Há pessoas na nossa vida, você provavelmente conhece alguém, que parecem ter tudo, sempre, na mão: elas são centradas, otimistas, tudo dá certo, sempre parecem se sair muito bem de qualquer problema. As coisas que mais te assombram e confundem, como amor, relacionamento, futuro, dinheiro e família, elas resolveram há décadas com naturalidade, tirando de letra. São rolos compressores de afirmação e sucesso e, em quem se tropeça buscando esse nível de acerto, são motivos de inveja.
Claro, nem tudo é simples. A maioria dessas pessoas sofreu, chorou, quebrou a cara, se decepcionou, errou, voltou atrás, pediu desculpas, foi injustiçada, praticou injustiças, quebrou corações e teve o seu partido diversas vezes. Algumas, apesar das aparências, são infelizes e tão confusas e problemáticas quanto o seu próximo. Mas a gente gosta de olhar sempre para os resultados e abstrair as dificuldades que não enxergamos de longe, daí a impressão de que elas são invencíveis.
Mas, querendo ou não, justamente por esses resultados alvissareiros, essas são as pessoas que devem ter algum truque secreto na manga, certo? Alguma milenar prática oriental que as faz sempre saber o que fazer, não importa o tamanho do problema. Elas assumem, aos seus olhos, esses contornos de oráculo mágico idealizado de sucesso a quem você sempre admira, se perguntando se um dia teria como beber dessa sabedoria e tirar dali as informações necessárias para ser você também um caso de sucesso de provocar inveja em todos.
Aí você se encontra numa encruzilhada da vida, não sabe direito que caminho tomar, e resolve consultar essas pessoas-oráculos. Expor um pouco das suas dificuldades para vislumbrar o que essa gente mágica faria no seu lugar, o que escolheriam, como enfrentariam uma situação ruim, o que não fariam e etc.
E aí você fala com essas pessoas e, na verdade, percebe que nem sempre elas têm todas as respostas, que tudo o que você projeta nelas é só mais uma forma louca que a sua mente tem de reforçar os seus sonhos do que é felicidade para você. Mas, ainda que as conversas não sejam tão positivas como você presumia antes, se depara com uma porção de percepções e descobertas que, se por um lado te engrandecem, por outro, te diminuem. É difícil, por vezes, se ajustar com essa coisa sem nome que somos, que fica exposta quando nos examinamos, mostrando num mesmo enquadramento nossos maiores defeitos e nossas maiores qualidades:
O fato de você ser romântico e não ter medo dos seus sentimentos. A sua timidez. A insegurança que nunca existiu e apenas escondia problemas mais sérios. O medo de errar. O seu zelo sobre-humano a respeito dos seus valores. A vontade de proteger a todos à sua volta, bizarramente até de você mesmo. A sua ânsia para ocultar (puta que pariu! Agora você sabe!) a depressão masculina que te estragou anos de vida sem diagnóstico, a bonita história de combate inadvertido à depressão por meio do amor, a fraqueza da irascibilidade, o fato de que você não tem nada de perfeccionista, mas sim de um tirano crítico de si mesmo desde os 7 anos de idade; a confusão entre sonhos e metas, a falta de decisão. O fato de considerar o amor como precioso demais. Até que ponto seus erros são imaturidade, até que ponto eram vergonha de estar deprimido. A tendência a não enxergar falhas onde elas existem. O fato de que você caiu de pé mesmo quando vítima de situações impossíveis na adolescência e acabou se esquecendo de como é forte, corajoso, raçudo, um vitorioso adormecido, resiliente. O medo de fracassar. A pressão a que você mesmo se coloca, àquela que transfere aos outros. A injustiça de que foi vítima. A dor das mágoas que provocou e as dores das que carrega calado. A bonita visão que você tem das pessoas que ama. A visão sombria que você tem de rejeição, essa postura apática, oriunda da depressão, que fez você criar uma visão platônica da vida que, sem que você percebesse, foi consumindo as coisas boas que você tinha sempre com você. O medo de se conformar. A dificuldade de entender a solidão. O seu senso de justiça, a generosidade. Ficar apavorado ao ouvir a palavra depressão. Ficar feliz ao entender. O individualismo que você nem sabia que tinha e que é um enorme problema, o egoísmo, a raiva como seu jeito de batalhar o mundo, não as pessoas. A crise dos princípios. A grande dificuldade em se abrir sobre coisas que você reconhece em você com as outras pessoas, a dificuldade de dissociar valores e ideais de pessoas. O fato de você ter vergonha de admitir seus erros. O grande descompasso entre seus desejos e atitudes. Você se pacifica com a auto-estima que sempre teve, mas que achava feio admitir; se olha no espelho diferente, valoriza a inteligência, a cultura, a boa vontade, o entusiasmo pelas novidades, a vontade de aprender, a facilidade enorme de aprender coisas novas, a versatilidade, a resiliência, a humildade. Precisa reconhecer que se ama, mesmo. A empatia. A vontade renovada de se entregar por amor sem medo; o risco de fazê-lo com quem não estará disposto a entendê-lo. A vontade de mudar, o susto, o medo de não ser capaz, de recair no lado sombrio da existência. A percepção clara de que a recaída estará sempre à espreita. A percepção de que o seu caso é banal, que você cresceu como milhões de outros caras, dividido entre expectativas da sociedade e modelos inatingíveis - e nada saudáveis - de comportamento e a realidade de uma vida que foge do controle e para qual poucos saem de casa preparados de verdade, tanto mais aqueles que se perdem em responsabilidades enormes em tenra idade. A doce descoberta de que você é racional e é capaz de se orientar nesse emaranhado de novas e velhas percepções sem se machucar mais. A paz de ter se entendio. A tristeza de ter demorado. O conformismo de ter custado tanto. A vontade de chutar o balde para recuperar alguma ilusão de controle sobre a própria vida afetiva. Enfim, todas essas e outras coisas que você sempre soube sobre si mesmo, mas nunca achou que fossem importantes, as que nunca soube, as que preferia não ter descoberto, as que te deixaram feliz e forte por ter achado e reencontrado. A ânsia de voltar no tempo com tudo isso nas mãos. Tudo num golpe de retórica, de lições, de atraso, de demora, de tempo perdido que deixam você meio sem ação por dias. “É de enlouquecer, mesmo, relaxa”, ouvi de uma psicóloga conhecida da família. É olhar para esse caleidoscópio de qualidades e defeitos, de traumas e vitórias, e sentir-se intimamente apresentado a si mesmo: ecce homo.
É um pouco desesperador se dar conta dessas coisas - e não só pelo atraso em percebê-las - mas pela sensação desagradável do quanto não temos controle sobre nossas vidas, de até que ponto estamos todos iludidos a respeito do que somos, do que queremos, do que fazemos e dos porquês. Catarses nos fazem amadurecer e são eventos positivos na vida, mas também lembram aquela doce máxima que afiança que ignorância é felicidade.
Aí você sai desse estado catatônico em que a vida, você achava, tinha te jogado há anos e anos e percebe que tudo foram problemas que você e outras pessoas criaram sem querer. Que os estragos estão feitos, que o tempo não volta e que seu único consolo é escrever à sangue todas essas lições para não esquecê-las, para ser uma pessoa melhor, para virar o homem do amanhã, para não se permitir mais errar desse jeito no futuro. E seguir em frente.
É sempre um processo de alguma coragem, é saudável, e ajuda muito a nos recolocar em equilíbrio e recalibrar nossas prioridades: de onde você menos espera, começam a brotar sorrisos, planos, ideias, vontades renovadas porque você se percebe empoderado, revigorado, com as mãos nas rédeas do próprio futuro e, de repente, mudar de área profissional passa a ser trivial, a vaga na universidade está a uma matrícula de distância, mudar de cidade não assusta e os sonhos começam a virar metas, objetivos, algo que você pode ver, ainda que de longe, como possível, como realizável. De repente, não se sente mais no limbo, isolado e desprezado: se vê como forte, amado, desejado, corajoso e renovado.
