sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

2011 é logo ali

Me peguei hoje pensando, em meio às explosões que me proporcionam Battlefield Bad Company 2 (recomendo) se escreveria, tal como venho fazendo todo final de ano, um pequeno balanço do ano que passou.

Não resolvi ainda, mas acho que 2010 não vai merecer linhas analisando o que significou, o que foi, o que não foi.

Vou lembrar de 2010, por certo, mas, dessa vez, caros oito leitores, reservo-me ao direito de guardar no fundo mal ajambrado desse meu coração carcomido as impressões destes 365 dias.

Não há muito para comemorar, nem muito para lamentar. 2010 foi e só. Nada que possamos fazer impede que esse planetinha orbite o Sol e, assim, cometa mais um ano. Portanto, fechem o bico e se conformem, encham a cara, pulem as ondas, assistam menos tv, leiam mais e usem camisinha. 2011 é logo ali.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Papillon

Está decidido, em caráter irrevogável, que o veleiro que nunca terei condições de comprar será um Nautor Swan 55, que pretendo batizá-lo não mais de Sputnik, como fora minha inclinação anterior, mas de Papillon.

Sputnik, em russo, muito antes de ser a esfera espetada de metal que subiu à extratosfera em 1957 para fazer bip-bip-bip e maravilhar o mundo, é satélite. Muita gente acredita que a tradução seja "amigo", mas não é.

Papillon vem do francês e significa borboleta, que é um bicho mais ou menos afeminado e que ficaria bastante desconfortável no barco de um marmanjo metido a marujo hipotético - e à luz de tanta incerteza, nessa vida é tudo hipótese, de modo que não dá para garantir se estampar Papillon na proa e popa, esmigalhar uma boa garrafa de champagne no casco para selar o batismo, afinal, fique afeminado demais. Acontece que Papillon vem a ser, também, o nome de um ótimo filme onde, mais uma vez, Papillon era o personagem principal, obcecado pela ideia de liberdade e que encerra sua atribulada carreira de fugas flutuando num pontão construído de barris.

O barco que nunca terei, as velas que nunca manejarei, enfim, sempre foram mais um mal-ajambrado grito de liberdade deste velho corpo carcomido, e nada mais justo, pois, que chame-se Papillon o instrumento que nunca vai me levar dos grilhões do cotidiano, das renúncias diárias, das explorações inexoráveis e das derrotas humilhantes.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Aforismos - Trabalho

"O que eu preciso é de dinheiro. Por trabalho eu não sou tão louco assim não..."

Bukowski.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Tucanos metem o nariz em tudo, daí serem narigudos

O PSDB é como aquelas bandas que arrebentam no primeiro disco e depois colecionam uma carreira de sucessivos e estrondosos fracassos. Passa anos à fora se queixando, emburrado pelos cantos, reclamando da academia e da população que não reconhece os vigorosos avanços do Plano Real e as lufadas fragorosas de modernização na esteira das privatizações que encolheram o Estado. Como se fosse culpa da população lembrar o gosto amargo do tucanato empoado e plutocrata que desmontou o país, lhe vendendo o patrimônio num período marcado por juros exorbitantes, triplicação das já então para lá de dilatadas dívidas públicas, hediondas médias de desemprego récorde em sete anos sem a menor e mais tímida ameaça de crescimento da renda per capita.

Rádio: Chico Buarque - Minha História

A minha preferida do Chico:

Debacle

Hoje eu finalmente entendi o Efeito Doepfler e a Relatividade Geral.

E daí?

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Da cidade que não é mais minha

Da cidade que não é mais minha
recordo de tudo
vejo que nada resta
e tudo definha.

