Caros oito leitores, aí ao lado a capa do meu primeiro livro.
quarta-feira, 31 de outubro de 2007
terça-feira, 30 de outubro de 2007
Saudade
"Ah, todo cais é uma saudade de pedra" - Álvaro de Campos.
Caríssimos oito leitores, esta é, na minha opinião, a frase mais linda de todo o idioma português.
às 10:01 2 comentários Marcadores: Cultura, Memórias
sábado, 27 de outubro de 2007
Ainda sobre a idiotice do post anterior, eu que não sou político, penso:
Pra que serve um balão de ensaio desses, se não para fortalecer a oposição?
A política brasileira se compõe de centenas de idiotas. Uns mais, outros menos.
Profundamente enojado
Construir algo nos caóticos tempos que correm não é algo fácil. Construir uma casa, um projeto, uma família, uma vida. Nada costuma cair do céu à enorme maioria das pessoas que compõe o mundo. E isso não é novidade nenhuma.
E tão difícil como construir cada uma das coisas que ilustram o parágrafo anterior é construir uma nação. Um país é uma coisa. Uma nação é algo completamente diferente.
E com a derrocada das ideologias, com o fim das utopias que foram por terra junto com o Muro de Berlim (ainda que a idiotia tenha erguido outro no Oriente Médio), o mundo que vivia na dura luta entre o equilíbrio da ordem bipolar e sem nenhuma certeza, ao menos, ganhou uma.
A de que as nações se controem pelas mãos das pessoas, do povo. E se é pelo povo que elas podem ser eregidas nada mais justo que dar a ele, o povo, os plenos e sagrados direitos de governar suas respectivas nações. A verdade, caros, é que o caminho para a construção de um grande país passa obrigatoriamente pelo respeito e preservação irrestritas dos preceitos da democracia.
Não sou cientista político, jovem demais também para ter vivido sob a ditadura, mas posso imaginar sozinho que deveria ser bem ruim. E isso me faz prezar a liberdade que hoje desfruto e que estimo muito que meus filhos, netos, bisnetos e por aí a fora possam desfrutar.
E é precisamente por este motivo que ler essa matéria da Folha mexeu com todos os meus princípios e vestiu meu coração de indignação.
Há muito que eu não me sentia ultrajado pelas peripécias dos nossos políticos em fazer cagada e vangloriar-se aos quatro ventos de como é gostoso legislar em causa própria arrebentando com o país que um dia será dos seus herdeiros.
Mas ler esse absurdo, sentir mais uma vez a sagrada divisa* que me motiva, todo maldito outubro de escrutínio a ir à urna segredar meu Nulo, só posso manifestar a revolta que me toma.
Não é possível que haja quem tenha a desfaçatez de dizer um absurdo desses.
*Não se pode votar em ninguém porque simplesmente, a rigor, não conheço o sujeito e me parece muito irracional delegar meu poder de escolha a alguém que absolutamente não conheço.
às 04:59 0 comentários Marcadores: Política
terça-feira, 23 de outubro de 2007
Fórmula 1 - vou sentir falta
A repercussão no mundo esportivo foi das melhores. Há muito tempo que o Brasil não organizava um GP tão perfeito como esse. Interlagos revigorado, uma ameaça de paddock surgindo no aperto do ancestral autódromo. E para finalizar, uma corrida sensacional das que serão lembradas anos e anos depois.
Mas o maior barato foi hoje, encontrar essa imagem no banco da agência Sutton:
A curiosidade? Simples, a legenda da foto identifica: fãs de Alonso no GP do Brasil.
Não tenho muita certeza se eram mesmo fãs do asturiano...
sexta-feira, 19 de outubro de 2007
Elvis é assim
Tem como não curtir um cara assim?
Grande Elvis.
às 21:32 1 comentários Marcadores: Cultura, Memórias
Brasil Revisitado ou Brasil Inexistente?
Essa semana seria de se sair a estourar fogos pelos bons ventos e bons augúrios que, infelizmente, não vemos nos jornais. Correção, não vemos todos. Ou se os vemos, os vemos porcamente interpretados, o que aos mais incautos seria o mesmo que não estar lá uma vírgula sobre, por exemplo, o fato de que Octavio Barros, diretor de pesquisas e estudos econômicos do Bradesco dizer: "O Brasil voltou para o radar".
Os grandes grupos de mídia do Brasil estão a brincar com a população. Só que são anacrônicos demais. Folha, Estadão e o grupo da vênus platinada não estão mais no inalcançável púlpito que a ditadura lhes garantiu - especialmente no caso das Organizações Globo - púlpito este que se antes lhe possibilitava o ar da verdade inconteste e da credibilidade ilibada, hoje já demonstra desgaste e que, afinal, nem o melhor mármore está livre de abrir rachaduras e perder o fulgurante brilho da sua textura conforme passa o tempo.
Poderíamos cá lembrar de dúzias de casos. Apontar centenas de indícios de que a informação hoje não é mais de mão única e não sai apenas da cabeça tortuosa dos editores e dos oligarcas da comunicação deste país. Ao invés disso, o que faremos é listar aqui as boas novas que ensejam foguetórios, conforme dito na abertura deste texto. Imbuído da boa nova de que o dólar, moeda norte-americana que ainda domina o mundo, decaiu perante o real à sua mais baixa cotação desde o ano 2000, faremos um repertório dessas boas novidades da economia. E aí Miriam Leitão, o Brasil não ia quebrar?