A vida é um troço curioso.
De triste só fica mesmo a sensação de tempo perdido com burrice, com covardias, esse atávico senso de desperdício de energia em coisas infrutíferas e em se dar conta de que as coisas que você aprendeu a aceitar e encarar como normais estão bem longe de o serem, que tristeza não é bonito em si, niilismo é legal nos livros, que não adianta ter o amor como extremamente precioso se você, ciente dos riscos, não o colocar para crescer, que seus mecanismos de defesa estão todos ultrapassados e que, na verdade, para crescer e ser o polímata que você esperava ser aos 17 anos é preciso, antes e acima de tudo, passar a encarar a vida com outros olhos. É ficar impaciente, querer correr os caminhos do mundo para realizar coisas, para mudar, para viver, ser feliz, conquistar, amar, vencer, ser; porque algo me diz que tudo vai dar certo, de uma forma ou de outra. É viver assumindo os riscos e sem mecanismos de defesa porque viver dói e se furtar a sentir essas dores é morrer um pouco a cada dia.
E que doa essa vida, porque eu aguento. Agora eu sei. Não importa o quanto doa, amanhã sempre nasce outro dia.
segunda-feira, 23 de janeiro de 2017
Eis o homem
às 10:35 0 comentários Marcadores: Memórias, O dia em que cresci
Aos meus filhos
Meus filhos;
Eu não sei quanta paciência vocês terão para ler esses textos - se forem um pouco como eu, imagino que a curiosidade será suficiente para que não apenas os leiam com interesse, mas os conservem com bastante paixão. Eu sempre me apeguei bastante a qualquer coisa antiga relacionada com a história da minha família e estimo que aprendam a ter o mesmo hábito. Desde origem dos sobrenomes a velhos álbuns e documentos, tudo relacionado aos estranho que vieram antes, e resultaram em quem eu sou, em quem vocês são, sempre me provocaram profunda fascinação.
Na verdade, há uma certa sensação de fuga da premissa depois de tantos anos com essa ideia de registro da minha vida para vocês mais ou menos norteando meus esforços nesse blog, já não sei até que ponto muitas das coisas escritas aqui não se confundem na memória. Há impressões falsas, textos que eu, hoje, jamais escreveria, opiniões que podem ter mudado. Enfim, coisas de que me arrependo, que não aconteceram exatamente como estão escritas e, que mesmo que tivessem, é tudo tão baço e obscurecido pelos anos que fica muito difícil de eu mesmo ser capaz de ler minhas histórias e encontrar exatamente o sentido delas.
Não se trata, portanto, de um diário remotamente preciso desse pai que vos escreve. E antes que pensem que eu fui ficando maluco conforme o tempo passou, eu me defendo dizendo que essa é a vida: é comum que quando olhamos para trás nos deparemos com um estranho, que sorri ou chora, e que de forma absolutamente surpreendente, reconhecemos como nossos eus de outrora.
Embora a precisão desse blog possa ser largamente relativizada, a manutenção do espaço e dos registros não são esforços menos saudáveis porque, e tenho certeza que já o escrevi em algumas postagens antigas, tive essa ideia ao lembrar que meu pai faleceu sem que eu viesse a realmente conhecê-lo. Não sei, por exemplo, que jovem ele foi, com o que sonhava, o que fazia aos 25 anos de idade, como encarou ter 30, começar a ficar careca tão cedo, sua postura sobre a ditadura, as namoradas, por que entrou para a política, por que largou quando parecia que poderia ter sucesso, por que fora estudar economia e história ao mesmo tempo e não, sei lá, engenharia.
Todas perguntas que, talvez, vocês tenham tido a vontade de me fazer e, se mergulharem nesses posts todos, talvez encontrem algo que responda à sua curiosidade. Algo que, se ocorrer, me verei um sujeito feliz porque nada escrito foi em vão.
Além de responder às perguntas que vocês possam ter a respeito de quem eu fui e sou (espero estar vivo quando vocês lerem esse e outros textos), imagino que meus textos também tenham caráter educativo, que possam guiá-los por problemas, que possam fazer com que vocês enxerguem que a vida pode ser realmente dura, mas que há um amanhã para cada dia horrível, que eu tive momentos ruins e momentos bons e é o esforço de cada um de nós para termos mais momentos bons que ruins que define a vida e dá sentido à busca pela felicidade (que, vou avisando, não existe em si: o que podemos conquistar são momentos felizes permeados de realização, de sonhos, vitórias e das pessoas que mais amamos).
Quem sabe uma ou outra passagem sobre minhas desilusões, minhas vitórias (porque não se iludam, aprendemos um bocado com elas), minhas glórias e falhas, enfim, o que eu fiz e deixei de fazer possam guiar vocês em momentos atribulados, em fases de dúvidas, de dificuldades, em que pode parecer que estarão sozinhos, contra tudo, a carregar o mundo nas costas - igualzinho eu me senti quando morreu meu pai e os blogs, por sorte nossa, praticamente não existiam para que eu viesse neles escrever minhas dores. Por mais que eu queira que vocês aprendam as durezas dessa coisa de viver, acho que já me sinto pai mesmo sem saber por quantos anos mais terei de esperá-los, prefiro protegê-los do quanto a morte de seu avô me escureceu a existência por um tempo. Passou, mas doeu bastante.
Espero que minhas músicas sejam interessantes, que os meus poemas, embora sofríveis, criem em vocês o amor por essa forma de arte tão pouco valorizada, que meus escritores favoritos tenham coisas para dizer a vocês ao longo da vida e que sirvam de porta para que vocês encontrem as suas músicas, as suas formas de arte, os seus livros - e tenham sempre o carinho de me explicar porque cada uma dessas coisas os encanta. Escrevo porque quero que vocês lembrem que aos 20 poucos anos de idade eu já os imaginava e desejava na minha vida.
Agora, na iminência de publicar essa carta, me vejo preocupado, ao relê-la, e perceber que ela não soa bonitinha como as crônicas que você lê de gente tão talentosa, que ao escrever para os filhos que crescem no quarto ao lado, enchem o texto de doçuras e de formas leves de ensinar a vida, de falar do passado. Crianças (adolescentes?), eu não sei escrever desse jeito. Ou talvez não o saiba porque esse é um talento que a gente descobre quando nos nascem os filhos, quando nos sentimos cheio desse propósito bonito que é a paternidade. Me perguntem depois, ou sigam lendo para saber se eu soube ficar mais lírico ao longo dos anos ao escrever para vocês.
Eu deixo esse post aqui, que caso eu mantenha o ritmo de umas 10 postagens por ano, será soterrado por outras bobagens, poesias, platitudes e remorsos, como registro, no entanto, do momento em que vocês deixaram de ser uma ideia e uma vontade para o meu futuro para serem um projeto, um compromisso. Eu sinto que vocês não estão mais tão longe da minha vida, não só porque eu os quero e amo muito desde sempre, mas porque querer é poder e estou sentindo essa saudade do que ainda não tive me doendo no peito. Meus amores, eu sinto falta de vocês sem tê-los ainda conhecido e para remediar essa forma mais cruel de saudade só indo mesmo encontrá-los.