Na cidade que não é mais minha
resgato o tempo
reencontro o espaço
procuro por um momento
aquele meu abraço
na cidade que não é mais minha

Na cidade que não é mais nossa
eu lembro da felicidade
do tempo que foi absoluto
e me traz saudade
já que não há nada que eu possa  
sigo, irresoluto
pra cidade que nunca será minha.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Myth buster

A Nasa soltou um comunicado anunciando que, amanhã, dará a quem aprouva acompanhar via internet, uma coletiva na qual anunciará novas descobertas que imapctarão na área da astrobiologia, que vem a ser a área do conhecimento que versa sobre a busca e possibilidades de vida em outros lugares do Sistema Solar e do próprio Universo. Pronto, já tem gente dizendo que acharam vida extra-terrestre.

Nem tanto. O que vão anunciar, anote aí jovem, é que acharam oxigênio molecular num pedregulho que orbita Saturno dia desses. Vão dizer só que oxigênio molecular nunca tinha sido encontrado flutuando em outro corpo, porque o raio do oxigênio é uma das maiores biscates químicas, se liga, se abraça e rola com todo mundo, e até outro dia só sabíamos de oxigênio molecular, mesmo, a dar com o pé, aliás, com as fuças, aqui na Terra.

 Na foto, Rea em trânsito pelos anéis de Saturno

Rhea, ou Reia, que é o nome do pedregulho vergonhosamente menor que a nossa própria Lua, portanto, abre novas perspectivas para a astrobiologia. Afinal, se tem oxigênio na modalidade molecular na nossa vizinhança, pode ser que haja em abundância por todo o cosmo. Vão concluir o comunicado dizendo que se há oxigênio molecular na lua saturniana, nada proíbe que tenha à vontade em vários outros pedregulhos, maiores ou menores, todos mais ou menos bem providos de bons insumos e boas circunstâncias para suportar a vida, e que se há oxigênio pode ter vida - nesses pedregulhos outros, que em Rhea não tem porra nenhuma.  Ou nada disso, dirão que encontraram mais proteínas e aminoácidos perdidos por aí ou ainda alguma forma de vida inusitada e extremófila na própria Terra.

E fim de papo.

Não obstante, Tertuliano declara desabrida e desavergonhada torcida para que a revelação, como vem sendo tratada pela mídia irresponsável, verse sobre incontestáveis evidências de que não estamos sozinhos no Universo. Como dizia Carl Sagan, se o Universo se confirmar um dia estéril, descontando este nosso planeta, será um tremendo desperdício de espaço, tempo e matéria.

Reforço também a torcida para que sejam algo humanos os seres. Bem intencionados, capazes de falar português e que tenham boas mulheres e maus futebolistas, o que expandiria vertiginosamente o horizonte de gostosas da metade masculina da nossa humanidade e nos daria ensejo de triunfar no primeiro Intergalático de Clubes com alguma facilidade.

Rádio: Moby - We are all made of stars

"No one can stop us now..."

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Cartas a meu pai

Das muitas coisas que não te perguntei, colocaria, em evidência, talvez, o passado. Onde repousam as histórias e experiências cativantes que edificam o futuro de todos nós. Me faltou maior ciência dessas experiências. A falta desse arcabouço de situações poderia, talvez, me desviar de algumas escolhas ruins que fiz e pelas quais pago o preço. De resto, a maior confidência nos faria mais próximos, e isso é coisa que venho lamentando há exatos oito anos. A distância que se construiu em sucessivas desistências.

Mas longe de mim dizer que aprendi alguma coisa com a experiência. Em maior ou menor escala, venho repetindo o mesmo tipo de distanciamento, incapaz de evitá-lo, com pessoas de mesma importância na minha vida. A mesma indulgência com relação a pequenos momentos e gestos que tive antes, tenho hoje, com o agravante de, mais experiente, ser mais uma vez incapaz de mudar o rumo das minhas inconstâncias e fraquezas.

