quarta-feira, 21 de outubro de 2009

PQP

Puta que pariu. Escrevi "sede" com "c" no post anterior.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Eu fui escoteiro sim, e daí?

Bad trip de adolescência e, não mais que de repente, eis que estava eu, fardado como escoteiro, e logo depois, como chefe de tropa. Da tropa Leão. Eu era o fodão da tropa Leão que, no grupo de escoteiros da minha cidade, era a mais nova. Isso explica porque pegaram o novato mais rodado do momento, eu, para chefe daquela bagaça. A tropa Leão dos escoteiros está para a organização do escotismo, na minha cidade e naquele momento, assim como o exército mexicano está para a Segunda Guerra: foram lá, tomaram parte em momentos importantes, mas não fizeram porra nenhuma que quaisquer outros não tivessem feito. Lembrei disso numa conversa de MSN ontem, onde uma recém conhecida dizia que sua mãe não a deixara ser escoteira quando criança, e isso me fez lembrar que ninguém me impediu nessa sandice e pensei "rapaz, isso rende um bom post pro blogue". Ecce text.

O fato de ser a tropa mais nova significava que éramos uma constelação de novatos sem noção. Os caras não sabiam armar barracas, se orientar com a bússola, fazer os nós mirabolantes e que, por algum motivo, não esqueci até hoje e que impressionavam a minha primeira namorada. O sujeito que tomava conta da ata da tropa, onde se registrava todas as nossas atividades, escrevia mal, a letra era ilegível - e naquele tempo, 1996, computadores não eram um eletrodoméstico. E as atas eram um trabalho bastante ingrato, que eu odiava e que tinha sido minha função na tropa em que eu adentrara nos escoteiros, que tinha nome de árvore, Ipê, Pinheiro ou Bracatinga, eu não me lembro. Eu sabia um pouco mais que meus comandados, e isso me fazia o fodão da tropa, mas mesmo assim, quando tinha que competir com as outras três da cidade a gente fazia feio. Naquela época eu ainda me debatia contra aquilo que mais tarde vim a saber ser meu destino. Naquela época eu achava que se eu me esforçasse muito não estaria entre os losers. Foi muito depois desse período que me caiu a ficha. E como era difícil ter consciência disso naquele tempo, eu me frustrava. Sério, a gente era ruim. Doía de ver. Eu, como de costume, desde muito cedo estava sempre no lado que perde.

Lembro que entrei para os escoteiros por uma série de motivos. Eu achava legal, e para uma criança é mesmo: acampar, aprender a conviver em grupo, a disciplina que tem um quê de organização militar é interessante, porque está nas mãos de crianças. Você aprende coisas legais como usar bússolas, desenhar mapas, mensurar distâncias pelo tempo despendido na caminhada e de bater os olhos. Seguir e delegar ordens. Andar no meio da mata no escuro, sem luz nenhuma e sem cair. A pescar sem vara. A comer as coisas que existem nas matas, larvas nojentas inclusive. Armar barraca...

Além disso tudo, no caminho de casa, saindo do clube onde eu iniciava minha carreira de nadador, passava pelo parque onde os escoteiros tinham sede e se reuniam semanalmente aos sábados para suas atividades. Lembro que os via com as fardas, com as divisas costuradas e isso me chamava atenção. Resolvi, pois, que era hora de ser escoteiro. É bastante triste admitir isso, em face da largamente narrada preferência feminina em dados contextos por homens fardados, mas grande parte da minha decisão de ser escoteiro nasceu de admirar, aliás, admirar não, e sim, ver, ver é bem melhor que admirar, os garotos fardados praticando suas atividades.