Citei o diretor de pesquisas do Bradesco não por acaso. O Bradesco é uma das instituições financeiras que mais lucram no Brasil. É o nosso maior banco privado. E na esteira do Plano Real cresceu. Segundo Joelmir Betting a situação é tão favorável às instituições financeiras que hoje no Brasil nada lucra tanto como um banco mal administrado. Evidente que lucram ainda mais os medianamente e os bem administrados, mas o fato é que aos bancos o céu tem sido de brigadeiro desde os primeiros momentos do real.
E Octavio, pela posição que ocupa e pela instituição que representa, não seria de estranhar que fizesse parte do cansaço coletivo que assaltou o país em agosto. Não sabemos nada sobre suas inclinações políticas e senso de ridículo. Sabemos contudo que ele disse, esta semana em uma palestra no 3º Congresso Nacional de Crédito que:
- O Brasil está na lista de compra de todos os investidores globais.
- O apetite para a tomada de risco do setor privado brasileiro é forte – é o que mostra uma pesquisa com 1 mil 200 empresas clientes do Bradesco.
- Esse apetite para tomar risco tem hoje o seu melhor momento, desde que Barros montou a série, três anos atrás.
- Se eu (Barros) fosse classificador de risco dava grau de investimento ao Brasil.
- A crise do sub-prime americano já “deixou o mundo para entrar na História”. (parênteses meu: o que diverge da opinião dos ilibados analistas da grande imprensa)
- Desde 17 de julho – quando a crise eclodiu – para cá, o valor de mercado dos 50 maiores bancos europeus e dos 50 maiores bancos americanos já voltou aos níveis anteriores a 17 de julho.
- Os Estados Unidos são 33% do PIB mundial, embora, hoje, a China tenha um impacto maior sobre a economia mundial que os Estados Unidos. A duvida é: os Estados Unidos vão crescer 2% ou 1% em 2008? O mais provável é que cresçam 2% e o mundo inteiro vai ficar feliz.
- O cenário para as commodities é positivo – especialmente por causa da China.
- E esse cenário de commodities – por causa da China – vai durar ainda 10/15 anos.
- Brasil, Argentina, Austrália, Nova Zelândia, Canadá, África, exportadores de commodities, vão se beneficiar com isso. (O Governo chinês decidiu que toda cidade com mais de três milhões de habitantes tem que ter metrô. A China tem 72 cidades com mais de três milhões de habitantes ...)
- Nenhum país emergente tem o conjunto fantástico de commodities para vender que o Brasil tem: açúcar, etanol, soja, milho, café, cobre, minério de ferro, frutas, bauxita e que tais.
- Também nenhum outro país emergente – nem a China – tem uma indústria de transformação apoiada sobre commodities como tem o Brasil (o etanol, a Vale do Rio Doce...)
- O crescimento do PIB será de 4,9% em 2007.
- Entre 1999 e 2003, o crescimento da economia foi, na media, de 1,9% ao ano. (Outra vez, eu. Saudades do FHC? alguém?)
- Entre 2004 e 2007, 4,3%. (Insisto, alguém? Ninguém? O cavalheiro iludido pela Folha e a Globo ali, mais alguém?)
- Hoje, há 22 trimestres consecutivos há crescimento do PNB: é o maior ciclo de crescimento econômico dos últimos 15 anos.
- Nos últimos 12 meses, entraram no Brasil US$ 50 bilhões em investimentos estrangeiros diretos.
- A dívida externa brasileira é de US$ 30 bilhões. Dentro de alguns meses, o Brasil vai ZERAR a dívida externa!
- O Brasil se abriu ao comércio exterior: desde 2002 triplicou o volume de importação e exportação.
- Nenhum país emergente tem uma exportação tão diversificada: o Brasil exporta em percentuais parecidos para os Estrados Unidos, Mercosul, Europa, Ásia - A China nem a Índia têm isso. (Eu novamente: o que nos lembra o contraste das viagens de Lula e as de FHC. Fernando Henrrique viajava para que lhe afagassem o ego no exterior conferindo-lhe comendas ignóbeis. Fernando Henrrique, bajulado e empavoado por natureza, se crê, desde Roosevelt, o maior estadista já nascido. Torno à carga, alguém manifesta saudades do FH?)
- Os juros vão cair inexoravelmente.
- Em 2008, a Selic será de um dígito. (Coitados dos "Mencheviques do Morumbi", perderão aqui uma das suas justas reclamações).
- O percentual do crédito no PIB passou de 22% em dezembro de 2002 para 33%, hoje.
- O crédito cresceu 30% para a pessoa física nos últimos doze meses.
- O crédito imobiliário – que está muito forte – é apenas 1,7% do PIB. Isso não é nada. Na Espanha, o crédito hipotecário é 50% do PIB; na Holanda, 90%. E o Brasil tem um déficit de 8 milhões de moradias. Resumindo, caríssimos, há espaço para crescer.
- Como o mercado de trabalho – emprego – vive a melhor situação dos últimos oito anos, a inadimplência superior a 90 dias é de 7,2% - o que é baixo.
E não acabou. Além desta enxurrada de dados e sinais positivos para o devir, que, frise-se não provém do governo, mas de uma instituição financeira privada - saiu um estudo interessante da Standard and Poors, que diz ter sido a Bovespa o quarto mercado mais lucrativo do mundo desde 9 de outubro de 2002. O ganho médio foi de 74%. Só perdemos para Peru, Ucrânia e Bulgária. 88%, 84% e 77%, respectivamente. A bolsa norte-americana foi apenas a septuagésima colocada e a China ficou em quadragésimo sexto lugar.
Ao longo desse período você deve ter ouvido os gabaritados e sinceros analistas da grande mídia dizendo para investir na China, Rússia e Índia. O Brasil ia quebrar, afinal. Ao passo que aqueles que não deram ouvidos aos avisos destes, se investiram R$ 1000, tiveram retorno de outros R$ 15.000.