Sinto que nos encontraremos em breve, mas que vai demorar um bocado para que vocês aprendam a ler e tenham qualquer crise que os levem a questionar o velho sem graça, grisalho e decididamente calvo, que tenta dialogar com vocês, o que os levaria a ler esse e outros textos esparramados por aqui. Falta tempo não só porque vocês precisam, antes, crescer um pouco mas porque há uma série de obstáculos. Eu, segundo as probabilidades, não encontrei ainda a mãe de vocês, preciso resolver uns problemas práticos, como achar onde vocês vão crescer e meu novo rumo profissional, mas vai tudo à caminho porque, meus amores, eu tenho planos.
Lhes escrevo essa carta em específico porque encontrei antigas fotos e recortes do seu avô há uns dias. Nenhuma daquelas reminiscências eram endereçadas à mim, mas me fizeram feliz. Espero que essa carta tenha para vocês o mesmo efeito aconchegante que aquelas relíquias tiveram comigo, que vocês sintam o calor do meu abraço, a minha voz, o meu jeito de olhar e o amor que eu já desenvolvo por vocês tocando cada pedacinho dos seus corpos e essências, quer eu esteja por perto ou não porque essa vida é bandida e não me arrisco a ir tão longe nas minhas previsões.
E se não estiver, espero ter sido um bom pai, espero que entendam minhas falhas, valorizem meus acertos, reconheçam meu esforço, que não me esqueçam. Deixo-vos, também, alguns bons conselhos: tenham sempre coragem, e se ela faltar, leiam esse parágrafo para lembrar de criá-la e tê-la sempre à mão, quaisquer que sejam as circunstâncias da vida. Façam dessas frases amuleto, usem-no ao redor do pescoço para não esquecer de vibrar, mesmo perante os riscos. Não se esqueçam de ter medo, porque não é feio duvidar e fragilidade não é opróbrio, mas enfrentem as dificuldades com coragem e procurem apoio naqueles que os amam. Vocês têm a obrigação de serem corajosos por duas razões. Em primeiro lugar, são meus filhos e em segundo porque o mundo vai exigir isso de vocês 100 vezes por dia. Não se furtem às oportunidades que a vida dá, experimentem os caminhos, cuidem do corpo e da mente, corram os caminhos do mundo, sangrem, ajudem, peçam ajuda, amem. No mais, tirem o melhor proveito de tudo, procurem viver alegremente, tenham prioridades na vida e, por favor, vivam bem e por muito tempo.
Com amor, do pai.
às 07:20 0 comentários Marcadores: Cartas aos meus filhos, Memórias
segunda-feira, 16 de janeiro de 2017
Esses sonhos de menina
"É que talvez você não tenha se dado conta, mas esses seus sonhos de futuro, vida a dois e tudo mais, querendo ou não, são uma pressão enorme para qualquer pessoa. Mesmo que ela pense como você e queira a mesma coisa, de um jeito ou de outro, acho que você transfere uma cobrança enorme para que tudo dê certo, para que funcione, para que o futuro se confirme, para que você não se decepcione com algo que saia do planejado, que não seja como você imagina que deva ser numa fantasia idealizada na sua cabeça. É uma forma de defesa, porque você não quer abrir mão de coisas que você sabe que são importantes para definir a qualidade da sua vida no futuro. É uma pressão dos diabos para que ela seja sempre perfeita e as coisas também sejam sempre perfeitas. Não é pouca coisa".
"E se for isso mesmo, explica muita coisa, né? Porque sempre que você vê algo que comprometa essa pressão pela perfeição, mesmo as coisas mais simples e banais, você tem duas alternativas: transferir cobranças injustas e ficar com cara de imbecil por se comportar como uma criança, exigindo perfeição onde isso não existe, ou engolir a sua frustração, algo que pode levar a irritação, raiva momentânea, explosões. Ou pode se acumular em anos e anos de covardia e de falta de diálogo, levando a crises de meia idade, implante de cabelo e casos com adolescentes daqui uns anos".
"Mas não se assuste. Não é o primeiro caso. Nem o último. Aliás, fique tranquilo porque poderia ser bem pior: o fato de você estourar desse jeito mostra que você, no fundo, reconhece que as suas pressões são injustas e que não se sente em posição de impô-las a ninguém, que o mundo e a vida não são para serem perfeitos. Ter essa percepção é mais que meio caminho andado para parar de ser idiota, a outra metade do caminho você começa agora, descobrindo o teu problema".
"A sua solução é simples. Passe a encarar a vida com realismo e sem fatores deterministas. Faça os seus sonhos, inclusive esses de menina, virarem metas, porque metas a gente atinge, sonhos a gente apenas fica desejando, desejando, desejando. Meta: morar no lugar X. Sonho: ganhar na loteria, viu a diferença? Assuma o controle da sua vida, das coisas que almeja pelas razões que forem e deixe as hipóteses que te fariam feliz, mas fogem do seu controle, nas mãos do destino. Confundir metas com sonhos é uma puta cagada porque quando se sonha, sonha, sonha e não conquista, no fim, você fica com cara de imbecil, culpando tudo e a todos, menos você mesmo que é, via de regra, o grande culpado por ter visto a vida passar e não ter feito porra nenhuma pra aproveitá-la e fazer dela algo que preste".
Lucidez. Vem tarde, na carona de um aguaceiro dos diabos, lá no topo da serra. Mas vem.
às 18:30 0 comentários Marcadores: Memórias, O dia em que cresci
domingo, 15 de janeiro de 2017
Subidas e descidas
Hoje eu me dei o dia de folga. Peguei o carro e percorri uns 70 quilômetros que me levam até a cadeia montanhosa mais próxima, que nós outros chamamos de Serra da Esperança. Não se trata de paragens extremamente conhecidas, não só porque quem já viu uma serra já viu a da Esperança, mas principalmente porque suas escarpas não remontam as assombrosas alturas, precipícios e quedas que as mais agraciadas demonstrações do relevo terrestre oferecem. A rigor, a Serra da Esperança é das de meia-pataca.
Mas é o que temos, menos de uma hora, você está se confrontando com a natureza. Com essa calma que parece agraciar as regiões serranas do país, onde as grandes conurbações urbanas não podem acontecer. Onde o relevo preserva a mata, o campo, a vida tranquila, o silêncio, o tempo que passa mais devagar, como se fosse ali um outro cosmos, como se ali valessem outras leis físicas para o tempo e para a entropia de todas as coisas.
Na serra, deixei o carro em um lugar bastante escondido, recomendei-o a atenção do proprietário do terreno e lhe fiz o mais do que justo agrado de pagar-lhe pelo incomodo com bom dinheiro, prometendo igual quantia quando desfizesse minhas andanças e cismas e decidisse ir embora.
Ao sujeito, tenho certeza, toda essa sofreguidão para se embrenhar no mato, vencer os morros e chegar no topo de alguns deles parece ocupação vã, tolice do moço da cidade que, sem nada melhor para fazer, vem se aborrecer no meio do mato. É a velha história da casa de ferreiro e espeto de pau: ele deve apreciar os confortos da cidade a que eu desdenho enormemente, na mesma proporção em que eu me apaixono pela vida calma a que ele tem direito, rodeado por uma paisagem de doce desolação verde e sossego.
Me desfiz das roupas de cidade. Coturno para andar no mato fechado, peguei o facão afiado. A mochila com cantil e frutas, a barraca desarmada. Dei a volta pela estrada de chão fazendo meus cálculos de que, provavelmente, poderia almoçar umas maçãs no topo do primeiro morro, caso fizesse tempo bom e o caminho não estivesse por demais impraticável, que esses diabos de morrinhos sem graça da serra tem um vezo para ficarem encharcados que é de dar com a cabeça nas paredes.