Apesar de todo o glamur, minha carreira de escoteiro acabou sendo curta. Encheu o saco porque, longe de sermos um grupo grande, não tínhamos muitas atividades. E era entediante ter que se reunir para comemorar aniversários, cantar o hino nacional, hastear a bandeira - aprendi e me tornei um exímio dobrador de bandeira nacional, que, saibam, é uma arte difícil e que dispõe de todo um procedimento específico que não pode ser quebrado, sob pena de que o infrator... bem... se você embrulhar a bandeira toda e enfiar na cueca, limpar o rabo com ela, usar como saco para ir na feira, ou como trouxa para limpar o óleo que pinga do carter do seu fuscão 69 nada vai acontecer com você. Mas em teoria devia, porque o aterrorizante olhar do barrigudo que coordenava os escoteiros na minha cidade, o fodão de todos é chamado de líder sênior, o que equivale a um general-de-campo, ou a um marechal, dependendo da cultura militar seguida, consternava-me. E lembro que ainda naquela época eu pensava se ele tinha vida, mulher, filhos, se morava com os pais, ou tinha sido criado pela avó, se havia uma vida problemática por trás daquela proeminente e rotunda barriga, rematada pelos olhos castanhos fuzilantes que supervisionavam o cerimonial de hasteamento, dobragem da bandeira e execução do Hino Nacional, olhar que indicava que a menor dobrada errada, ou friso no pendão verde e amarelo, seria paga com a vida. Por isso eu era bom de dobrar bandeira. Morria de medo daquele gordo.

O escotismo me encheu o saco porque o dinamismo que eu esperava dos escoteiros eu não encontrei. E acabei largando mão. Acho que muito disso foi contribuição também do belo punhado de desastrados, incompetentes, inexperientes, nerds e imberbes sujeitos que compunham minha tropa e que cabia a mim coordenar - e cujos nomes eu não lembro de nenhum. É aquela coisa, ir para a guerra na juventude pode sempre ser dramático, mas sempre será uma oportunidade de fazer grandes coisas e amadurecer. Não há nada bonito numa guerra, mas na vida individual de quem vai parar nelas, sim. O companheirismo, o sacrifício por causas ignóbeis. Nunca é uma vida sem eventos e episódios marcantes. Agora, ir para a guerra com posto de comando entre seus iguais, sabendo que eles farão tudo errado e a culpa será sua é algo bastante desagradável.

E eu era uma criança. Desistir de coisas é uma especialidade de criança, embora tenha gente que nunca abandone essa competência e a leve às raias de arte na idade adulta. Quando nascemos, e tenho certeza que já escrevi isso aqui neste blogue, nascemos plenos de potencial. Na maternidade, todos ali são gênios, artistas, prêmios Nobel, grandes atletas. Mas isso não porque não sabemos o que seremos quando maiores, mas sim porque, e isso é inegável, somos criaturas pequenas, que choram, gritam e defecam, mas que a despeito disso, ou justamente por isso, somos todos só potencial. Conforme vamos crescendo, vamos desistindo de coisas e nos agarramos com o que sobra. Eu desisti de ser piloto de Fórmula 1, da natação, de ser padre, do escotismo, da engenharia, da minha banda, por exemplo. E extra-oficialmente, vai saber, talvez de tocar saxofone, de ser um astronauta, de descobrir a cura do câncer, de inventar o teletransporte ou a máquina do tempo. E há pela frente uma infinidade de coisas para desistir, como um grande amor, amizades, escolhas profissionais, ter ou não filhos, casar ou não, etc. Conclusão que abre espaço aqui para uma tentativa de prosa-poética-filosófica: viver é desistir de coisas.

Desisti de ser escoteiro porque queria aventuras. Não me deram aventuras. Me deram responsabilidades que, e hoje sou capaz de analisar isso, 13 anos depois, foram maiores que meus ombros mirrados e esguios, e este foi o cerne da minha deserção. Eu não queria mandar em ninguém, eu queria acampar, conhecer coisas novas, me divertir, ter um legítimo canivete suíço e saber usar cada uma de suas mil e uma utilidades. Uma pena, porque no fundo eu gostava de ser escoteiro. Era divertido, e eu não me envergonhava por dizer que era um. Há todo um preconceito contra o escotismo e a noção de que ele faz lavagem cerebral nas crianças, que ele passa rudimentos de disciplina militar para quem ainda não desistiu o suficiente na vida para precisar se enquadrar numa hierarquia. Nada disso. Ser escoteiro é legal. A única coisa que me dava ataques galopantes de vergonha pública era quando em desfiles de datas como 7 de setembro, ou em eventos públicos, íamos lá fardados e, alinhados, executávamos a Palma Escoteira, que é uma salva de palmas ritmada e serve como saudação. Bizarramente, o ritmo era ensinado com um "abacaxi-xi-xi, abacaxi, abacaxi, abaca-xi-xi-xi". Ou coisa parecida. E eu achava ridículo a não mais poder. Me dava engulho. Tinha a sensação de que todo mundo olhava para a gente sorrindo e batendo palmas com ritmo e diziam: "porra, mas que ridículo".