Há um universo de decepções inexploradas para se viver. O pior não é, então, vivê-las, porque inevitáveis, mas antevê-las, prevê-las, presumi-las, supô-las e não ser capaz de fazer nada para evitá-las é que é o busílis. Poderia ser covarde e, mais uma vez, apelar para os erros do passado, dizendo que eu não tinha culpa, era muito criança, e o que moldei em mim naqueles tempos onde podia me esculpir foi isso, e diante do destino, faço que posso.

Mas o destino talvez seja o caminho, só isso. O fim, os fins, são tudo questão de ponto de vista. Nada é absoluto para quem ainda vive. Tudo é precário, temporário e mesmo essas ausências, as perguntas não feitas, os conselhos não dados e tudo que não foi compartilhado e se calou no seio imorredouro do último suspiro, estejam aí só para testemunhar a falência de qualquer vã pretensão íntima de, enfim, dizer: sou feliz.

sábado, 27 de novembro de 2010

Saudade pesa

Seu Nino. Era um vizinho. Era um amigo. Era ele o Alfredo e eu o Totó desse outro Cinema Paradiso que é a minha vida, em que se pese que o fim, até aqui, de onde dá para se vislumbrar o que pode vir da fita que corre preguiçosa no projetor que esboça trepidantes imagens dos meus dias, não pareça tão alvissareiro quanto o experimentado pelo par no imorredouro filme italiano. E que doravamente me fará chorar copiosamente, porque a analogia com Nino, com meu pai, minha mãe e eu mesmo será infinita e saborosamente entristecedora. Cinema Paradiso é, talvez, a única coisa certa que os italianos fizeram depois da Maseratti - dizem que a massa é criação dos chineses.

Eu devia ter escrito antes sobre Seu Nino. Ou ainda, eu devia ter conservado mais de Seu Nino comigo, mas não pude. Nos primeiros anos da minha vida, o aborrecia. Lembro muito pouco do nosso convívio porque era muito pequeno e a memória não chega para dizer o que comi ontem, que dirá, absurdo, alcançar os primeiros três ou quatro anos de vida. Lembro apenas que nos vinte e tantos anos que sucederam a este tempo não faltaram recordações repetidas sempre pelos meus pais com gentileza, gratidão, saudade, esse timbre de apreço único que vem impresso na voz das boas memórias

Seu Nino era, ou imigrante, ou decendente direto, e pelo que se conta, muito cioso das tradições italianas. Era, acima de tudo, um amigo.

Morava naquele tempo numa casa, que ainda está de pé, grande e antiga, que se debruça sobre a rodovia BR-277, na cidade de Campo Largo. Era uma casa grande que apenas reconheço por fotos e de vagas e turvas lembranças de quando, muitos anos depois, já morando em outra cidade, passávamos em frente pela estrada e meu pai sempre comentava daqueles outros tempos e imaginava como estaria passando o Seu Nino?

Numa dessas vezes paramos e fomos procurar o vizinho querido, a quem meus pais devotavam sincera afeição e devoção. Diziam que era um homem carinhoso, gentil, simples e sempre disposto a ajudar, conversar. E que gostava muito de mim. Que não se furtava em dividir comigo seu tempo, paciência, histórias e atenção.

Dessa visita lembro um pouco. Do Seu Nino em si, da voz e de alguma conversa. Mas é tudo. As memórias deste outro tempo são, de resto, fugidias e me entristece o coração não ser capaz de lembrar mais coisas. Pensando no assunto agora, levando em consideração a importância que este cidadão pode ter tido na minha vida, na minha formação, e sabendo o quanto fora querido, considero quase uma ofensa, um achaque lembrar dele tão pouco a ponto de ser incapaz de bosquejar aqui um retrato mais fiel, digno.

Sinto-me em dívida com esse amigo, o primeiro da minha vida, e que repousa em algum lugar do meu passado, em algum recesso obscurecido pelo tempo do meu coração. É bem possível que ele não more mais lá, muito mais que tenha até morrido, porque na época da segunda visita ele me parecia já bastante velho. E eu tenho pouco a dizer que não seja que sinto saudades, que não me lembro dele e que gostaria que tudo fosse diferente.