Eu fico com pena do FHC. Ele se ocupa a falar mal do Brasil no exterior, ganhando muito para isso - aliás, só tem liquidez para pedir os milhares de dólares que cobra por palestra se falar mal mesmo - enquanto aqui no país que ele governou, com a política econômica que diz ter sido o inventor, colhem-se frutos oriundos de maior equilíbrio administrativo, que o furor neoliberal esqueceu-se não se sabe em que defecada homérica da dupla Tatcher e Reagan. Coitado do FH.
E eu ainda acho que Lula deveria pagar royalties ao FH.
Para pensar:
A filha de Renan Calheiros fora do casamento lhe valeu centenas de aborrecimentos por sustenta-la de forma pouco ortodoxa. Mas e a filha de Fernando Henrique Cardoso fora do casamento? Por que, quando este fora senador e presidente, ninguém veio lhe inquirir como sustentava a mãe, jornalista da Globo, e a filha que mandou "exilar" na Espanha?
Se é relevante saber como Renan sustentou sua aventura extra-conjugal, mais ainda era investigar, em 2000, quando a revista "Caros Amigos" (quando esta ainda prestava para alguma coisa) publicou matéria de capa sobre os arroubos adúlteros de FH. Era o presidente. Ou seja, quem pagou a conta? Quem pagou as pensões de lá pra cá? Quem bancou a vida das duas na Espanha? O contribuinte?
O que faz de FHC intocável pela imprensa? Só o fato de pertencer a grupos políticos poderosos oriundos do paleolítico não me convence. Será por ele falar inglês, espanhol e francês ao passo que o Calheiros, alagoano, deve dominar apenas o idioma luso?
Jornalismo de exceção e anti-ético: você vê por aqui.
às 03:23 2 comentários Marcadores: Atualidades, Política
quinta-feira, 18 de outubro de 2007
Debaixo do sol...
... não há nada novo. Frase antiga. Verdade invencível que consta, faço uso de meus surrados conhecimentos da organização do Novo Testamento, no livro de Ecesiastes. Não, sequer desconfio o capítulo.
Em agosto passado alguns aproveitadores, outros desocupados, somados ao crescente clima de descontentamento que assaltou Alphaville, Leblon e congêneres, abrindo o perigoso precedente da "Revolução Menchevique do Morumbi", lançou ao vento um movimento "apolítico", disseram, chamado de "Cansei". O "Cansei" foi uma das maiores piadas para nós outros. Para seus criadores uma das maiores vergonhas, mas isto é lá com estes senhores engravatados, tão cientes dos problemas nacionais que vêm a público nos dizer que cansaram. Não estão nem aí para o tamanho da bobagem ou para a bazófia.
Na verdade acredito que subestimamos a importância do "Cansei", que de tamanho fastio, tirou merecidas férias na Europa onde foi descansar suas amolações com a "preocupante situação de crise que se instaura no país". Digo que subestimamos os mencheviques do Morumbi porque, meus caros oito leitores, muito mais que movimento social e "apolítico", foi ou é, o "Cansei" um movimento filosófico. Uma vanguarda filosófica, não há dúvida quanto a isto, que vem buscando responder uma até então irrespondível questão do saber, o que é o nada?. O "Cansei", imbuído nesta busca sumiu. Saiu em busca do nada e jamais foi visto.
"indignado" apresentador Global que, coitado, foi expropriado de seu para lá de cobiçável Roléx (que segundo busquei saber compra-se a módicos R$ 48 mil) e, ciente do direito de se indignar e, por que não, cansar-se em público, escreveu uma impressionista carta que intitulou com o poético, embora rasteiro e torpe título de "Pensamentos quase póstumos", onde expressou toda a sua indignação e a sensação de ter sido praticamente assassinado ao sofrer o assalto que para si, ao que parece foi uma novidade. "Luciano Huck foi assassinado. Manchete no 'Jornal Nacional'", começa a epístola.Embora tenha já dado voltas à questão e torcido que chegue meus fosfatos e sinapses para desvendar porque diabos o relógio do Huck, tão roubado como o vizinho ali na esquina, tenha ganho destaque na Folha - que embora seja um jornaleco, é uma das nossas maiores tiragens, infelizmente - chego a conclusão de que a filosofia em cima desta questão vem a ser desnecessária. Que bom que publicaram a carta do Huck. Que excelente saber que, para Huck, um exausto defensor e panfletário homem público contra a desigualdade social, o certo é chamar a "Tropa de Elite" e seus truculentos métodos.
Huck diz pagar seus impostos religiosamente e não temos porque duvidar - não pagasse, já teria rodado na malha fina que, estranho, tem funcionado bem ultimamente, o que é um dos maiores itens que cansou a turma da OAB-SP em agosto, Daslu e aquela patota toda. O que Huck não diz na sua carta é que tem contrato com a Globo fora das CLT's justamente para não pagar tantas contribuições e, assim, faturar limpo. E nem isso se deve recriminar, não é crime.
Depois de ter perdido seu relógio Huck acha que "chegou a hora de discutirmos de verdade a questão da segurança". Sim, evidente que a hora é agora. Não era hora quando houve chacina na Candelária. Quando o PCC estourou por inépcia governamental ano passado. Quando o Carandiru e Bangu explodiam anos, séculos, de falta de dignidade e decência na administração do futuro desse inusitado Brasil. A hora de discutir segurança pública é agora porque um diretor diz crer que a mídia "só diz a verdade sobre as favelas", fez um filme fascistóide que vende às pessoas a visão pequena, fascista e ignorante de "bandido bom é bandido morto", de que a solução é a multiplicação de "Tropas de Elite" onde estiver instalado o conflito.