E assim foi. Para subir uns 800 metros levei cinco horas e meia. Escorreguei, rasguei a camiseta, me arranhei numa árvore, morri de medo de cair com a barriga no facão e morrer idiotamente, perdido no mato. Recomendei a todos os demônios e infernos de que fui capaz de lembrar o desazo de ter ido subir o morro, dei razão ao desprezo do homem que guardava o carro. Suei, quis desistir, pensei que não valia nada a pena, que na última vez que fiz algo do tipo era bem mais jovem, escoteiro, tudo numa trilha bem mantida.
Foi o caos.
Mas eu persisti. De alguma forma, subir aquele morro era uma questão de vida ou morte. Estavam em jogo, nessa atividade, todos os caminhos do meu destino, o futuro que se fixa na sua frente em uma estrada sólida, a vida que você precisa resolver. Tudo dependia desse esforço, desse rito de passagem, dessa prova intima de que, querendo, você vai longe. Que a gente se bate, mas vence. Que a vida é bandida, a tristeza ameaça, a dor inevitável, o sofrimento opcional. E que a gente vence, porque no cume, nada disso importa.
Cinco horas e meia de tombos, pragas, ameaças, desdem intimo, dúvidas, medo, vontade de desistir, mas de persistência, de vontade, de raça, de coragem, de sorrir na cara do perigo, de seguir em frente, apesar das circunstâncias, e eu venci, finalmente, a mata e a subida: estava no cucuruto do morro, como diria o meu pai.
De lá, descortinou-se a bonita vista da qual eu devo ter tirado umas 50 fotos. Emoldurava o horizonte uma cortina de água escura de fazer a alma vergar em sinal de respeito à majestade da natureza. A chuva negra, talvez há uns 10 quilômetros de onde eu a via, tomava todo o horizonte distante e dava ao verde, ao recortado das propriedades, o serpentear das estradas e as reentrâncias dos rios uma imagem de propósito, de plenitude: era como se o mundo todo se debruçasse para que eu visse: planalto, planície, vento, água, chuva, raios, trovões, marcas da ação do homem, tudo cabia naquele recorte que meus olhos alcançavam.
A chuva, e isso era facilmente observável, estava a caminho e me atingiria, tornando o caminho de volta muito pior do que fora na vinda. Mas não tive medo. Sentei-me, me aconcheguei com as minhas coisas em volta, e me ocupei de meditar. De não pensar em nada, de apenas apreciar o momento, de me sentir feliz e orgulhoso de ter chegado, de me sentir receptivo à essa sensação de solitude que só quem já acampou completamente sozinho e isolado sente, essa de ver o mundo de um ângulo privilegiado, longe de amores, paixões, problemas, dificuldades, ódios, mágoas, de tudo e todos, se sentindo como que inexoravelmente sozinho no mundo: só eu vi aquela paisagem, aquela chuva, aquelas nuvens daquele jeito. Vão passar milhões de anos, e ninguém poderá dizer que as viu como eu vi. Naquele instante, só existia uma pessoa em todo o mundo.
Almocei as minhas maçãs, que estavam todas batidas pelos acidentes do percurso. Limpei o melhor que pude o espaço que escolhera para a barraca, removi galhos, folhas secas e mortas, arranquei um pé de qualquer coisa que não sei do que se tratava e fiquei feliz de encontrar um pedaço de rocha em que pude apoiar a cabeça à noite, no maior conforto, usando a roupa suada como travesseiro. Não dormia tão bem e tão mal há um bom tempo.
Mas antes de pensar em dormir, me vi acometido da face ruim da solitude, essa que nos deixa entediados. A euforia de ter chegado, de ter visto uma paisagem única e uma apresentação exclusiva da natureza tinha, enfim, passado e perdido o efeito. Me percebi desejando companhia, me vi pensando em como seria divertido ter compartilhado a aventura, estar agora comentando a beleza, mas também o pavor que causa essa chuva monstruosa que se move tão rápida, tão inevitável, tão displicente ao meu encontro.
E aí você se encontra com aquelas coisas todas das quais vem tentando fugir. Dos problemas e das soluções, do fato de que não há o que se fazer, dessa dor esquisita que é se afastar, se proibir, se isolar, que é amar em silêncio, que é viver nesse limbo em que nada que você faz parece fazer sentido, em que tudo é inconsequente e inútil.
Amar é muitas coisas, você ouvirá milhões de definições diferentes, dependendo do estágio em que alguém está na paixão e no amor por alguém, mas talvez não exista uma mais certeira, mais universal, mais comum - e comum porque é sentida por qualquer um que ama - do que essa mistura de saudade do futuro que você espera com essa coisa de querer compartilhar seus melhores e piores momentos com alguém que você quer demais.
E foi embalado nesses pensamentos e nas minhas filosofias vãs sobre como definir amor e nas limitações da língua portuguesa, essa que se sente tão especial pelo charme do termo "saudade", mas que não foi capaz de criar verbo que desse tino dessa coisa, dessa falta, dessa ausência, dessa loucura que é amar e não poder, que vi a chuva chegar, avassaladora.
Gosto de banho de chuva e não me preocupei em me esconder na barraca. Tirei a roupa e fiquei nu, recebi a cortina de água de braços abertos e me vi sorrindo, imaginando um satélite que conseguisse vislumbrar, mesmo com as nuvens no caminho, meu corpo nu no topo da montanha, recebendo a chuva como se o abraço gelado dela me levasse para lá, onde eu agora queria estar.
Venho revisitando uma porção de convicções nos últimos tempos, mas tem uma que eu nunca confronto e que é a ideia de que não devo forçar minha mente a nada. Não acredito, por exemplo, em jogos mentais para esquecer, acho errado me forçar a odiar, cultivo minhas memórias com zelo e me intrigo com quem vai no caminho contrário, tão feliz em jogar no lixo suas experiência, relativizar seu passado, odiar por mecanismo de defesa, por imaturidade. Esquecer, nunca. O que passou, o que ficou retido nas prateleiras empoeiradas da memória é o que nos define, o que diz quem somos. E eu tenho um amor desmedido pelas minhas lembranças e, portanto, pelo que eu sou.
E todas essas disposições de espírito, essa calma, essa complacência à que a natureza conduz, me deram paz. Foi vitória ter subido, foi inesquecível ter visto a paisagem, foi libertador tomar aquele banho de chuva, foi rejuvenescedor ficar em paz com meus sentimentos e me apaixonar, mais uma vez, pela doçura das minhas memórias.
No dia seguinte, pela manhãzinha, o garoto que subiu a montanha percebeu, surpreso, que era o homem que descia, leve, uma pequena colina.
às 20:37 0 comentários Marcadores: Memórias, O dia em que cresci
sábado, 14 de janeiro de 2017
Lições
Quando era jovem, eu namorei uma garota que adorava, mas no fim, não éramos as pessoas certas um para o outro. Antes de chegar a essa conclusão, no entanto, essa pessoa, ainda que involuntariamente, me ensinou a lição mais importante de todas as da minha vida amorosa, a que eu sempre tento carregar comigo, mas que sozinha, sem outros conhecimentos do ofício, não dá em nada.
Lembro que já namorávamos por um tempo. Um dia, comentei numa postagem de Orkut, sobre uma outra garota da qual não lembro o contexto, mas era uma celebridade tipo B e a conversa se dava num fórum de amigos. Os mais suscetíveis de vocês, por favor, se contenham, porque o comentário foi machista e usava um bordão de um antigo programa “humorístico”: arruma um jeito de ela dar pra nóis.
Totalmente desnecessário, infantil, mas eu era pouco mais que adolescente na época. Estava numa rodinha com amigos, ainda que virtual. E o comentário entrava no tom de deboche próprio da fauna ali reunida e do grupo em si. Era apenas besteira, nada mais.
