sexta-feira, 4 de março de 2016

Um dia desses

Um dia desses eu vou começar a te esperar de novo. Vai ser num dia frio, cinza, desses que eu gosto de viver, desses em que meu espírito se pacifica, desses em que a energia das coisas é mais baixa e dá espaço para a minha transformar e aquecer. Eu vou te esperar. Você vai chegar e eu vou armar o meu abraço, e vai faltar braço, porque eu não vou te alcançar. Dia desses eu vou te esperar para não te ver chegar. Aí eu vou tentar te ver, te tocar, eu vou tentar lembrar do seu riso, vou escutar a sua voz, vou enlouquecer ao falar sozinho, ao tentar responder o teu carinho. Eu vou querer te dizer outras coisas, eu vou tentar me dizer muitas outras, mas eu vou ficar calado porque fantasmas não falam. Um dia desses, vai ter que ser bem frio, eu vou te esperar lá fora até você chegar porque eu preciso me exorcizar desses meus fantasmas e dessas minhas saudades.

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Surprise!

Love will tear us apart.

And it did.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

A constante

Não é novidade que eu gosto de videogames. Mas entre todas as minhas preferências, há apenas uma constante: Silent Hunter

Silent Hunter é uma série de jogos de simulação de combate naval em que o jogador assume o comando de submarinos da Segunda Guerra Mundial. Dependendo da versão, ou você comanda os u-boats nazistas, responsáveis por terem feito Churchill, um dia, achar que ia perder a guerra, ou os adoráveis barcos da marinha norte-americana.

De tempos em tempos, me bate uma nostalgia esmagadora que me obriga a reinstalar meus dois preferidos da série no computador: Silent Hunter 3, lançado originalmente em 2005, e Silent Hunter 4, de 2007.

A rigor, qualquer SH é a antítese do que jogos buscam ser e, mais decisivamente, se tornaram nos últimos 10 anos: fáceis, acessíveis, divertidos, com histórias cinematográficas. Silent Hunter é diferente de tudo isso porque é absurdamente técnico - você precisa aplicar trigonometria para acertar torpedos, calcular velocidade relativa, distância, ângulo de impacto, saber usar mapas navais, e ter uma boa noção de como torpedos, cargas de profundidade, hidrofones e sonares funcionam - cada um desses elementos, e acredite, muitos outros mais, precisam ser conhecidos por quem quiser progredir nesses jogos. Sem conhecimentos nesses e outros tópicos, a frustração ocorrerá em 15 minutos e você não vai mais querer saber de Silent Hunter.

Ponto, parágrafo. Eu, como 95% das pessoas que um dia tentaram jogar qualquer Silent Hunter, não tinha a menor ideia sobre qualquer um desses detalhes. Lembro, com saudade, da minha primeira patrulha em que fui capaz de afundar um navio. Lembro, com ainda mais carinho, da primeira vez que, mais rodado nas mecânicas do Silent Hunter 3, o primeiro que joguei, fui capaz de afundar um encouraçado britânico de umas 35 mil toneladas e arruinei toda a batalha épica, a perseguição de horas, a fuga das escoltas, o gerenciamento da escassez de combustível, eletricidade e oxigênio no interior do u-boat com uma cadeia impressionante de erros de manobras, cálculos mal feitos e pura inocência na hora de manobrar o submarino no porto. Afundei em casa e perdi a tonelagem daquele HMS Renown que nunca mais encontrei pelos oceanos virtuais.

Aliás, ninguém jogou Silent Hunter até ter cometido asneira semelhante, tão típica do marujo de teclado que acha que desligar os motores significa que a embarcação vai parar imediatamente.

Mas, como gamer nenhum do mundo deve ser considerado uma autoridade em nenhuma das disciplinas técnicas que orbitam a ideia de comandar um submarino de 70 anos atrás e com ele trazer o caos e a destruição em oceanos do mundo, é de se imaginar onde diabos estava a Ubisoft com a cabeça ao lançar esses jogos?

É uma pergunta difícil de ser respondida, mas o fato de que a série parou no SH5 de 2010, título recebido com uma avalanche de críticas dos fãs mais antigos pela sua simplicidade e falta de ambição, e que o que seria Silent Hunter 6 acabou sendo um jogo de navegador no modelo Free to Play são fatos que nos fazem presumir que, no fim das contas, para gigantes como a Ubisoft, não faz o menor sentido investir em desenvolvimento de jogos tão restritivos, tão técnicos, tão anacrônicos como os Silent Hunter das antigas.