Seu Nino, de quem, vejam o tamanho do acinte, não sei o nome verdadeiro, voltou-me à memória hoje. Voltou e trouxe consigo saborosas lembranças de um tempo que não volta mais, de uma vida que não é mais minha e de memórias que se esvanecem, que desbotam em mim. Memórias não de nossa vivência, mas de viagens com meu pai, histórias de minha mãe, fotos que não tenho mais, a casa, a cor roxa das paredes, os detalhes em branco, o campo ao fundo, a rodovia, a neblina, o frio, o bode em quem eu me agarrava para domir, sem medo, sem preocupação, a vida que foi, que era, e que nunca mais será.

O maior crime do tempo não é ser implacável, inexorável. O maior crime do tempo é que ele passa.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Rádio: Ennio Morricone - Fistful of Dollars

Win the fight, win the fight...

 

Só para constar

Charles Bukowski é mais um que realmente sabia das coisas: "Não sei quanto às outras pessoas, mas quando me abaixo para colocar os sapatos de manhã, penso, Deus Todo-Poderoso, o que mais agora?"

Pois é. O que mais agora?

domingo, 21 de novembro de 2010

O dia em que cresci

Eu tinha 9 para 10 anos e achava a catequese um tremendo disperdício de tempo. Perdia desenhos, treinos de Fórmula 1 e substanciais horas de sono, muito caras até hoje, e ainda lamentadas. Aliás, ainda acho catequese uma perda de tempo, a diferença é que naquele tempo pensar dessa maneira era um sacrilégio passível do fogo eterno, do fim das promessas de redenção eterna em algum paraíso onde não se precisasse acordar cedo e todos os desenhos estivessem disponíveis à quem aprouvesse assisti-los. Era no sábado. Provavelmente o cerne do desencanto da religião nas pessoas esteja, além dos rituais enfadonhos, no péssimo senso de tempo de padres, cardeais e congêneres, que escolheram para desempenhar seu ofício dias e horários para lá de ingratos. A catequese, enfim, consistia em lições nada inovadoras e bagatelas reducionistas para crianças. Ao que tudo indica, Deus só te recebe no paraíso dele caso você sacrifique uma porção de finais-de-semana durante a infância, acredite cegamente nas coisas que são ditas e nunca, sob hipótese alguma, questione.

Eu lembro pouco desse tempo sombrio. Onde a grande missão era engolir, sem mastigar, uma hóstia. Corpo de Cristo, diziam os fanáticos. Por ser o Corpo de Cristo diziam que não se podia deixar nada na boca, que seria como um desrespeito, um desperdício, um tipo de sacrilégio. É lógico que eu não tinha o repertório de hoje naquele tempo, caso o tivesse, poderia pensar: "mas não é mais sacrilégio comer o corpo de um cara morto?". De certa forma, a ideia de "engula isso sem mastigar" é uma excelente metáfora para todo o discurso religioso. Engula tudo, aceite todas os devaneios, mitos e lendas sem questionar. Não mastigue, não pense, não encha o saco e não esqueça de contribuir com o dízimo ou engrossar as fileiras dos defensores sagrados do Senhor.

O mês de setembro é ingrato na região sul do Paraná. Época de ventanias e de desarranjos de ordem metereológica dos quais não arrisco a menor noção, causam tempestades, chuvas fortes, granizo. Aconteceu naquele ano. Lembro que foi uma das grandes chuvas de granizo que presenciei - e tive a casa destelhada numa que veio quatro anos depois. Esta que resgato aqui, contudo, poupou nossa casa. Mesma sorte não tiveram alguns vizinhos, um posto de gasolina, onde o gelo pesou no amplo telhado de zinco e o fez vergar sob o peso. Lembro de danos menores à comunidade, como alguns carros danificados, um ou outro acontecido. Entre mortos e feridos, até onde iluminam os vagalumes da minha memória, sobreviveram todos.