A garota ficou sabendo porque seus sabujos farejaram o sangue e ela veio na minha jugular para tirar satisfações. Ainda que vendo exageros na reação, na hora, me preocupei unicamente em me desculpar, desculpar e desculpar, enquanto ela insistia em me por contra a parede, como sacana e fator de profunda vergonha pessoal na vida dela. Insisti em transpirar sinceridade nesse momento, cometendo o erro muito comum de quem é jovem e confunde sinceridade com honestidade.
A lição que aprendi no episódio, especialmente em virtude da conclusão que viria depois da nossa incompatibilidade, é a de que pedir desculpas é fundamental quando você erra, mas para por aí. Quando somos inseguros em relação a quem amamos, acabamos entrando num parafuso de pedir desculpas indefinidamente, muitas vezes até pelo que somos e pelo que não fizemos – algo muito comum na juventude masculina e, acho, que também entre as mulheres. Desculpas, sobretudo se sinceras, são importantes e fazem parte de uma relação equilibrada com as pessoas que nos cercam, mas chega um ponto em que a repetição delas, especialmente se estivermos falando de uma ofensa menor como a que cometi, começam a soar como desespero.
Se tivesse sido honesto, e não apenas obsessivamente sincero, teria me desculpado, sim. Mas a partir da insistência na cobrança, poria a honestidade para funcionar, e diria que, embora respeitando o direito dela se sentir ofendida, precisava chamar a atenção para que o comentário fora nada mais que uma brincadeira em meio aos meus amigos. Que se o tom de deboche desse tipo de situação a deixava desconfortável, o problema tinha muito mais a ver com a insegurança dela em relação à sua imagem e em relação ao meu comportamento. Pronto, uma saída de homem: pedido de desculpas sincero porque não tinha intenção de aborrecer à pessoa a quem amava, mas, em face a insistência no assunto, faz questão de mostrar a futilidade da querela e em se mostrar equilibrado sobre o problema.
E ser honesto com quem você ama envolve uma coragem dos diabos, intimidade e linhas de diálogo extremamente abertas. Precisa coragem para admitir os seus defeitos, mas muito mais para contar algo ruim que você fez na vida, precisa de coragem colocar as necessidades do outro antes das suas, tem que ter coragem para, nesse mundo doido, assumir que quer viver a vida com uma única pessoa e com ela ter filhos e embarcar em todos os tipos de devaneios da vida a dois. Se você não tiver coragem no amor, você não o busca e não botará fé nele e em suas perspectivas de sobrevida, você não estará de olhos abertos para reconhecer suas falhas e, o mais grave, o lapso que existe entre a realidade das coisas e da vida e as fantasias que você constrói: é preciso coragem para sintonizar essas discrepâncias e, sair do outro lado, em paz, sabendo que você ainda ama a pessoa que não era exatamente como você projetou, aceitando essas diferenças como fatores de uma vida entre adultos, não pontos de conflito que você precisa fazer vergar. Coragem é fundamental. O lado bom é que eu venho construindo isso aos poucos, e se você tiver sorte mesmo, pode aumentar seu estoque de cojones com a colaboração da sua companhia. O lado ruim é que parece nunca ser suficiente: a gente sempre tem colhões de menos do que as situações que surgem parecem exigir.
Apesar da lição sobre não carregar nas desculpas ter ficado comigo, fiquei muito tempo sem saber direito a hora da sinceridade e da honestidade, provocando algumas situações indesejáveis de estresse emocional nas pessoas que vieram depois e das quais me envergonho (das situações, não pessoas), em um claro reflexo dessa falta de coragem. Fico feliz em, hoje, mais maduro, ter consciência disso e saber que essa dinâmica do “sempre pedir desculpas, mas nunca pelo que você não fez” é um conhecimento bem assentado por aqui.
Outra lição, e essa bem mais recente e sem relação com a garota de anos atrás, embora esteja ligada com essa coisa de desculpas e honestidade, tem a ver com o fato de que não adianta desculpar-se, honesta e sinceramente, quando você faz bobagem e magoa a quem ama. Aliás, adianta no sentido de que é o mínimo que você deve fazer, mas não vai muito mais longe do que isso. Você pode argumentar, mostrar que não teve, mesmo, intenção e que suas reações foram frutos de circunstâncias de momento, mas nada disso faz muita diferença porque o estrago emocional já está feito e, no fim das contas, a gente não tem o menor direito de dizer o que pode e não pode magoar o outro. Não legislamos sobre como nossas atitudes serão encaradas por quem está ao nosso redor, mesmo que a sua intenção seja absolutamente transparente: a de não arredar o pé da vida de quem você escolhe para viver contigo o resto dos seus dias. A conclusão, é que, não diga!, melhor que pedir desculpas, e precisar se equilibrar entre ser sincero e honesto, é nunca magoar a quem você ama!
Minha genialidade é realmente assustadora. Se você fizer silêncio, pode escutar as engrenagens do meu enorme cérebro emocional girando e produzindo essas verdadeiras luzes do conhecimento ocidental.
Amar é um cão dos diabos, dizia o poeta. É trabalho, mesmo se você tiver sorte de achar alguém realmente especial. Envolve concentração em detalhes, coragem (que você pode construir se tiver diálogo com a outra pessoa) e um zelo enorme para que linhas de diálogo sejam amplas para que todos os sentidos de qualquer atitude e declaração possam ser compreendidos por quem você gosta. Esse parágrafo todo parece senso comum, todas as pessoas dirão que comunicação é fundamental, previne todo tipo de problema e que a grande maioria dos casais se separa porque falta papo, abertura. Mas é sempre bom escrever isso e ter esse valor em mente porque a gente, em geral, só lembra dele quando é tarde, bem tarde.
às 18:25 0 comentários Marcadores: Memórias, O dia em que cresci
terça-feira, 27 de dezembro de 2016
quinta-feira, 22 de dezembro de 2016
Verdes mares
Mas a saudade que mais dói
Não é nenhuma dessas
Dos tempos passados e futuros
Não
A que dói é outra
É a ausência dos verdes mares dos teus olhos nos meus
As tuas formas nas minhas mãos
O seu calor no meu beijo
A doçura da sua voz na minha manhã
O toque cálido das suas mãos nas minhas.
Quisera eu navegar pra sempre,
surpreendido e sempre desnorteado,
sem compasso, mapa e rumo
nos verdes mares do teu olhar.
E viver no tempo sem tempo
de coração em vela desfraldada
onde as tempestades
dessa nossa sina magoada
e as saudades do passado
já não podem me alcançar.
quarta-feira, 21 de dezembro de 2016
Morreu de Benedetti
Reuniram-se todos à volta do féretro
Lá de dentro, encolhido no meio dos lírios
dos panos e das hortênsias
eu retornei os olhares
De um jeito bobo, meio atrapalhado
e sorrindo
como quem quer dizer que foi sem querer
pedia desculpas franzindo a rigidez da morte
Os de fora, sem me notar
Comentavam
De que veio ele a falecer?
Tiro ou facada?
Foi gripe forte?
Um acidente? Morte matada?
Pois não soubes?
Não
Morreu de tanto ler Benedetti.
terça-feira, 20 de dezembro de 2016
Praias
Te deixo de frente ao mar
Porque se vou embora
Que seja pelas costas
Não quero ver o seu olhar
E me perder nas lágrimas
E nas dores dos remorsos
Que vão tentar me fazer ficar
Levo comigo essas minhas melancolias
essa vida de atrasos e demora
Meus poemas enferrujados,
feito essas lágrimas agridoces
que temperam os meus dias
enquanto eu vou-me embora.