Huck compara São Paulo a Bogotá - o que só comprova que a questão da educação é ainda um problema perto do interminável. Ao menos aos olhos deste que escreve este enorme texto que ninguém lerá. Para Huck devemos encontrar a solução, tiro e queda, nas duas seguintes vertentes: ou o capitão Nascimento (personagem central de "Tropa de Elite"), ou no investimento em escolas. O risco era de que o "Cansei" abraçasse mais esta nobre canseira e defendesse, em função de ser rematadamente sabido que os frutos da educação são colhidos apenas no longo prazo, a solução de criarmos um estado de exceção e "Tropas de Elite" para resolver a questão da segurança porque, segundo o narigudo apresentador, "a hora é agora".
Estamos cercados de débeis-mentais.
Complemento:
Um dia após a bombastíca e histórica correspondência de Huck:
Corregedoria investiga policial que diz saber de Rolex de Luciano Huck
Aqui você conhece a "amadurecida" visão de Padilha, diretor de "Tropa de Elite" sobre a pirataria:
Nas ruas, gato por lebre
às 04:17 1 comentários Marcadores: Atualidades, Política
sábado, 13 de outubro de 2007
Celular também não pode mais
Eu lembro, lá pelos já há muito vividos anos de 95, que havia a febre pelos ioiôs da Coca-Cola. Na escola todos tinham alguns e eram mestres nas acrobacias com o pêndulo. Eu inclusive.
E nos horários livres, de antes das aulas e no recreio, havia por toda a extensão do pátio um verdadeiro balé. Múltiplas e mirabolantes evoluções, uns bons, outros medianos e alguns mais, eu incluso, enganadores de platéia.
Aí um dia um menino desentendeu-se com o outro. Provavelmente disse que se o primeiro não lhe reparasse o remoque, embora lhe ultrajasse a idéia, teria de ir arrancar-lhe os olhos em troca da honra ofendida. O menino ofensor não reparou o agravo e ambos foram às vias de fato.
Um deles, já não lembro o qual, fez do brinquedo, o ioiô, arma: deu com o pêndulo, modelo Super da Coca-Cola - ou da Fanta, eram realmente parecidos - na idéia do outro beligerante. Como medida de combate à falta de civilidade das crianças, as freiras que dirigiam a escola não tiveram dúvidas: que se proíba o uso de ioiô nas dependências da escola.
É mais ou menos o que o governador José Serra quer fazer com os celulares. Embora não se tenha sabido de alguém ter levado uma celularzada na idéia, acredita o governador que os índices educacionais do estado só poderão melhorar na medida em que as crianças não tenham celulares para serem encontradas pelos pais num contexto tão perigoso como no que vivem.
Tertuliano mora no Paraná. Tertuliano se preocupa caso a moda pegue, afinal ele pensa:
- Não seria melhor proibir celulares nas cadeias?
às 22:44 0 comentários Marcadores: Atualidades, Política
quinta-feira, 11 de outubro de 2007
Disse Harold Bloom
Harold Bloom é um dos mais notórios críticos literários do nosso tempo. Há quem o diga um dos homens mais inteligentes do mundo atualmente, o que, eu, naturalmente, relativizo. De qualquer forma, fui conhecer Bloom numa matéria da Superinteressante sobre o sujeito e sua teoria desconstrucionista da literatura. Uma abstração só.
Enfim, lendo sobre Saramago, a quem alcunhei de "mestre", trata-se, da enorme e vasta fauna de escritores que me agradam, meu preferido, descubro que é a mesma opinião deste norte-americano tido como um dos mais bem aquinhoados espíritos do mundo. No livro de Bloom, publicado em 2003, "Genius: A Mosaic of One Hundred Exemplary Creative Minds", "Gênio: Um Mosaico de Cem Mentes Exemplarmente Criativas", disse que Saramago é o "mais talentoso romancista vivo no mundo atual", galardão este que, vindo donde vem, converte-se num panegírico incontestável. Bloom foi ainda além ao chamá-lo, assim como este Tertuliano, de "o Mestre" e "um dos últimos titãs de um gênero literário que está desvanecendo".
Fiquei feliz por Saramago. Fiquei feliz por mim. Penso igual a Harold Bloom, meus caros, morram de inveja. Mas não é só neste ponto em que meus tortuosos pensamentos, deste carcomido cérebro, encontram paralelo aos de Harold. Assim como eu, este vota visceral desprezo pelo que há na literatura infantil no mundo.
O caro Bloom é muito mais radical que este Tertuliano. Eu, embora tenha uma invencível vontade de distribuir pontapés em quem lê Harry Potter, entendo perfeitamente que este, embora fraco exemplar da literatura mundial, pode contribuir no longo prazo para o aliciamenteo de uma nova e vasta gama de amantes da leitura, o que seria ótimo. Enquanto as pedagogas semi-idiotizadas (e por isso idiotizantes) que nossas universidades regurgitam todos os anos esforçam-se para criar campanhas bem intencionadas de incentivo a leitura em alunos bocós e analfabetos com livros como "Dom Casmurro" e similares de densidade e desinteresse natural em qualquer jovem - levando-se em conta que estas pedagogas não lêem e bem por isso jamais farão alguém ler - Potter e seu texto comercial e fraco conquista hordas e hordas de leitores.
Bloom disse em entrevista à revista Época: "odeio Harry Potter. É bruxaria barata reduzida a aventura. É prejudicial ao leitor. Não tem densidade. A escrita é horrível. Lancei a polêmica, sabendo que eu atuaria como Hamlet, que defronta com um oceano de aborrecimentos. Continuo me incomodando com os fãs do pequeno feiticeiro".