Voltando da divagação em relação aos descaminhos que afundaram (hum) a série, vem ao caso dizer, porque, títulos antigos dessa série são constantes na minha vida de jogador.

Deve ter algo a ver com a sensação de imersão, um termo que anda meio gasto depois que bobagens desenvolvidas de forma fordista como Call of Duty começaram a usar o tempo. Imersão, para quem se debate em analisar jogos e olhar para eles de um ponto de vista crítico, é o conceito que determina a capacidade de um game de fazer você viajar para um ponto diferente no espaço/tempo. A capacidade do jogo fazer você se sentir presente em uma outra realidade.

E qualquer Silent Hunter, mesmo os mais fraquinhos da série, é imbatível nisso. Patrulhas podem durar horas sem que o jogador encontre absolutamente nada no horizonte. Quando acha, dependendo da altura da guerra, é bem difícil afundar mercantes e os contratorpedeiros (destroyers para os neófitos), navios imbuídos da responsabilidade de escolta de comboios e da caça dos submarinos, torna-se um processo extenuante, de muita concentração, já que os barcos de superfície têm facilidade em encontrar os submarinos que, naquela época, se moviam lentamente a profundidades nem tão respeitáveis assim.

Todo o lado técnico, a necessidade de raciocínio, pensamento estratégico, enfim, cobram concentração constante e exigem que, para jogar e atingir o fim último de qualquer jogo eletrônico - superar o computador - você precise empregar os miolos, se concentrar, colocar o cérebro para funcionar. E há, também,uma relação com a curva de dificuldade - elemento constante em qualquer jogo de qualidade e que presume que, quanto mais você joga, mais hábil se torna para superar desafios de maior dificuldade - bem diferente, já que mesmo autoridades no assunto vão acabar desafiados por um comboio com muito mais escoltas, por uma tempestade que prejudica a visualização do alvo e, consequentemente, os cálculos necessários para atingi-lo. Ou até mesmo por torpedos com falhas, que simplesmente não explodem.

Sim, eram os anos 1940 e esse tipo de armamento dependente de rudimentos de eletrônica tinha uma taxa absurda de falhas.

Essa ideia de imersão é o ingrediente por trás das memórias que você constroi jogando o game que mais curte. Eu tenho uma porção de lembranças de várias patrulhas, lances épicos, e fracassos retumbantes, nas muitas horas que eu perdi com os Silent Hunter. Lembro de uma noite, ainda em tempos de faculdade, em que fiquei manobrando um submarino por 5 horas e meia na tentativa de fugir de dois contratorpedeiros. Não consegui e, no fim das contas, sem bateria para mover o barco e sem ar para a tripulação, fui à tona para me dar o prazer de ver os navios inimigos cobrindo o u-boat de alguns canhoaços. Em cinco minutos, submarino destruído e toda a tripulação morta. Derrotado e com save de seis horas antes, fui dormir. E perdi o horário da aula.

Tudo isso para dizer que me formigam os dedos. Que estou com saudades, que vou reinstalar um Silent Hunter 4 para tentar chegar ao fim da guerra, feito nunca atingido nessa edição. Que não há nada melhor para distrair a tristeza da vida que submergir em submarinos virtuais atrás de afundar a imponente, e ridícula, marinha de guerra japonesa da segunda guerra. Me aguarde, Yamato.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Quando o carnaval chegar

Eu queria passar o carnaval com quem eu gosto. Mas, como de costume, vamos ficando por aqui, a, sozinho, regar as flores mortas do passado.    

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Rádio blogue: Mark Lanegan - High Life

Um dos efeitos desses nem tão bem vividos 31 anos de suor, sangue, lágrimas, de sonho, de sangue e de América do Sul são as toneladas de músicas de fossa acumuladas e diligentemente organizadas em listas de reprodução, que contemplam e embalam as noites frias e solitárias nesse buraco da existência.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Não estou me guardando para o carnaval

Quisera eu poder dizer que estou me guardando para quando o carnaval chegar.

No fundo, eu passei a vida me guardando para qualquer coisa. Que nunca veio, ou se veio, eu não percebi. Ou, ainda, se veio, fiz questão de fechar os olhos, mudar de direção e continuar, solene e inexorável, no meu caminho de remorsos, mágoas, tristezas, saudades e solidões diversas.