Mas eu me desengano logo
Porque você vai comigo sempre
nos meus rumos desarranjados
é você que me guia e me acompanha
é como tentar ir embora de si mesmo:
eu não posso me abandonar
assim como não posso expurgar a minha sombra
e por isso nem te deixar
de frente, olhando para o mar.
as palavras não foram todas ditas
mas eu as atravesso pela garganta
sinto suas mágoas nas minhas veias
e vou andando, olhando para trás
pé ante pé, pelas areias.
Fico, em vão, te esperando
como se você cansasse do barulho do mar
e fosse olhar para trás
e voltar logo
e é na hora mais doce dessa ilusão
que eu vejo que quando o mar te alcança
sou eu que me afogo.
terça-feira, 7 de junho de 2016
Kindle, um panegírico
A ideia de ler qualquer coisa mais ou menos longa numa tela é desagradável. A vista cansa, os olhos não foram feitos para todo esse brilho concentrado. Era essa a lógica que me mantinha impassível quanto a chance de ter um Kindle, ou qualquer outro desses leitores de livros digitais. Parecia apenas um modismo feito para encantar os neófitos, e nada mais.
Mas as coisas mudam. Tudo, aliás, muda (ver Heráclito). Ou não, (Parmênides), mas o fato é que hoje sou proprietário de um Kindle. E um bem encantado: em menos de 20 dias, já li quatro livros que, do contrário, não teria lido nunca: tratam-se de livros em inglês, que se fosse o caso de ler por métodos analógicos e convencionais, precisaria importar. O Kindle faz em verdade aquela velha profecia, gasta pelo cinismo contemporâneo, de que a tecnologia está aí para encurtar distâncias e facilitar a vida.

Facilitar porque além de trazer para o meu mundo livros que eu tinha alguma vontade de ler, mas nenhuma possibilidade de, o Kindle abre portas para afogar velhas vontades literárias que não encontravam vez e espaço. É fácil encontrar uma quantidade enorme de livros gratuitos para encher a vasta memória do aparelhinho e criar listas e mais listas de programação de livros para se ler até o fim dos tempos.
Falando no cinismo do tempo, é bem difícil se dizer encantado por qualquer bugiganga eletrônica porque elas estão todas aí para nos tentar e seduzir aquela parte da cabeça que vê necessidades onde elas não existem. O Kindle pode muito bem encabeçar qualquer lista de supérfluo que o consumismo nos vomitou, como o tablet e o micro-ondas (micro ondas, microondas, microndas), é, a rigor, uma solução para um problema que não existe: não existe o menor problema com livros em papel, assim como não existia nada de errado com ferver a água na chaleira, ou algo justificasse celular com tela de 9 polegadas. E ainda que venha ao mundo para resolver problemas que não existem, criar necessidades questionáveis, o Kindle não foge à lei da engenharia, que diz que qualquer solução, independente do mérito, cria um novo problema (normalmente de igual intensidade, mas sentido contrário). Ao Kindle, são problemáticos acervo, bateria, cabos, capinha para proteger e o caralho a quatro.
Mas ainda assim, o Kindle tem em si um caráter redentor insuspeito. É como o peito do poeta, em que cabem todos os sonhos do mundo, no Kindle cabem todos os livros do mundo que você tenha alguma intenção de ler no futuro. Em 31 não tão bem vividos anos de sonho, de sangue e de América do Sul, juntei uma quantidade de 78 livros – segundo uma antiga contagem que já deve estar defasada. Em semanas com o Kindle, vamos firmes com um catálogo de 200 livros diferentes, que atravessam todos os meus campos de interesse, que vão desde livros do Saramago, eu que li quase todos à exceção de um, passam por economia, cosmologia, divulgação científica, toneladas de escritos sobre a história, especialmente a das guerras, tem coisa demais de literatura latino-americana, todos aqueles livros impressionantes que eu quis ler do Cortazar, do Calvino, Guerra e Paz do Tolstoi, porque agora vai, estão todos eles lá. Tem romances policiais de diversos calibres, também tem literatura de vários calados, e uma tonelada de entretenimento sem compromisso na forma de thrillers de espionagem, que ninguém é de ferro.
Eu parei de fazer as contas, mas tinha estimado de forma conservadora que, tivesse optado por adquirir todos esses livros, teria gasto mais de dois mil reais.
Fosse isso uma resenha técnica do aparelho, teria de falar do conforto de segurar. Que a bateria dura muito tempo, que a sensível lentidão da interface gráfica do aparelho é contornável porque não há pressa ao ler. Que, no fim das contas, a tela de 6 polegadas é ideal para livros, se você tiver o cuidado de deixar o tamanho da fonte na medida certa. Que a tela, aliás, não cega, não cansa os olhos, que a tecnologia do eInk (a tinta eletrônica, e pasme você leitor, mas há tinta – polarizada magneticamente – no meio daquela tela) é tudo que prometeram, uma maravilha tecnológica que faz mesmo leitores desencaminhados, como é o meu caso, voltarem a ler com fôlego e ritmo três livros diferentes simultaneamente, porque os recursos do aparelhinho (dicionários, enciclopédia, marcações e tudo mais) nos convidam à extravagância.
Como dito, eu fui um leitor de muito maior apetite quando tinha mais sonhos, quando a vida era mais fácil e sobrava tempo. Em 2005, eu lembro muito bem, li 44 (ou 46?) livros no ano todo e, impressionado, fiz uma lista com todos eles. O Kindle me recolocou nesse rumo, voltei a encontrar o sabor de se impressionar com livros dos quais não esperava muito e isso não tem preço.
Assim como eu me perdi dos livros que lia, me desencontrei daqueles que queria escrever, e nesse meio tempo, foi-se o blogue, que aqui ficou a empoeirar. Ainda que, seguramente, isso não seja uma volta, gosto de achar, no fundo do coração, que esse textinho, esse panegírico pelo aparelho e pela tecnologia vá encantar alguém a comprar, também, um Kindle. Ou os seus concorrentes, que são tão bons quanto, as diferenças não são grandes, e como tudo na vida, é questão de gosto.
às 14:09 0 comentários Marcadores: Cultura, Tecnologia
terça-feira, 15 de março de 2016
Rádio: Mark Lanegan - Halcyon Daze
"... my perversities were limitless
I need somebody, like you
because I'm on my own and tired
It's true..."
às 00:08 0 comentários Marcadores: Rádio blogue
sábado, 5 de março de 2016
Benedetti só podia ser uruguaio
Tenho alguma vergonha de ter conhecido esse poeta uruguaio apenas pela forma delicada, bonita e solene pela qual Saramago despediu-se dele quando da sua morte.
Mas nada se perdeu pelo atraso.
Lia um poema do sujeito, acredito que um dos seus mais conhecidos, e, com pavor, me encontrei pelos seus versos.
Mucho mas grave
Todas las parcelas de mi vida tienen algo tuyo
y eso en verdad no es nada extraordinario
vos lo sabes tan objetivamente como yo.
Sin embargo hay algo que quisiera aclararte,
cuando digo todas las parcelas,
no me refiero solo a esto de ahora,
a esto de esperarte y aleluya encontrarte,
y carajo perderte,
y volverte a encontrar,
y ojalá nada mas.
No me refiero a que de pronto digas, voy a llorar
y yo con un discreto nudo en la garganta, bueno llora.
Y que un lindo aguacero invisible nos ampare
y quizás por eso salga enseguida el sol.
Ni me refiero a solo a que día tras día,
aumente el stock de nuestras pequeñas y decisivas complicidades,
o que yo pueda creerme que puedo convertir mis reveses en victorias,
o me hagas el tierno regalo de tu más reciente desesperación.
No.
La cosa es muchisimo mas grave.