No que é verdade. Se um dia a humanidade tiver de selecionar cinco volumes da literatura mundial para a eternidade, entre eles, podem ter certeza, não teremos nenhum Harry Potter. Harold extende a crítica à literatura infantil: "é um fenômeno de mercado. A maior parte dos livros para crianças à venda nas livrarias é idiota, não serve para nada, muito menos para suprir a necessidade de leitura de uma criança ou do leitor de qualquer faixa etária. Livros estão sendo confeccionados para vender e se tornar sucessos no cinema e na televisão. Isso nada mais é que uma máscara que oculta o rosto cada vez mais estúpido da era da informação. Os tais livros infantis ajudam a destruir a cultura literária".
O que é perfeitamente tangível não apenas na literatura infantil. Materi
al dito "cultural" feito pra vender é o que não falta. E mais velha ainda é a constatação disso, que remonta a tempos imemoriais do breve século XX, mais precisamente, década de 30, onde os teóricos e filósofos da Escola de Frankfurt, como Theodor Adorno, sujeito ao lado, apontaram a crise da cultura: o que antes tinha valor iminentemente de culto, passa ao valor de troca, mercantiliza-se.
Adorno era, no fundo, um cara legal. Ranzinza, pessimista, provavelmente chato, caxias em relação à juventude de 68 e com sobrenome esquisito, tinha também lá seus defeitos: odiava. Detestava. Cultivava verdadeira aversão ao jazz, e isto, ao contrário de suas notáveis contendas com os estudantes - sobretudo as garotas que deitavam fora os sutiãs - em maio de 68, não se pode perdoar. O jazz é o jazz, afinal.
De qualquer forma, o que conta mesmo, é que Saramago é mestre para mais alguém no mundo. Que a minha admiração pelo português, considerado por muitos um mestre no trato da bela e boa língua portuguesa (que querem vilipendiar com a criminosa, de ocasião e imbecil reforma ortográfica - que se reforme a peripatética Acadêmia Brasileira de Letras, que acha que o idioma é dela, só dela, e dos enormes grupos editoriais que se beneficiarão com este absurdo), enfim, mas eu dizia que o que conta mesmo é que o assunto Saramago me rendeu os primeiros ensejos para conversar com minha namorada, que leu algo do português e que, para o bem ou para o mal, ele continuará sendo o "mestre".
Perdeu, Alexandre Dumas. Perdeu...
às 18:52 1 comentários Marcadores: Cultura
segunda-feira, 8 de outubro de 2007
Finitude
Nos últimos dias, mais do que em todo o transcorrer do ano, deu-me, caríssimos, uma sensação estranha no espírito. Em pouco mais de um mês estarei, se for da vontade comum dos professores, formado. Formado numa profissão complicada, num mercado de trabalho "salve-se-quem-puder" e sem quaisquer nesgas de perspectivas imediatas. Irei embora. Perderei contato com amigos queridos.
E tudo isso me fez contemplar uma sensação de finitude. Não é como quando eu saí do ensino médio, rapaz imberbe onde nas fuças ainda erravam espinhas esparsas e as primeiras poeiras que lhe prediziam barbas no futuro, onde o sentido era de recomeço, de novo caminho a trilhar. Agora é de fim, de encerramento, de missão cumprida e nada mais a se fazer. E me confrontar com isso, com o fim e não o começo, com a sensação de nada mais a se fazer, agravada pela ausência de perspectivas no curto prazo, não foi bonito.
Tudo vai sumindo por detrás das nossas costas. Nós nos ocupamos, por vezes, demais em olhar adiante tentando divisar o horizonte da vida e saber o que vem lá. Mas ao fazer isso, inutilmente, aliás, perdemos o que nos reluzia no passado próximo. E normalmente sentimos mais falta do passado do que de adivinhar o futuro coisa que a grossa maioria do gênero humano não consegue fazer. Enfim.
às 10:16 2 comentários Marcadores: Memórias
sexta-feira, 5 de outubro de 2007
Por que você veio até aqui? (Setembro)
Seguindo minha tradição de um mês, seguem abaixo as buscas mais curiosas que renderam visitas ao blogue em setembro:
- "dexisto"
- "disco vuador ovi"
- "direitos e deveres de locadora de video game"
- "imagem de onça morta"
- "jogos de super mario os que tem no computador da escola"
- "video da morte do super mario"
Ao longo do mês de setembro, através de resultados em serviços de busca, o blogue recebeu 130 visitas. O recorde de incidência foi a busca por "assombração", com 21 ocorrências e em segundo "frases de lula", com 7.
às 04:38 1 comentários Marcadores: Entretenimento
quinta-feira, 4 de outubro de 2007
Sputnik 50 anos
Uma coisa puxa outra. Hoje o Sputnik faz 50 anos, e eu mencionei-o no post anterior, que por sua vez inicia-se falando de outro mais antigo.
Eu não sei muito sobre satélites. Sei que funcionam emitindo e retransmitindo sinais - o que é muito vago e paradoxal, posto que há cinqüenta anos que eles são parte de minha vida. Mas sei que o bip-bip-bip, pueril até, da bola metálica em que consistiu o tal Sputnik revolucionou o nosso modo de vida. Disso daí é que vem a evolução que hoje permite eu publicar este texto e você lê-lo. Caso queira sentir o que sentiram os técnicos da missão soviética que revolucionaria as comunicações em muito menos de duas décadas, ouvindo a transmissão do Sputnik, a primeira transmissão via satélite da história, clique aqui. Eu fico imaginando que o povo da época deve ter pensado: "tamanho barulho por uma bola de metal que faz bip-bip-bip?".