Se um dia tiver filhos e eles quiserem ser escoteiros, vou gostar que sejam. Espero de coração que até lá o escotismo esteja entre nós, decepcionando crianças, servindo de escola a bons princípios e pleno na sua cruzada rumo ao lugar nenhum. Sim, porque ele não leva a nada, mais ou menos como Greenpeace, os vegetarianos ou os políticos. Embora conheça a história do escotismo, isso eu assumo, nunca entendi muito bem pra que serve. Mas que é legal, é. Ou era.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Ah, a gente de batina

É claro que a Igreja subiria nas tamancas. O livro de Saramago, "Caim", inevitávelmente nos levaria a isso. Que absurdo, diz a gente de batina, é um sujeito chamar atenção para o fato de que a Bíblia, que molda tradições, procedimentos e grande parte do que chamamos hoje de comportamento padrão das pessoas, está carregada de absurdos, mortes, crueldade e um Deus insuportávelmente humano, demasiado humano. É ridículo: os religiosos basicamente culpam Saramago pelo fato de que Caim, que matou Abel, o fez em virtude de um deus de caráter dúbio.

O melhor de tudo, depois do festival de truculência verbal produzido às largas pelo alto clero português, foi a resposta de Saramago, que diz que não está lá muito preocupado com o que seus leitores cristãos pensarão do seu novo romance, "Caim", e de si, Saramago, por criticar a religião que seguem. "Cristãos não leem a Bíblia", diz o sábio lusitano.

E... ele tem razão. É a verdade, não leem, não leram e não lerão, disso, olhem o contrasenso, dou testemunho, conforme recomendam os distintos Evangelhos. Entre os cristãos, quem lê a Bíblia é exceção, não regra e devia ser o inverso. Os cristãos normalmente não leem o livro que molda sua maneira de ver o mundo. Contentam-se com enxertos, com a interpretação romantizada e desviada de terceiros, com os trechos convenientemente selecionados nas missas e em outros sacramentos.

Longe de mim querer polemizar essas bagatelas. Gente besta e rasteira sempre houve e sempre haverá. Na Igreja, na academia, na literatura, na esquina. E a gente não pode fazer nada em relação a isso, a não ser lamentar enormemente as ideias curtas dos religiosos e rematar o post reforçando aquilo que Saramago e tanta gente lúcida, sem ser atéia, já sabe: como diz uma frase feita retirada da Bíblia, que eu que não sou exemplo de cristão li, e que nos lembra que: "os cães ladram, e a caravana passa".

Rádio: Elbow - Station Approach

Na verdade eu queria postar "Not a Job" do Elbow, mas o YouTube não permite embutir os vídeos desta canção, de modo que optei por esta outra que, a bem da verdade, não fica devendo nada para a outra.

Enjoy:


Amores e saudades

Eu dormia meus sonos mais intranquilos
colhia nas sístoles dos meus sonhos as diástoles das minhas realidades.
Sonhos de papel, onde eu escrevia minhas alegrias com fel.
Da indizível perfeição trago comigo metade de um coração,
de onde tiro que te levaria hoje mesmo, sem medo
e sem demora.
Longe, ao infinito onde não existe mais amor,
nem pessoas,
nem memórias.
E lá, no nada pleno das nossas veredas, faríamos brotar verdades.
Amores, saudades.

Quem salvará nossos filhos?

Você viu o menino de dois anos com o QI maior que o do Einstein?

Vi. Matem, detenham-no enquanto é tempo.

domingo, 18 de outubro de 2009

Ainda sem rima

Pensei num haikai
mas não encontrei um
escrevi versos aleatórios
não fechei a métrica,
desisti do haikai,
caí nos versos
que são uma
escadinha.

Arrebatando mentes e corações

Ontem eu andei 7,8 quilômetros, a levar-se fé nas artes do Google Earth em mensurar distâncias. Fui andar pelo centro antigo, terminei no Mercado Municipal para comer o melhor sanduíche de mortadela de todos os tempos e que custou-me oito dinheiros. Mas bem gastos. O mercadão é um lugar que realmente merece a caminhada.