Cuando digo todas las parcelas
quiero decir que además de ese dulce cataclismo,
también estas reescribiendo mi infancia,
esa edad en que uno dice cosas adultas y solemnes
y los solemnes adultos las celebran,
y vos en cambio sabes que eso no sirve.
Quiero decir que estas rearmando mi adolescencia,
ese tiempo en que fui un viejo cargado de recelos,
y vos sabes en cambio extraer de ese páramo,
mi germen de alegría y regarlo mirándolo.
Quiero decir que estas sacudiendo mi juventud,
ese cántaro que nadie tomó nunca en sus manos,
esa sombra que nadie arrimo a su sombra,
y vos en cambio sabes estremecerla
hasta que empiecen a caer las hojas secas,
y quede la armazón de mi verdad sin proezas.
Quiero decir que estas abrazando mi madurez
esta mezcla de estupor y experiencia,
este extraño confín de angustia y nieve,
esta bujía que ilumina la muerte,
este precipicio de la pobre vida.
Como ves es más grave,
Muchisimo más grave,
Porque con estas o con otras palabras,
quiero decir que no sos tan solo,
la querida muchacha que sos,
sino también las espléndidas o cautelosas mujeres
que quise o quiero.
Por que gracias a vos he descubierto,
(dirás que ya era hora y con razón),
que el amor es una bahía linda y generosa,
que se ilumina y se oscurece,
según venga la vida,
una bahía donde los barcos llegan y se van,
llegan con pájaros y augurios,
y se van con sirenas y nubarrones.
Una bahía linda y generosa,
Donde los barcos llegan y se van
Pero vos,
Por favor,
No te vayas
sexta-feira, 4 de março de 2016
Um dia desses
Um dia desses eu vou começar a te esperar de novo. Vai ser num dia frio, cinza, desses que eu gosto de viver, desses em que meu espírito se pacifica, desses em que a energia das coisas é mais baixa e dá espaço para a minha transformar e aquecer. Eu vou te esperar. Você vai chegar e eu vou armar o meu abraço, e vai faltar braço, porque eu não vou te alcançar. Dia desses eu vou te esperar para não te ver chegar. Aí eu vou tentar te ver, te tocar, eu vou tentar lembrar do seu riso, vou escutar a sua voz, vou enlouquecer ao falar sozinho, ao tentar responder o teu carinho. Eu vou querer te dizer outras coisas, eu vou tentar me dizer muitas outras, mas eu vou ficar calado porque fantasmas não falam. Um dia desses, vai ter que ser bem frio, eu vou te esperar lá fora até você chegar porque eu preciso me exorcizar desses meus fantasmas e dessas minhas saudades.
sábado, 27 de fevereiro de 2016
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016
A constante
Não é novidade que eu gosto de videogames. Mas entre todas as minhas preferências, há apenas uma constante: Silent Hunter
Silent Hunter é uma série de jogos de simulação de combate naval em que o jogador assume o comando de submarinos da Segunda Guerra Mundial. Dependendo da versão, ou você comanda os u-boats nazistas, responsáveis por terem feito Churchill, um dia, achar que ia perder a guerra, ou os adoráveis barcos da marinha norte-americana.
De tempos em tempos, me bate uma nostalgia esmagadora que me obriga a reinstalar meus dois preferidos da série no computador: Silent Hunter 3, lançado originalmente em 2005, e Silent Hunter 4, de 2007.
A rigor, qualquer SH é a antítese do que jogos buscam ser e, mais decisivamente, se tornaram nos últimos 10 anos: fáceis, acessíveis, divertidos, com histórias cinematográficas. Silent Hunter é diferente de tudo isso porque é absurdamente técnico - você precisa aplicar trigonometria para acertar torpedos, calcular velocidade relativa, distância, ângulo de impacto, saber usar mapas navais, e ter uma boa noção de como torpedos, cargas de profundidade, hidrofones e sonares funcionam - cada um desses elementos, e acredite, muitos outros mais, precisam ser conhecidos por quem quiser progredir nesses jogos. Sem conhecimentos nesses e outros tópicos, a frustração ocorrerá em 15 minutos e você não vai mais querer saber de Silent Hunter.
Ponto, parágrafo. Eu, como 95% das pessoas que um dia tentaram jogar qualquer Silent Hunter, não tinha a menor ideia sobre qualquer um desses detalhes. Lembro, com saudade, da minha primeira patrulha em que fui capaz de afundar um navio. Lembro, com ainda mais carinho, da primeira vez que, mais rodado nas mecânicas do Silent Hunter 3, o primeiro que joguei, fui capaz de afundar um encouraçado britânico de umas 35 mil toneladas e arruinei toda a batalha épica, a perseguição de horas, a fuga das escoltas, o gerenciamento da escassez de combustível, eletricidade e oxigênio no interior do u-boat com uma cadeia impressionante de erros de manobras, cálculos mal feitos e pura inocência na hora de manobrar o submarino no porto. Afundei em casa e perdi a tonelagem daquele HMS Renown que nunca mais encontrei pelos oceanos virtuais.
Aliás, ninguém jogou Silent Hunter até ter cometido asneira semelhante, tão típica do marujo de teclado que acha que desligar os motores significa que a embarcação vai parar imediatamente.
Mas, como gamer nenhum do mundo deve ser considerado uma autoridade em nenhuma das disciplinas técnicas que orbitam a ideia de comandar um submarino de 70 anos atrás e com ele trazer o caos e a destruição em oceanos do mundo, é de se imaginar onde diabos estava a Ubisoft com a cabeça ao lançar esses jogos?
É uma pergunta difícil de ser respondida, mas o fato de que a série parou no SH5 de 2010, título recebido com uma avalanche de críticas dos fãs mais antigos pela sua simplicidade e falta de ambição, e que o que seria Silent Hunter 6 acabou sendo um jogo de navegador no modelo Free to Play são fatos que nos fazem presumir que, no fim das contas, para gigantes como a Ubisoft, não faz o menor sentido investir em desenvolvimento de jogos tão restritivos, tão técnicos, tão anacrônicos como os Silent Hunter das antigas.
Voltando da divagação em relação aos descaminhos que afundaram (hum) a série, vem ao caso dizer, porque, títulos antigos dessa série são constantes na minha vida de jogador.
Deve ter algo a ver com a sensação de imersão, um termo que anda meio gasto depois que bobagens desenvolvidas de forma fordista como Call of Duty começaram a usar o tempo. Imersão, para quem se debate em analisar jogos e olhar para eles de um ponto de vista crítico, é o conceito que determina a capacidade de um game de fazer você viajar para um ponto diferente no espaço/tempo. A capacidade do jogo fazer você se sentir presente em uma outra realidade.
E qualquer Silent Hunter, mesmo os mais fraquinhos da série, é imbatível nisso. Patrulhas podem durar horas sem que o jogador encontre absolutamente nada no horizonte. Quando acha, dependendo da altura da guerra, é bem difícil afundar mercantes e os contratorpedeiros (destroyers para os neófitos), navios imbuídos da responsabilidade de escolta de comboios e da caça dos submarinos, torna-se um processo extenuante, de muita concentração, já que os barcos de superfície têm facilidade em encontrar os submarinos que, naquela época, se moviam lentamente a profundidades nem tão respeitáveis assim.
Todo o lado técnico, a necessidade de raciocínio, pensamento estratégico, enfim, cobram concentração constante e exigem que, para jogar e atingir o fim último de qualquer jogo eletrônico - superar o computador - você precise empregar os miolos, se concentrar, colocar o cérebro para funcionar. E há, também,uma relação com a curva de dificuldade - elemento constante em qualquer jogo de qualidade e que presume que, quanto mais você joga, mais hábil se torna para superar desafios de maior dificuldade - bem diferente, já que mesmo autoridades no assunto vão acabar desafiados por um comboio com muito mais escoltas, por uma tempestade que prejudica a visualização do alvo e, consequentemente, os cálculos necessários para atingi-lo. Ou até mesmo por torpedos com falhas, que simplesmente não explodem.