O curioso é que o fato de terem sido os soviéticos, e não os norte-americanos, que enviaram a bola metálica que fazia bip-bip-bip reduz incomensuravelmente a dimensão da epopéia perante os olhos mais incautos. Fosse o Sputnik norte-americano, existiriam dúzias de filmes e documentários acerca do feito. Como aliás existe um filme sobre a Mercury. A missão Mercury foi a resposta de Tio Sam a Gagarin que, aliás, também não foi imortalizado em telas de cinema.
De qualquer forma, depois de Sputnik veio a cadela Laika. A ela seguiram Gagarin e os astronautas da Mercury. O homem foi à Lua. Vieram os ônibus espaciais que começaram a explodir e a interminável MIR. E ninguém jamais quis ir novamente à Lua porque lá não tem porra nenhuma.
Tudo por conta da bola metálica que fazia bip-bip-bip. E saibam meus caros que o tempo é a medida da precariedade de qualquer coisa.
às 12:35 0 comentários Marcadores: Atualidades, História, Tecnologia
quarta-feira, 3 de outubro de 2007
Hermann Hesse ensina:
"'... a maioria dos homens não quer nadar antes que o possa fazer. (...)' Naturalmente não quer nadar. Nasceram para andar na terra e não na água. E, naturalmente não querem pensar; foram criados para viver e não para pensar! Isto mesmo! E quem pensa, quem faz do pensamento sua principal atividade, pode chegar muito longe com isso, mas, sem dúvida, estará trocando a terra pela água e um dia morrerá afogado".
Hermann Hesse, O Lobo da Estepe.
Hesse foi o que mais próximo cheguei de ler de um filósofo/escritor. Ele é um escritor sensacional, denso, inteligente, culto e não trata o leitor como acessório dispensável à sua obra. Leia, mas tenha atenção que o conteúdo extremamente denso e filosófico deste alemão, provavelmente, o fará repensar toda a sua vida. Além de lhe trazer aquele indescritível mal estar que os melhores escritores nos trazem quando nos confrontam com o humano, demasiado humano (vide Nietzsche).
às 00:12 0 comentários Marcadores: Cultura
segunda-feira, 24 de setembro de 2007
É Mensalão Tucano!
Fosse esse Tertuliano português, por azar não é, ele perguntaria:
- Mas por que o Mensalão de 2005 virou "Mensalão do PT" e o do tucanato empoado e plutocrata que desmontou o país, que movimentou quase R$ 54 milhões de reais - recorde brasileiro em corrupção, virou "Mensalão Mineiro" e não "Mensalão do PSDB" ou "Mensalão Tucano", que seria muito mais justo e lógico, posto que há precedente?
- Vai ver os mineiros todos foram cúmplices, daí extender a culpa a todo o povo com o gentílico.
- Ah tá.
às 14:27 3 comentários Marcadores: Política
Calheiros
- Poxa, não vão pegar esse Renan Calheiros, hein...
- Olha, até onde se sabe não há nada provado. E mesmo que houvesse, o Senado não pode julgar o cara, não é seu papel.
- Você é a favor do cara?
- Não disse isso. Disse que é idiota querer julgar alguém por algo que não se sabe se fez, especialmente pelos seus pares que não são juízes, são algo pior: políticos.
- Mas tá na cara que ele é culpado, falam isso nos jornais sempre.
- Acontece que os jornais nem sempre falam a verdade e no mais, a disputa não foi para votar a cassação de um senador que pode ter pisado na bola, virou uma disputa inócua sobre quem votou sim e quem votou não. Não vem ao caso. Ninguém sabe se o cara é culpado. E o Senado não é corte de justiça, não pode julgar, portanto.
- Justiça... como você fala de justiça num caso desse, cara?
- Eu não sei, falo porque dou às coisas os nomes que elas têm. E que normalmente não são culpa minha. Mas o estranho mesmo é o tucanato empoado e plutocrata que desmontou o país ter feito campanha pelo voto secreto no Senado na época do FHC e agora querer mudar o jogo.
- Ah, mas vai dizer que você não acha isso justo?
- Ora, quem sou eu? Pergunte pro Renan Calheiros se é. Ele deve entender do riscado: foi Ministro da Justiça do FHC.
Pois é.
às 14:12 1 comentários Marcadores: Política
Reinventando Bourne
O gênero policial na cultura ou, vá lá, no mundo do entretenimento, surgiu na literatura romântica inglesa por meio de autores como Edgar Alan Poe, reforçada pelo Sherlock Holmes de Doyle e conquistou de imediato o público: o componente do mistério e da intriga dando as linhas do suspense página após página. No cinema filmagens de obras clássicas deram novo status ao gênero nas telonas e com o surgimento dos conceitos de quarta e quintas colunas, especialmente em função das duas guerras mundiais do século XX, surgiu um novo filão compartilhado entre literatura e cinema: as novelas de espionagem.
Ao longo do século passado não foram poucos os autores que granjearam notoriedade por criarem espiões que conquistaram mentes e corações, além de, evidentemente, cifras respeitáveis. Ian Fleming, britânico fleumático que servira no MI-5 (Military Intelligence 5, serviço de inteligência responsável por trabalhar dentro do Reino Unido) durante a Segunda Guerra Mundial e que em princípios dos anos 50 criaria o famoso James Bond, é um exemplo típico. Usando de ambições e aspirações que todo homem ocidental tem, mulher, carros, armas e glamour, o personagem emplacou facilmente. A Fleming seguiram Frederick Forsyth (do clássico "O Dia do Chacal, filmado na década de 60), outro britânico que assina livros do gênero como “Ícone” e “O Quarto Protocolo”, donos de abordagens socio-políticas riquíssimas e contextos históricos bem trabalhados por quem foi parte deles. Além dos dois britânicos, há que se mencionar os norte-americanos Tom Clancy (“A Caçada ao Outubro Vermelho”, filmado com a participação de Sean Connery, o primeiro James Bond) e Robert Ludlum, autor consagrado da trilogia sobre o espião desmemoriado Jason Bourne. Embora ambos tenham muito ranço anti-qualquercoisa que ameace a “liberdade” que o Tio Sam impõe ao mundo, não deixam de ser obras interessantes e empolgantes do estilo.