Além do pão, comi no Mercadão algo que não ingeria há 16 anos. Framboesa. Na verdade essa fora a primeira, e até ontem única, vez que eu comera framboesa. Lembro do episódio: tínhamos, meu pai e eu, ido a São Luís do Purunã, onde um tio possui um sítio. Chegamos muito cedo à casa da propriedade e não tinha ninguém lá. Para distrair o pandulho, dar o que fazer ao estômago e calar suas inclemências, atacamos um modesto canteiro de framboesas. A dar-se fé nas minhas inatacáveis memórias, comíamos as frutas com tamanha devoção que me lembro de engoli-las com as narinas. E desde então nunca mais tinha comido framboesa.

Caminhando andei por ruas nunca dantes caminhadas. Passei pela esquina da Ipiranga com a São João, cantada na canção "Sampa", de Caetano Veloso e que em função desses versos ficou conhecida como a "esquina da MPB". Tentei tirar foto das placas que marcam o encontro das duas avenidas, mas meu celular me avacalhou as fotografias. Fica para próxima. Como era de se esperar, é ali perto, acabei indo parar na Santa Ifigênia, cotei preços de um hd novo que ando precisando. Vi um cooler para placa de vídeo também. E acompanhava o aparelho uma vendedora que não me sai do pensamento. E que cooler, meus amigos, e que cooler!

Gosto de andar pelo centro velho de São Paulo. Me surpreendo fácil com fachadas antigas, arquitetura eclética ou art-decó. Me lamento por prédios mal cuidados e espaços altamente degradados da região. Eu gosto da sensação de respirar história, e se tiverem com sorte e eu com paciência, ou vice-versa, tecerei ainda algumas linhas sobre minha visão de edifícios clássicos, como o Edifício Martinelli.

Enfim, e ia eu desandando da caminhada matinal, quando preciso me distrair e pensar saio caminhando sem rumo pela pauliceia - não há limites para a minha capacidade de me apoquentar - quando topei com um ônibus. Não nego. Bati os olhos e me assustei, achei que tinha virado testemunha de uma fatalidade.



Isso sim é publicidade de verdade. Pra ficar melhor eu colocaria um "Caralho, atravesse na faixa, porra".

Aham, ele é o fodão

Daí hoje, assim pela manhã, eu conversava com alguém no MSN. Alguém de Deus, que piamente acredita que a instituição Igreja é saudável e imaculada. Enfim. Nenhuma ideia que é absoluta me apraz. Tudo é relativo, Igreja, religiosos, obscurantistas, inquisidores, e pedófilos, inclusive.

Aí, lá pelas tantas, eu disse qualquer coisa como "ser absurdo supor que um homem seja infalível e que sua liderança sobre os fiéis e sobre os rumos da Igreja não possam ser contestadas, que se forem o contestador é defenestrado, enquanto o bispo que faz apologia ao nazismo e nega o Holocausto é perdoado...".

A pessoa diz: "mas o papa é a pessoa mais próxima de Deus que existe!".

Hum, e quem disse isso?

O papa!

Pois é.

Dureza? tome Dreher

É impressionante. Por princípios e uma série de bons motivos, normalmente, não torço para esportistas brasileiros. Aí quando eu torço o cara é tão zoado quanto eu, e perde.

O bom nisso é que me sinto representado. Há um pouco de mim num Rubens Barrichello.

sábado, 17 de outubro de 2009

Rádio: Wander Wildner - Eu não consigo ser alegre o tempo inteiro

Está provado que, sim, Wander Wildner é um sujeito que sabe das coisas.


Volta

E eu, quem diria, estou com saudades do Paraná. Não é propriamente um desafio sentir saudades de casa num lugar como São Paulo.

Preparando, pois, o regresso.

Discutindo com o orkut

"Sorte de hoje: o pessimismo nunca venceu nenhuma batalha".

Claro que não. O pessimismo nunca disputou uma, sabia que ia perder.

