dentro, mas para me poupar de discussões e desgastes do gênero, me calei.
Mas era uma pessoa legal. Diferente, interessante, com boas qualidades. Tinha enormes defeitos, nas minhas medidas, como uma obsessão para cuidar de bichos. Eu não tenho nada contra eles, apenas não os gosto comigo. Animais cansam. Acho que quem vota tanto carinho a criaturas tão imbecis, no sentido cognitivo da palavra, padece de algum grau elevado de imaturidade emocional. É fácil ter amor pelo que não vai te decepcionar nunca.
Não que eu queira ressuscitar aqui nossos velhos atritos e provocações. Não que eu queira responder o e-mail.
A gente não escolhe de quem gosta, nem de quem odeia, embora eu tenha grande facilidade para antipatizar com qualquer pessoa apenas porque sou assim. No fim das contas, eu sou um grande canalha. Alguém foi ao psicólogo por conta da minha incapacidade de perceber o que está ao meu redor e eu fui incapaz de dizer um "feliz ano novo".
Ela hoje segue a vida. Mudou bastante, pelo que eu sei, mas vai se encontrando. Ultimamente, tenho tido essa sensação, todo mundo está se encontrando. Menos eu.
Pode ser bem tarde, duvido bastante que ela venha a ler, mas lá vai, sem qualquer segunda tensão que não seja a resposta de uma saudação, um "feliz ano novo".
às 11:01 0 comentários Marcadores: Memórias
segunda-feira, 14 de julho de 2014
Rádio: Mark Lanegan - Sad Lover
Quisera eu ter a facilidade que tem Mark Lanegan para transitar entre canções pesadas, no limiar da vida, sorumbáticas e soturnas, feito o meu espírito, e canções explosivas, efusivas, alegres.
Fiquei muito animado com o título, "Sad Lover". Muito. Três segundos depois, decepção, lágrimas, rancor, ódio e veneno sendo destilado nesse meu coração de pedra.
Em uma nota para os biógrafos, olhando em retrospecto, devo ter sido feliz. Um dia. Foi nos tempos de faculdade, quando eu morava, e até certo ponto, vivia, em Ponta Grossa.
Essa é um teaser do novo disco. Eu não gostei. Mas eu gostei, porque é Mark Lanegan.
às 18:22 0 comentários Marcadores: Rádio blogue