Ah, o carnaval.

sábado, 23 de janeiro de 2016

(Um pouco de) Tudo sobre meu pai

"Acho que eu fui conhecer de verdade meu pai quando eu tinha 16 anos. Eu preguntei pra ele como ele era aos 16. Não vou esquecer nunca o jeito que ele largou o que estava fazendo e me encarou com uma cara que parecia de susto. Meu pai me disse que sempre queria que eu e minha irmã fizéssemos essa pergunta.

Até ali, a gente tinha uma relação de pai e filho acho que comum. Ele sempre foi um pai dedicado, não posso reclamar de nada. Mas acho que a gente nunca foi muito próximo, pelo menos até esse dia.

A coisa mais legal sobre meu pai era a minha mãe. Os pais dos meus amigos viviam em pé de guerra, muitos eram divorciados, e eu ouvi cada história. Mas os meus pais pareciam indiferentes a esse tipo de problemas. Eram unidos, conversavam, trocavam carinho e eu respeito muito os dois por isso. Pra muita gente é bobagem, mas uma família unida é algo importante.

Quando eu perguntei pro meu pai como ele era na adolescência ele ficou feliz. Ele me disse que sempre quis saber esse tipo de coisa sobre o meu avô, que eu não conheci. Meu pai explicou que achava que ia ter bastante tempo para saber e perguntar essas coisas, mas aí meu avô morreu. Ou, como ele disse 'só que aí a vida aconteceu', era uma frase que ele usava muito pra situações de decepção.

Meu pai me contou, e jurou que era o melhor que ele podia fazer com a memória que tinha, para falar como ele era quanto tinha 16 anos, e além. Foi uma conversa muito legal, e eu fiquei feliz de ter perguntado, porque eu aprendi que meu pai tinha medo, era tímido, não ia bem em esportes, acordava muito cedo pra ir pro colégio. Como a cidade tinha um inverno rigoroso, ele me contou que nos dias bem frios era comum chegar no ponto do ônibus escolar, depois da caminhada de 20 minutos, com o cabelo congelado de orvalho. Ele contou que a família dele não passava necessidade, mas que as condições eram muito severas. Fiquei triste em saber que ele passou os três anos do ensino médio com uma calça de uniforme da escola porque não tinha grana pra outra. Não consigo me imaginar numa situação assim hoje em que a gente tem um outro tipo de vida.

A gente conversou por horas. Depois de um tempo, meu pai disse que já não tinha certeza se estava sendo fiel à cronologia, mas ele prometeu que era tudo verdade, ou pelo menos, tudo do jeito que ele lembrava que tinha acontecido.

Como a gente ocupou a sala por horas naquele sábado, minha irmã e minha mãe acabaram ouvindo uma boa parte da conversa. Eu percebi que elas foram se interessando cada vez mais pelo papo.

Aí minha irmã, que acho que não tinha entendido direito a ideia, atravessou tudo e perguntou como ele tinha conhecido minha mãe. Meu pai disse, 'ah, isso foi bem depois de onde nós estamos, mas eu conto'.

Meus pais se conheceram de um jeito bonito. Ele até mostrou pra gente a primeira vez que ele falou com a minha mãe via internet, as mensagens que eles trocaram. Tinha até a data: 15 de setembro de 2012! Meu pai disse que ele ficou muito interessado na minha mãe desde o começo, mas que ele tinha medos e uma série de problemas para resolver. Eles se enrolaram por um tempo, meu pai disse que foi culpa dele, mas que não foi por mal.

Aí ele explicou que a minha mãe se apaixonou fortemente por ele desde o começo e, ao contrário dele, se entregou completamente ao que sentia. Que isso acabou dando espaço para que ela sofresse bastante até ele se endireitar.

Eu nunca vou esquecer desse dia. Primeiro, porque eu fiz meu pai feliz. A gente, enquanto filhos, nunca pensa nisso, que a gente pode, e deve, fazer nossos pais felizes. Segundo, porque eu acho que ele realmente falou a verdade, porque ele contou umas histórias em que ele não tinha razão, ou atuou de forma errada. E me explicou porque tinha agido daquela maneira, orientando para que eu tivesse mais cuidado.