Também foi vítima dos grãos de gelo a igreja onde eu frequentava os serviços, por pura imposição da catequista. Três faltas não justificadas à missa eram passíveis de reprovamento, e reprovar na catequese - feito que meu irmão conseguiu inadvertidamente - me parecia tristeza demais para uma vida só. Ia concenciosamente onde mandavam, confessava, ingeria o corpo de um deus morto há dois mil anos e não fazia perguntas.

Até que sucedeu a tempestade de granizo que escolheu a Igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro como vítima. E não foi só o gelo que avacalhou o templo, caíram raios que causaram alguns danos, embora o edifício fosse guarnecido com boa provisão de pára-raios.

O sinistro nos poupou da catequese até que reparos fossem feitos às expensas da comunidade. O que é um absurdo, considerando que igrejas não pagam qualquer imposto e sejam para lá de proverbiais os fundos de que dispõem as autoridades da Igreja. Nada disso me passou pela cabeça.

Contudo lembro de perguntar à catequista o por quê. Por que Deus tinha decidido avacalhar com sua morada? Não era, aliás, mais condizente com sua figura de defensor, pai, e em última análise, benfeitor de toda a humanidade que fizesse o cataclismo abater-se sobre alguém reconhecidamente mal? Ou talvez num descampado, onde os danos não fossem maiores que capim amassado? Talvez nos mares, onde a chuva de gelo não passaria de distração às populações de peixes, intrigadas com o fenômeno de pedregulhos que se desfazem em contato com a água? Ela respondeu com "são mistérios de Deus".

Não questionei à fundo, mas lembro que a resposta da catequista me deixou insatisfeito, porque quando eu desandava, meus pais exigiam explicações e eu precisava dar motivos. Assim como meu pai me explicava pacientemente porque não tínhamos carro e o quanto custava um, presumi que Deus deveria, dado o seu caráter paternal, obrigação semelhante na hipótese de desastres se abaterem sob aqueles que não podem muito para impedi-los. Considerei, portanto, absolutamente insatisfatórias as respostas da catequista e julguei que a falta de capacidade dela em sanar minhas dúvidas residia no fato de que fosse uma autoridade muito baixa em questões que alcançavam às excelsas altitudes do mistério da mente de Deus.

A conclusão de que precisava de alguém mais gabaritado no tema levou-me à presença do padre. Não lembro muito do cidadão, mas lembro da conversa. Perguntei a ele, em primeiro lugar, o que havia perguntado à catequista. A resposta veio mais ou menos nos mesmos termos, e não convenceu. Aí, ainda crente na sua capacidade de decifrar assuntos desse quilate, lhe perguntei: "Se a igreja é a casa de Deus, por que ela precisa de pára-raios? Qual é o medo?"

"A natureza", respondeu. "Mas Deus não é Deus da natureza também?", "Ele é Deus de tudo que existe!". Nada mais saiu dessa conversa, me despedi, e desde então, embora tenha continuado católico por inércia ao longo dos anos que vieram, nunca mais me senti realmente crente na religião e naquilo que pregava, dizia e recomendava. Como acontece com todo mundo, questionamentos e bom senso mataram a minha fé. 

A catequista disse que são mistérios de Deus e que ninguém poderia perscrutar a mente dele. Não cheguei a questionar a ideia, que hoje, é evidente, parece absurda. O padre jogou com a minha curiosidade infantil, julgando que ela se calaria e se acomodaria com qualquer palavra atirada ao ar, porque encontraria o mérito não na resposta em si, mas na autoridade.

Se não somos capazes de compreendê-lo, a despeito dos nossos mais abnegados esforços, por que nos damos ao trabalho? E se somos incapazes de entendê-lo, porque veio Deus nos prover de um livro justamente dedicado, dizem, para compreender os desígnios e metas do altíssimo para a humanidade?