Embora o gênero tenha sua cartela fiel de fãs, há muito que carecia de uma reinvenção. O padrão pirotécnico e exagerado de James Bond não contemplava a ânsia de realismo que deve permear produções mais contemporâneas – ninguém mais acredita no carro invisível ou no Bond capaz de suster seus batimentos cardíacos para fingir a morte - insistindo nisso, em exageros como esse, o personagem e a franquia tornar-se-iam paródias caricaturais de si mesmos. Tanto é verdade que as últimas produções de Bond foram classificadas como “ação”, e não “espionagem”. O que mudou no excelente “Cassino Royale”, filme mais recente da franquia.
O que corrigiu os rumos do espião mais conhecido, Bond, e do gênero em si enquanto produção cinematográfica foi, sem dúvida, o advento de “A Identidade Bourne” (Bourne's Identity – 2001), filme que inicia uma trilogia escrita por Robert Ludlum, contando a história de um agente da CIA extremamente treinado e especializado que é enviado para assassinar um “rebelde” africano aos olhos da CIA. Por algum motivo o agente Jason Bourne, vivido por Matt Damon, perde a memória. Como “sabe” muito vira um alvo da agência para queima de arquivo.
A história de Bourne é a um tempo fuga e busca. Fuga dos seus verdugos e busca pela sua história, pela sua memória. Bourne reinventa o gênero a partir do momento que vive aventuras fiéis ao possível, sem as mirabolantes e incríveis cenas escapistas de James Bond’s mais antigos. Jason usa o Google para durante o filme para pegar informações, ainda que merchan, é um merchan bem feito e que aproxima o personagem de você. Bourne vive a espionagem de clássicos do cinema como o excelente “O Espião que veio do Frio” (livro de John Le Carré, autor de "O Jardineiro Fiel", filmado sob a direção de Fernando Meirelles recentemente). As cenas são muito bem dirigidas e pensadas, Bourne interage com os ambientes, desde a embaixada do primeiro filme a estação de Waterloo em Londres, na última película.
A busca do espião pelo passado e verdades o leva a denunciar um esquema de assassinatos promovido pela CIA. Além de conseguir de volta seu passado, Bourne é o estopim de um escândalo que leva à prisão seus perseguidores durante toda a história – o que é uma lição à certa noção de onisciência e razão que serviços de inteligência ganharam pelas páginas e telas anos à fora. E tudo aqui é bem dirigido por uma edição primorosa de imagens, onde o diretor Paul Greengrass, acostumado a cenas frenéticas com câmeras de mão, usa o expediente à exaustão: as perseguições e fugas de Bourne ganham ainda mais vida, embora com cenas meio confusas às vezes, aos olhos do espectador.
Jason Bourne e sua história, contudo, souberam buscar o que houve de bom no James Bond ancestral, além do enredo: as locações. Ao assistir a trilogia, praticamente um longo filme de seis horas, vamos de Paris a Moscou. Berlim, Turim, Londres, Langley (Virgínia, EUA. Onde está a sede da CIA), Tângier (Marrocos), Nova Iorque, Madri. Enfim, as viagens e as locações escolhidas a dedo trazem contraste ao filme e um brilho especial ao dinamismo das fugas e cenas vertiginosas da produção.
Contudo, nem tudo são flores, diria o poeta. Identidade Bourne, Supremacia Bourne e Ultimato Bourne foram três livros escritos por Robert Ludlum, falecido em 2001, que viraram os filmes homônimos. Com o estrondoso sucesso de crítica e bilheteria da série, os proprietários da franquia já arregaçam as mangas: querem fazer deste JB, outro James Bond. A idéia é iniciar uma franquia sem vistas de um fim, como é a de 007 que já conta 21 filmes desde 1962. Já está nas bancas, em inglês, duas novas aventuras de Bourne (“The Bourne Legacy” e “The Bourne Betrayal”), escritas por outro sujeito, Eric Van Lustbader, com tenções claras das telas de cinema em breve.
Se mantiver o ritmo e a qualidade, os fãs agradecerão. Mas se a busca for estritamente comercial, virá aí mais um Duro de Matar e de agüentar que não acrescentará nada. De qualquer forma, Matt Damon diz estar fora do personagem porque “cansou dessa coisa do Bourne”. Normal. Qualquer um cansaria.
Os fãs do gênero não cansam. Mas não são facilmente manobráveis, se fossem, James Bond, o JB mais emblemático (os JB's: James Bond, Jason Bourne e Jack Bauer) não teria, se me permitem o escroto neologismo, “bournizado” e voltado às origens.
às 13:35 0 comentários Marcadores: Cinema, Cultura, Entretenimento
quarta-feira, 19 de setembro de 2007
Reforma Ortográfica
Estou plenamente convencido de que o presidente da Academia Brasileira de Letras é um dos maiores mentirosos, hipócritas e imbecis do momento.
Vai criar porco, Marcos Vinicios Vilaça.