O dia em que cresci

Nada destruia mais uma boa reputação do que uma lista de 10 mais. Na verdade, poucos na minha escola sobreviviam a uma listagem dessas. Era sob todos os aspectos aterrorizante a ideia de que todas as garotas que você tentava impressionar exaustivamente poderiam se reunir e, juntas, construírem um rol de características que variavam do mais bonito ao mais feio, do mais charmoso ao mais chato, do mais inteligente ao mais burro, tudo isso, numa listagem que correria os corredores da escola, que se estamparia nas faces dos rankeados (ranqueados?), destruindo reputações, imagens, estereótipos. E construindo outras reputações, outras imagens, outros estereótipos.

O que é flagrante na incapacidade individual e coletiva que temos de nos confrontar com mudanças que nos são impostas. Sobretudo com mundanças naquilo que dizem/pensam de você. Não há nada mais preocupante, sobretudo na lógica de tráfico de influências na qual se fundamenta todo o funcionamento da sociedade escolar, do que descobrir que o que pensam de você não condiz em nada com aquilo que você é. Ou quer que os outros achem que é, o que vem a dar na mesma. Durante boa parte da juventude e princípio da vida adulta não somos pessoas. Somos rótulos. Andamos em bando para que sejamos rotulados. Na verdade, a imaturidade das nossas inconstâncias e pequenas covardias é ridícula. O grande problema é que nessa fase da vida você é aquilo que os outros dizem que é. Ou, corrigindo, o problema é que você acredita que é aquilo que os outros escolhem, decidem que você é.

Mas o fato é que somos todos idiotas, uns mais outros menos, por apoquentar-se tanto com o que pensam e dizem de nós. Só que hoje, depois de crescido, é fácil dizer isso. Difícil era encarar o limiar da loucura nos dias que antecediam a divulgação da tal lista. Era um processo de balão de ensaio extremamente elaborado: poucas semanas antes vazavam deliberadamente o boato que determinada facção elaboraria seu ranking anual. A partir daí todos nós que éramos rótulos ficávamos vazios em busca de informações, saber quais eram as tendências, as cotações. A quem caberia, enfim, o posto de O Indigitado.

Eu não tenho uma lembrança muito firme de todos os rankings que encarei - lembro, isso sim, da tensão envolvida na época em que eles surgiam. O que denota o que todos que me leem já mais ou menos sabem: eu não fazia muito sucesso. Lembro, contudo, esparsamente de alguns. Num deles me classificaram como "o mais engraçado", epíteto este que nunca entendi em virtude do fato de que minhas gracinhas estavam na época muito a frente da vã filosofia do colegial, de modo que poucas eram as ocasiões que arrancava risos. Considerei, não nego, durante um bom tempo que o "engraçado" se referisse, então, não a rir com ele, mas a rir dele. Desnecessário é dizer que a hipótese foi convenientemente varrida para debaixo do tapete da sala onde guardo minhas apoteoses invertidas: as mais espetaculares derrotas e fracassos de Tertuliano.

Mas, via de regra, e mantendo aqui a lisura, integridade e idoneidade que sempre marcam os meus relatos autobiográficos, é que eu conquistava o título de "o mais inteligente". Na época, feio, tímido e esdrúxulo me contentava enormemente com a graça concedida. É aquela coisa de se convencer que, afinal, nem todos podem ser escolhidos como o mais bonito, então é melhor ser o inteligente - sem ser cdf, que era, naqueles tempos um tipo de nerd, só que com outro nome - do que ser o feio. E eu nunca fui o feio, mas isso classifico que não foi bondade ou necessariamente a profusão de corações abalados pelos meus predicados visuais. Foi, tenho certeza, por minoria de votos que nunca ganhei, indisputávelmente, a pecha de o mais feio.

Recordo também da maneira madura, crescida, civilizada com que nós, os indigitados do ranking feminino, reagíamos. Invariavelmente nos reuníamos, e dotados de todo senso crítico, constituíamos nosso escrutínio e nossos rankings. Normalmente um que rebatia o feminino nas mesmas categorias e outro com preocupações todas nossas, a saber: pernas mais torneadas, nádegas mais polpudas, seios mais bonitos (categoria esta que detinha, na época em que brotam nas meninas os seios, o distinto e respeitoso nome de "garota peitinho", mantivemos a tradição, por mais que no ensino médio, em face a generosa proporção em que alguns seios cresceram, não fizesse mais sentido o "peitinho"), corpo mais belo no conjunto da obra, a dupla explosiva "feia-de-rosto-bonita-de-corpo e feia-de-corpo-e-bonita-de-rosto". Existiam mais categorias de análogo jaez que em honra a dignidade jornalística e a minha pinta de bom moço tensiono manter ocultas.