Acho que ele continuaria falando por mais algumas horas se não tivesse dado o horário da largada da corrida que ele estava ansioso pra ver há uns dias. Eu não entendo a paixão dele por esse esporte bobo, eu gosto mesmo é de futebol, como a minha mãe. Enquanto ele e minha irmã assistem os carros darem uma infinidade de voltas por horas numa pista qualquer, a gente vai ao estádio ver gente de verdade”.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Rádio blogue: Elvis Presley - Fool

Fool,you didn't have to hurt her, fool, you didn't have to lose her...

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Speer, "o bom nazista", e uma queda de braço com uma jornalista inexorável

Houve um tempo em que eu dedicava esse blogue a absorver minhas impressões sobre livros que lia. Parei com isso porque, invariavelmente, passado algum tempo, ao revisitar as minhas opiniões e textos, me deparava com idiotices tão acachapantes que acabava envergonhado. Outra razão é a entropia da vida, que desregula até mesmo gostos e prazeres intensos: pra falar a verdade, eu leio muito menos do que antes e tenho tido muito menos vontade de escrever.

Mas como persistir no erro é um talento tão decisivo nesse que vos redige, vamos voltar a falar de livros.

Eu devo ter passado uns 10 anos atrás de, ou às voltas, com a ideia de ler "Albert Speer - A Sua Luta com a Verdade". Trata-se, o livro, de uma caudalosa biografia sobre o cidadão que lhe dá nome, um talentoso, inseguro, ambicioso, charmoso arquiteto, sujeito inteligente e gestor de enorme capacidade, que teve o desazo de virar "o melhor amigo de Hitler", segundo as palavras do próprio, e ser, de alguma forma, testemunha e cúmplice do Holocausto e demais estripulias bélicas cometidas pelo führer e seus asseclas naqueles loucos anos entre 1930 e 1940.

O fascinante na história de Speer é que trata-se do nazista improvável. Hoje vistos com algum exagero como criaturas irascíveis, valentonas e normalmente burras, os nazistas parecem ser o último refúgio de alguém com as origens aristocráticas do arquiteto que viria a embarcar na megalomania do Reich que queria, entre outras coisas, erguer um colossal estádio de 400 mil lugares em Nuremberg para comícios partidários, derrubar toda Berlim e reconstruí-la em proporções que redefiniriam a qualidade do adjetivo faraônico.

Improvável também porque trata-se do homem, enfim, que atraído pelo carisma de Hitler desenvolveria com esse uma relação que o próprio admitiu ter contornos eróticos, não no sentido homossexual da ideia, mas no sentido de atração que vai além da amizade. É um pouco complicado assimilar a ideia sem todo o contexto da relação dos dois, mas fica difícil tirar do termo as conotações que inevitavelmente adquire. E, no fim das contas, vá você traduzir termos do alemão para ver as complicações...

Depois de arquiteto do Reich, em 1942, Speer tornar-se-ia ministro dos armamentos. O cargo lhe dava enorme controle sobre o esforço de guerra, influência decisiva sobre os planos quadrienais de Göering (por algum motivo, a Alemanha nazista delegava a tarefa de planejar à economia a um corrupto marechal da força-aérea) e sobre a produção de material bélico. Suas capacidades de gestor da empreitada, dizem muitos analistas, deu à Alemanha capacidade de sustentar a guerra por mais dois anos.

O que faz de Speer um sujeito único no contexto da Segunda Guerra é o fato de que ele assumiu uma responsabilidade genérica pelos crimes durante o julgamento de Nuremberg (sendo, aliás, o único réu a tomar essa posição, de forma falsa ou não), efetivamente pediu desculpas pelo e ao povo alemão e sabotou ordens de Hitler que visavam tornar a Alemanha num deserto improdutivo e medieval ao fim da guerra, todos comportamentos que lhe renderiam o título, em tom de deboche, de ser o "bom nazista". Para além de tudo isso, Albert Speer passou a vida (morreria em circunstâncias não muito lisonjeiras em 1981) dizendo que, não, nunca soube do holocausto e da solução final.

Sei.

Embora uma série de indícios esmagadores sempre tenham surgido contra as alegações de Speer sobre não saber dos crimes promovidos contra minorias e, em especial, os judeus, há também indícios de que ele poderia mesmo não ter sabido de nada. Esse, ao menos, é o panorama do livro.

Magistralmente escrito por Gitta Serený, facilmente uma das maiores jornalistas investigativas da história, a biografia devassa a vida de Speer em todas as suas fases para determinar para que lado pende a balança desse confronto, assumido de forma decisiva pelo próprio Speer em sua vida: provar que não sabia a quem sempre desconfiou.