às 00:54 1 comentários Marcadores: Atualidades
quinta-feira, 13 de setembro de 2007
(CONTO) E Caiu um Disco Voador
Nada. E esse era o problema. Tudo normal, incrivelmente normal. Contudo, seja para comprometer o fio que tomava esta história, seja para atrapalhar o autor, eis que no momento inesperado, ruge dos céus um som perturbador, como quinhentos motores v8 a gorgolejarem em plena rotação, detonando os tímpanos presentes a um raio de três quilômetros da praça, faltou dizer que é uma praça que nos serve de cenário, de onde observamos toda a cidade, ensurdecendo esses pobres miseráveis sem que ao menos soubessem como e porquê.
Fez-se silêncio. Silêncio desolador, agravado pela multidão de surdos, da qual poucos deram pelo objeto, não mais voador, entretanto ainda pertencente à classe dos não-identificados (embora tenhamos já, em parágrafo anterior, a audácia de identificá-lo: disco voador). Dizíamos que o silêncio era aterrador, os surdos erravam pelas ruas às apalpadelas, em pleno desespero, como se em lugar de perder o dom de ouvir, tivessem perdido a faculdade de ver.
Começou-se a juntar gentes à roda do aparelho, desconfiamos de livre vontade que seja um, que admiravam o acontecido. Os aposentados, que dadas certas particularidades do modo humano de definhar, já não eram contados entre os maiores e mais capazes ouvintes do gênero, agora que eram surdos de vez, trocavam olhares de felicidade – que era o que lhes restava, os olhos – olhares de júbilo, extremamente eloqüentes, como se a falta da audição houvesse feito desses olhinhos diapasões que reverberavam: viste? Embora, agora, não pudessem mais contar tudo o que verão, surdos que são. Sim, eles têm consigo a ciência de falar, visto que não são surdos de nascimento, mas queremos crer que os locutores de semelhante sucesso só teriam prazer em relatá-lo se tivessem consigo a capacidade de ouvir-se. Diante disso, o máximo que esses basbaques fazem é olharem-se. Nada mais.
Apareceram seitas. Apareceram pessoas que queriam implodir o disco, outras que o queriam como um monumento. Houve quem sugerisse desmontá-lo para estudo e evolução de nosso exército, que é, evidentemente, a prioridade de qualquer sociedade contemporânea. Passaram dias, semanas. Ninguém arredou pé, o disco também manteve-se imóvel. A chusma só fazia crescer. A administração pública, cônscia dos seus sacro-santos deveres de proteção do populacho, considerava criar por lá uma sub-sede da prefeitura, e cônscia de outros deveres, não tão sacros, estudava sob que alegação lograriam cobrar impostos dos acampados da praça, nome pelo qual ficou conhecida aquela sociedade. O juiz daquela vara instalou, em lugar de um antiguíssimo boteco, um tribunal para mediar os pequenos conflitos que jamais faltam num aglomerado de gentes das mais distintas e distantes orientações. Decidia os conflitos em meio às mesas, cadeiras, mesas de bilhar, balcões e engradados. Muitas anedotas se fizeram a respeito, dizendo que o juiz queria mesmo era encher a cara e não pagar.
O exército estava de prontidão. As tevês. Os hippies, os yuppies, os ermitãos que voltaram à casa, conhecedores de que, agora, meu caro, que há semelhante novidade na cidade, não há mais que se fazer no meio do nada, das cavernas e do campo, onde justamente alguns deles, há anos, esperavam pouso de disco voador. Vieram toda a sorte de formas e maneiras de se ver o mundo também, tomando ruas, casas, prédios. Houve enorme procura por janelas com vistas para o sinistro, o que tornou a especulação imobiliária algo de muito proveitoso e feliz naqueles dias no entorno daquela praça convertida em campo de pouso.
Embora a defesa civil desaconselhasse, as árvores do lugar passaram a abrigar grande população de curiosos arborícolas, dos quais já havia os mais engenhosos que, pregando aqui e ali fizeram um confortável poleiro. O ser humano, sempre solícito, dono de espírito extremamente inventivo, já começava a alugar os poleiros para os desafortunados a quem faltou espaço nas árvores, o que semeou muita discórdia, posto que os corretores de imóveis viram-se na infeliz contingência de terem uma concorrência ferrenha com um modelo de habitação mais prático, próximo e barato do foco de atenção. Sentiram-se ultrajados e, pelo que se soube, se não fosse a presença de forças repressoras e o grande número de pessoas aglomeradas no entorno da praça, teriam partido para as vias de fato e tomado para si o novo e promissor empreendimento imobiliário. Entendiam eles que os direitos de exploração sobre qualquer forma de locação de imóveis lhes era garantido pelo bom senso e por qualquer lei, que seguramente havia uma. Como se sabe, fazer justiça é sempre uma maneira de cometer uma injustiça em causa própria.
Entretanto, a longa vigília já fatigava, começavam uns a considerar levantar acampamento. E os militares, que haviam tomado para si as responsabilidades do local, ouviam os apelos para uma resolução mais prática, e sempre respondiam que: não é hora ainda, tenham calma. Sendo que o alto comando mandava para os diabos o desazo que teve essa merda de nave em cair justo no meio de uma cidade. Que caísse esta desgraça em um campo, o dos ermitões, por exemplo, seriam poucos pra silenciar e poderíamos fazer o que bem nos aprouvesse dessa joça. Os militares faziam ouvidos moucos à voz do povo, ainda que seja ela a voz de Deus. Aliás, talvez precisamente por ser ela de quem é, é que lhe eram indiferentes os fardados em verde oliva. Que não se olvide jamais que, de Deus ou não, a voz que botou o Cristo na cruz foi dele, do povo.
às 14:25 3 comentários Marcadores: Contos