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Pare de procurar padrões

Não exsite hora perfeita. Momento perfeito. O que existe é o agora. O mundo não é perfeito, nunca foi e jamais será. O mundo é uma rocha que gira no caos, e o caos não é perfeito. Não há justiça, regulamento cósmico, compensação pelas catástrofes, redenção garantida pelos sofrimentos e prêmios pela bondade desinteressada. O que acontece, acontece. O que se espera pode nunca vir, então mexe esse traseiro gordo, põe um sorriso nessa cara escorrida, e anda. Porque o tempo passa, amanhã é outro dia, hoje é passado, lembrança é matéria etérea e fugídia e nada nos garante que o que passou sequer existiu.

domingo, 14 de novembro de 2010

Não há mais 5*

Ver "José e Pilar" é uma mistura de sentimentos. Avassaladores, como a dor palpitante de quem reconhece em Saramago um mestre no ofício da escrita e, bem por isso, lamenta-se por sua já consumada morte. Entusiasmantes, por encontrar numa versão fragmentada de seu cotidiano algo próximo do que sempre se imaginou ao grande Saramago. Nostalgia por saber que o filme não frutificará outro Saramago e não haverá outro livro a se revisar, discutir, escrever, traduzir e imprimir do mestre esperando para ser lido e impresso, outra vez, mas dessa vez no espírito e nos recessos próximos que chegam ao coração dos que o leram, o amaram, o saudaram e hoje, mais uma vez, o choraram. Com efeito, deixei a sala de cinema esfrangalhado em emoções e saudades, e em clima de quem, mais uma vez, com todos os protestos de sincera afeição, se despede de um amigo querido.

Trailer de "José e Pilar"

 

É, em última instância, o encontro com sentimentos intensos, e até inveja, porque se a carne é fraca no gênero humano, o é muito mais a mim, que lhe invejo enormemente a felicidade que teve ao conhecer e dividir boa parte da sua vida com quem estimou tanto, a Pilar, que dá nome ao filme e consistência aos sonhos de José. "José e Pilar" é um filme sobre amor e é um registro de afeição no mais alto grau, amor mais forte que o tempo, que as pessoas e que a própria morte. Digno, pois, de toda a reverência e de toda a humanidade possível em: eu invejo.

De resto, lamento hoje e sempre, até que chegue minha vez de cessar de estar, o fato de nunca ter tido a ventura de conhecer Saramago de perto. De fato, vem o filme a reparar um pouco da frustração que comungo com tantos outros pelo mundo, mas o fato é que faz falta não poder aborrecê-lo com fotos, abraços, carinhos e pedidos.

 * Digo "Não há mais" por conta desta série de acabrunhados e intrestecidos posts. E que se sucedem em 1, 2, 3 e 4. (Clique nos números!)

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Haja

Bem poucas vezes na vida a expressão "fodido e mal pago" fez tanto sentido como hoje.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Modernizando as Escrituras

Os Evangelhos são antiguíssimos. Alguns textos são da Idade do Bronze. Daí o fato de serem tão rebuscados e fantosiosos. Para ajudar as ovelhinhas do senhor encontrar o rumo não mais às apalpadelas, prestarei, sazonalmente, uma espécie de ajuda: traduzirei os textos para o vernáculo contemporâneo. E o primeiro trecho é:

No original: 
Gênesis, 6, 13: "Então Deus disse a Noé: “Eis chegado o fim de toda a criatura diante de mim, pois eles encheram a terra de violência. Vou exterminá-los juntamente com a terra".

Nova versão:
Gênesis, 6, 13: "Deus disse a Noé: "O negócio é o seguinte: vocês avacalharam legal a parada e eu vou zoar o barraco. Vou tocar o horror e matar todo mundo".

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Hai-kai nº 39

O dia se esvai
eu sorrio sossegado
e faço um hai-kai.

Hai-kai nº 38

Cruza as pernas
acelera meu pulso
e o coração vira baderna.