O confronto é sempre estabelecido por Serený, que assume a forma de uma jornalista imparcial e contundente na busca da verdade.

O livro fala do Speer jovem, oprimido por uma família fria e distante. Sobre o começo do relacionamento com Hitler, que se considerava um artista diletante e afastado do ofício em virtude da política, e a forte impressão causada neste pelos seus trabalhos no führer, aborda os anos todos da guerra, o julgamento, os 20 anos de cárcere em Spandau, a relação com a família nesse período e dá um panorama da vida em liberdade, até a morte em 1981.

O mais interessante da linha adotada por Serený para o livro é sua admissão sem remorsos e comprometimento de que acabou se afeiçoando e tornando-se amiga de Speer.

Isso lança às bases para avaliar o livro em um novo patamar, em que confrontos nos quais Serený cerca o biografado com uma série de perguntas, fatos, documentos, testemunhos e indícios históricos sobre a sua postura na guerra e o conhecimento, ou não, dos crimes acabam definindo a ideia de "luta" contra a verdade expressa no título.

São mais de 1000 páginas em que esses duelos se repetem à exaustão. Na maioria dos casos, Speer se sai com uma tática que sempre marcou sua posição sempre que perguntado: sempre a mesma resposta de que "poderia ter sabido, mas não soube e em sabendo deveria fazer algo", além de evasivas gerais.

Em apenas um caso, Speer claramente se perde: quando questionado pelas evidências que sustentam que ele estava presente no discurso de Posen, quando Himmler, numa estratégia para fazer de todas as lideranças partidárias cúmplices do holocausto, abriu o jogo e explicou a solução final a todos os presentes. Speer não soube fugir dessa acusação e só o fez com documentos juramentados por antigos amigos, sustentando que ele esteve na convenção, mas não no discurso.

E mesmo que não tivesse estado, salienta Serený, ninguém dos seus contatos comentaria nada com ele nos dias seguintes? Há relatos que mesmo nazistas de naipe e enormes quantidades de espírito de porco tiveram sérios problemas para ouvir e admitir o conteúdo do discurso de Himmler.

Outros duelos se seguem e, no meio de tudo isso, o livro encaminha-se para uma conclusão fácil, que na verdade dispensa a leitura das 1000 páginas: Speer deve ter sabido de tudo e sua postura de afirmar o contrário pode ser tida sob duas perspectivas: estratégia de sobrevivência e arrependimento legítimo.

Lendo sobre as transformações de Speer fica realmente difícil não acreditar que seu arrependimento não fora sincero. Durante anos, usou parcelas consideráveis das gordas remunerações que obteve com seus livros escritos pós Spandau para financiar uma série de ONGs e grupos de assistência a sobreviventes de campos de concentração. Sua relação com a moralidade, leituras religiosas e posicionamentos suportam a ideia de que, no fim das contas, mesmo criminoso de guerra e cúmplice que, se aplicada a mesma régua que mediu seus 15 colegas de nazismo condenados à morte em Nuremberg, devia ter sofrido o mesmo destino, estava realmente compungido por sua contribuição nesse desastre.

Como já adiantei, a conclusão do livro é óbvia no que tange o conhecimento de Speer sobre as monstruosidades do regime: ele deve ter sabido de tudo. Mas a conclusão sobre até onde ele se arrependeu e mudou em virtude do que viu, da admissão do caráter eminentemente maligno de Hitler e do fim da guerra é algo que fica aberto a debates e ao melhor julgamento do leitor.

Sobretudo por outros traços do seu perfil, tão claramente esboçados no livro: frieza e falta total de empatia. Essa última, aliás, sempre mencionada como ausente na psique de psicopatas, é a marca definitiva que, nas minhas contas, define Speer como um mentiroso de muitos recursos: a quem falta empatia, falta a capacidade de se colocar nas circunstâncias do outro e encontrar o sofrimento sentido por alguém desconhecido. Defeito, aliás, recorrente em qualquer liderança nazista do período.

* Para quem não vai ler sobre Speer nessa biografia espetacular, vale lembrar que muito tempo depois da publicação do livro e da morte do arquiteto, evidências muito comprometedoras surgirão demonstrando seu total conhecimento sobre o holocausto.