Sim, eram os anos 1940 e esse tipo de armamento dependente de rudimentos de eletrônica tinha uma taxa absurda de falhas.
Essa ideia de imersão é o ingrediente por trás das memórias que você constroi jogando o game que mais curte. Eu tenho uma porção de lembranças de várias patrulhas, lances épicos, e fracassos retumbantes, nas muitas horas que eu perdi com os Silent Hunter. Lembro de uma noite, ainda em tempos de faculdade, em que fiquei manobrando um submarino por 5 horas e meia na tentativa de fugir de dois contratorpedeiros. Não consegui e, no fim das contas, sem bateria para mover o barco e sem ar para a tripulação, fui à tona para me dar o prazer de ver os navios inimigos cobrindo o u-boat de alguns canhoaços. Em cinco minutos, submarino destruído e toda a tripulação morta. Derrotado e com save de seis horas antes, fui dormir. E perdi o horário da aula.
Tudo isso para dizer que me formigam os dedos. Que estou com saudades, que vou reinstalar um Silent Hunter 4 para tentar chegar ao fim da guerra, feito nunca atingido nessa edição. Que não há nada melhor para distrair a tristeza da vida que submergir em submarinos virtuais atrás de afundar a imponente, e ridícula, marinha de guerra japonesa da segunda guerra. Me aguarde, Yamato.
às 15:27 0 comentários Marcadores: Games
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016
Quando o carnaval chegar
Eu queria passar o carnaval com quem eu gosto. Mas, como de costume, vamos ficando por aqui, a, sozinho, regar as flores mortas do passado.
às 16:55 0 comentários Marcadores: Memórias
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016
Rádio blogue: Mark Lanegan - High Life
Um dos efeitos desses nem tão bem vividos 31 anos de suor, sangue, lágrimas, de sonho, de sangue e de América do Sul são as toneladas de músicas de fossa acumuladas e diligentemente organizadas em listas de reprodução, que contemplam e embalam as noites frias e solitárias nesse buraco da existência.
às 00:10 0 comentários Marcadores: Rádio blogue
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016
Não estou me guardando para o carnaval
Quisera eu poder dizer que estou me guardando para quando o carnaval chegar.
No fundo, eu passei a vida me guardando para qualquer coisa. Que nunca veio, ou se veio, eu não percebi. Ou, ainda, se veio, fiz questão de fechar os olhos, mudar de direção e continuar, solene e inexorável, no meu caminho de remorsos, mágoas, tristezas, saudades e solidões diversas.
Ah, o carnaval.
às 21:17 0 comentários Marcadores: Memórias
sábado, 23 de janeiro de 2016
(Um pouco de) Tudo sobre meu pai
"Acho que eu fui conhecer de verdade meu pai quando eu tinha 16 anos. Eu preguntei pra ele como ele era aos 16. Não vou esquecer nunca o jeito que ele largou o que estava fazendo e me encarou com uma cara que parecia de susto. Meu pai me disse que sempre queria que eu e minha irmã fizéssemos essa pergunta.
Até ali, a gente tinha uma relação de pai e filho acho que comum. Ele sempre foi um pai dedicado, não posso reclamar de nada. Mas acho que a gente nunca foi muito próximo, pelo menos até esse dia.
A coisa mais legal sobre meu pai era a minha mãe. Os pais dos meus amigos viviam em pé de guerra, muitos eram divorciados, e eu ouvi cada história. Mas os meus pais pareciam indiferentes a esse tipo de problemas. Eram unidos, conversavam, trocavam carinho e eu respeito muito os dois por isso. Pra muita gente é bobagem, mas uma família unida é algo importante.
Quando eu perguntei pro meu pai como ele era na adolescência ele ficou feliz. Ele me disse que sempre quis saber esse tipo de coisa sobre o meu avô, que eu não conheci. Meu pai explicou que achava que ia ter bastante tempo para saber e perguntar essas coisas, mas aí meu avô morreu. Ou, como ele disse 'só que aí a vida aconteceu', era uma frase que ele usava muito pra situações de decepção.
Meu pai me contou, e jurou que era o melhor que ele podia fazer com a memória que tinha, para falar como ele era quanto tinha 16 anos, e além. Foi uma conversa muito legal, e eu fiquei feliz de ter perguntado, porque eu aprendi que meu pai tinha medo, era tímido, não ia bem em esportes, acordava muito cedo pra ir pro colégio. Como a cidade tinha um inverno rigoroso, ele me contou que nos dias bem frios era comum chegar no ponto do ônibus escolar, depois da caminhada de 20 minutos, com o cabelo congelado de orvalho. Ele contou que a família dele não passava necessidade, mas que as condições eram muito severas. Fiquei triste em saber que ele passou os três anos do ensino médio com uma calça de uniforme da escola porque não tinha grana pra outra. Não consigo me imaginar numa situação assim hoje em que a gente tem um outro tipo de vida.
A gente conversou por horas. Depois de um tempo, meu pai disse que já não tinha certeza se estava sendo fiel à cronologia, mas ele prometeu que era tudo verdade, ou pelo menos, tudo do jeito que ele lembrava que tinha acontecido.
Como a gente ocupou a sala por horas naquele sábado, minha irmã e minha mãe acabaram ouvindo uma boa parte da conversa. Eu percebi que elas foram se interessando cada vez mais pelo papo.
Aí minha irmã, que acho que não tinha entendido direito a ideia, atravessou tudo e perguntou como ele tinha conhecido minha mãe. Meu pai disse, 'ah, isso foi bem depois de onde nós estamos, mas eu conto'.
Meus pais se conheceram de um jeito bonito. Ele até mostrou pra gente a primeira vez que ele falou com a minha mãe via internet, as mensagens que eles trocaram. Tinha até a data: 15 de setembro de 2012! Meu pai disse que ele ficou muito interessado na minha mãe desde o começo, mas que ele tinha medos e uma série de problemas para resolver. Eles se enrolaram por um tempo, meu pai disse que foi culpa dele, mas que não foi por mal.
Aí ele explicou que a minha mãe se apaixonou fortemente por ele desde o começo e, ao contrário dele, se entregou completamente ao que sentia. Que isso acabou dando espaço para que ela sofresse bastante até ele se endireitar.
Eu nunca vou esquecer desse dia. Primeiro, porque eu fiz meu pai feliz. A gente, enquanto filhos, nunca pensa nisso, que a gente pode, e deve, fazer nossos pais felizes. Segundo, porque eu acho que ele realmente falou a verdade, porque ele contou umas histórias em que ele não tinha razão, ou atuou de forma errada. E me explicou porque tinha agido daquela maneira, orientando para que eu tivesse mais cuidado.
Acho que ele continuaria falando por mais algumas horas se não tivesse dado o horário da largada da corrida que ele estava ansioso pra ver há uns dias. Eu não entendo a paixão dele por esse esporte bobo, eu gosto mesmo é de futebol, como a minha mãe. Enquanto ele e minha irmã assistem os carros darem uma infinidade de voltas por horas numa pista qualquer, a gente vai ao estádio ver gente de verdade”.
às 09:40 0 comentários Marcadores: Memórias
sexta-feira, 22 de janeiro de 2016
Rádio blogue: Elvis Presley - Fool
Fool,you didn't have to hurt her, fool, you didn't have to lose her...
às 00:17 0 comentários Marcadores: Rádio blogue