Mas a coisa realmente bizarra desse complexo de pavão, projetar uma coisa que não se é apenas para impressionar os outros, preferencialmente as garotas, é que eu não lembro muito bem das listas. Nem de quem colhia nela os melhores rótulos. Eu não sou capaz de mencionar cinco garotas que eu tentava impressionar para, ano após ano, galgar postos mais dignos na sociedade do colégio. Assim como não faço a menor ideia de quem tenha sido escolhida o melhor par de seios no triênio que compôs meu ensino médio. Ou em quem votei para melhores pernas. Eu lembro turvamente da mais gostosa do colégio e algumas burrices que fiz em virtude disso e que renderão outros "O dia em que cresci", mas essa lembrança eu tenho pelas burrices e pela gostosa, não pelos rankings. Eu esqueci de tudo. Das listas, das meninas e dos caras que eu invejava.

E só hoje, ainda tímido, feio e esdrúxulo me dou conta de como perdi tempo tentando impressionar aquelas vadias, que sob condições normais de temperatura e pressão jamais olhariam pra minha cara, quiçá dariam. De como me senti pequeno ao não ser o fodão da escola e não poder fazer nada sobre isso. De quanto eu poderia ter aproveitado mais a vida naqueles tempos se não me preocupasse com essas coisas. Talvez a garota mal cotada que eu não prestava atenção fosse uma pessoa incrível. Tudo são escolhas.

E sabe o que é mais ridículo? Diariamente tropeço com gente que ainda faz o mesmo. Com gente que se incomoda verdadeiramente com o que a miopia coletiva enxerga. E o pior de tudo, eu também, vez ou outra, tento impressionar alguém.

Só que eu tenho em mim todas as contradições do mundo. E ninguém me desarma: eu tenho sempre a desculpa de ser cínico. E, venho observando ao longo dos anos, o cinismo, longe de ser defeito, ultimamente é virtude.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Ah, nostagia que me tens de regresso

O homem é um ser eminentemente nostálgico. Pegue aí o exemplo meu que, ao passar por determinada estação de metrô na manhã de hoje, descobri por entre a multidão uma silhueta já conhecida, ou assim eu julguei, e desandei a nostalgiar, se me permitem o neologismo, em pleno desassossego, as intensas e inoxidáveis lembranças que já somam longos seis meses.

A nostalgia é importante, porra.

Minhas novas bandas

Uma das passagens mais non sense e desgraçadas da minha vida, sem dúvida, foi a história da minha banda. Pois é. No tempo em que eu era adolescente carente de rótulos, cheio de ídolos. Quando eu morava, e até certo ponto, vivia, no interior do Paraná. Éramos especialistas em causar engulhos e levamos a inépcia, falta de talendo, pinto-murchice e burrice de adolescentes a um novo patamar. Além de feios, burros e péssimos músicos. Nunca estudei a fundo a questão, mas acho que meu período nerd anti-social foi uma reação traumática aos eventos que cercaram o nascimento, o auge e a dissolução dos Parabrisas do Fracasso. Você nunca é a mesma pessoa depois de causar silêncio constrangedor em umas mil pessoas. E da sua escola. E da sua idade.

Tudo isso para dizer que todo garoto sonha em ser como os Beatles e os Rolling Stones. É mais ou menos assim, se você é jovem, é garoto e não teve uma banda, você ainda terá. Mesmo que não seja uma de verdade, você provavelmete ouvirá a sua banda preferida e vai se imaginar no palco, arrasando e conquistando corações. Todo garoto merece o estrelato. É bem verdade que se tivesse Guitar Hero ou Rock Band naqueles doidos e doídos tempos eu não teria me lançado no vortex de absurdos, traumas e vergonhas que marcou minha trajetória nos palcos. Embora eu tenha tido em algum porre reminiscente a ideia de criar, com meus amigos, uma nova banda: "Três Homens e um Valcir", mas eles não embarcaram na onda e, ao contrário do que dizia John Lennon, o sonhos morreu, e morreu por aqui.