* Para quem tem prevenções gerais contra a leitura, que vão além de zelo contra ler qualquer coisa de 1000 páginas, há um documentário essencial sobre concepções artísticas e estéticas do nazismo, tão intimamente ligadas com a figura de Speer: "A Arquitetura da Destruição". Mesmo não versados em história da Segunda Guerra fazem a si mesmos um favor ao verem o doc, que é facilmente encontrável para download e até mesmo no YouTube.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Rádio blogue: Elvis Presley - It's Over

Somehow I have to let you go...

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

A última

Amar é um troço que sai do controle.

Ela era doce, meiga, fácil de agradar. Ela foi a primeira de todas para quem eu dei adeus. O engraçado é que eu não sei dizer por quê exatamente, mas tinha algo a ver com um ultimato. Eu não sou bom em ultimatos.

O mais triste é que dentre todas elas, essa foi aquela com quem eu estive mesmo disposto a ir até o fim. E talvez esse tenha sido o problema, o maior dos medos, enfim, encontrou como assumir o controle.

Lembro, com remorso, e com carinho, as vezes em que sonhei outro tipo de despedida dela. Um dos dois, velhos e nas últimas, se preparando para a despedida depois de uma longa vida. Me entristece ter engasgado e, na última vez que nos vimos, não ter confessado que a amo.

Vou sentir muita falta dela, vou arder de saudades de fazer cócegas, das mãos delicadas.

De tudo que seria, mas não foi.

Não houve verso

Eu nunca te escrevi um poema. Entre minhas paixões, amores e fracassos, você foi a única delas que não ganhou versos, ainda que em boa parte das ocasiões eu tenha os escrito para as outras e os deixado ocultos. Assim é a minha índole.

Poderia elencar uma série de motivos para a ausência de poemas. Um ponto importante é a estiagem criativa, já que há muito tempo nada me motiva a escrever por prazer, poesia ou prosa, e esse problema vem de tempos. Acho que me esgotei no ofício e percebi que, no fim das contas, a despeito de muito desejo, não fui talhado para escritor.

Outra razão, talvez, é a perda da inocência. O desencanto com o lirismo e o mundo platônico exposto nos versos. Sob essa perspectiva, poesia parece tão inconsequente, se não até inútil, que a mente parece gritar contra qualquer ameaça de verso e rima despontando entre sinapses.

Mas, no fundo, e independente do enorme mérito das razões anteriores, eu vou confessar que nunca foi o caso de te fazer versos porque, no fim das contas, eu trocaria todos os poemas do mundo por uma vida ao seu lado.

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Vida? Não me fale sobre vida

Minha vida é como um navio com um furo no casco, a fazer água. Meu trabalho é manter o navio no curso correto.

domingo, 16 de agosto de 2015

AssimFaliu Zaratustra

Não foi sem alguma dose de comoção que descobri que o meu primeiro blogue, iniciado em 2004, está fora do ar. O motivo é que a Globo.com, detentora do serviço blogger no Brasil, o tirou do ar, em conjunto com todos os demais que usavam essa plataforma, no último dia 30 de junho. A Globo.com poderia ter feito um esforço um pouco maior para divulgar o encerramento do Blogger brasileiro, talvez eu tivesse feito alguma coisa.

Embora todos nós, caros oito leitores, saibamos que eu não faria rigorosamente nada.

Assim Faliu, no fim das contas, a primeira versão desse blogue.

Eu devia ter ficado mais irritado, mas não fiquei.

Um pouco aborrecido, sim, porque embora eu morresse de vergonha de boa parte dos textos que mofavam naquele acervo, eles eram parte de mim. O bocó de 20 anos, que sonhava em escrever, achava que trocar engenharia por jornalismo não era má ideia, tinha impressão de entender alguma coisa de Nietszche, e que, no fundo, tinha todos os sonhos do mundo dentro do peito.

É bem provável que seja possível resgatar aqueles mal ajambrados textos de algum desses sites que armazenam vestígios das priscas eras da internet. Desde que eu migrei para o Blogspot, parei de atualizar o Blogger, o que significa que, caso o meu blogue esteja em cache em algum lugar, é bem possível que o conteúdo todo ainda exista em algum servidor qualquer.

Conteúdo é um termo muito digno, muito honrado, muito bonito para qualificar aquelas bobagens.

Era 2006. Terceiro ano de faculdade. E eu era um idiota. E hoje continuo sendo, porque é bem provável que eu nunca me dê ao trabalho de procurar pelo meu velho blogue do blogger até o ponto em que mesmo esses sites de arqueologia digital não terão mais razão alguma para guardá-lo. Aí eu descobrirei isso incidentalmente e, embora me irrite um pouco e provavelmente venha aqui reclamar, ficará por isso mesmo.

"... there is nothing here worth saving", diz a canção que estou ouvindo.

No fundo, há certas coisas que ficam melhores esquecidas, mofando no passado. Tomem nota desse judicioso veredito, porque quem vos fala é um sujeito conhecido por viver, sozinho, feito um bocó, de, no escuro, regar as flores mortas do passado.

E de encher as últimas frases dos seus textos de vírgulas, num claro expediente desesperado de, no fim das contas, tentar, ainda que inutilmente, dar algum peso, algum estilo e, vá lá, profundidade às nulidades idiotas que diz.

sábado, 1 de agosto de 2015

Rádio blogue: Michael Penn - Walter Reed

Mais uma ótima trilha sonora para quem fica aqui, como eu, sobranceiro, cismando, cheio de desconfianças a regar as flores mortas do passado.

Prestando contas

Meus queridos filhos. É preciso, antes de tudo, se desculpar. Esse mal ajambrado, envelhecido e carcomido blogue teve inspiração na necessidade de deixar algo para que vocês me conheçam melhor.

Mas eu tenho falhado, como tudo na vida, aliás, em deixar aqui um registro das minhas aflições. Das novidades, das derrotas, das alegrias, do que eu fui, estou sendo e no que vou me tornando, inadvertidamente. Eu peço desculpa pela fraqueza, mas é preciso dizer, meus queridos, que entre a larga biblioteca dos grandes defeitos do pai de vocês um dos mais bem descritos, em prosa e verso, e até em registro multimídia, há de ser essa atávica capacidade de se auto-sabotar e de desistir de tudo.

Hoje eu tenho 30 anos de vida e muito pouco para contar.

E dos muitos medos para confessar há o maior de todos, que no fim das contas, meus queridos filhos, vocês nunca cheguem a ser. Nunca existam, nunca passem de mais um projeto idealizado e nunca posto em prática.

domingo, 5 de abril de 2015

Paternidade

Alberto Ascari foi o segundo campeão mundial de Fórmula 1 (venceu em 1952 e 1953). O italiano era propositalmente malvado com o filho e a história é mais uma reminiscência do tempo em que corridas eram perigosas e o sexo era seguro.

Ele dizia que não queria que o garoto sentisse sua falta quando, inevitavelmente, viesse a morrer nas pistas.

Ascari morreu num teste privado da Ferrari, em Monza, em 1955.

sábado, 4 de abril de 2015

"Go Like Hell" - o primeiro ebook

Pela primeira vez, comprei um livro digital. Nunca imaginei que seria seduzido pela perspectiva de ler qualquer coisa na tela de um aparelho eletrônico. Mas as circunstâncias me forçaram a comprar a versão ebook de "Go Like Hell".

O livro, uma grande reportagem, fala sobre o histórico duelo entre Ford e Ferrari nas 24 Horas de Le Mans dos anos 1960. O tema parece pueril, mas não é. O antagonismo de Henry Ford II e de Enzo Ferrari na globalização que nascia, os saltos tecnológicos promovidos pelo incrível Ford GT40, a personalidade dos pilotos daquele tempo e todo o charme do automobilismo dos anos 1960 são o pano de fundo da obra de AJ Baime, editor da Playboy norte-americana.

É um delicioso resgate do tempo em que, nas palavras de Hans Stuck, "o sexo era seguro e automobilismo era perigoso".

Já a algum tempo eu namorava o livro e já tinha ensaiado a ideia de importá-lo, uma vez que ainda não há versão brasileira para a obra. Contudo, o preço proibitivo da aventura me manteve distante das páginas que exalam gasolina. Talvez eu devesse ser mais paciente, já que há notícias de que o texto será adaptado para o cinema e isso, inevitavelmente, incentivará a produção de uma versão nacional do texto.



A ideia de comprar um livro digital sempre me pareceu boba porque, ao menos nas minhas contas, livros precisam ser objetos de manuseio. Há, evidentemente, um tipo de fetiche em contemplar uma estante sua, recheada de livros que você escolheu diligentemente ao longo da vida. A estante que, para muitos, é apenas ornamento, para mim, é um tipo de retrato, de fac-simile da personalidade de cada um. Prezo muito minha estante e meus livros. Mesmo tipo de culto ao objeto eu mantenho com meus jogos de video-game que, também, em virtude de contenções de gastos e outras pornografias financeiras, cada vez mais, vem se tornando digitais.