De certa forma eu pude, recentemente, matar um pouco da vontade de ter a minha banda. Eu conheço, a ponto de beber com os caras, uma banda jovem, que sabe tocar, tem letras legais e curte Belchior, rockabilly e Elvis Presley. Cara, eu morei com os caras por umas semanas, eu morei com uma banda! É o Nevilton (no site deles você pode curtir um pouco do som), nome de remédio e de vocalista. Eu não sou da banda, por sorte deles, mas sinto como se eles fosse um pouco minha banda. É um pouco do Parabrisas do Fracasso, fazendo um pouco de sucesso.

E nada mais justo que recomendar uma boa canção dos distintos:


Primeiro passo de uma antologia jamais compilada

E eu faria um verso.
Um poema,
dois livros,
todas as antologias,
Reescreveria os canônes
levaria a arte escrita à beleza extrema
criaria uma nova filologia,
Tudo, tudo, tudo outra vez,
e mais outra
só para me lembrar
ainda que por um instante:
o que era mesmo que eu ia escrever aqui?

Moby que me perdoe

Dos meus  sete leitores, aqueles que são mais contumazes, devem ter percebido que mudei o banner do blogue. A imagem é inspirada nisso aqui, a capa do novo álbum do Moby, "Wait for Me", que, afiança assim a internet, foi desenhada de punho pelo próprio músico.

De qualquer forma, fiz variações para o desenho:



Anoitece no desenho:



E ainda temos o banner antigo:



É bom variar um pouco, certo?

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Jogos são legais

Normalmente as pessoas tendem a não enxergar, ou a ver com preconceitos, a indústria dos games. Ninguém tende a levar muito a sério algo que nasceu como brinquedo e que foi crescendo ao longo das décadas e hoje, além de ser uma indústria milionária mais lucrativa que o cinema, tem enveredado no ramo da criação de produtos e desenvolvimento de conteúdo cada vez mais complexos e bem elaborados.

Hoje jogos simulam mais do que corridas de carro, estratégia em jogos onde você brinca de deus, morte e destruição em games de tiro. Vai muito além. Há, por exemplo, muito mais crítica social e inteligência no último GTA do que na grande parte dos nossos jornais.

Não é minha intenção, entretanto, fazer uma profissão de fé no sentido do real valor inexplorado dos jogos eletrônicos, que ainda perturbam a ideia de educadores e psicólogos retrógrados, que tendem a explicar o vazio existêncial de um adolescente violento e problemático por meio de influência dos jogos.

É aquela velha história: se a minha geração tivesse sido influenciada por jogos como Pac-man, estaríamos todos correndo em salas escuras, ouvindo músicas repetitivas e engolindo pílulas. É, eu sei, há quem faça exatamente isso em raves, dirá alguém. Aí eu contradigo, porque eu joguei também Super Mario e não me lembro de sair por aí pulando em cima de tartarugas, engolindo cogumelos e desafiando a gravidades em abismos medonhos.

Jogos não são mais negativos que, por exemplo, assistir o Pânico. Ou uma novela.

E tudo isso porque lia eu sobre novidades em matéria de games. Preciso renovar o estoque, logo lançam o Modern Warfare 2, eu mal comecei o Batman e o Need for Speed Shift tem tudo para me tomar tempo demais. Aí encontrei esse vídeo abaixo, da Scientific American, que explica a evolução da aplicação dos conceitos físicos nos jogos:


terça-feira, 13 de outubro de 2009

Rádio: Joan Baez - Forever Young

Ok, os puritanos dirão que a canção é de Bob Dylan e que é praticamente um sacrilégio mencionar qualquer música dele na voz de outra pessoa. Direi eu, cético impedernido, que não é bem assim. Não há nada que essa mulher, Joan, gravou que tenha ficado ruim. A voz dela é suave como aquele olhar doce que colhemos, quando temos sorte, no despertar da mulher amada.

Eu casaria com Joan Baez.


Ouvir canções assim fazem-me bem à alma. Me pacificam. E desejo, deste lado de cá, de todo o coração, o mesmo a quem me lê por aí, do lado de lá.

Apaziguado, vou agora dormir pensando na sensação doce que a voz de Joan me envoca. O diapasão da voz dela me soa na alma.