Talvez o passo final para entrar nessa modernidade toda de livro digital venha só quando eu decidir adquirir um aparelho específico para ler livros. Acho bem improvável, já que a tela de 5 polegadas do celular se mostra suficientemente boa para ler. Contudo, um dia, eu tive certeza que nunca compraria um e-book...

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Filosofia ostentação

Tenho redescoberto o prazer de ler livros de filosofia. Daqueles mananciais densos de informação, arcabouço intelectual, plenos. Rios caudalosos de caudalosa prosa penserosa que, em outro tempo, eu lia e fingia entender. Depois, evolui para o não ler e dizer ter lido para impressionar gente e hoje, finalmente, eis-me em condições de esgrimir conceitos e ferramental filosófico com quem quer que seja.

No momento, vou navegando sobranceiro pelas águas de "Tratado de Ateologia", de Michel Onfray. Romancista, se deu ao trabalho de traçar as origens e classificar o que é, afinal, ser ateu. O tino de quem escreve ficção parece tê-lo ajudado de maneira sensível a escrever um livro de filosofia absolutamente tragável.

Trabalho de boa qualidade porque nos equipa, a nós, ateus, de instrumentos lógicos e de uma compreensão mais fundamentada sobre o processo histórico que nos traz do Testamento de Jean Meslier, o famoso cura de aldeia que tinha a inestimável qualidade de ser ateu radical, ao nosso estado das coisas, assombrados que vamos pelos demônios inexistentes dos monoteísmos dominantes que armam e elegem aqui e acolá, legislam sobre as nossas cabeças e nos explodem pelas nossas ruas.

É bom se deparar com livros de filosofia que, de fato, iluminam.

sábado, 28 de março de 2015

Livros, futilidade da teimosia e Saramago

Na vida, montei uma valente brigada de grandes escritores comandada pelo general José Saramago. A alegoria, bem o sei, traduz mal e porcamente a ideia que é a seguinte: na longa e bem povoada lista de escritores que aprendi a gostar, Saramago reina altaneiro.

De todos os seus livros, negligenciei apenas o de poesias, que o próprio tinha em tão baixa conta. Li todos os seus romances, à exceção de um: "Memorial do Convento".

Foi o acaso que o deixou por último. Mas não pode ser simples acaso o fato de que, nos últimos cinco anos, comecei a lê-lo em várias ocasiões, com diferentes taxas de sucesso e engajamento. Mas em nenhuma delas logrei encerrar a história que conta algo sobre a construção de um convento na cidade de Mafra (a portuguesa, não a catarinense) e alegorias sobre a figura de Bartolomeu de Gusmão, padre brasileiro que voava com balões e inaugurou uma tradição que, uns anos atrás, levou um confrade seu a sumir no oceano, tragado por arrogância, falta de discernimento e uma série de decisões equivocadas.

O fato é que o livro me agrada. Tem o estilo rico e único de Saramago em cada uma de suas páginas (ao menos naquelas que pude ler). Há até uma passagem, em que ele conta o roubo de uma igreja, que me marcou pela alegoria que descreve o balançar de uma lamparina e o som que ela faz quando, em polvorosa, os padres chegam ao altar e o veem completamente desfigurado pela ação do larápio: era como se a lamparina dissesse "em linguagem de arame, foi por pouco, foi por pouco". Saramago é genial.

A realidade de nunca ter conseguido ler "Memorial do Convento" até o fim me perseguia até a epifania que tive hoje. Pode ser que, no fundo, eu mesmo me detenha na leitura para não ter o desgosto de terminar a obra de Saramago. Pode ser um recurso engenhoso do meu subconsciente para impedir essa segunda morte do bom português.

Há forças contra as quais a gente não deve opor muita resistência. O desgaste de ler o primeiro terço do livro, hoje, é tão grande que, acho, me dou por vencido: desisto de ler o "Memorial do Convento" e abro mão de toda e qualquer iniciativa futura de abri-lo novamente com o propósito de navegar até o fim da história.

Assim, ainda que em mim, ainda que confinado aos limites da minha estante, José Saramago ainda vive. José Saramago ainda tem o que dizer. José Saramago ainda há.